Certo, ela conseguia fazer isso. Não seria tão difícil assim... não tanto quanto esconder quem era de sua irmã e de todo mundo que conhecia.
Ela respirou fundo. Bom, qual era o máximo que Astoria poderia fazer? Contar pra escola inteira?! O que ela ganharia com isso? Todo mundo conhecia sua família e sabia de Daphne, a garota não atiraria no próprio pé, não iria querer ser chamada de hipócrita. O que mais? Hm, ela poderia se afastar de Padma. Alegar que ela só se aproximara para tirar proveito... que tinha alguma atração lésbica fortíssima e que iria pular em cima dela a qualquer momento.
Padma olhou para a menina que se aproximava, o andar confiante nos saltos – a proibição escolar não surtia nenhum efeito em Astoria – a maquiagem bem-feita e os cabelos loiros desfilando ao vento. Os olhos azuis parecendo brilhar um pouco mais enquanto a garota ia até ela... Oookay... talvez houvesse uma pequena atração. Mas isso não fazia dela uma maníaca ou nada disso. Além do mais, Padma estava apaixonada por outra loira.
Está realmente na hora de parar de pensar, Patil.
- Tori! – Cumprimentou a menina que lhe dava um leve beijo na bochecha.
- Pad... peguei uns sanduíches pra gente. – A garota mostrou o pacote que segurava. – Gostaria de almoçar hoje longe do refeitório...
- Ahn... tudo bem. Ok. – Ela fechou os olhos por um instante, não fazendo menção de se mover. Você consegue, vamos! – Eu sou gay. – Ela falou firme e abriu os olhos para mirar para a outra.
Astoria ergueu uma sobrancelha.
- Estava pensando naqueles bancos perto do dormitório feminino do segundo ano. Eles plantaram crisântemos no jardim de lá há mais de um mês, e eu ainda não fui ver se cresceram o suficiente... sabe como é, o inverno está aí... – A loira continuou o assunto, como se falar do lugar onde almoçariam e do clima fosse muito mais importante do que a recente declaração da indiana.
- Perdão? – Padma falou, perdida. De todas as reações, essa devia ser uma das únicas que não tinham passado por sua cabeça.
Astoria suspirou, mas sorriu em seguida.
- Eu já sabia, ok? – Ela disse com voz suave e colocou a mão no ombro da amiga. – Eu já vi você olhando a Brown, e, depois daquele dia que nós presenciamos a briga dela com o Weasley, eu somei dois mais dois. Não é um problema pra mim, se é isso que está te preocupando. E você devia realmente relaxar, essa tensão toda não deve ser boa pra sua postura. – Então ela apertou um ponto especialmente dolorido no ombro de Padma.
- Nos bancos perto do dormitório feminino do segundo ano? – Ela perguntou, não pensando em outra resposta. Sua ansiedade se esvaindo, dando lugar a uma grande onda de alívio.
O sorriso de Astoria aumentou quando elas começaram a caminhar, e a loira avançou para segurar sua mão.
- Por que você não quis comer no refeitório hoje? – Ela perguntou, desfazendo-se do plástico que cobria seu sanduíche e dando uma boa mordida.
- Você já ficou com alguma garota? – Astoria perguntou, ignorando sua pergunta.
- Anh... – Padma tinha certeza de que seu rosto estava pegando fogo agora. – Não. Você é a primeira pessoa que sabe de mim, na verdade.
A loira olhou-a com olhos indecifráveis.
- Mas eu não preciso beijar nenhuma garota para saber que eu gosto delas, ok? Quer dizer, eu já fiquei com garotos. Deus, eu já transei com eles... e olha, eu respeito os gostos de cada um, mas, cara, é uma bosta. – A indiana continuou, sentindo que precisava se defender.
Astoria soltou uma leve risada e segurou seu antebraço.
- Você não precisa explicar. Sério. – Acrescentou quando a indiana lhe lançou um olhar incrédulo. – Eu entendo. Só perguntei por curiosidade.
Padma soltou o ar aliviada. Estava ficando cada vez mais feliz por ter decidido falar sobre isso com a loira. Alguém que a aceitava sem nenhum julgamento.
- Obrigada.
