Oi, oi povo! Eis que começa a vida de casada da Hermione, será que ela está preparada?
Carla Ligia: Então flor, acho que você vai se surpreender um pouco de como vai ser essa nova fase na vida deles...
Carla Cascão: Fico feliz que esteja bem. Tudo suaviza com o tempo.
Né?rsrs Hoje as coisas são bem diferentes....
Olha acho que o Snape nem pensou nesses detalhes, ele mal queria o casamento, só o fez por obrigação.... Então... sobre a noite de núpcias... Só não briga comigo tá, eu não tenho culpa de nada, foi o morcegão... *aponta*
Bjs e uma boa leitura.
*****
A lembrança de meus sentimentos por ela é muito real. Por que não posso esquecer?
Severus Snape
Hermione estava muito equivocada ao acreditar que Snape não havia voltado a pensar no beijo que se deram.
Se tivesse podido viajar do lado de fora, com Dobby e o chofer, o teria feito. Gostaria de poder sair de sua presença para não ter que pensar nela.
Possivelmente deveria tê-lo feito... se ao menos não a tivesse visto chorar. Quisera que não se importasse absolutamente e se pudesse, esquecer-se-ia de sua presença.
Deus, se não tivesse chorado.
Deus, se a viagem de volta não fosse tão interminável!
Não era o confinamento da carruagem o que o asfixiava: era ela. Sua proximidade o embriagava. Era impossível ignorá-la. Seu aroma — Maldição! — era o das rosas mais delicadas e doces. Um aroma que se converteu rapidamente em seu aroma e que formava parte de uma intimidade difícil de definir... uma intimidade que tampouco lhe resultava agradável!
Sua noite de núpcias resultou ser da mais estranha... para ambos. Era já tarde quando se detiveram em uma estalagem. Hermione pediu algo para comer e Snape soube muito bem o que era o que se passava na mente dela... Não havia necessidade de perder tempo, decidiu ele. Assim que soltou o garfo, ele a acompanhou escada acima e foi com ela pelo corredor até seu quarto.
Ao entrar no dormitório, a jovem se deteve, e depois se virou. Estava nervosa. ele podia senti-lo... e podia vê-lo também. Não tinha nenhum desejo de prolongar a incerteza.
—Mandarei à mulher do hospedeiro para que a ajude — disse — E pela manhã também. Que tenha uma boa noite. Veremo-nos no café da manhã. — Fez uma ligeira inclinação de cabeça e saiu.
Por essa mesma razão, à manhã seguinte se sentou junto ao chofer na carruagem. Estava bastante seguro de que Hermione se sentiria uma vez mais aliviada, e o desconcertava não estar seguro se isto o agradava ou o ofendia! De qualquer forma, sentiu-se obrigado a passar parte do dia com ela.
A cada dia, quando ocupava seu lugar dentro da carruagem, sentava-se no lado oposto, como se este comportamento fosse o mais normal do mundo. Entretanto, o tamanho do compartimento era tão reduzido que não havia um só dia em que não se tocassem.
Seus joelhos se roçavam cada vez que a castanha tentava de estirar-se para ficar cômoda (supôs que era difícil evitar, já que suas pernas eram tão longas como as dele). Acontecia com bastante frequência, descobriu, o que o fazia supor que talvez não fosse muito boa viajante. Ou que não estava muito cômoda com sua companhia.
Nenhum dos dois parecia inclinado a conversar. Quando o faziam, o tema se reduzia sempre ao tempo. À comida. Às condições do caminho. Ele sempre cavalheiresco. Ela sempre educada.
Nunca uma viagem foi tão longa! Snape estava desejando que acabasse.
E quanto ao que viria depois... O moreno tentou desviar esse pensamento da mente, bastante estúpido, descobriu. Não queria pensar nela como em uma obrigação.
Não era justo.
Entretanto, Deus sabia o quanto era difícil para ele pensar nela como em sua esposa.
Esse era um dilema, suspeitou, que os dois tinham que enfrentar. Algo que o irritava de sobremaneira, sem saber muito bem por que!
A viagem de ida e volta a Londres costumava durar uns poucos dias. Mas em deferência à comodidade de Hermione, Snape tinha disposto que se detivessem uma vez ao dia para descansar, e de novo outra vez para passar a noite em alguma estalagem.
Era quase o final do terceiro dia quando ela se ergueu. Esteve olhando a paisagem de forma ausente durante um momento. Mas de repente, ficou reta, como se tivesse tido uma revelação.
—Meu Deus — disse fracamente.
