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12. Mar Revolto


Fic: A Canção da Meia Noite - Atualizado! Cap 24 #Tributo


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 12 – Mar Revolto


 


“É o destino


Que cai sobre você


Porque nada permanece


Por muito tempo


Apenas um milagre


Poderia ter eliminado a dor


Você vê


Agora você parte”


Hunter’s Season - Kamelot


 


   A porta da sala de abriu-se abruptamente, revelando uma mulher jovem. Sentada na cadeira, a médica nem se manifestou, apenas baixou a caneta que usava num prontuário e levantou o olhar.


- Já não aguento mais isso. Não aguento mais ficar apenas olhando, sendo fortemente bloqueada cada vez que faço algo. Tenho que usar meu plano B... Você. – a moça disse, seu tom sério carregando um pouco de nervosismo.


   Lily Evans Potter, mais conhecida naquele lugar como Dra. Evans, soltou um suspiro profundo. Nos últimos dias, vinha fazendo o máximo para se ocupar e não pensar no que preocupava a filha – e ela própria –, porém, por mais que tentasse, em algum momento de seu dia ocorria algo que rasgava o véu da máscara da verdade.


   Mas não era algo que simplesmente pudesse esquecer de fato. Afinal, tratava-se de parte de si, parte de seu sangue, de sua carne; tratava-se do homem corajoso e determinado que cuidara com tanto zelo e amor durante mais de vinte anos e que agora estava irreconhecível naquele estágio depressivo que não somente o destruía, como também aqueles ao seu redor.


   Conhecia Harry como ninguém mais. Logo que soube do que aconteceu com ele, entendeu que deveria deixá-lo sozinho durante um tempo. Ele era assim, tinha um lado independente tão acentuado que vez ou outra lhe dava um aspecto solitário. Sabia que ele se isolaria e fortificaria o já alto muro que o cercava para reforçar a clara ideia de que não ouviria ninguém e ficaria preso em seus próprios pensamentos. As experiências ao longo dos anos a levara a essa conclusão.


   Depois de uns dois dias, ele cairia na aceitação. A partir daí, era possível aproximar-se. Ela fizera isso várias vezes, porém nunca conseguiu extrair tudo o que queria dele e transmitir  toda sua compaixão, o que acontecera apenas com a mulher agora a sua frente. Por isso, deixava com Delinda o cargo de confortá-lo.


   No passado, após Delinda, Harry ficava um tanto mais tranquilo, e aí sim ela entrava com seu espírito materno e acabava de uma vez por todas com o que o atormentava.


   Todavia, havia se passado mais de uma semana, e seu filho mergulhara num estado de agonia, uma barreira tão horrível que nem mesmo a advogada conseguia atravessar. E isso a preocupava, muito.


   Contudo, havia um lado seu que a fazia tolerar um pouco o comportamento de Harry. Desde que ele descobrira seu talento por música, o quanto gostava daquilo e o quanto as pessoas o elogiavam, não pensou em outra carreira sequer. Ele sabia dos riscos, da dificuldade, mas a determinação e o afinco que pôde ver nos olhos verdes tão exatas cópias dos seus quando ele lhe disse que seria músico a encheu de orgulho. Ela esteve ao lado dele em todos os estágios e quando finalmente alcançou seu objetivo, quando conseguiu chamar a atenção do mundo, ele lhe confidenciou que era a única coisa que tinha certeza de ter feito da forma certa em toda a vida.


   Nem queria imaginar o impacto sofrido por ele quando foi arrancado de sua maior criação por outros.


   Por isso, ela não pôde evitar sentir um aperto no coração lhe veio com as palavras de sua primogênita. Seu cérebro pareceu ter recebido uma carga elétrica reversa, bagunçando as sinapses de seu raciocínio sobre o prontuário.


- Tem certeza?


- Absoluta. – ela respondeu, com a convicção de sua advocacia. – Acho que o que ele precisa é de um chacoalho da mãe aqui... E se o chacoalho não funcionar, vou enchê-lo de porrada e danem-se aqueles um metro e noventa de altura contra meus míseros um e sessenta e oito.


   Um fraco sorriso apareceu no canto de sua boca. Até mesmo num momento como aquele a irreverência da filha chegava a lhe divertir.