- Ah, para com isso. Você não precisa agradecer por nada, de verdade. O que eu fiz demais? Não atirei trechos bíblicos pra cima de você?! Não te olhei com nojo?! Isso não deveria ser algo que te faz ficar desconfortável. Devia ser algo de que você nem precisasse se sentir na obrigação de falar, como se fosse uma grande confissão. As pessoas deviam parar de presumir que o mundo é heterossexual e que, logo, quem não é precisa se armar de coragem para “sair do armário”. Seria muito mais fácil se não fizessem suposição nenhuma e encarassem a sexualidade como algo natural e fluido e, portanto, sem a necessidade de rótulos. Sexualidade não define caráter. Ela é só uma parte de você, assim como o fato de você gostar de amarelo e odiar comida indiana.
Padma olhou para a loira com a boca entreaberta.
- Desculpe, eu fiz um discurso, né? – Astoria corou e olhou para o próprio colo. – Não costumo fazer discursos... no caso de você estar se perguntando.
- Sim, você fez um discurso. – Ela sorriu. – Mas eu gostei. Acho que precisava ouvir algo assim... obrigada. Não, me deixe agradecer! – Padma acrescentou quando a outra abriu a boca para retrucar. – Obrigada por entender, pelas suas palavras e por tratar disso não como se fosse uma “grande confissão”, mas apenas mais uma característica minha... como o fato de eu odiar comida indiana, mesmo sendo indiana, ou o fato da minha cor preferida ser amarelo.
- E eu quis almoçar fora do refeitório porque estou evitando alguém. – Astoria retomou a pergunta anterior de Padma depois de um instante de silêncio e sorrisos.
- Sério? Quem? Draco Malfoy? Eu realmente me canso só de ver os olhares dele pra você. É como se ele fosse um psicopata ou sei lá.
Astoria soltou uma leve risada.
- Ele provavelmente é. Mas não, não é ele que eu estou evitando. – Então ela franziu a testa. – Eu sei que não deveria estar fazendo isso... quer dizer, não é a forma mais madura de lidar com a situação. Eu poderia simplesmente erguer a cabeça e agir indiferente... só que não consigo. É difícil demais, dói demais. Quando disse que ia lutar, deveria saber que sou muito fraca pra isso. Não sei por que estou falando isso, você não faz ideia do que é e eu, de novo, sou muito fra-
- Hey, para aí. – Padma disse. – Eu posso não ter entendido absolutamente nada do que você disse... mas, Tori, você não é fraca. O pouco tempo que eu te conheço é suficiente pra provar isso, ok? Se você fosse fraca não aguentaria metade do peso que tanto sua família quanto a maioria das pessoas põe no seu ombro. Mesmo os que não te conhecem. – A indiana colocou a mecha de cabelo que caíia nos olhos da loira por trás da orelha. – Você é tão forte que, até mesmo nesse seu salto desumanamente fino, consegue sustentar esse peso. – Brincou.
Astoria abriu um grande sorriso.
- Mas agora eu fiquei curiosa. Quem diabos você está ignoran-
Então a loira interrompeu-a com um beijo. Não um daqueles beijaços. Ele não pareceria tão certo quanto o simples encostar de lábios, encaixando-se e sugando-se levemente.
Quando a outra se afastou, Padma estava perplexa pelo que poderia ser a milésima vez no dia.
- Agora você já pode dizer que beijou uma menina. – Astoria disse simplesmente.
O assunto anterior completamente esquecido, os pensamentos agora passavam furiosos pela cabeça da indiana.
- Por que você... isso foi... não, não foi... você não...
- Você está sendo incoerente. – A loira apontou. – Eu te beijei porque o momento pareceu especial e o que você disse foi uma das coisas mais sensíveis que já me disseram. E... desculpe, foi um impulso. Quer dizer, foi só um beijo, eu sei que você gosta de outra pesso-
Padma beijou-a novamente. Dessa vez, um daqueles beijos de verdade, em que os lábios se roçavam e se partiam, dando espaço para que as línguas se entrelaçassem...
- Esses crisântemos cresceram além do esperado. Provavelmente o fertilizante que usaram tem uma pitada de pó de bufador. – Luna disse e assistiu às duas meninas se afastarem antes de mirá-la com olhos absolutamente confusos.
- Lovegood, o que você... – Astoria começou com o rosto tingido de vermelho, mas, certamente, em condições melhores do que Padma. A menina estava aparentemente muito assustada para conseguir formular palavras.