Snape moveu uma sobrancelha.
—Ocorre algo? —perguntou.
—Nada — respondeu ela imediatamente — É só que...
Calou-se. Baixou a cabeça e centrou por um momento a atenção em seu colo. Depois, voltou outra vez a olhar pela janela. Foi então quando ele se deu conta de que sorria, embora o fizesse de uma maneira que parecia como se quisesse escondê-lo.
—Está pensando em algo?
—Aye — disse, com sotaque escocês, a primeira vez que revelava ao falar de suas origens — Quero dizer, não.
— Perdoe se não a entendo — fez notar o moreno — mas tanto o tema como a lógica me escapam.
Ela mordeu o lábio e ele teve a estranha sensação de que ela se debatia em seu interior.
—É só que..., ah, por Deus bendito. Acaba de me ocorrer... — começou a rir, quase incontrolável, ao menos isso pareceu a ele. Teria que preocupar-se com ela?
—Hermione? Hermione!
Só muito depois se daria conta de que a tinha chamado por seu nome de batismo sem as formalidades. Saiu de uma forma tão espontânea que se surpreendeu cada vez que pensava nisso. Era como se tivesse estado fazendo sempre...
—Não estou louca. De verdade! Embora entenda que pense. Mas estamos casados... Há quanto tempo? Quase dois dias completos. E aqui estou eu (aqui estamos nós), e não tenho a mínima ideia para aonde nos encaminhamos. Aonde demônios vamos?
—A minha casa. — se soou irritado, não pôde evitá-lo.
—Sim, sim. Disse-me que sua casa estava no campo. Mas em que campo? Ao norte, se me atrevesse a adivinhá-lo.
—Yorkshire — informou — ao redor dos paramos.
—Nunca estive nos paramos — foi tudo o que ela disse.
Não parecia desiludida, algo que o agradou, embora não estivesse seguro do motivo.
—E sua casa? Tem um nome?
Sentiu uma pontada no peito.
—Rosewood Manor.
—Rosewood Manor — repetiu ela com um sorriso nos lábios — Soa muito bem — disse.
Ao pensar em sua casa, a pressão que oprimia o coração se fez de repente mais intensa. Havia uma parte dele que desejava com todas suas forças voltar para casa. Sempre odiava estar fora. Apesar de todas as lembranças tristes associadas a essa casa, foi impossível para si viver em outro lugar.
Ah sim, amava Rosewood. Sua paz e sua tranquilidade. Mas havia vezes nas que era insuportável para si. Não a terra. Nem a chuva. Mas sim as tormentas. Nem sempre foi assim, recordou-lhe uma voz em sua cabeça. Houve um tempo em que tudo parecia maravilhoso. No que saboreava inclusive os relâmpagos enfurecidos que cruzavam o céu, os trovões que faziam retumbar a terra. Apoiou a cabeça sobre a almofada, tentando afastar estas lembranças. Uma vez — só foi uma—, tia Minerva tinha sugerido amavelmente vender Rosewood.
Não podia.
Tudo dentro dele gritava que não o fizesse. Nunca venderia Rosewood. Ele tinha crescido ali, casou-se ali... Amava muito esse lugar para ir embora. Na realidade, não podia imaginar-se vivendo em outro lugar. Ao mesmo tempo, sentia um forte ódio por este lugar ao que sempre tinha chamado de casa.
Porque Rosewood era tanto seu bem-estar como sua maldição. Sua paz... Como seu castigo.
****
Na última hora da tarde do quarto dia de viagem, Hermione tirou o chapéu. O ar era quente tão dentro da carruagem como fora, embora não tão caloroso como em Londres.
Ao fazê-lo, a luz do sol iluminou a aliança dourada de seu dedo. O anel estava reluzente e novo, com as iniciais de Snape e dela gravadas junto à data do casamento.
Sentiu-o pesado. Estranho, como se tivesse ainda que acostumar-se ao tato em seu dedo.
E também sentiu o peso do olhar do agora marido. As suas faces se acaloraram, e não precisamente pelo calor. Acariciou as dobras da saia para manter os dedos ocupados em algo. Não queria que ele descobrisse seu sobressalto.
—Uma hora — disse ele — Não mais.