- Está tão grave assim? – perguntou, a voz de repente tornando-se extremamente preocupada, o que não condizia com uma médica de seu calibre.


   A expressão no rosto de Delinda a encheu de tristeza.


- Só vendo você, mãe. Está na hora de seu papel materno entrar em ação.


   Uma onda calorosa encheu o peito de Lily, trazendo-lhe determinação. Era seu garotinho, seu eterno garotinho, e ela jamais deixaria que ele se autodestruísse quando ainda tinha tanto a mostrar ao mundo.


 


 


   Um buraco negro, onde não se via um palmo sequer, onde tampouco era possível sentir, onde a existência ironicamente não existia. Tão brutal, profundo e horrível. Um vazio em sua plenitude.


   Talvez não houvesse uma definição mais exata para o estado de Harry Potter.


   Fazia uma semana que não saía de casa, uma semana em que a única luz do dia que via era quando abria uma fresta da cortina de sua sala. Mas mesmo assim isso não era de muita significância, pois, na maior parte dos dias, o céu estava cinzento, com algumas pancadas de chuva. Era como se a Mãe Natureza estivesse prestando-lhe sua solidariedade.


   E é claro que isso ele não gostava. Pelo menos o antigo Harry, aqueles que seus amigos lhe disseram nos últimos meses que desapareceu, não gostaria. Esse mesmo diria que não era o fim do mundo, então por que o luto?


   Contudo, o que o homem que andava por aquele apartamento fazia era automático: comer, tomar banho, dormir. Qualquer um o caracterizaria como um boneco se ele não sentisse.


   Ah, mas ele sentia.


   E muito.


   Sentia tanto que, se essas mesmas pessoas tivessem noção disso, ficariam surpresos com seu estado. A resposta que ele lhes daria será simples: música. Se não fosse por ela, com certeza não estaria mais ali, teria enlouquecido.


   Música era a única coisa que o mantinha de pé.


   Basicamente os únicos sons vindos daquela casa eram pesados acordes de guitarras e melodias dramáticas e agressivas do piano. Toda vez que a carga de dor e mágoa parecia forte demais para aguentar, ele recorria à música. Cada vez que tocava as cordas de metal e nylon ou as teclas de marfim, era como se alguém abrisse uma válvula e a pressão escapava. Seus olhos se fechavam; ele transmitia suas perturbações para a música, e ela, numa espécie de mutualismo, lhe dava calma.


   Seu exílio também foi bastante produtivo no quesito composição. Em seu quarto, na sala e no estúdio, várias folhas de papel contribuíam para a decoração do ambiente com palavras escritas, versos e estrofes que exteriorizavam tudo o que lhe incomodava. Nelas, havia dor, raiva, paixão, arrependimento. Algumas foram concluídas, umas permaneciam pela metade enquanto outras tantas eram frases soltas.


   Todas elas, no entanto, eram analisadas agora naquela tarde por ele, deitado no sofá da sala, trajando a mesma calça de moletom que usara para dormir na noite anterior. Encontrava-se mais tranquilo, graças à terapia musical, bem o suficiente para usar o senso crítico e julgar algumas delas “irritantemente dramáticas e estúpidas demais”.


   Claro que o “irritantemente” servia para descrevê-lo. Uma leve irritação se via presente, mais afastada da bola de sentimentos sufocantes no peito, mas que vez ou outra tomava conta. Muitas vezes, por causa de sua irmã, que apareceu em boa parte os dias para vê-lo como estava, o que precisava, se queria conversar.


   Não, ele não queria conversar, inferno! Já tinha música, do que mais precisava?


   No começo, fora até tolerante, mas as visitas rotineiras no início da tarde começaram a irritá-lo. A do dia anterior passou em branco, e ele comemorou silenciosamente.


   Até que, perto das seis horas, ouviu a campainha furiosa tomar conta do apartamento.


   No momento, estava bolando alguma coisa no piano, tão concentrado e inspirado que a raiva veio rápida e letal quando ouviu a criatura ousada que queria tirá-lo de seu conforto. Mesmo assim, foi à porta, e surpreendeu-se ao ver seu agente Neville Longbottom do outro lado da porta ao invés de Delinda.


