* * * * *Capítulo II: Nice Day.
À noite, no imenso cômodo que era a sala pessoal de Dumbledore, estando próxima aos amigos e companheiros de batalha – em sua maioria grifinórios – Hermione observara a inquietude do diretor de Hogwarts à sua frente. Tinha o rosto sereno como sempre e os óculos em meia lua caíam pelo seu nariz deixando-o com um ar preocupado, mas a morena sabia que ele jamais demonstraria qualquer sensação que não fosse boa, mesmo que ela estivesse tomando conta do seu ser. Talvez fosse o modo dele de enfrentar tudo, concluíra.
Após a passagem na lareira via flu, os alunos haviam começado a se consolidar em volta dos feridos e inconscientes, o que significava praticamente todos os ali presentes. Todos possuíam em si pelo menos um vasto arranhão dolorido pelo corpo, independente de fruto de um ataque ou de algum mau posicionamento. Ainda assim, apenas os mais feridos haviam sido levados para a área hospitalar, sendo entregues aos cuidados de uma chocada Madame Pomfrey. Ela rapidamente havia posicionado cada um nos diversos leitos livres da Enfermaria, de onde varinhas começaram a ser agitadas e poções aplicadas em tantos ferimentos.
Hermione não participara da locomoção, mas sabia que Harry ainda estava inconsciente. Por sorte, apenas possuía um corte não tão profundo no braço, coisa que a enfermeira conseguiria curar em pouco tempo. O que realmente preocupava aos amigos do Eleito não eram os machucados físicos, mas sim as perturbações emocionais com as quais o garoto sofria sempre que se encontrava com o rival. Como podia o destino ser tão cruel assim?
Dumbledore notara a visível inquietude que emanava do comportamento diferente que Hermione empunha ali sentada em sua cadeira. Já havia se passado um bom tempo que estavam ali, ambos se observando, sem que nada fosse pronunciado. Até então.
— O que te aflige, grifinória? — Ele dissera num tom suave de conforto. Parecia realmente interessado.
— Estou apenas considerando sobre algumas coisas que ocorreram hoje. — A garota dissera simplesmente, o que por si só já era muito estranho vindo dela.
Normalmente ela tagarelaria por horas até se possível fosse, explanando sobre diversos pontos curiosos, estratégias a serem melhor formuladas, abordagens utilizadas. Era realmente muito observadora e aquilo era uma característica impregnada em si, de modo que seu silêncio era perturbador. Como se relutantes diante do diálogo que viria, os poucos alunos que jaziam na sala dispersaram-se de imediato, rumando cansados para os dormitórios respectivos.
— Sabia que Voldemort utilizava aquele casario antigo, não é mesmo? — Ela ousara quebrar o silêncio instaurado, evitando olhá-lo nos olhos.
— Sim, isso já se passara pela minha cabeça, visto que aquela casa pertencera aos Gaunt. — A voz melodiosa ecoara agora com maior firmeza, como se estivesse sendo pressionada. E estava mesmo, Hermione tinha que admitir. — Porém, não imaginava que ele estivesse lá naquele preciso momento.
— Entendo. — Fora a resposta limitada.
— Voldemort lhe disse algo mais? Talvez uma grande pista a olhos tão consideráveis.
Hermione então passara a pensar melhor em sua resposta, sem medo de que a breve demora soasse como obviamente falsa. Dumbledore não fora honesto com ela e os amigos sobre diversos detalhes cruciais durante todos aqueles anos, por que haveria ela de ser?
— Não.
— Sinto muito por não tê-lo dito antes. — Dumbledore recomeçara, atraindo finalmente os olhos da garota para si. Queria lê-los, mas sabia que já estava sendo suficientemente ousado em seu agir. — Mas é claro que nada disso faz diferença diante da pessoa excepcional que você é, Hermione. Vocês saíram vitoriosos mais uma vez.
— Vidas inocentes à guerra são dizimadas todos os dias. Meu melhor amigo está inconsciente em um leito enquanto outros tantos estão feridos. — A grifinória dissera sem medo de parecer exagerada ou enraivecida. Ela o estava, não iria esconder. — Você não pode escolher quando ou como dizer as coisas, porque, no fim, isso diz respeito a nós. Diz respeito a tantas outras pessoas! Suas ocultações de importantes informações sempre podem mudar o rumo das coisas e já somos grandes o suficiente para lidar com tudo. Sirius e Fred poderiam estar entre nós se tivesse sido diferente.
