Oi, oi povo!! Os dias vão passando e como será que estão as coisas com o casal vinte?
Carla Ligia: Pois é, acredito que cada dia é um round enfrentado por eles. A Hermione vai ter que ter muito jogo de cintura pra enfrentar as situações e olha que vem chumbo grosso por aí... Já o morcegão... Terá que treinar melhor sua esquiva...
Carla Cascão: Pois é...Apesar da raiva dele por ela ter entrando num local “proibido”, o morcegão jamais deixaria ela ferida, apesar de tudo ele tem um bom coração... Apesar de ser amargurado... Logo, logo aparecerá a explicação sobre a biblioteca.
opa, estão anotadas as dicas de leitura! ^^
Rrsrs, é teve o primeiro turno de votação aqui sim, para prefeito e vereador, infelizmente acontecerá um seguindo turno para prefeito... ¬¬ (odeio isso)
Então... As “peças” que aparecem tanto como candidatos, como apoios são bem engraçados... Infelizmente alguns acabam levando na brincadeira as coisas que deveriam ser sérias... Não precisa pedir desculpas, sei bem algumas vezes acabo rindo também, apesar do desgosto...rsrs
Bjs e boa leitura.
*****
A perda consegue mudar um homem. A perda consegue mudar tudo.
Severus Snape
Snape gostaria de ter ignorado sua sedutora nova mulher. Hermione, entretanto, fazia que fosse impossível.
Em só uns dias, tinha conseguido fazer patente sua existência. A mudança começava a notar-se em Rosewood Manor. Jogaram baldes de água e sabão. Sacudiram e limparam os tapetes. Os chãos de carvalho de toda a casa reluziam recém-encerados. Onde antes havia escuridão e abandono, agora havia luz e calidez, e uma sensação de lar começava a respirar-se por toda a casa.
Ele estava tão impressionado como irritado. Quem ela acreditava que era para ocupar-se assim de sua casa? Embora agora tudo estivesse, teve que admitir com um grunhido, muito mais habitável. Mesmo assim, às vezes sentia que ele somente tinha o papel de espectador. Ela tinha invadido sua vida, irrompido em sua casa. Mas não podia protestar, já que tinha dado permissão para fazer como tivesse vontade. Não tinha outra opção que observar com ar sombrio como mudava tudo a seu redor.
E Hermione se conduzia pelos corredores como se tivesse estado fazendo isso toda sua vida. A seu passo ia deixando um aroma de rosas tão irresistível...
Enlouquecia-o.
Havia ficado furioso o dia que a encontrou na biblioteca. Por um instante, uma ira selvagem tinha nublado sua vista. Ela se metia onde não tinha direito. Invadiu seu santuário, e ele não pôde pensar com claridade.
Não tinha posto um pé nesse aposento fazia muitos anos: pouco depois que Lílian e as crianças foram enterradas. Esse dia com Hermione voltou para aquela noite... aquela noite em que uma raiva profunda e vil tinha explodido dentro dele... a noite em que destruiu os tesouros que tanto tinham significado para ele antes.
Tinha desejado queimá-los. Queimar tudo. Como eles foram queimados.
De toda a casa, a biblioteca era a que mais lembranças lhe traziam. Lembranças dos três, deitados no jardim, o jardim que Lílian tanto gostava. O jardim que tanto gostava de brincar com seus filhos...
Ele tinha falhado com eles, com todos eles. Não pôde protegê-los, a nenhum. Não pôde salvá-los.
Snape não queria recordar. Tinha acreditado que o tempo tinha mitigado a dor, mas não era certo. Teria preferido ser um insensível! Teria preferido estar sozinho!
Mas com Hermione em sua casa, foi negada a solidão que tanto desejava.
Não podia evitar ser desagradável. Fazia o que tinha que fazer. Casou-se com ela. Trouxe-a para sua casa. E agora ela invadia seu santuário mais privado... sua mente! Será que não o permitia nem um pouco de paz? Incomodava-o. Incomodava a sua presença na casa. Em sua vida. Olhasse onde olhasse, ali estava ela. Era quase uma violação de toda a felicidade que tinha enchido uma vez seu coração.