Ela se ergueu e olhou para fora. Tinha havido uma sutil mudança na paisagem que até agora tinha escapado a sua atenção. Tudo ao seu redor eram colinas suaves. Entre os terrenos de cultivo, os homens trabalhavam o campo. Passaram grupos de gado e rebanhos de ovelhas gordas e cobertas de lã. A carruagem estalou atravessando povoados presos em verdes vales, onde as crianças brincavam frente de casas com telhados vermelhos. Uma menina pequena os saudou com a mão, o rosto rosado e redondo, aberto em um sorriso. A castanha devolveu a saudação, recordando Lively com nostalgia.
Aos subúrbios desse povoado, passaram por uma velha igreja normanda e depois o caminho se fez mais íngreme. Chegaram ao alto de uma colina e a seguir giraram bruscamente.
Ao leste se estendiam uns vales profundos e intermináveis. Ao oeste e ao norte, passavam-se as florestas de urzes ondulantes além de onde o olho podia alcançar. E não faltava muito para que florescesse, a julgar pelo suave manto violeta que o cobria.
Era tão parecido com Gleneden que Hermione não pôde conter uma exclamação.
Snape esteve observando-a fixamente.
—O que acha, milady? Bastante diferente de Londres, tanto por distância como por aparência. Os que não são daqui costumam considerar mais ameaçador.
—Ameaçador?
Era evidente que ele não esperava esse suave toque de alarme no que se converteu sua risada. Levantou uma sobrancelha.
—Acredita que não é?
—Nunca — se limitou a dizer — O que eu vejo é esplendor. Tranquilidade. Uma harmonia da terra e de tudo o que a contém.
—Ainda não viu todas as faces do paramo — disse ele em voz baixa — É possível que mude de opinião.
Não teve oportunidade de responder. A carruagem deixou o caminho e girou para um atalho estreito rodeado por árvores e um pequeno muro de pedra.
Era ali onde a viagem terminava. Apesar do muito que gostava do campo, tinha imaginado que a casa de Severus Snape seria um lugar solitário e sério, uma casa parecida com o homem que a governava.
Mas diante ela se elevava uma encantadora mansão de pedra, com janelas amplas e rematadas em ferro na fachada, e paredes cobertas de glicina.
A porta da carruagem se abriu. Dobby apareceu com uma expressão satisfeita no rosto... ou isso pareceu a Hermione. Snape desceu com um pulo antes que o homem pudesse desdobrar os degraus (uma tarefa que fez ele mesmo) e depois lhe ofereceu a mão.
—Bem-vinda a Rosewood Manor, milady.
****
Não houve reunião de criados para dar boas vindas ao senhor e a sua nova esposa. Hermione subiu ao alpendre da entrada por uma bonita escada de carvalho inglês. Ali ficou um momento olhando o que os rodeavam enquanto Snape falava em voz baixa com Dobby perto da entrada.
Foi o senhor quem a levou ao seu dormitório no segundo andar. A jovem achou estranho não ver nenhum outro criado, mas recordou que na casa dos Granger, sua casa em Gleneden, tampouco se seguiam muitas formalidades.
Quanto a ela, em que diabos estava pensando? Gleneden já não era sua casa. Rosewood Manor era agora sua casa. E seu sobrenome tinha deixado de ser Granger.
Além disso, começava a pensar (ou melhor dizendo, rezava para que assim fosse!) que depois de tudo não ia ser nenhuma desgraça viver ali.
Seu quarto tinha um tamanho modesto. As paredes eram de uma cor dourada tênue, a carpintaria e as portas de branco. Cheirava a recém-pintado e pensou que era um detalhe de que o marido se ocupou. O dossel da cama e o da colcha eram de veludo vermelho, os lençóis de seda vermelha estampadas em damasco dourado. Tudo era claramente feminino, uma observação que a levou imediatamente a olhar a porta que havia em frente à cama com dossel.
O seu coração começou a pulsar com força. O quarto de Severus? Perguntou-se.
Passando por cima deste pensamento, seguiu explorando seu quarto. A janela tinha um lugar para assento coberto de almofadas macias e confortáveis. Continuando, uma porta no estilo francês conduzia a um terraço. Hermione saiu e descobriu que era tão grande como a fachada da casa.
Não pôde evitar uma exclamação satisfeita. Dali se podia ver um profundo vale verde, uma faixa de florestas de urzes. Não custou imaginar uma lua prateada suspensa no céu à meia-noite. Sem dúvida era o lugar perfeito para pedir desejos às estrelas...
Que estúpida era! Era adulta para pedir desejos às estrelas. Agora estava casada, e não devia estar pensando em sonhos de crianças.
Reprimindo um suspiro, virou-se para voltar para o interior. Foi então quando se deu conta de que havia outra porta aberta a apenas alguns passos da dela.