- Esqueci meu livro de química no dormitório... história engraçada, na verdade... pensei que a tinta da capa, quando exposta ao sol poderia... – Luna continuou discorrendo sobre a capa do livro até se dar conta da expressão no rosto das outras duas garotas. – Mas, de qualquer forma, achei que gostariam de saber que Parvati está vindo aí. – Ela avisou, vendo como as meninas se afastavam ainda mais, um instante antes da outra indiana realmente aparecer.
Luna deu uma última olhada no canteiro antes de ir até o refeitório. Apesar de não gostar muito do lugar – a energia dos alunos certamente interferia negativamente no sabor da comida, eles só reclamavam, em vez de aproveitar a refeição – e já ter almoçado, queria ver Ro... Ginny.
Não demorou muito para identificar os amigos. Puxou uma cadeira e sentou do lado da ruiva, claramente interrompendo uma briga de casal.
- Vocês estão falando muito alto, posso indicar uma pastilha que ajuda no controle de voz? Meu pai me contou que minha mãe sempre tomava uma quando eles brigavam. De acordo com ele, mamãe não tinha muita noção da potência de suas cordas vocais. – A loira disse.
- Luna e seu timing perfeito. – Hermione falou, o cotovelo apoiado na mesa com a mão na bochecha. Aparentemente estava observando Ginny e Harry discutirem. – Eu já tinha cansado de tentar interferir... mas seu método é definitivamente melhor do que os que eu tentei.
A ruiva bufou e o irmão soltou uma grande risada.
- Eu não tenho culpa se Harry gosta de fazer as coisas sem me consultar primeiro!
- É. É tudo culpa minha mesmo! Minha culpa por estar namorando uma estranha! – O garoto respondeu em um surto de raiva que seus amigos desconheciam. Claro que Harry não era exatamente uma pessoa controlada, mas, quando se tratava da namorada, ele quase nunca perdia a paciência. Rony parou de rir na mesma hora. – E quer saber, estou fora. – O moreno se ergueu antes de sair irritado.
Rony levantou-se para seguir o amigo, mas Luna segurou-o pelo braço antes que alguém pudesse fazer alguma outra coisa.
- Talvez seja melhor dar um tempo a ele. Quando Harry fica chateado, ele gosta de ficar sozinho. A não ser que ele queria explodir pra cima de outra pessoa, imagino... e eu não trouxe uma pastilha comigo. – A garota falou, o tom de voz pensativo. Então ela olhou para sua mão e soltou o braço do ruivo como se tivesse tomado um choque.
Rony e Hermione olharam para ela, surpresos com sua percepção, e Ginny só levantou a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos e Luna sabia que a amiga estava prestes a chorar.
- Ela tem razão. – A ruiva respondeu antes de sair correndo da mesa também.
Os três se entreolharam antes de Rony levantar.
- Bom, eu... vou dar uma andada por aí. – Então ele resmungou alguma coisa com “Lilá”.
Luna ficou observando o garoto se afastar, uma sensação de calor que ela não conseguia explicar tomando conta do seu rosto. Bom, ela obviamente tinha noção de que isso se relacionava com seus sentimentos pelo ruivo, mas não sabia que a atração era tão forte a ponto de causar esse tipo de reação no seu corpo... Talvez devesse ler um pouco mais sobre o assunto, ou perguntar para o seu pai...
- Erm...
A loira voltou a atenção para a única pessoa que sobrou na mesa.
- Você poderia falar pra ele... – Hermione sugeriu, movendo os olhos para a porta por onde Rony tinha acabado de passar.
Luna não pensou, nem por um segundo, em mentir ou desviar do assunto. A outra garota não era burra e ela não era mentirosa.
- Não é recíproco. – Disse apenas.
Hermione olhou-a por um instante, como se entendesse.
- Talvez eu devesse procurar Gin ou algo assim...
Quando a garota estava se erguendo, Luna falou, mesmo que não tivesse certeza se deveria.
- Astoria e Padma estavam se beijando hoje.
Isso foi o suficiente para que Hermione congelasse no lugar, olhando para a loira com a boca entreaberta e ajeitando-se melhor na cadeira.
- Ela... quer dizer, ela pode ficar com quem quiser, não é como se estivéssemos ao menos conversando nem nada disso. E a Patil... – Ela disse, os olhos fixos nas próprias mãos. – Bem, eu devia imaginar que isso ia acontecer cedo ou tarde.