Mas não era uma intrusa. Não era uma invasora. Nem tampouco alguém que tratasse de seduzi-lo.
Era sua mulher.
E possivelmente era isto o que mais incomodava de tudo.
****
Hermione nunca foi das que baixavam a cabeça. Assim que tomava uma decisão, não voltava atrás. Snape podia conformar-se com o desastre que os rodeavam, mas ela não. Ela tinha se proposto conseguir que Rosewood Manor fosse um lugar confortável, e ninguém poderia impedi-la.
Dois dias depois de sua chegada, contratou uma governanta, a senhora Demelza. Na primeira semana, tinha assegurado um serviço completo de criados. E antes que terminasse essa semana, a luz do sol atravessaria o arco das janelas limpas. O piso do térreo brilhava reluzente.
Ainda ficava muito por fazer, mas a castanha se sentia satisfeita com os progressos conseguidos. A reação de Severus — ou a falta dela — a machucava. Teria desejado que reconhecesse de alguma forma seu esforço. Não se queixou. Não discutiu. Fez como se não visse a mudança. Como fazia com todo o resto.
Mas ao menos tinha algo com o que entreter os dias. Levantava-se cedo e caía exausta na cama pelas noites. Mas nas refeições, quando estavam os dois a sós, os momentos passavam como em uma prova contínua.
Eram, em suma, pouco menos que uma terrível experiência. Não havia maneira de dissipar a tensão que se respirava. A refeição começava e terminava com as obrigatórias palavras de saudação e despedida. Entre eles, tudo que se ouvia era o tinido ocasional da porcelana chinesa ou dos talheres. Hermione se via limitada a admirar a prata recém lustrada que tinha encontrado esquecida em uma cômoda.
Odiava esses momentos. Durante toda sua vida, a refeição se dava entre bate-papos, risadas e troca de opiniões. Com Severus, estava começando a odiar as refeições, mas certamente não estava disposta a esconder-se detrás de uma bandeja em seu quarto porque seu marido tinha decidido ser um grosseiro.
E parecia que esta manhã, em particular, não ia ser a exceção.
Ele já estava sentado à mesa.
A jovem se aproximou energicamente à bonita mesa Pembroke que utilizavam como mesa de serviço. Nela se dispuseram uma grande variedade de pratos.
—Bom dia — saudou com alegria.
—Bom dia. — rodeava a xícara com seu longo dedo. Nem sequer se incomodou em olhá-la.
Segurando um croissant, dirigiu-se à mesa principal. Como de costume, o café da manhã do moreno consistia em um café forte e só. Hermione enrugou o nariz em sinal de desaprovação. Segurou o bule, o olhando por debaixo das pestanas. E nesse instante, decidiu que a refeição não se daria no silêncio habitual. Com isto em mente, limpou os dedos no guardanapo e se dirigiu a seu marido.
—Já comeu?
Ele deu um gole ao café, com o olhar fixo no jornal.
—Não.
Era evidente que achava a pergunta supérflua. Mas se manteve firme, determinada a manter a conversa.
—É uma boa hora para o café da manhã. E a Senhora Molly prepara uns ovos cozidos maravilhosos.
—Possivelmente deveria dizer-lhe.
—De fato o fiz. — o olhou abertamente. Na realidade, não teria que preocupar-se de que ele se desse conta. Podia ter sido um pedaço de argila e ele não se daria conta. Levantando-se, voltou para a mesa auxiliar e encheu o prato de diversos tipos de comida quente. Colocando a cadeira em seu lugar, voltou a sentar-se.
Enfiou na boca um pedaço de salsicha e a mastigou completamente. Não é que estivessem brigados, refletiu ela enquanto passava geleia na torrada. Ele não a tentava com hostilidade, era mais como se tivesse decidido fazer como se não existisse. Limpou os dedos com o guardanapo. Ao tentar segurar o garfo uma vez mais, a faca caiu ao tapete.