   Tomado pelo espanto, nem impediu que o homem o empurrasse de leve para o lado, entrasse em seus domínios, falando coisas sobre seu exílio.


- Você tem de se impor, Harry. – dizia enérgico. – Eu sei que eles eram seus amigos... Aliás, eram meus também, porém fizeram algo totalmente covarde e injusto. Por Deus, quem criou aquela banda foi você e todos poderiam sair ou ser expulsos dela, menos você. Que diabos, não é como se fosse sobrar algo ali com a sua ausência. Não, não...


   Pessoalmente, Harry achava que falar rápido era um tique de Neville quando estava nervoso. Quando os dois estudavam juntos em Hogwarts, Neville sempre fora do tipo tranquilo, de poucas palavras, a não ser quando perdia a cabeça.


- E o que você quer que eu faça? – perguntou, encaminhando-se até o meio da sala, onde o outro estava de pé. – Já não contei para você? Eles votaram isso, eles escolheram! Não há nada que eu possa fazer, é a droga da democracia.


- Democracia, não opressão. – o homem virou-se para ele. – E foi isso que fizeram com você, te oprimiram. Deram-lhe a chance de se explicar, de justificar? Não, nada. E é claro que se você tivesse se imposto, a situação seria um tanto melhor.


- Claro, Neville, porque a proporção de um para vinte é muito interessante para uma discussão. – revirou os olhos. Não gostava muito de pensar no fato de ter simplesmente aceitado e ido embora, algo que já fora inúmeras vezes apontado pela irmã.


- Enfim, mas já passou. – o agente falou. – Acontece que agora é hora de agir de verdade. Estive pensando numas coisinhas aqui... Quer dizer, em primeiro lugar isso tem de se tornar assunto oficial. Sites, televisão, essas coisas assim. Aposto que eles manterão tudo em segredinho, o que ouvi de Nick McAllister naquele dia em que passei lá no estúdio me deu essa impressão. Tudo estratégia para manter a imagem da banda. Mas vai ter uma hora que eles não poderão segurar mais, pois o DVD vai sair, a pressão pelo novo álbum começará... E como ele poderá vir sem seu compositor? – concluiu, lançando-lhe um olhar de esguelha.


   Harry ficou ligeiramente estupefato com as palavras. A ideia de cair na mídia com uma notícia daquela não era nada agradável. Até porque o sensacionalismo adorava um drama e ficaria em cima dele sem parar durante semanas. Não, nada de holofotes. Além disso, ele também se sentiria fútil, infantil demais, uma pessoa apenas querendo chamar atenção. Por mais que Hermione Granger e companhia merecessem um baque na imagem do perfeito paraíso, ele prezava mais sua privacidade.


- Nem no inferno. Não quero saber de jornalistas me perseguindo vinte e quatro horas por dia. – Ao ver o outro abrindo a boca, logo emendou: – Não, Neville. Não me importa o que irá dizer. Vamos agir como adultos sérios, não robozinhos superficiais... Sem bem que, considerando os últimos meses, é no que aquelas criaturinhas se transformaram. – e estreitou os olhos ao pensar nos ex-companheiros.


   Longbottom desviou o olhar de si e fixou-o em algum ponto da sala.


- Então que tal um processo? Já disse a você que foi totalmente injusto o que fizeram.


- O quê?


-... Merece uma indenização pelo que está passando, e a julgar pelo que vejo, – seus olhos negros estudaram-no de cima a baixo. – sua situação não está nada boa.


- Que tipo de ideia é essa?! – A incredulidade era demais para aguentar.


-... E você tem a sua irmã, que é advogada. Ela deve saber muito mais sobre isso. É claro que ela não poderá te defender, mas deve conhecer alguém de confiança.


   O guitarrista não conseguia pensar.


- Processo? Mas pra quê? Diabos, não é como se eu precisasse do dinheiro deles, tenho o suficiente para me sustentar por um longo tempo. E daí? Isso não é um pedido formal de desculpas. Não, nada feito. E antes que você diga mais algo, Neville, vou dizer o seguinte: não vamos fazer nada, ou melhor, você não vai fazer nada. – apontou um dedo ameaçadoramente para o amigo.


