Havíamos acabado de almoçar e Harry lavava a louça enquanto eu as secava e guardava. Conversávamos sobre amenidades e eu me sentia leve como em muito tempo não sentira.
Eu sabia que nossos problemas ainda estavam longe de acabar. Não havia como ignorar o fato de que Henry Mitchell ainda estava à solta e que poderia estar em qualquer lugar, nos cercando, nos observando. Todos éramos cautelosos, vivíamos em alerta constante.
Eu já evitava caminhar nas ruas, saía somente quando era realmente necessário. Ah, e, é claro, quase morria de aflição sempre que Hugo ia para a casa que eu dividira com Ron por tantos anos. Eu contava as horas para ele voltar, embora confiasse que Ron o protegeria sempre.
Assim que terminei de secar os últimos pratos, me encaminhei para a sala, onde peguei meu livro e cuidadosamente o fechei e levei-o para o meu quarto. Quando retornei à sala, Harry estava deixando a cozinha com um generoso pedaço de torta de maçã em mãos coberto e um copo com água.
- É impressão minha ou Circe está aqui? – ele questionou.
- Não, não é impressão sua. É Circe mesmo – eu disse. – Ela veio trazer uma carta de Rose.
- Eu imaginei que teria sido isso. E como ela está?
- Pareceu-me animada com a aproximação da final da Copa de Quadribol de Hogwarts, confiante que James fará a Grifinória levar a taça e preocupada por ele parecer interessado em Dominique – eu contei.
- Sem dúvida, ele vai... – ele começou, mas logo interrompeu-se, arregalando os olhos: – James interessado em Dominique? Foi isso o que você disse?
- Eu disse que você seria um pai ciumento – fiz e dei as costas a ele, caminhando rumo ao sofá. Harry logo estava ao meu lado.
- Rose disse isso na carta?
- Disse, Harry – assenti, pacientemente. – Quer que eu leia para você? – Revirei os olhos. – Em todo caso, Dominique não parece corresponder às investidas. Rose acha que James a irrita.
- Bom – foi tudo o que Harry disse antes de comer a última garfada do pedaço de torta que ele servira para si.
Ele deixou o prato de lado, colocando-o na mesa de centro e pegou um dos pergaminhos que eu deixara esquecidos ali. Ele pegou exatamente a carta que Rose me enviara e me lançou um olhar, como se pedisse permissão para ler. Eu assenti e, enquanto ele lia, peguei o prato e levei-o para a cozinha. Era típico de Harry comer sobremesa duas vezes, mesmo depois de ter lavado o prato em que comera pela primeira vez.
Voltei a acomodar-me no sofá, ao lado dele e esperei que ele terminasse de ler.
- Ela está percebendo – ele resumiu.
- É, eu sei – fiz em tom levemente preocupado.
- Talvez fosse o caso de você ficar com Freya, pelo menos até Rose vir para as férias de verão e você poder conversar com ela e explicar o que aconteceu – sugeriu. – Acho que Ron concordaria.
- Acho que vou fazer isso – eu murmurei.
- Quanto a James e Dominique... Bill definitivamente não vai ficar feliz com isso.
- Dominique me parece tranquila. Não vai comentar nada com Bill...
- Ela pode comentar com Victoire, Victoire pode comentar com Fleur e...
- E isso pode chegar a Bill.
- É, e tem sempre a opção de Louis observar algo de estranho.
- Harry, eles são todos primos! É normal que um implique com o outro. E Louis é da Corvinal, assim como Victoire foi, e Dominique é da Grifinória. Além disso, eles são de anos diferentes. Tanto Dominique e James, quanto Louis. Não se preocupe quanto a isso – eu disse.
- Então você realmente acha que James pode estar interessado em Dominique?
- Isso importa tanto assim? – questionei. Ao ver a expressão dele, não tive dúvidas. Sim, importava. – Harry, eu realmente não sei, muito embora essa implicância dele com Dominique me faça lembrar de seus pais.
- Eu também pensei nisso – ele admitiu.
- E ela é parte veela, não é? Não dá para ignorarmos isso. E, honestamente, acho que Bill não criou grandes empecilhos na relação entre Theodore e Victoire. Se James realmente gostar dela, não acho difícil que a conquiste. Ele é um bom garoto e é encantador.
- Como se a palavra de uma madrinha não fosse suspeita – Harry zombou, parecendo mais tranquilo.
- Eu sei que sou suspeita em dizer isso, mas falo sério, Harry – garanti. – James sabe como conseguir o que quer. Ele é esperto, sabe como argumentar... E é bonito, mesmo que não tenha os seus olhos verdes.
- Isso quer dizer que eu também devo ser bonito, afinal, James supostamente seria o “Harry de olhos castanhos” ou “James reencarnado”, e como você ressaltou os meus olhos verdes, suponho que eu seja ainda mais bonito.
- Harry Potter e suas deduções. Daria um bom nome para o caso de um dia você resolver escrever um livro – eu disse antes de me levantar.
Antes que eu pudesse me afastar, Harry me impediu, segurando o meu braço e fazendo com que eu me sentasse novamente.
Aqueles enormes olhos verdes, tão vivos, me fitavam com intensidade. Senti como se eles perfurassem os meus olhos e desviei-os de seus olhos para a boca, onde aquele sorriso maroto brincava, insistindo em me perturbar.
Fui tirada de meus devaneios pelo toque de um celular. O celular de Harry.