Ela se inclinou sobre ele, mas a verdade é que Severus não se deu conta. Sua cabeça roçou a borda da mesa quando estava pegando a faca. Ao levantar-se, um par de olhos negros a olhavam em sinal de reprimenda. Parecia que ao fim tinha captado sua atenção!
—Tem que fazer tanto ruído? Resulta-me difícil ler.
Hermione não teve em conta o tom. Partiu outro pedaço de salsicha e o pôs na boca.
—Temo — disse com uma doçura irônica — que esqueceu a boa educação, senhor. Possivelmente os costumes de Yorkshire sejam diferentes, mas me ensinaram que é falta de educação ler na mesa.
Snape se deteve, com a xícara suspensa a meio caminho de sua boca. Baixou-a lentamente e depois se inclinou para trás, olhando-a com um leve sorriso (se podia chamar-se assim) nos lábios.
—Sério?
—Sério — saboreou as palavras e o momento.
E parecia que por fim tinha conseguido monopolizar sua atenção. Seu sorriso se esticou.
—Como me criei em Yorkshire, não estou todo seguro de como se educa as pessoas em Londres, mas me ensinaram que é falta de educação falar com a boca cheia.
Hermione terminou de mastigar e depois engoliu. Não ia se render tão facilmente.
—Escocesa — disse por fim — Admito que seja metade inglesa, mas passei muito mais tempo na Escócia. Meu pai foi escocês. Portanto, prefiro me considerar...
—Deixe-me que adivinhe — a interrompeu — Escocesa.
—Aye — ela admitiu com satisfação.
Severus entrecerrou os olhos. O quê? Acaso esperava que partisse? Os criados podiam tremer e agitar-se, mas podia estar seguro de que com ela não funcionaria. E não funcionou. Foi criada com dois irmãos mais velhos; tinha aprendido logo a cuidar de si mesma. Nem Heitor nem Hélio a tinham intimidado (tampouco é que tivessem tentado), e tampouco ele conseguiria.
— Possivelmente — sugeriu a castanha — esse seu mau humor poderia melhorar se comesse alguma coisa. A Senhora Molly ficaria encantada.
Seus olhos jogavam faíscas.
—Não estou de mau humor.
—Ah, não? Pois qualquer um diria que faz todo o possível por parecê-lo.
Sua boca se converteu em uma linha reta. Agitou o jornal.
—O que é exatamente que sugere?
—Eu não sugiro nada. Limito-me a observar que talvez não seja um locutor particularmente brilhante.
—Critica minhas maneiras. Critica meu mau humor. Há algo mais que queira criticar em mim?
Hermione sorriu docemente.
—Não neste momento — disse brandamente.
—Ah. E tenho permissão para fazer parecidas observações em troca?
—Imagino que sim — ela acessou — Depois de tudo, é o senhor da casa.
—Está acostumada a dizer sempre o que pensa, verdade?
—Se não fizer eu, quem fará?
—Uma explicação pragmática — observou — Vejo que você também tem seu caráter.
—Essa não sou eu.
—E se orgulha de sua franqueza.
—Simplesmente, considero-me uma pessoa direta.
—Direta. É assim como você gosta de chamar?
—Como chamaria você?
—Se me perguntassem, diria que é a mulher mais obstinada que conheci.
—Tampouco sou eu — respondeu ela com satisfação. Acreditava que podia insultá-la? Era feita de um material mais duro que isso.
—Talvez tenha escolhido mal as palavras. Não é obstinada, mas sim teimosa.
— É óbvio que não! Embora eu goste de ser ligeiramente independente.
—Ah — olhou-a diretamente aos olhos — Um traço familiar, não é mesmo?
— Temo que sim — disse ela brandamente.
—Há algo mais que queira me dizer, Hermione?
Ela abriu a boca.
—Não... — começou a dizer.
—No momento — terminou ele.