- Por que não? É o mínimo que merece.


- O que eu mereço é paz, tranquilidade, sem ninguém para me perturbar, algo que não estou conseguindo em minha própria casa. Nada feito, Neville. E, com toda a delicadeza que me falta, se puder ir embora, eu agradeço. Não, é minha decisão final! – exclamou ao vê-lo tomar fôlego para falar.


   Frustrado, o homem saiu do apartamento. Sem pensar um segundo sequer, Harry pegou o interfone e falou para Jeremy, o porteiro, impedir qualquer um que quisesse falar com ele de entrar.


   E a ordem estava sendo seguida até agora. A irritação do dia anterior desapareceu um pouco, transformando-se num filamento que ficava no canto, pronto para dar o bote quando a oportunidade surgisse.


   A concentração, por sua vez, estava totalmente direcionada às letras em suas mãos. Acabou de ler uma, depositou-a numa pequena resma sobre seu peito e começou a passar o olhar pela seguinte. Bastou ler apenas os dois primeiros versos para reconhecê-la do último álbum do Paradise. Um gosto amargo surgiu em sua boca, que só ficou pior ao ler uma determinada frase:


   See me ruined by my own creations” ¹


   Oh Deus, por que o mundo tinha de ser tão torturante e sádico? O pior era que, no caso, ele estava sendo torturante e sádico consigo mesmo. Parecia que, na época em que compusera aquela letra, estava apenas antecipando o que se concretizaria cerca de um ano depois.


   Ele definitivamente se via destruído por suas próprias criações.


   Nem convém mais dizer o quão magoado e horrível ele se sentia. No entanto, parecia que o destino se divertia em vê-lo enfurecido.


   Não foi nem a campainha que soou, e sim três batidas fortes na madeira da porta. Nada que o impedisse de resmungar e mandar tudo para o inferno. E quem poderia ser? Fora claro com Jeremy. Ah, iria trucidar aquele mau-caráter...


   ...Depois, é claro, de trucidar quem viesse encher a pouca paciência lhe concebida.


   Estava prestes a soltar um grande e sonoro palavrão quando viu uma médica ruiva bastante conhecida.


- Mãe? – arregalou os olhos de espanto.


- Olá, querido. – Lily cumprimentou com seu típico tom sereno. – Quanto tempo, não? Resolvi vir vê-lo, já que faz mais de uma semana que voltou de viagem e até agora não mandou nem notícias para mim ou seu pai. – e entrou no apartamento.


   As engrenagens no cérebro dele voltaram a funcionar ao fechar a porta. Claro que aquele não tinha sido o propósito da visita. Por Deus, era sua mãe, uma das mulheres que mais o conhecia no mundo, além de ser extremamente esperta. E podia apostar que havia o dedo de outra pessoa ali. Delinda.


- Sim, sei o que está pensando. Mas, veja, é para seu próprio bem. – O olhar dela encontrou as folhas com as letras. Ela pegou-as e estudou-as durante dois longos minutos. – E é para o seu bem mesmo.


   Harry não soube explicar o que provocou, porém a dor que vinha lhe atormentando por dias apagou a raiva como um balde de água fria. Um baque fortíssimo, como se de repente o chão sumisse sob seus pés.


- Não se preocupe com isso, estou bem. – disse aproximando-se, arrancando as folhas da mão dela e afastando-se de novo. Forçou a voz para mantê-la o mais normal possível, em vão.


- Óbvio que não.


- Vou ficar. – apressou-se a consertar.


- Claro que vai. Só não sabia que iria demorar tanto. – ela ficou em silêncio por alguns segundos, apenas observando-o. A intensidade do olhar o fez desviar seu rosto para a direita. Não estava aguentando, sabe-se lá por qual motivo.


   Ele nada disse. Simplesmente não conseguiu formular algo bom o suficiente. Até porque nada adiantaria, sabia que Lily não iria engolir qualquer desculpa que inventasse.


   Sob aquele olhar, por qualquer motivo idiota, sentia-se impotente, destruído.


   Ao vê-lo de baixa guarda, a ruiva aproximou-se dele, ainda mantendo firme o contato visual.