Ele tirou-o do bolso da calça e checou quem chamava. Vi o nome de Ginny piscar repetidas vezes antes que ele se pusesse de pé e atendesse, afastando-se do sofá rumo à janela. Não prestei atenção ao que ele dizia, mas pude captar algumas palavras, principalmente o final, quando ele disse já estar voltando para casa.
- Eu preciso ir – ele anunciou.
- Eu sei – eu assenti.
- Ginny disse que Ron levaria Lily em casa agora, pois vamos jantar na casa de Bill – ele explicou. – Depois continuamos essa conversa, mocinha, e você vai ter de admitir que me acha bonito – ele acrescentou, em tom de zombaria.
- Eu nunca disse o contrário – repliquei enquanto ele se aproximava de mim.
- Mas nunca admitiu de fato – Harry disse e mais uma vez aquele sorriso maroto estava ali. Ele beijou-me a testa e se afastou, rumando para a porta. O segui e abri a porta para ele.
- Eu não conheci o seu pai, mas posso afirmar com certeza que você está cada dia mais parecido com o Pontas que Almofadinhas e Aluado descreviam – eu disse, referindo-me aos Marotos.
- Acho que vou encarar isso como um elogio – ele disse e correu escadas abaixo, desaparatando ainda em movimento no meio das escadas.
Ainda rindo, fechei a porta e antes que eu pudesse me concentrar na carta que eu estivera escrevendo mais cedo para enviar a Rose, ouvi batidas à porta. Só podia ser Harry, achando ter esquecido algo.
- Nem sinal de sua chave e eu juro ter visto você colocar seu celular de volta no bo... – me interrompi ao ver que não se tratava de Harry. – Ron?
- Quem você estava esperando? – ele questionou, depois fitando-me dos pés à cabeça. Eu não estava arrumada. Na verdade, eu vestia a mesma calça bailarina azul marinho e a mesma blusa branca de malha com gola alta e mangas compridas que eu vestira pela manhã para ir ao supermercado comprar os ingredientes para preparar o jantar para Hugo e estava descalça.
- Ninguém... – comecei, mas voltei atrás: – Quero dizer, talvez Harry, porque ele acabou de sair da...
- Eu disse que era o tio Harry, papai, não disse? – Hugo comentou.
- É, eu imaginei tê-lo visto no meio das escadas – Ron assentiu.
- Eu também – Lily se colocou. – Por isso ele não estava em casa.
- Bem, eu sei que combinamos que eu evitaria vir aqui e tudo o mais, mas juro que aparatei, então sem chance de... Você sabe... Ninguém poderia ter visto – Ron disse, evitando que Hugo entendesse. – Mas como você disse que iria buscar Hugo às 15h, e já são... – ele checou o relógio de pulso antes de continuar: – 15h43 e eu tinha que levar Lily em casa, então resolvi trazê-lo.
- Desculpe, Ron, mas eu me esqueci completamente! – eu fiz, e realmente lamentava.
- Vê-se por quê – Ron retrucou e, vendo o que ele tencionava dizer com aquilo, eu senti a necessidade de me justificar.
- Hugo, por que você não mostra o seu quarto novo para Lily enquanto eu converso rapidinho com o seu pai? – eu sugeri e fui prontamente atendida por Hugo, que puxou Lily pela mão e logo sumiu no corredor. Gesticulei para que Ron também entrasse e logo estávamos acomodados no sofá. – Ron, Harry veio almoçar comigo. Ele estava sozinho em casa, Ginny saiu com Fleur e Victoire e Lily estava com vocês... Nós somos amigos e foi só um almoço. Eu não vejo problema algum nisso!
- Se você diz que foi só um almoço, também não vejo problema algum nisso – ele fez com certa aspereza.
- Não confia em nós? Não confia em seu amigo? – questionei. – Ron, ele é marido de sua irmã!
- Do jeito que as coisas estão, não será por muito tempo – Ron disse.
- Do que você está falando? – fiz, confusa. Ou talvez eu tivesse entendido, mas quis ter certeza.
- Passam tanto tempo juntos e ele não te contou?
- O que ele deveria ter me contado? Vamos, Ron, fale de uma vez!
- As brigas? Ele não falou nada sobre isso? – ele tinha um tom malicioso na voz que me incomodava. – Muito me admira que ele não tenha contado.
- Você poderia ser mais claro?
- Harry e Ginny têm brigado muito e a principal razão é a ausência dele em casa – Ron especificou, agora com um tom sério. – Ela também se queixa que ele tem ficado cada vez até mais tarde no trabalho, o que eu posso atestar ser verdade, pois trabalho com ele e sei que ele está verdadeiramente empenhado nas buscas por Mitchell. Mas eu também noto que ele tem passado mais tempo longe do Quartel General de Aurores e, por vezes, não trabalha pela manhã.
Eu sabia de tudo aquilo. Sabia que Harry estava trabalhando até depois do expediente sem se preocupar muito com horários, pois Ginny não costumava viajar durante o período entre meados de dezembro e final de março, então ela podia sair mais cedo da redação do Profeta Diário e buscar Lily na escola.
Eu também sabia que ele estava passando mais tempo longe do Quartel General de Aurores, principalmente porque ele passava boa parte da manhã em minha sala, quando não conversando e me fazendo companhia, estudando os arquivos comigo ou mesmo trabalhando, cada um fazendo o seu próprio trabalho. E eu não me incomodava. Era bom tê-lo por perto, conversar com ele... E saber que ele estava ali, mesmo que não trocássemos uma palavra sequer durante o período em que compartilhávamos a sala, era confortante.
- Então eles têm brigado... – eu fiz num murmúrio, mais para mim do que para Ron. – E a culpada sou eu.