Foi uma vitória da mais gloriosa. À manhã seguinte, não houve jornal na mesa.
E participou de um substancioso café da manhã.
Inclusive se dignou a perguntar como tinha dormido!
****
Vários dias depois, Hermione teve a oportunidade de passar ao lado de uma criada que acabava de receber o correio. Como o marido não estava por ali, a castanha sorriu e segurou o pacote que trazia a garota.
—Obrigada. Eu farei chegar ao senhor.
O escritório de Severus estava situado na parte leste da casa. Ela tinha dado uma breve olhada no primeiro dia quando esteve inspecionando a casa com Dobby. Como a biblioteca, considerava-o parte dos domínios dele, algo que parecia ajustar-se a ele à perfeição, pensou com um toque de dureza. E na realidade, também a situação do aposento, ao final do corredor, parecia ajustar-se a ele bastante bem.
Entrou e olhou ao seu redor. O ambiente era grande, forrado com a mesma madeira de carvalho inglês que a escada. Justo sob as janelas havia um bonito divã, com estofado de veludo bordô e dourado.
Um raio de sol iluminava o escritório. Hermione pôs o correio no centro da mesa, depois se deteve e olhou para cima.
Uma grande teia de aranha se estendia do teto até a parede de um dos cantos. Encolheu os ombros e fez gesto de sair dali; depois pensou melhor e voltou sobre seus passos. Fixou a vista na desagradável teia. Não ficava mais remédio... simplesmente, isso não podia estar ali.
Havia um armário das criadas justo do outro lado do corredor. Segurando uma vassoura, voltou para o escritório e subiu em cima do encantador divã de veludo do canto.
—Que diabos está fazendo?
O som da voz de seu marido esteve a ponto de fazê-la cair. Se ele não tinha cuidado com suas palavras, pensou com determinação, ela tampouco teria.
Pela extremidade do olho, viu que se colocou diante da escrivaninha.
—Que diabos você acha que estou fazendo? — a queixa veio acompanhada de uma vigorosa vassourada.
Falhou por bastante.
—Maldição — murmurou.
Severus levantou a cabeça. Ela o olhou por cima do ombro.
Tinha uma sobrancelha arqueada.
—Meus irmãos falam muito pior — se defendeu ela.
—Preferiria que minha esposa não o fizesse.
Ah, vá. Quem era ele para repreendê-la? Ignorando-o, a castanha respirou e ficou nas pontas dos pés. Com a boca apertada em sinal de determinação, apontou ao seu objetivo uma vez mais. Foi uma tentativa ainda mais valente que a anterior, mas desta vez esteve a ponto de cair.
—Pelo amor de Deus, deixe que eu faça isso. — o grunhido chegou de baixo — Se quebrar o pescoço, recairá sobre minha consciência.
Mãos fortes rodearam sua cintura. O mundo girou brevemente ao seu redor antes de pôr os pés no chão. Ficou olhando enquanto ele tirava a teia sem nenhum esforço... e sem ter sequer que subir no divã.
Hermione franziu o cenho ao ver que se sentava atrás de sua escrivaninha. Seus olhares se encontraram um momento. “O que — pensou ela— acaso queria que o deixasse sozinho?” Apertou os lábios. Se era assim podia pedir-lhe depois de tudo, estava ali primeiro.
Deliberadamente deu-lhe as costas. Ocupou-se em colocar uma pilha de livros na mesa do canto.
Não se deu conta de que o moreno a olhava com os olhos franzidos enquanto ela revoava à outro canto e voltava.
—Por Deus... será que alguma vez fica parada?
Era mais uma pergunta que uma acusação. A jovem se deteve.
Ele tamborilou a mesa com os dedos.
— Terminou?
—Perdoe-me — disse ela com expressão irônica — devo entender que quer que não o incomode mais?
—Se não for pedir muito...
Sua educação era impecável. Hermione não fez o mesmo. Fulminou-o com o olhar, sem dar-se conta do sentimento de culpa que havia provocado no marido.