- Escute, meu querido, eu te entendo. – pôs a mão em um de seus ombros. Sentiu os músculos enrijecerem com o toque e os dentes rangerem ao perceber o tom de piedade que ela usava, mas, ainda sob efeito do olhar dela, permaneceu em silêncio. – Entendo o que se passou... Ou melhor dizendo, entendo o que estava no meio de tudo isso. Por isso mesmo entendo por que ficou assim. Eu sei, é difícil, mas... – ela pausou, como se cogitasse ou não a continuar a falar. – Mas essa é a verdade. O que aconteceu, aconteceu, e, infelizmente, não há nada que se possa fazer em relação a isso. Agora, você pode reerguer a cabeça e parar de ficar se remoendo. Até porque, pense comigo, o que aconteceu não foi culpa sua.


   Mais uma vez, os dentes se apertaram, com uma força tão grande que era difícil de acreditar como não se desfizeram. Contudo, dessa vez não foi por causa da raiva, e sim da dor, que voltou a martelar seu peito de modo dilacerante.


   Sem saber que deixava a mágoa transparecer, quebrou o contato de seus olhos com os da mãe e girou nos calcanhares, procurando aumentar a distância entre eles.


   Lily, por outro lado, manteve-se no lugar. Seus olhos se estreitaram ao se lembrar da conversa com a filha e chegou à conclusão de que aquele era o momento para jogá-lo contra a parede.


- Escute aqui, Harry. – disse, deixando a voz mais séria. – Pare de se isolar, pare de achar que pode resolver tudo sozinho. Sei que você tem esse jeito independente, mas, agora, está mais agindo como um egoísta do que propriamente independente. Acha que todos os problemas só te afetam, mas não é assim. Não vê que está acabando por machucar a mim? Até mesmo seu pai? E o que dizer de sua irmã, não? Delinda está morrendo de preocupação com você, e você simplesmente escolhe ficar aí, sofrendo, achando que só porque sua relação com seus amigos acabou que está sozinho. – Mais uma pausa. – Além do mais, ficar lamentando não vai adiantar nada. Não é como se fosse fazer o tempo voltar e consertar tudo.


   Ninguém seria capaz de saber o quanto Harry se esforçou – ainda mais após ouvir palavras similares as que ouvira de Hermione e de Ron –, usou todo seu poder para ignorar os efeitos que as palavras de Lily traziam. Tudo em vão. A dor parecia ser alimentada por elas, perturbando-lhe ainda mais, como para reforçar a ideia de que não iria embora dali. Como se precisasse de lembretes!


   Ainda havia a questão da ironia. Como seus parentes queriam que ficasse melhor quando o que eles diziam tinha justamente o efeito contrário?


   Aproveitando a irritação que fazia cócegas nele, a voz mais sensata que apareceu no primeiro dia de volta a Londres, dizendo-lhe o quanto era tolo retornou.


   E aí ele percebeu que o discurso de Lily tinha quase a mesma função.


   Céus, a mãe estava certa! Para que ficar remoendo tudo? Tanto tempo gasto de embate consigo mesmo, tentando convencer-se de que não estava agindo de forma fraca quando a verdade vinha acompanhando-o naquele dia. Um fraco, sim. É isso que você é.


   Ah não, não sou, ele respondeu à vozinha mental.


   Claro que não era e iria mostrar isso, principalmente para si mesmo.


   Era como se a ruiva houvesse acompanhando o que se passava dentro de sua confusa mente. Fez mais uma tentativa de aproximação e dessa vez deu certo. Ao puxá-lo pelo pulso, o fez virar-se para ficar frente a frente com ela.


- Você nunca me deu motivo algum para não me orgulhar. – tocou a lateral do rosto dele com seus dedos delicados. – Espero que continue assim. Quero ver o homem determinado e que sei que você é. E, de preferência, quero vê-lo daqui a dois dias na minha festa de aniversário. – emendou, abrindo um pequeno sorriso.


   Harry tentou não arregalar os olhos, afinal, não seria muito decente mostrar a Lily que quase esquecera seu aniversário. Engoliu em seco ao pensar na festa; teria de sair de seu exílio e fingir que tudo estava bem no meio de um bando de pessoas, as quais metade nem conhecia.