O seu coração parou por um breve instante. Podia se ver o outro quarto dali. Seu quarto era adjacente ao de Snape. Reconheceu a mala que havia em cima da ampla cama com dossel. Na realidade, todo o mobiliário era imensamente grande comparado com o de seu quarto. O armário finamente decorado e a escrivaninha junto ao balcão.
A necessidade de entrar era quase insuportável. De fato, deu um passo adiante, com uma mão posta na maçaneta dourada. Então, de repente, algo a disse que estava entrando onde não deveria.
Retrocedeu e voltou a entrar em seu quarto.
A viagem foi exaustiva. Depois de deixar Londres, cada dia tinha começado muito cedo e terminado tarde pelas noites. Hermione se deitou para dormir um pouco, mas foi incapaz de conciliar o sonho. Era incrível o quão cansada podia sentir uma pessoa sem ter feito absolutamente nada em todo o dia! Havia muito... bom, não estava segura do que era, mas o certo era que não podia dormir! Começou a perambular de um lado a outro do quarto.
Quando ouviu que batiam na porta, sentiu-se verdadeiramente aliviada. Dobby ficou de pé no corredor. Olhou-a com um grande sorriso.
—O jantar espera, milady — anunciou alegremente.
De caminho ao piso de baixo, a castanha percorreu com os dedos a fina camada de pó que cobria a moldura do corredor.
—Dobby — perguntou — quem é a governanta? — Mais que isso, talvez devesse ter perguntado onde estava a governanta.
Ele se deteve em seco.
—Bom, milady, não há. Só está a milady Molly, a cozinheira — explicou— Fred, o servente, e eu. Ah, e George, o rapaz dos estábulos. É assim desde que... — calou-se — faz tempo — concluiu — Temo que às vezes seja muito para a milady Molly.
Sentia-se incômodo, não havia dúvida disso. E embora a jovem estivesse bastante surpreendida, não quis prolongar seu mal-estar.
Dedicou-lhe um sorriso.
—Obrigada, Dobby. Aprecio sua franqueza.
—Para servi-la, milady. E se me permite isso, eu gostaria de dizer que é um prazer tê-la aqui em Rosewood.
Sua boa vinda chegou ao seu coração. E a conservou inclusive muito depois de que seu marido entrasse na sala de jantar.
Snape fez notar sua presença com uma inclinação de cabeça. Tinha reservado uma cadeira para ela a sua direita. Hermione se perguntou por que não a tinha posto ao outro lado da mesa. Depois de ver o estado no que se encontrava a casa, não pôde evitar surpreender-se pelo excelente jantar. O cardápio era simples, mas saboroso, justo o que necessitava.
Ao terminar, o moreno mostrou o salão. Sentada no bordo de um pequeno sofá, a castanha olhou ao seu redor. Pôs os olhos na mesa auxiliar que havia em uma lateral. A sala estava decorada com muito prazer, pensou, mas definitivamente necessitava uma boa limpeza. Era, decidiu, algo do que teria que se ocupar no dia seguinte.
Snape foi para a mesa que havia perto da janela.
—Um copo de porto? —perguntou.
Assentiu. O porto era suave demais, mas o uísque... era algo que gostaria de se servir para tranquilizar seu repentino nervosismo. Ele tinha algo em mente. Hermione podia senti-lo. Quanto a ela, bom, não tinha sentido tentar negar o que ocupava seus pensamentos.
O casamento ainda tinha que ser consumado. Estranhou — por um momento se sentiu até agradecida—, que ele tivesse escolhido postergar sua iniciação até que chegassem em casa. Era perfeitamente normal estar assustada pela noite que a esperava.
Ele serviu uma taça para ela e outra para ele. Hermione se distraiu olhando as suas mãos, seus dedos longos e delgados. E se perguntou como seria sentir esses dedos quentes e masculinos em seu corpo. O seu coração começou a pulsar com força. A sua face ardia.
Quatro dias atrás, sua vida tinha dado uma virada. Não lutaria contra o que já não podia mudar. Mas de repente, deu-se conta de que desejava que este dia e esta noite passassem o mais rápido possível.
Estava disposta a fazer que seu casamento funcionasse. Assim que passasse a primeira noite, tudo seria mais fácil. Tudo seria melhor, disse a si mesma.
Aceitou a taça que ele a ofereceu. Ele segurou a cadeira adjacente.
—Está contente com o quarto?
Ela sorriu.
—Sim, a vista é incomparável. Mas imagino que você já sabe isso.