Apenas um quarto de hora mais tarde, descia as escadas embelezada com sua roupa de montar. Severus estava na entrada com Dobby quando ela desceu.
Olhou-a interrogando-a em silêncio.
—Pensei que me faria bem montar um pouco. — seu tom era frio, à defensiva.
O moreno desviou a vista ao relógio de parede que acabava de dar a hora.
—É quase a hora de comer.
—Por favor, não me espere. É possível que me atrase. — deveria sentir-se agradecido que o deixasse sozinho.
Ela teria evitado sair por ali, mas ele a segurou pelo braço.
A jovem franziu o cenho ao notar que ele apertava seu braço. Seus dedos a deixaram livre... mas não seus olhos.
Sua expressão era a de uma pessoa contrariada.
—Hermione, é óbvio que tem o estábulo a sua disposição. Mas este não é um bom momento.
Ela arqueou as sobrancelhas.
—Por que não?
Seu olhar se deslizou desde seu ombro até a parte alta da janela que tinha às costas.
—Olhe ali. — com o queixo, indicou-lhe o céu. Ela viu que havia densas nuvens que se aproximava pelo horizonte. Inclusive no momento em que se voltava para olhar, a luz do sol pareceu empalidecer — Aproxima-se uma tormenta.
—Ah, mas esquece — disse ela alegremente — que vivi a maior parte de minha vida na Escócia. Um pouco de chuva não me importa. E acredito que se ficar em casa um minuto mais terminarei por apodrecer.
—Não conhece o terreno daqui — havia um leve nervosismo em seu tom.
A castanha deixou de sorrir.
—Como poderia conhecer?
Seus olhos se encontraram.
—Escute-me, Hermione. As tormentas daqui não se parecem em nada às que você conhece. Não sairá com este tempo, ouviu-me?
—É bastante impossível não fazê-lo — disse com os dentes apertados. Gostaria de seguir discutindo. Mas nesse momento se ouviu o estrondo de um trovão. Ele a olhou como lhe dizendo: “Vê! Eu disse!”
Seu sorriso doía. Ela o fulminou com o olhar.
—Se quiser me encontrar, senhor — ah, tenho uma nova ideia! Pensou — Estarei na biblioteca. Lendo, provavelmente. Ou possivelmente, limpando-a.
Não esperou para ver sua reação, por isso deu meia volta e começou a andar, determinada a pôr alguma distância entre eles. Seu caráter — esse que tinha assegurado não ter — era imprevisível.
Uma hora na biblioteca fez pouco para acalmá-la. Outra hora em seu quarto, e seguia ainda inquieta. Depois de tantos dias enclausurada, não tinha se dado conta do quanto que sentia falta de estar ao ar livre. Precisava afastar-se um pouco da casa; ou para ser mais exata, precisava afastar-se dele. Cavalgar a limparia. Esfregando as mãos, aproximou-se da janela.
As nuvens tinham passado ao longe. Só ficavam umas quantas, e se viam altas e distantes.
Recuperado o bom humor, sorriu para si e se precipitou escada abaixo.
Os estábulos estavam a pouca distância da casa. Um jovem de faces rosadas chamado George saiu para ouvir seu animado “olá” .
Pouco depois, Hermione deixava os estábulos no lombo de um lustroso cavalo negro chamado Lady Mary. Deleitou-se com o repentino sentimento de liberdade. O ar era fresco a revitalizaria, justo o que necessitava. Era maravilhoso estar em uma cadeira de montar de novo. Não tinha se dado conta do quanto que tinha sentido falta disso. Relaxou e levantou o rosto para o céu. Não longe da casa havia um terreno de pasto, alagado com capim e demandando urgentemente um pouco de atenção. Tomou nota mental disso. Guiou seu cavalo pelo atalho que levava ao caminho principal, passando por sebes de abundantes samambaias e trepadeiras.