Luna analisou a morena atentamente.
- Só não queria que fosse tão cedo. – A loira falou com simplicidade.
Hermione sorriu triste, olhando-a direto nos olhos.
- É, acho que não.
- Você poderia falar pra ela... é recíproco. – Luna disse, observando a expressão de Hermione.
- Ela não quer me ouvir...
- Sabe... quando eu era pequena, gostava de montar quebra-cabeças. Uma vez ganhei um de três mil peças. Por mais que eu montasse, nunca era o suficiente, nunca terminava. Quanto mais peças eu colocava no lugar, mais faltavam. Até que um dia eu desenvolvi uma classificação de peças, organizando por cor e formato. Acabei o quebra-cabeça em dez dias de dedicação. – A loira se levantou, acenando para Hermione e rumando para a saída mais perto da sua sala de aula.
- Espera! – A voz da morena a fez parar. – O que isso tem a ver com minha história?
Luna olhou-a distraidamente.
- Oh, nada. – Disse como se fosse óbvio. Afinal, era praticamente impossível alguma coisa que ela fez durante a infância se relacionar com os problemas amorosos da amiga. – Mas talvez você devesse se certificar de que já tentou de tudo antes de desistir. – Acrescentou com um sorriso, virando-se para continuar seu caminho.
Ao conversar com Hermione e aconselhá-la, Luna relembrou quão dedicada ela poderia ser. Se ela realmente quisesse alguma coisa, ou, no caso, alguém... oras, ela deveria lutar por isso, certo?
A garota cortou caminho, passando pelos fundos do refeitório, muito concentrada nos seus próprios pensamentos pra reparar na morena que falava afoita no celular.
- Você é uma hipócrita nojenta! – Daphne se exaltou, apertando o aparelho contra a orelha, se irritando ao ouvir uma risada no outro lado da linha.
- Daph, meu bem, você realmente pensou que eu deixaria passar essa oportunidade? Você sabe o quão vantajosa essa união pode ser pra empresa da família...
- Eu tenho nojo de você! – Daphne rugiu.
- Não é isso que você diz quando eu estou com a língua na sua boce-
- CALA A BOCA, LISA. – A garota fechou os olhos, as lágrimas começando a se formar no canto dos olhos. – Se era pra ser assim, por que você... por que você me fez fazer tudo aquilo?
- Daphne, cai na real. Meu casamento é interesse, não é amor.
- Você não me ama. – Disse entredentes. – Isso que você está fazendo também não é amor.
- Me fale, querida... – O tom de Lisa era mortal do outro lado da linha e Daphne não pôde conter a onda de arrepios que passou pela sua espinha. – O que você sabe sobre o amor? Tem alguma coisa que você queira me contar?
- Não, Lisa. Você se certificou de que não houvesse. – Seu tom de voz era amargo, e o nó na sua garganta doía enquanto ela se esforçava para engolir o choro. – E não se engane, nós vamos conversar no sábado, eu não me importo que seja o dia do seu casamento... Eu estou cansada dessa situação.
- Que seja, mas lembre-se, doce... lembre-se de quem dá as cartas nessa relação. Você não iria querer que um velho conhecido desse as caras por aqui, iria?
Lisa riu novamente antes de desligar o telefone, deixando uma Daphne nauseada e paralisada com o celular na orelha, o barulho do aparelho quase perfeitamente sintonizado com seu coração acelerado.
Tu tu tu tu...
Yô, meninas(os)!
Olha, eu estou melhorando, certo? Essa atualização não demorou nem um mês! HAHAHA
Falando sério agora... obrigada pelos comentários no último capítulo, fiquei mesmo, mesmo feliz. Tanto pelas meninas de sempre, que me apoiam em cada cap, quanto pelas meninas novas que começaram a aparecer.
E ah, obrigada também pra Beatriz Potter, que betou esse cap em tempo recorde :D
E no próximo episódio... haha
A conversa entre a Hermione e a Astoria e, TALVEZ, o casamento da Lisa. Não tenho certeza ainda.
E ei, quem vocês querem ver por aqui? Algum personagem que vocês gostariam de conhecer melhor?
Anyways, o próximo cap é crucial, então... um comentário de incentivo? HAHA