Um mal entendido...
Sirius correu o máximo que podia, porém ainda achava que, como era um cachorro deveria ser mais rápido! Como deixara Remus escapar assim? Fora feito de bobo, por um lobisomem! Com certeza James o mataria quando soubesse. Demônios! Até quando virava lobisomem Lupin ainda era mais esperto que Sirius!
James apareceu em meio às árvores, um grande cervo! Animal que não agradara a Sirius nem um pouco, mas James dissera relutante que era um dos mais ágeis do mundo inteiro. Que era perfeito! Sirius, no entanto preferira ser um cachorro. Grande, forte e feroz!
Ajudava muito ser um animago quando Remus virava lobisomem. Na pior das hipóteses poderiam, ao menos, ficar juntos. Mas aquela era a pior das hipóteses e eles não estavam juntos.
- Ei Almofadinhas! – James assumiu a forma humana novamente – Onde está o Aluado?
Sirius balançou a cabeça de um lado para o outro coçou uma pulga com a pata traseira como se não tivesse percebido a presença do amigo.
- Sirius, é sério! – James bronqueou.
Desta vez Sirius o olhou tristemente e murchou as grandes orelhas como um cão que é pego fazendo traquinagens.
– Sirius, cadê o Remus? Vai me dizer que ele te passou pra trás de novo! – James se irritou.
Imediatamente o cão se pos em pé nas patas traseiras e pouco a pouco foi adquirindo a forma humana.
- Do jeito que você fala fica parecendo que sou um completo imbecil. – Reclamou Sirius encarando o outro.
- Certo, me desculpe, ta? – respondeu James impaciente – Agora fala, cadê o Remus?
- Fugiu! – respondeu contrariado.
- O que??? – James gritou – De novo! Sirius, o que eu te falei sobre brincar de buscar gravetos com o Remus transformado naquilo!
- Eu não consigo evitar, James. Sou um cachorro e cachorros adoram essas coisas – explicou-se.
- Mas que droga Sirius! Você é um cão lambão! – James o insultou. – Lambão e pulguento. – ressaltou indignado.
- Ei, Pontas, Almofadinhas! – Pedro saiu de um monte de arbustos espantado – Acabo de passar pela biblioteca, e adivinha quem estava lá?
- Rabicho, isso não é hora para adivinhações. – Sirius o repreendeu – O Aluado sumiu de novo!
- É exatamente disto que estou falando! – berrou Pedro.
- Na biblioteca?! – Sirius quase caiu para trás – Tem certeza, Rabicho?
- Tenho! – afirmou o outro guinchando.
Imediatamente Sirius se transformou em cachorro e James em cervo e saíram em disparada até a passagem secreta mais próxima. Então, Sirius começou a latir desesperadamente e voltando à forma original James e os amigos se aproximaram de uma janela. Olhando através vidro puderam ver o lobisomem que se aproximava da passagem e logo depois a chegada de Severus. Perplexos, presenciaram o bruxo lançar-lhe um feitiço e Remus fugir ganindo de dor.
Imediatamente se transformaram em animais e deram com Remus que passou por eles em desabalada carreira. James e Pedro seguiram a criatura, mas Sirius ainda tentou entrar para atacar Severus. Porém, ao aproximar-se da entrada, ouviu a voz dos professores que se aproximavam e decidiu procurar pelos outros. Encontrou-os em uma clareira, ainda transformados, para sua própria segurança, pois Remus ainda era um lobisomem. Aproximando-se um pouco mais Sirius notou que o amigo estava deitado em cima de uma porção de folhas gemendo e sangrando. Preocupado, aproximou-se e lambeu fraternalmente as feridas do lobisomem que pareceu retribuir com um olhar de agradecimento.
Penalizado, James decidiu que precisava ajudá-lo de alguma forma. Então, afastou-se e voltou para o castelo. Talvez pudesse encontrar algum dos professores, senão o próprio Dumbledore. Para seu alívio encontrou o diretor da escola, acompanhado de um professor, logo na saída da passagem secreta e, sem precisar revelar-se, os guiou, como pôde, até o local em que Remus estava desmaiado.
Com a chegada de Dumbledore, Sirius e Pedro se esconderam. Então o diretor se aproximou do garoto e examinou seus ferimentos. Aliviado, constatou que nenhum era fatal. Ele iria se recuperar.