   E por que o receio? Não era como se não soubesse mentir ou disfarçar. Aliás, não era isso o que ultimamente fizera no Paradise? Porque era verdade. Vinha contanto mentiras havia tanto tempo que talvez nem fosse capaz de identificar todas elas.


   A ideia em sua totalidade não lhe agradava. Mas era sua mãe e, por mais que não estivesse bem, tinha de ir pela pessoa maravilhosa que era. A pessoa que soubera lhe direcionar palavras duras só para fazê-lo ter o baque da verdade e se dar conta do quão estúpido estava sendo.


   Forçou um sorriso que não saiu como imaginava e foi o suficiente para ver a preocupação amansar nos olhos da ruiva.


- Só não me diga que o traje é formal.


 


 


- Eu pensei assim. Ali vai ficar o bar, é bom, pois é meio caminho entre quem estará na pista e quem ficará sentado. As mesas com o bolo e os enfeites vai ficar mais distante, acho que não fica muito legal ficar ao lado das bebidas... Vê, aquele canto? É espaçoso, não isolado e todos poderão se acomodar para os brindes. Pensei em todas as janelas e as portas de vidro abertas para dar um clima mais tranquilo e agradável. Para isso, os jardins têm que ter o máximo de iluminação. Cores neutras, talvez um dourado e, no máximo, um bege meio salmão. Já falei com Coraline McAllister, ela também acha que ficará magnífico!


   Jane Granger discorria com tanta animação que parecia que tudo aquilo seria feito em sua homenagem. No entanto, quem receberia os holofotes naquele lugar enorme e lindíssimo era a jovem ao seu lado, que mantinha um leve sorriso, o que não passava de fachada, pois, no fundo, encontrava-se meio tristonha, chateada e com a cabeça um tanto aérea.


   Já havia se passado uma semana desde que a turnê acabou, e os pensamentos sobre seus melhores amigos – ex­-melhores amigos – continuavam permeando sua mente como sombras silenciosas e impertinentes.


   Era como se uma parte de si houvesse ido embora. Não morrido de fato, apenas se isolado, silenciado. Um lado rebelde que recusava a acreditar no que ocorrera. Também pudera, os dois estiveram em sua vida durante a maior parte dela, não era como se simplesmente pudesse sair um pouco danificada.


    Além disso, julgar o modo como tudo ocorreu deixava a situação pior.


- Não concorda, querida? – a voz de Jane tirou-a dos pensamentos. Ela piscou brevemente antes de se recompor e abrir um sorriso.


- Claro. – respondeu, sem deixar de perceber as sobrancelhas da mulher mais velha franzirem-se bem de leve. Não era como se pudesse se esconder para sempre, afinal, aquela era sua mãe, com certeza uma das pessoas que mais a conhecia.


   Um tanto desconfiada, Jane virou-se para uma pessoa com quem falava que usava o uniforme da empresa contratada para realizar a recepção. Disse alguma coisa, num tom de dispensa, e o empregado afastou-se.


- Muito bem. O que está acontecendo? – perguntou, cruzando os braços na altura do busto. – Sinto você ligeiramente aérea hoje... Ainda mais considerando que estamos falando sobre seu casamento. Está querendo mudar de ideia? – concluiu, meio alarmada.


- Não! – Hermione exclamou apressadamente. – Não é nada disso. Não tem nada a ver com Nick. – Na verdade, Nick era a única pessoa que a mantinha sã naquele caos. Nos últimos dias, encontrara-se bastante com ele e desfrutara da paz e da sensação de calma que ele lhe trazia. Um porto seguro no meio do mar revolto.


- Então o que foi? – Jane mirou-lhe um olhar intenso, ao qual ela não pôde sustentar e logo desviou.


    Assim que seus olhos recaíram sobre o lindo e enorme salão, rodeado por lindos campos e jardins e que se localizava na periferia de Londres, logo imaginou a festa em comemoração a seu matrimônio. Imaginou todos ali, se divertindo, aproveitando e apoiando-a no momento mais significante de sua vida. Imaginou Harry e Ron ali, vestidos como seus padrinhos; imaginou-os ao seu lado no altar, ambos sorridentes, dando-lhe conforto e carinho.