E foi então que ela cerrou os lábios com mais força, talvez evitando que dali saíssem mais palavras como as que acabara de pronunciar. Fora muito dura, mas precisava despejar aquela porção de pensamentos dolorosos antes que todos eles acabassem por lhe fazer mal. Olhou para Dumbledore com os olhos pesarosos de raiva e levantou-se da cadeira em que estivera sentada desde o retorno à Hogwarts, saindo pela porta entreaberta antes que pudesse ouvir qualquer palavra.
* * * * *
“Ousada cena...”.
Sentada no confortável sofá da sala comunal grifinória, Hermione agora deixara o pesado livro ao lado enquanto lia e relia o noticiário do Profeta Diário e parava sempre na mesma expressão. De fato, ousadia era o único substantivo capaz de traduzir não apenas o que haviam feito naquela manhã, mas o sentimento que movia a maioria dos adolescentes naquela corajosa Casa de Hogwarts. Olhando para o verde lá fora através das cortinas alaranjadas à meia-luz, ela contemplava mais uma manifestação desse estado de espírito.
Ao seu lado, Ron dormia um sono calmo povoado de inúmeros sonhos sobre os quais ele às vezes acabava por dizer algo; Pequenos murmúrios aos ouvidos cansados de Hermione. Não entendia como ele conseguia dormir tão pacificamente após um dia como aquele. Talvez fosse porque aquilo não fora dito para ele. Gostaria muito de entregar-se a um descanso merecido também, mas seus olhos pareciam melhores quando estavam abertos.
Ao fechá-los, a grifinória sentia como se suas pálpebras pesadas se transformassem em tela para repassar cada pedacinho ínfimo sequer de tudo que já ocorrera. Aquilo às vezes era bom, permitindo que ela recapitulasse cenas até que tudo se esclarecesse e tivesse uma boa resposta. Outras eram horríveis demais para se suportar.
Já fazia algum tempo, meses aliás, que ela sempre via a mesma cena diante dos seus olhos. Não possuía noites tranqüilas desde então e as passava daquele modo angustiado, lendo seus livros e tendo Ron como companheiro a dormir perto de si. Admirava-o por isso. De todo modo, ela apenas conseguia fechar os olhos quando a claridade se fazia presente, reconfortando-a pelos breves instantes em que entregava-se ao sono.
Era doloroso demais ouvir os gritos ecoando pela sua cabeça. Tão... Brutal. Sequer conseguira se despedir dele e isso parecia horrível demais para ser lembrado, junto às tantas outras peças daquele quebra-cabeças mórbido. O pai. Sim, era com ele que vinha sonhando há tempos. Não somente ele, o homem que ela mais amara na vida, mas com a morte dele, a qual presenciara sem poder reagir. Para sua paz de espírito, não fora nada ligado ao mundo bruxo, o que também a intrigava - considerando que era alvo importante no trio de ouro e filha de pais trouxas, era insano que eles estivessem em segurança nesse quesito.
Procurou não pensar mais naquilo, chacoalhando a cabeça de leve para os lados, como se tal movimento a impedisse de pensar aquelas coisas. Focou-se então em seu presente e se lembrou de que as aulas haviam começado à apenas alguns dias. Setembro era um mês especial justamente por isso: tornava palpável a magia em Hogwarts. Presente no dia-a-dia.
Mal se iniciara o ano letivo e ali estava ela com um livro aberto sobre as pernas cobertas com o pijama vermelho que usava. Ron, ao vê-la daquele modo no início da noite avermelhara o rosto a elogiando com um sorriso encantador. Ela não entendia bem a razão, mas isso não importava tanto. Gina havia lhe dito que o irmão passara as férias a arquitetar uma aproximação triunfal da morena e agora isso a estava deixando relutante. Ron era apenas um amigo, um amigo-irmão. Jamais veria ele ou Harry daquele modo. Na verdade, achava ela, jamais veria nenhum daqueles grifinórios ao redor com outros olhos. Eles eram parte viva da sua infância, como misturar as coisas?