- Pobre menino!Tão jovem e já tendo que passar por tantas provações! – com um movimento da varinha Dumbledore estancou o sangue dos ferimentos. Em seguida, voltou-se para o professor pediu-lhe – Por favor, Rufus, leve-o para a enfermaria e diga a Madame Pomfrey para mantê-lo isolado dos outros pacientes. Assim que eu puder, irei vê-lo.
Assim que os professores se afastaram levando Remus, os três amigos, ainda transformados em animais, correram de volta para o castelo. Logo na entrada da passagem secreta, James e Sirius voltaram ao normal e se meteram debaixo da capa da invisibilidade que James trazia escondida em suas vestes, enquanto Pedro, que se transformara em um rato, correu o mais rápido possível se ocultando de trás das cortinas e objetos que encontrava ao longo do caminho de volta a sala comunal da Grifinória.
Por sorte, não encontraram Filch, madame Norah ou Pirraça, e assim foi fácil chegar até o retrato da mulher gorda que resmungou ao ser despertada, mas liberou o caminho facilmente diante da senha dada em um sussurro por Sirius. Ao entrarem, constataram que a sala estava vazia, porém dirigiram-se rapidamente para o dormitório que compartilhavam os quatro amigos. Então, James jogou a capa para o lado enquanto Pedro tomava forma logo adiante e Sirius desabava em cima de sua cama. Os rapazes ficaram por um tempo quietos sem ao menos se olhar, apenas cuidando de se prepararem para dormir até que a vozinha fina de Pedro soou irritantemente no quarto:
- E o Aluado, gente? Será que ele vai sobreviver?
- É claro que vai, Rabicho! – James o repreendeu – E nem pense o contrário. Dumbledore está cuidando dele agora, vai ficar tudo bem. – acrescentou mais para si mesmo que para os outros enquanto vestia um pijama.
- Eu sei, Pontas! – Pedro tentou se explicar – Mas é que eu nunca tinha visto nada igual! – podia-se perceber uma ponta de excitação crescendo no coração de Pedro que largara as cobertas no chão – O que será que aquele imundo do Ranhoso usou? Que feitiço era aquele?
- Não interessa, Rabicho. – A voz de Sirius sobrepôs-se à de Pedro bruscamente, firme e feroz. – A única coisa que me importa é que ele vai ter o que merece.
- Sirius... – James chamou assustado – No que está pensando?
- O que você acha, James? – Sirius respondeu irritado – Você viu o que ele fez com o Aluado.
- Não precisa me lembrar, eu estava lá! - retrucou James – Acontece que Remus é um lobisomem, e se ele atacou o Ranhoso?
- Corta essa, James! – Sirius levantou-se bruscamente da cama - Você viu! Snape estava perseguindo o Remus!
- O Sirius está certo, James. – Rabicho aproximou-se dos dois – A poucos dias ouvi uma conversa de Snape com o Malfoy e, pelo que pude entender, Snape estava desconfiado da existência de um lobisomem na escola e, pelo jeito, ele queria pegá-lo.
Sirius e James se entreolharam e o jovem Black disse com o tom decisivo de quem está com a razão:
- Você viu, Pontas? O Ranhoso queria pegar o lobisomem. Foi pura maldade, ou você vai dizer que ele não sabe que os lobisomens são seres humanos quando não é lua cheia? – desdenhou.
James sentiu seu rosto queimar de raiva, com certeza deveriam punir Snape. Mas não deveriam arriscar revelar o segredo de Lupin.
- Sei que o Ranhoso fez por maldade, Almofadinhas, e isso não deve ficar assim. – Sirius sorriu satisfeito. – Mas devemos cuidar para que ele não descubra a verdade, ou o Aluado estará em sérios problemas.
- Ranhoso nojento. – Murmurou Pedro extasiado – Prepare-se para ter o que merece!
Os outros dois o olharam sorrindo. Aquela frase resumia exatamente tudo o que os três sentiam naquele instante. E, mesmo depois de se deitarem, não conseguiriam dormir tranqüilos, preocupados com Remus e bolando mil maneiras de dar o troco em Severus.