   Um cenário que não era possível. Uma memória, um desejo insignificante no meio daquele oceano profundo, obscuro e cruel.


   Voltou a fitar a mãe, sentindo um aperto no peito. Até então, não contara a ninguém sobre as baixas na banda, porém o silêncio não poderia mais ser mantido.


   Contou sobre o acontecimento principal de forma resumida para que não pudesse lembrar tanto nem ser tão afetada. Em seguida, ao ver a expressão de choque da mãe, deu uma rápida explicação sobre os motivos que fizeram ela e a banda chegar àquele patamar.


- Nossa! – a mulher mais velha exclamou. – Mas vocês nem pareciam ter tantos problemas na sua festa de noivado. Na verdade, pareciam bem normais.


   Hermione automaticamente lembrou-se do email de Luna. É claro, eles vinham enganando o mundo afora havia muitos meses. A hipocrisia que era como um fantasma que vinha incomodando-a silenciosamente cada vez que pensava no assunto, de um modo superficial apenas, mas que era suficiente para fazê-la enraivecer consigo mesma.


- Exatamente isso. Parecíamos. – riu ironicamente. – Apenas isso, uma fachada.


- Então aposto que vai ser ruim para revê-los daqui a dois dias, não é?


   A cantora engoliu em seco.


- O quê?


- O aniversário de Lily está chegando, querida. Ela exige sua presença lá. Sabe como é, ela te considera praticamente uma filha também. – Jane sorriu compreensiva. Hermione segurou-se para não revirar os olhos e bufar, de repente sentindo-se impaciente. – E é Lily o ponto da questão, não o filho dela. Não pense nele, pense na consideração que você tem com ela.


   Pessoalmente – e seu lado irritado entrava aqui –, não estava nenhum pouco a fim de ver Harry. Contudo, Jane estava mais que certa; considerava Lily demais para simplesmente ignorá-la por causa do ex-melhor amigo. Seria infantil demais, e ela era muito superior a isso.


- Pode levar Nick, se quiser. Aposto que ela ficará feliz em vê-lo. Ela o adorou quando o conheceu no noivado. Além disso, você vai se sentir melhor, ficará distraída.


- Eu irei sim, mãe. – disse com um sorriso, surpreendendo-se, por um mísero segundo, com a naturalidade com a qual ele saiu.


- Ótimo, ótimo. – As duas ficaram em silêncio por alguns segundos. – Agora está melhor por desabafar? – Hermione balançou a cabeça. – Sim, sim, agora podemos finalmente acertar os detalhes do casamento!


 


 


   Ao entrar na padaria, o cheiro delicioso da mistura de pães, bolos, doces e salgados invadiu suas narinas, fazendo-a inspirar profundamente. Aquilo chegava a ser um pecado, ainda mais considerando o fato de que ela tinha acabado de jantar. Mas e daí? Queria uma sobremesa e, como não achou nada de interessante em casa, tratou de ir ao local, cujo ambiente era agradável e caseiro sem deixar de ter sua pompa e que se situava bem próximo de seu apartamento. Se apreciar tais guloseimas condenasse ao inferno, então o céu não existiria.


   Além disso, estava passando por um momento complicado em sua carreira profissional. Precisava de um momento para ela mesma, para relaxar. Era como sua amiga Parvati dizia, o mundo poderia estar acabando, mas as criaturas do sexo feminino esqueciam até isso por um momento de degustação de um bolinho de chocolate. E era o que mais ou menos acontecia quando uma mulher se encontrava de TPM.


   No balcão, um novo odor veio, dessa vez um que apenas quem era como ela poderia sentir: café. Seu lado viciado implorou para que pegasse um copo, apenas um pequenininho, porém o bom senso lembrou-lhe mais uma vez que acabara de jantar. Estava ali pela sobremesa.


   Lutando contra a vontade, pediu apressadamente um brownie acompanhando de trufa e acomodou-se numa mesa mais afastada, ao lado da parede de vidro. Mal deu a primeira garfada, e o celular dentro do bolso de sua jaqueta tocou. Sorriu, depois de engolir, ao ver o nome de Nick na tela.


- Oi amor.


- Consegui! – A voz do loiro demonstrava felicidade.


- O quê? – ela franziu o cenho enquanto brincava com o doce com a ponta do garfo.