Parou por um momento, atenta, e reparou no sol que surgia aos poucos pela janela, iluminando o cômodo com uma luz fraca. Os cabelos alaranjados de Ron ficavam bonitos com aquele brilho matutino. Sorrindo com tal pensamento, Hermione se levantara do sofá e lhe balançara os ombros devagar, murmurando baixinho para que ele acordasse.
Ao vê-lo abrir os olhos, sorriu e pôde receber um sorriso genuíno de volta antes que ele se levantasse e percebesse os péssimos resultados de dormir no sofá há tantos dias.
— Você deveria parar com essa bobagem de me fazer companhia todas as noites. — Hermione dissera, notando que fora um pouco grossa demais. Concertou-se: — Como espera defender a Grifinória no jogo da semana que vem se sequer está inteiro?
— Ora, Mione. — Ele rira de lado, uma feição malandra. — Sou um excelente jogador!
— Claro. — Ela concordara somente, impedindo que seu assunto mais detestável aflorasse na conversa. — Que tal ir para o dormitório se arrumar, uh? Estou indo fazer o mesmo.
— Ah sim. Hoje temos poções, não é?
— Com certeza. Agora ande, nunca se sabe como é um novo professor.
— Mione, você mesma ouviu meus pais falando sobre ele. Não exagere. É um mongol! — Ron dissera impulsivamente, recebendo um olhar mortal. Criticar professores diante da garota, por pior que eles fossem, era algo sempre digno de morte.
— Ande. Já. — Ela falara ao apanhar o livro do sofá, rumando para seu dormitório.
— Sim, Sra. Weasley. — Ron rira antes de sumir pelo corredor masculino.
Aquilo fora uma menção à mãe, Molly Weasley, ou uma tentativa de associá-la como uma possível esposa mandona? Bem, era melhor ignorar aquilo para o bem da saúde do amigo.
O dia seria longo, a morena ponderou ao iniciar a sessão de higiene matutina com um banho demorado. Não dormir durante a noite possuía suas vantagens, como aquela, visto que as outras garotas no dormitório ainda estavam preenchidas em sono pesado. Enquanto a água quente caía pelos ombros desnudos, ela se lembrou de que teria uma conversa requisitada pela professora McGonagall. Aquilo ainda a estava deixando um pouco relutante, mas não deveria ser nada demais.
Deixando o delicioso chuveiro para trás, pôs-se a arrumar os cachos com um aceno de varinha, deixando-os maravilhosos. Uma rápida olhada no espelho fora capaz de mostrar-lhe o quanto havia mudado depois das férias. Estava com um corpo que já não lembrava em nada a juvenil que fora outrora, mas seu rosto não condizia com a beleza espalhada pelos poros. Estava visivelmente abalada.
“Vamos lá, dê um sorriso Hermione”.
Ao sussurrar a frase esforçara-se ao máximo para transparecer naturalidade em um sorriso cativante e o resultado a agradara. Era apenas questão de tempo para que aquela amostra de alegria se tornasse real, visto que os amigos possuíam a bela capacidade de deixá-la maravilhada com o mundo ao redor.
Sem pensar em todas aquelas coisas, apanhou os pertences necessários para a aula da manhã e partiu para fora do dormitório feminino que lhe era destinado, logo alcançando a saída da sala comunal da Grifinória. Depois disso fora questão de tempo até que se sentasse na mesa da Casa a se servir do magnífico café da manhã. Ao olhar para os lados, viu-se praticamente sozinha exceto por alguns poucos alunos adiantados como ela. Não havia mais Olívio Wood ou os gêmeos Weasley por ali e isso era estranho; Agora ela era parte do último ano em Hogwarts e a sensação de perca parecia invadi-la a cada dia. O que faria depois?
A garota podia sentir o peso de um olhar direcionado a si, mas não o procuraria ao redor. Por um momento considerou aquilo pouco importante de fato e concentrou-se num pedaço de pudim que se derretia entre os seus lábios. Adoçaria a vida como aquele doce adoçava seus sentidos, pensou sorrindo.
Permitiu-se então considerar que jamais pararia de se surpreender naquela vastidão que era Hogwarts. Mal sabia ela que estava certa.
NOTA DA AUTORA: Mereço comentários? Espero que tenham gostado!