O dia havia sido muito mais exaustivo do que Hermione poderia ter imaginado durante o café pela manhã. As aulas estavam exigindo muito mais do que ela estava acostumada nos anos anteriores, mas pudera, aqueles eram seus últimos momentos em Hogwarts antes que estivesse completamente pressionada a abrir as asas e voar por aquele vasto mundo que era a magia. Pensando nisso, a garota rumara diretamente para seu novo quarto após a conversa que tivera com Minerva McGonagall ao final do período letivo daquele dia.
Enquanto caminhava com pressa em direção à torre em que ficavam os aposentos, ela revivia mentalmente os momentos da reunião. A severa professora a havia convocado até sua sala para parabenizar-lhe e explicar melhor sobre o posto de monitora-chefe que ela havia conquistado naquele ano e entre sorrisos da mentora ela notara a presença alheia de Draco Malfoy na cadeira ao seu lado. Estava sentado de um jeito desconfortável, rígido, mostrando-se totalmente invisível ali até que seu nome fosse pronunciado.
“O Sr. Malfoy será seu companheiro de estadia, Srta. Granger, visto que Sonserinos e Grifinórios dividem o alojamento de monitores. Sinto informar-lhes assim tão surpreendentemente, mas seus pertences já foram transferidos assim como os leitos livres agora estão reocupados por outros alunos. Vocês ainda poderão circular livremente pelas salas comunais, se assim desejarem. Uma boa noite”, a senhora dissera sem deixar espaço para manifestações.
Não que elas seriam feitas, de fato. Por mais que Hermione e Draco pensassem nas diferenças existentes entre si, já faziam cerca de dois anos que as coisas haviam mudado significativamente entre eles. O que no início fora uma direta antipatia regada de confrontos e repúdios, se convertera a momentos de silêncio na maior parte do tempo, considerando-se que ambos se evitavam sempre que possível – o que é claro, às vezes proporcionava momentos de tensão e discussões leves.
Assim, Hermione desabara em sua nova cama sentindo os fortes raios de sol invadindo a janela. Logo o inverno chegaria e a visão seria ocupada pelo vazio esbranquiçado da neve, algo que a garota considerava especial ao extremo. Desvencilhando-se da visão privilegiada que a torre oferecia, ela pousara a cabeça no confortável travesseiro. Aquele era o horário em que costumava dormir com a presença reconfortante do sol, mas não estava com sono naquele momento, talvez pelo ambiente novo que além dos dois quartos, possuía uma sala comunal e outra dedicada aos estudos.
Fora repentinamente que a morena decidira rumar pelo castelo até atravessar o quadro que oferecia passagem à sala comunal da Grifinória. Ali jaziam poucos alunos, visto que a maioria deveria estar a aproveitar os poucos dias de sol que ainda restavam na estação. Porém, ali estava Harry com a feição incomodada com nitidez.
— Hermione? — O garoto questionara enquanto despertava de seus pensamentos, nos quais parecia perdido até então.
— O que está havendo com você, Harry?
— Como?
— Algo está te incomodando, isso é visível. — Ela rebatera sem cerimônias, sentindo o amigo respirar com dificuldade.
— Ando tendo sonhos estranhos.
— De que tipo?
— Não é nada demais, pode ficar tranqüila.
— Eu me preocupo com você, ande! Ou será que já não confia em mim por não estarmos mais tão unidos quanto antes?
— Claro que não, Hermione. — Ele olhara para ela com certo desespero em sua feição. — É que... São com você.
— Não entendi.
— Meus sonhos são com você. — Ele dissera passando a mão nervosamente pelos cabelos bagunçados, fazendo-a lembrar-se de como Gina adorava aquele gesto. — Neles eu não posso ver nada, apenas escuto Voldemort falando com você, como se lhe desse ordens. Tenho medo de que ele esteja planejando algo contra você, Hermione. Não me perdoaria por isso.
— Por mais assustador e estranho que pareça, isso certamente é bobagem Harry. Você ainda está muito debilitado pelo último encontro, quero que fique tranqüilo quanto a essas coisas.
— É difícil. — Ele murmurara.
— Eu sei que é, mas você se saíra bem. Como sempre. — Logo estavam entregues em um doce abraço fraternal. — Me perdoe por estar tão distante.
— Eu e Ron não te culpamos. — Eles se soltaram lentamente. — É complicado ter uma amiga que deseja fazer todas as aulas possíveis em Hogwarts além de desdobrar-se como monitora-chefe, mas nós conseguimos nos sair bem.
— Sim, tenho certeza. — Ambos riram.
Havia tempos que não se sentiam os mesmos jovens de antes.
* * *
Ron estava visivelmente cansado após o treino de quadribol com Harry e os demais companheiros de time, mas mesmo assim parara por alguns minutos diante de uma lúdica Hermione que esperara pacientemente na saída dos vestiários grifinórios. Ela estava deslumbrante, ele concluíra enquanto se aproximava, diminuindo a velocidade dos passos inconscientemente na tentativa de admirá-la por mais alguns segundos.