- Oras, o quê! – Nick riu. – Não lembra o que te falei anteontem? Sobre a exposição.


- Ah! – exclamou escancarando mais um sorriso. Alguns dias atrás, tinha visto um anúncio sobre uma exposição de artefatos raríssimos recém-descobertos nas remotas ruínas gregas, que só viria a Londres durantes poucos dias e, por isso mesmo, estava restrito a apenas alguns convites. Comentara com Nick, e ele disse que tentaria ver com o pai, pois os executivos de sua empresa volta e meia ganhavam ingressos do tipo. – Maravilhoso! Para quando?


- Domingo agora.


   O ânimo de Hermione caiu consideravelmente, e ela soltou o garfo com um leve estrépito no prato de porcelana. Tinha que ser exatamente naquele dia?


- Não dá. Tenho o aniversário de Lily.


- Potter? – Nick indagou um tanto mais sério.


- É. – ela baixou o olhar de novo. – E não posso simplesmente faltar com a consideração com ela por causa do... do que aconteceu. – Sua voz falhou um pouco. Por algum motivo desconhecido, não conseguia pronunciar o nome de Harry; ele entalava em sua garganta e fazia algo revirar-se incomodamente dentro de seu corpo. – Eu adoro Lily, sério. Ela é praticamente minha segunda mãe... Até minha mãe admitiu isso! – terminou tentando imprimir um tom mais brincalhão.


- Verdade. Até porque o que aconteceu não tem nada a ver com ela.


   Hermione mordeu o lábio.


- Não tem como você mudar o dia aí? Para segunda, sei lá, qualquer dia menos domingo.


- Tentarei ver aqui.


   Ela ficou em silêncio, apenas ouvindo alguns sons vindo do outro lado da ligação.


- Você pode vir também, sabia? Lily disse que você pode aparecer lá, já que está entrando para a família. – disse numa respiração só, com receio de que a coragem lhe fugisse.


- Engraçado isso. – ele deu uma pequena risada.


   De repente lembrando-se do doce, ela pegou garfou mais um pedaço e mastigou.


- Já te disse, ela é minha segunda mãe.


- Ninguém mencionou nisso no contrato. Já é difícil conseguir a aprovação dos sogros, imagine só quando se tem um extra!


   Riu abertamente. Esse era o bom de Nick. Seu bom humor e seu jeito descontraído sempre aliviam a tensão de qualquer problema, deixando-o muito mais fácil de aturá-lo.


 - Bobo. Lily adorou você lá na nossa festa. Além disso, vai ser bom, sabe... vai ter alguém para me distrair.


- Eu vou sim, pode deixar. E também tentarei mudar o dia dos ingressos.


   Ela sorriu.


- Obrigada, Nick.


- De nada, minha linda. Agora estou indo, combinei com os caras de jogar uma sinuca legal. Te amo.


- Também. – e desligou.


   Sentindo-se bem melhor, Hermione recomeçou a comer o brownie, pondo em mente que estava ali para se divertir.


   E que viesse o reencontro. Que viesse o domingo.


 


 


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¹ verso da música Romanticide – Nightwish. Eu ia colocar a tradução aqui, mas ela já ta embutida no texto. Procurem haha 


N/A: Esse cap era para ser maior e com mais detalhes (tipo, uns dois flashbacks), mas 1 – estou com uma preguiça brutal, 2 – minha criatividade anda na média, nem boa porque eu já tracei as ideias aqui, nem ruim a ponto de ver navios no Word haha A tal festa teria que entrar aí também, mas enfim, vai ser um cap extra. Prometo me esforçar mais nele (até porque o que tenho em mente é bem legal, e se eu gostei quer dizer que fale algo haha) e botar o que não botei.


O legal desse cap é que as mães tiveram um papel muito grande, algo que só notei quando tava revisando hahaha Juro que não foi planejado =P


Mais uma vez, muitíssimo obrigada pelos comentários :) Beijos.

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Comentários: 1

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Enviado por nathi_castro em 27/05/2012

Maravilhoso.Estou luca para ver esse reecontro!!!!!!!Por favor, vê se consegue atualizar o mais rápido possível.....bjs 

Nota: 5

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