—Alegro-me. Temo que foi preparado a toda pressa. Se houver algo que deseje mudar...
—Não, não, tudo é muito encantador.
Ele pôs o copo a um lado.
—Há algo de que devemos falar — disse ele em voz baixa.
—Sim? — deu um sorvo de vinho.
—Este casamento.
“Este” casamento. E não... “nosso” casamento.
Foi a escolha de palavras, nem tanto o tom acalmado de sua voz, o que fez que uma campainha de alarme soasse em sua cabeça. Ela acreditava que sabia o que ia acontecer. Agora, já não estava tão segura. Mesmo assim, ele foi muito amável durante todo este tempo. Cortês, por surpreendente que pudesse lhe parecer. De alguma forma, conseguiu recuperar a coragem que necessitava.
—Se não se importar, isto... não necessito que me explique. Portanto, não há nenhuma necessidade de falar...
—Sim, há necessidade.
Soou irritado. Levantando-se, percorreu o aposento com tanto nervosismo como fez ela antes em seu quarto. Por fim, deteve-se diante da lareira.
Sua expressão era muito pouco tranquilizadora.
—Por que está zangado? — disse ela com suavidade.
Ele tocou o queixo brevemente com os dedos, como frustrado.
—Não estou zangado — disse.
—Ah, não?
—Não. Perdoe-me se pareço assim. — seu tom era brusco. Deixou cair as mãos pelos lados dos quadris. Levantou a cabeça — Sejamos francos, Hermione. Sério, não estou zangado. E você não precisa estar ansiosa. Não precisa temer pelo que vai passar esta noite.
—Obrigada — disse ela com seriedade. Voltava a ter as faces ardendo — Admito que sim, que estou ansiosa. Não é que queira... evitar esta noite. É apenas que nunca... nunca...
—Me surpreenderia — a interrompeu bruscamente — se fosse de outro modo.
Nesse momento seu rosto era uma brasa ardendo. Deus bendito, de verdade estava aí sentada falando sobre sua virgindade com o homem que estava a ponto de tirá-la.
—Sim, bom, por isso, eu gostaria simplesmente que soubesse que...
—Hermione.
—...que estou consciente do que devo esperar. E não me...
—Hermione!
Ela não queria olhar para ele. Quando por fim o fez, descobriu que tinha uma expressão bastante ofuscada. Por que não se surpreendeu? Perguntou-se com um toque sarcástico.
Mas não. Isto estava saindo das suas mãos.
—Parece-me — disse recuperando o controle — que estamos fazendo uma montanha por algo que acontece em todos os casamentos.
Sua expressão era de ferro.
—Asseguro-lhe isso, Hermione: é necessário que falemos.
—Por quê?
—Não acredito que entenda o que estou dizendo.
—E bem, o que é que está dizendo?
—Não vou tocar você. Nem esta noite, nem amanhã, nem nunca.
Ele tinha razão. Não tinha entendido. Não o entendia. Estas noites durante a viagem ela tinha acreditado que possivelmente ele esperaria chegar a Rosewood. Por respeito a sua virgindade. Porque, outra coisa podia ser se não?
—O que? — disse fracamente.
—Não tem por que preocupar-se, Hermione. Estou seguro de que pensou que uma esposa deve responder ao seu marido na cama. Simplesmente quero que saiba que não te pedirei essa obrigação em particular.
Ora, tinha advertido que seriam francos um com o outro. Mesmo assim, não estava esperando tanta sinceridade... muito menos algo dessas características!
Olhou para ele, desconcertada.
A julgar por sua expressão, não parecia disposto a repetir o que havia dito.
Respirou fundo. Se ele não tinha reparos em falar com tanta franqueza, ela tampouco os teria. Mesmo assim, era mais fácil pensá-lo que fazê-lo.
—Está-me dizendo que espera que fique aqui, que viva contigo... como se fôssemos irmãos?
Não gostou dos termos.
—Não exatamente.
—Então, como... exatamente? — o aborrecimento começava a oprimir o seu peito, cortante e seco. O aborrecimento... e a imagem de sua boca na dela, da noite em que a tinha beijado no terraço.
—Não viveremos como marido e mulher.
Hermione engoliu em seco, com os olhos fixos no rosto dele.
—É... — Deus, mas como podia dizer isto de uma forma delicada— impotente?
Pela recriminação de seu olhar soube que não era.
Olhou para ele paralisada. Era como se não pudesse pensar.
—Então o que é?
Ele apertou a mandíbula.
—Isto não é fácil para mim, Hermione!