O ar chegava carregado de um aroma de natureza selvagem. O campo circundante era de uma vez tosco e delicado, uma visão sempre cambiante de colinas e vales. Ela poderia terminar por amar tudo isto. O pensamento sobreveio de repente, e tomou forma com uma tenacidade surpreendente. Ah, pensou com nostalgia, mas faria melhor em não afeiçoar-se muito. Recordou-se que seu tempo aqui era limitado. Era estranho, mas isto a fez se sentir um pouco triste...
Cavalgou um bom trecho, com força. Ao norte, o páramo se estendia imenso e selvagem. Um tapete abundante de urze suavizava o contorno rochoso da terra. Apanhada pela terra, por sua beleza, seguiu cavalgando, sem pensar em outra coisa que não fosse no prazer do momento.
Por fim puxou as rédeas de Lady Mary para que se detivesse no alto de um montículo coberto de erva. Ao sair de casa, o ar era quente. Agora chegava carregado de uma silenciosa umidade. Jogou uma olhada ao sol por debaixo da aba de seu chapéu.
Mas não havia sol. A fronteira entre a terra e o céu tinha desaparecido. Hermione deu a volta na sela. O mundo se tornou uma quietude horripilante. Então, de repente, como se fosse dirigido por uma mão maligna e invisível, o vento começou a soprar, ganhando força à medida que atravessava os campos. A temperatura desceu bruscamente em questão de segundos. O céu virou uma inquietante cor azul escura. Como se fossem seres vivos, as nuvens começaram a enfurecer-se e revolver-se, aproximando-se perigosamente.
A castanha puxou as rédeas com suas mãos protegidas pelas luvas. Severus havia dito. Estava desfrutando tanto do momento, que não se deu conta do quão rápido o tempo podia mudar.
Soou um trovão. A escuridão e as nuvens pareciam aproximar-se de forma simultânea. A égua virou de um lado nervosa. Hermione pôs a mão no pescoço para tranquilizá-la. Ela respirou fundo. Não havia forma de distinguir o norte do sul, o este do oeste. Mas sabia que tinha cavalgado para o norte. Fez a égua girar, e a pôs a galope.
Não acreditou haver-se afastado tanto. Ia na direção certa? Começou a rezar com todas suas forças para afastar o pânico. Açulou sua montaria para que cavalgasse mais rápido, mas a égua estava muito nervosa. Uma rajada de vento retirou seu chapéu que tão graciosamente levava preso à cabeça. As gotas de chuva começaram a fazerem-se constantes. E não eram só algumas gotas. A Mãe Terra estava dando rédea solta a sua raiva com contundência.
A chuva golpeava a sua pele como se fosse granizo. Custava-lhe respirar e os pulmões começaram a arder. Era como cavalgar através de uma parede de água. O vento soprava em todas as direções. Aonde ia.
Então, de repente, sentiu um calafrio. Teve uma sensação da mais inquietante, uma sensação que percorreu o seu corpo da cabeça aos pés. Os raios alagavam o céu. Incapaz de ver algo, tampou os olhos com o braço de forma instintiva. Lady Mary deu um relincho assustado e parou em seco.
Hermione esteve a ponto de sair disparada. Descendo do cavalo, abraçou-o para proteger do vento, sujeitando as rédeas e lutando por seguir avançando.
O frio não a deixava respirar. Levava as botas de pele cheias de barro. Escorregou uma e outra vez. Se não tivesse presa às rédeas teria caído de bruços sobre a terra. Ao fim viu a cancela da entrada e o caminho que transcorria por ela.
Havia um barracão desmantelado justo do outro lado da cancela. Tinha-o visto antes e se perguntou por seu deprimente estado. Lutando contra o vento, meteu-se sob o beiral da casa e puxou a égua para que se cobrisse também.
Havia uma pilha de madeira carbonizada e enegrecida no canto oposto. A água penetrava por um buraco do teto. O refúgio deixava muito que desejar, mas era melhor que estar a céu aberto.
Uma voz dizia que não devia ficar ali. Severus tinha razão. E ela se deu conta disso.
Esperar que seu marido não se desse conta de sua escapada era querer muito.