— Belo treino. — A grifinória dissera ao abraçá-lo. Seu perfume era excelente, por mais que já não lhe causasse as borboletas no estômago como há anos atrás.
— Não minta, Hermione. Você detesta quadribol e sequer tirou os olhos do seu livro enquanto estava nas arquibancadas.
— Ora, Ron. — Ela revirara os olhos ao livrá-lo do abraço, avistando Harry no horizonte da visão logo em seguida. — Vejo que vocês foram rápidos hoje, a que devo o milagre?
— Harry disse para não demorarmos, visto que você anda bem atarefada. — O ruivo rira, observando o amigo chegar. — Não queríamos tomar muito do seu tempo.
— Vamos? — Harry dissera ao alcançá-los, sorrindo para Hermione e iniciando os passos do trio. — Então... — Ele retomara a conversa enquanto atravessavam outro corredor. — Você fará ronda todos os dias?
— Praticamente. Sou responsável pelas alas ao redor da Grifinória e alguns outros corredores próximos, mas é um trabalho tranqüilo.
— Eu entraria em pânico se tivesse que andar por esses corredores escuros durante a noite. Isso não me soa bem.
— As rondas terminam às onze em ponto, Ron. — Hermione sorrira divertida para ele. — Além do mais, eu encontrarei professores e outros monitores pelo caminho diversas vezes. Os quadros também são muito amigáveis.
— Espero que o seja. — O ruivo dissera simplesmente, ainda detestando a idéia.
— Encontro vocês amanhã, sim? — Ela dissera ao abraçar Harry e beijar-lhe o rosto diante da entrada da Casa. — Aqui começa minha ronda.
— Você não vem para a sala comunal depois?
— Não, sinto muito. Meu dormitório agora é em uma torre ao leste. — Ela se despedira com um aceno amigável. — Vejo vocês, boa noite!
— Boa noite. — Os dois disseram antes de entrarem.
Aos poucos os corredores esvaziavam-se e logo Hermione estava sozinha com seus pensamentos. Alguns lugares específicos eram particularmente assustadores, mas outros – como o banheiro feminino dos monitores –, eram muito agradáveis de se estar. A garota passara a ver o castelo com olhos diferentes do usual e isso lhe era excelente, o que a fazia lamentar-se pelos amigos não terem tal oportunidade. E foi assim que após algumas horas de passos tranqüilos e sensações acolhedoras, estava ela de volta ao alojamento.
Ela podia ouvir o barulho de água respingando sob a superfície, concluindo que Malfoy já chegara e estava a tomar um banho relaxante diante do final do dia, o que a fizera rumar diretamente para o quarto sem sequer olhar para os lados. Mesmo que o banheiro possuísse dois compartimentos distantes e privativos, ela não desejava ser impertinente adentrando o seu enquanto ele jazia em descanso. Assim, apenas tomara seu merecido banho de água quente ao ter total certeza de que o garoto adentrara em seu quarto respectivo.
Desde a troca de dormitório ela ainda não cruzara com o loiro pelos corredores. Na verdade, com exceção da rápida reunião cogitada, ela não o havia notado ao redor. Possuía certo medo do que ocorreria agora que teriam de conviver sob o mesmo teto, mas talvez fossem passar um longo ano apenas fingindo gentilmente que eram invisíveis aos olhos do outro. Tal tática lhe parecia extremamente eficaz.
Já deveria estar muito tarde quando ela piscara os olhos cansados pela milésima vez naquela noite, tendo a cabeça deitada no travesseiro. Não conseguia dormir, independente do que tentasse e por um momento invejara o sono profundo que o garoto loiro estava tendo em seu quarto do outro lado do corredor. Será que em algum momento ela se acostumaria com aquilo? O excesso de tarefas, a presença do sonserino, um novo confronto enigmático com Voldemort, um futuro surpreendente pela frente após Hogwarts. Ela já não sabia dizer.
Fitava o teto mal iluminado do quarto avermelhado sem saber o que considerar de certo. Ela estava diante de diversas perguntas, desejos, medos, e entregava-se a incerteza de todas as razões por longos instantes que mais lhe pareciam séculos por mais que ela soubesse serem apenas algumas horas. Por alguns minutos se imaginara sendo apenas uma garota normal em uma amena casa trouxa, deixando que sua imaginação lhe mostrasse o que poderia ser de si. Não, ela era forte e especial demais para apenas aquilo.
Harry. Sem saber o motivo, o amigo lhe viera à cabeça e com ele as lembranças do estranho sonho que lhe contara durante a tarde. Estaria Voldemort planejando algo contra ela? Mas... Por que motivo? Hermione era amiga do Eleito, filha de pais trouxas, aluna excepcional de Hogwarts. Sim, esses eram excelentes argumentos nesse caso, mas algo dizia a ela que nenhuma daquelas opções condizia com os anseios do rival. Logo, lhe restava apenas imaginar até que um novo encontro surgisse.
Era questão de tempo, ela sabia.