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Apesar da noite agitada, Severus dormiu muito bem. Madame Pomfrey dera-lhe uma poção para restaurar os ossos quebrados e agora ele não sentia nada. Acordou animado com a notícia de que já poderia sair da enfermaria. Finalmente poderia ver Lily! Estava ansioso para reencontrá-la. A noite anterior havia sido a melhor de sua vida, até o momento! Sabia, agora mais do que nunca, que ela também o queria. Tinha certeza que suas vidas estavam entrelaçadas e que nada os impediria de viver o que sentiam. Pela primeira vez em anos pôde dormir sem ser atormentado pelos velhos pesadelos com o pai lhe surrando a cada ataque de fúria ou com os gritos da mãe, tão vítima quanto ele nas mãos implacáveis daquele homem.
Severus balançou a cabeça para afastar as lembranças da terrível infância. Nada daquilo importava agora. Ele tinha Lily! Ajeitou a roupa da enfermaria que usara durante a noite e a colocou na beirada da cama. Então sentiu um perfume que reconheceu imediatamente: era o mesmo que ele identificara certa vez na aula de poções ao preparar uma poção do amor, era o cheiro de Lily! Respirou profundamente aquele perfume maravilhoso e sorriu ao deixar a presença doce de Lily penetrar-lhe os sentidos:
- Pelo visto já está pronto para outra! – disse a jovem contente.
Severus virou-se para ela. O sol da manhã entrava pela janela e dava aos seus cabelos um tom forte como o fogo, realçando o branco de sua pele. Era linda e Severus constatou satisfeito que sempre soubera disto.
- Você está bem? – Lily aproximou-se ansiosa.
- Estou ótimo! – respondeu entre um sorriso.
- Que bom! – Lily amava aquele sorriso, mas ele era tão raro que a garota lamentava não poder vê-lo sempre. – Eu vim te agradecer... – suas faces se avermelharam – por ontem à noite.
- Não há de quer! – respondeu Severus pensando em seu íntimo que faria a mesma coisa mil vezes ou enquanto tivesse vida. E continuou a olhá-la.
- Como está seu pé? – perguntou curiosa
Severus sentou-se na cama e ergueu o pé para que Lily pudesse vê-lo.
- Totalmente recuperado. Mas ontem, parecia ter sido esmagado por um trasgo. – explicou ainda sorrindo.
Lily gargalhou com a brincadeira e quase se esqueceu da angustia que sentira ao ver Sevie ferido. Em um impulso levou sua mão ao pé outrora ferido e o acariciou. Sevie sentiu uma sensação reconfortante ao receber a carícia e pode jurar que aquele contato era melhor que qualquer poção de madame Pomfrey.
- Sabe, tivemos muita sorte ontem. – ela se aproximou mais da cama – Quero dizer, foi tudo muito perigoso.
- Tem razão! – respondeu Severus lembrando-se que, desde criança, nunca soubera lidar bem com sentimentos e, por isso, chagava até a temê-los. – Mas não me arrependo de nada.
Lily notou espantada que uma simples observação dita por Sevie, olhando em seus olhos daquela forma, a fazia se sentir como se ela flutuasse e de repente pudesse alcançar o céu. O que queria dizer aquilo? Será que Sevie a amava?
- Porém, há algo que lamento profundamente. – Sevie continuou.
A jovem estremeceu. Com certeza ela também lamentava a noite ter terminado daquela forma. Gostaria muito que o encontro tivesse sido completo. Porém a palavra “livro”, dita por Sevie, destoou de tudo o que ela estava imaginando.
- Como? Livro!?
- É, aquele livro de feitiços que encontramos ontem. – explicou com simplicidade – Realmente foi lamentável tê-lo perdido. Levarei séculos para reencontrá-lo!
Instantaneamente Lily sentiu seu rosto pegar fogo. Como ele podia pensar em um livro num momento tão romântico?
- Vejo que está totalmente recuperado! – disse irritada e se afastando – Acho melhor ir ou irei me atrasar para a aula de defesa contra a arte das trevas. – E caminhou em direção à porta – Passe bem, Severus Snape.
Intrigado Severus ficou um tempo apenas olhando Lily se afastar pelo corredor:
- Será que eu disse alguma coisa errada?
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