—E é para mim? — ela estava de pé, como se alguém de repente tivesse colocado uma faca nas suas costas. Apertou os lábios. Os seus olhos ardiam— Por que, Severus? Acredito que mereço uma explicação. Por que não viveremos como marido e mulher?
—Não posso ser um bom marido. — seu tom era rouco— Fique tranquila, Hermione. Não é você. Sou eu. Não... não posso ser um bom marido para ninguém.
“Fique tranquila”, disse. Ela sentia tudo menos tranquilidade. E mais, sentia-se indignada. Desconcertada. Ferida. Sentia-se flutuando em meio de uma dúzia de emoções diferentes.
Mas, sobretudo, sentia-se humilhada. Além do racional. Além do que alcançava a compreender. Além de nada que tivesse conhecido então.
—Então — disse lentamente — Não compartilharemos a cama. Não compartilharemos o quarto. Não dormiremos juntos. É isso o que quer dizer? — Utilizou a consciência em cada uma das palavras, com rebuscada precisão.
Ele não disse nada.
—Disse-me que é... necessário... que entenda. Assim, por favor, peço-te que fale com claridade.
Mesmo assim, ele não disse nada.
—Devo assumir então que, não faremos amor?
Sua expressão se tornou sombria como a noite. Sua boca tinha uma expressão que partia o seu rosto.
—Diga, Severus. Posto que estejamos sendo “francos” um com o outro, diga.
—Sim. Não... não faremos amor.
Hermione pensou em seus pais. Um aperto de mãos. Um olhar cúmplice quando pensavam que ninguém os olhava. Ela não era tão inocente, ao menos não nessa forma. Sabia o que era o amor físico. Sabia o que era o verdadeiro amor, que seus pais se professavam. Que Ginny e Harry compartilhavam. O tipo de amor que ela sempre tinha querido para si.
Ah, sentia-se tão estúpida!
Aparentemente seria lhe negado tudo. Seu coração deu um grito desesperado.
E nesse momento, pensou em Ginny e Harry. Deus, era como se tivesse passado uma vida inteira desde que Lively e Frolic tinham vindo a pular sobre sua cama. Embora não lhe tinha dedicado muita atenção a este pensamento, nunca tinha duvidado de que algum dia teria seus próprios filhos.
—E se eu quiser filhos? — perguntou fracamente.
—Não quero filhos.
Uma afirmação inexpressiva. Com uma esmagadora convicção. Não somente teria que enfrentar um casamento que era uma farsa. Negava-lhe também o que muitas mulheres desejavam acima de tudo.
Sentiu uma dolorosa pontada no peito. Gostaria de não ter perguntado!
Impotente, olhou para ele fixamente. Podia ver a dor em seu coração? Importava-lhe acaso? Não o entendia. Não “o” entendia.
—Esperaremos o tempo necessário — seguiu dizendo — e depois nos separaremos. Um ano será suficiente. Possivelmente dois. Uma vez divorciados...
Hermione gemeu.
—Divorciados? — gritou — Nunca poderei voltar a me casar. Ver-me-ei condenada ao ostracismo.
—Eu levarei toda a culpa. Ninguém poderá dizer nada mau de você. Pode dizer o que quiser. Que te enganava.
Tudo girava ao seu redor. Tão boba foi que nem sequer tinha considerado essa possibilidade? Sua garganta ficou seca. Era uma prática comum, embora resistisse a acreditá-lo, mas nunca tinha imaginado que pudesse acontecer com ela!
—Me será... infiel?
Pareceu que ocorria uma eternidade antes de ouvir a resposta.
—Não — disse ele em voz baixa — Não te serei infiel.
Sua amargura a pegou despreparada. Pedia muito dela. Entretanto, não lhe deixava outra opção que aceitar.
—Entendemo-nos então?
Hermione tomou ar, tratando de guardar a calma, tanto por fora como por dentro. Por dentro tudo queimava. Mas não deixaria que ele visse, não deixaria que suspeitasse sequer. Não se acovardaria. Não se arrastaria diante dele, não seria uma covarde, e por Deus, não choraria. Em vez disso manteve a cabeça alta, os ombros erguidos e o olhar destemido.
—Parece que sim — disse, em voz muito baixa — Escolheu não pensar em mim como uma esposa. Por conseguinte, eu terei que me esforçar em não pensar em você como meu marido. Mas há algo que quero que você entenda também. Se pudesse escolher se quero dormir nos braços de meu marido noite após noite, o consideraria um privilégio... e não uma obrigação.