― Capítulo 3―
Conversa de Homem
Não havia forma pior de acordar do que com a Sra. Black gritando loucamente no andar debaixo. Entretanto, levando-se em conta o pesadelo que Harry estava tendo com Lupin ensanguentado e se contorcendo nas escadarias do castelo, os berros da mãe de Sirius soaram como sinos de alívio.
Atordoado com a forma como aquele dia se iniciara, Harry colocou os óculos, entrou dentro de um casaco e foi verificar o que o elfo doméstico com quem tinha que dividir o casarão, havia aprontado lá embaixo para enfurecer o retrato da bruxa velhota.
Ao descer as escadas, porém, deparou-se com o cinzento Monstro abrindo a porta principal para um convidado. Harry hesitou um passo e pensou em voltar para pegar a varinha, mas seus músculos relaxaram quando ele esquadrinhou a figura do amigo na porta. Se acostumar com paz ainda era algo que Harry estava se adaptando.
― Oi Harry... ― disse Rony um tanto sem graça, pois evidentemente percebeu que o acordara.
Harry terminou de descer e fechou a cortina do retrato da Sra. Black.
―Aconteceu algo com a Gina?
―Hã... Ah não, a Gina tá bem.―Rony parecia confuso e Harry achou melhor convidá-lo logo para dentro de casa.
Monstro fechou a porta, passou por eles e saiu saltitante até a cozinha ― pelo jeito acordara de bom humor ― dizendo que iria preparar um café gostoso para seu senhor e o amigo.
―Ele tá de bom humor hoje, não? ―observou o ruivo.
―É. O Monstro tem seus dias.
Harry conduzia Rony até a sala de visitas onde se sentaram cada um em uma poltrona. Era meio estranho para Harry ter sua própria casa para receber visita de um amigo. Não que a solidão não o incomodasse, sempre fora solitário nos Dursley e isso era muito triste. Mas, apenas estava se adaptando a todas as mudanças positivas que sua vida sofrera após a morte de Voldemort.
Pensou em como fazer “sala” quando uma visita chega à sua casa e mesmo sendo Rony, seu melhor amigo de sempre, ficou indagando como começar a conversa. Porém, antes que as palavras de praxe saíssem de sua boca, Rony desatou a falar rápido e pesarosamente:
― A Lilá foi lá na Toca hoje, Harry... foi horrível... quero dizer, ela não é minha namorada... ela não é nada minha. Minha mãe vai me passar um sermão quando eu voltar lá porque ela disse que era minha namora! Harry, você tem alguma notícia de Mione?
― Hey Rony... Calma! Eu acabei de acordar...
Rony tentou esboçar um sorriso, mas conseguiu mesmo foi fazer suas orelhas ficarem incrivelmente vermelhas.
― Desculpe cara, eu ando meio perturbado. ―disse um tanto sem graça. ― Queria conversar com alguém. Minha mãe e a Gina tão me fazendo pirar o dia inteiro. É uma tortura!
“Eu bem queria ser torturado por aquela ruiva” pensou Harry ainda sob o torpor do sono, mas no instante seguinte quase corou embora soubesse que Rony não fosse adepto a Legilimência.
― E como a Gina está? Tô com saudades. Quase fui lá ontem, mas o Monstro achou uma infestação de bicho papão no último andar e como eu prometi a ele desinfetar esta casa velha de seres mágicos, não deu. Cada dia ele encontra uma Braga doméstica nova nessa casa pra me manter ocupado.
― Bem Harry, a tá um saco! Só fica enchendo a mamãe o dia inteiro pra vir aqui ver você, sozinha. Até parece que a dona Molly vai deixar.
Novamente ele se sentiu desconfortável pelos seus pensamentos. Ele e Gina sozinhos não iriam dar certo mesmo. Graças, Rony não sabia Legilimência!
― Sobre a Hermione, descobri que ela já chegou em casa, sã e salva, e com o Sr. e a Sra. Granger também.
Rony sentiu uma onda de alívio o dominar instantaneamente perante aquela ótima notícia.
― Mandei uma carta para ela há dois dias. A minha nova coruja é meio lenta, nenhuma nunca se comparará a Edwiges, de forma que ela ainda vai ter que procurar a Mione.
―Você bem que poderia ter me mandando essa notícia logo.
―Como? Eu não acabei de dizer que minha coruja é nova, Rony?! ―rebateu Harry, cansando de dar tantas explicações tão cedo.
Rony se afundou na poltrona e Harry sentiu pena do amigo, sabia exatamente qual era o sentimento que o consumia nesse momento.
― Aliás, recebi sua carta ontem no fim da tarde. Hogwarts também me deu uma oportunidade de terminar os estudos a distância, embora eu quisesse mesmo voltar para mais um ano lá.
―Foi o que eu pensei também. Mas agora já não acho que seria muito bom. Voltaríamos com a turma da Gina e com a Mione brava comigo acabaria ficando bem solitário naquele lugar. Ela deve ter recebido essa carta também, não é Harry?
― Hã... Claro... ― Harry estava imaginando ele e Gina na mesma turma ― McGonagall sabe que nós três nos afastamos em missão a caça das Horcruxes.
― A Mione deve estar desesperada para devorar os livros há essa hora, pensando que absurdo é aprender sem ter no mínimo um professor e uma biblioteca por perto... ―o olhar de Rony se tornara sonhador e Harry tinha certeza que ele estava falando mais pra si mesmo do que pra ele. ― Mas ela é tão inteligente! Quem com um cérebro dela precisa de um professor?
― Pois é. ― comentou Harry simplesmente ― Mas porque você tá com essa cara de que caiu da cama?
― Porque cai! A maluca da Lilá Brown apareceu em casa hoje antes das galinhas acordarem e venho com aquele perfume fedido pra cima de mim...
Harry se controlou para não rir. Sabia o quanto Lilá era impertinente e já podia imaginar a cena, principalmente a cara de Rony diante da situação.
―Ela é louca, Harry! Pulou no meu pescoço e me tacou um beijo gosmento, credo! Sai correndo de casa e vim pra cá...
―Deixa a Mione saber disso, Won-Won...― disse Harry já não podendo controlar os risos.
― Você não seja louco de contar... E NÃO ME CHAMA DE WON-WON!― agora o próprio Rony parecia não se aguentar e riu ao mesmo tempo em que socava a almofada mais próxima na cara de Harry. ― Babaca!
***
Rony já era mais do que adulto para pedir a Sra. Weasley se podia ficar uns dias em Grimmauld Place, mas mesmo assim informou e esperava certa resistência da mãe. Não foi o que houve. Sua mãe concordou prontamente e ele atribuiu isso ao fato dela não aguentar mais Gina e Rony se estranhando pelos cômodos da Toca ― afinal dois adolescentes vivendo sob o mesmo teto, sofrendo as desilusões e expectativas do amor, não era fácil!
Quando ele voltou a Toca para apanhar algumas roupas e avisar a família que fora convidado para ficar alguns dias com Harry para começarem os estudos do sétimo ano, seu amigo foi junto e permaneceram na Toca até o jantar.
Rony quase se esquecera que Harry namorava Gina e era muito chato ter que esperar os dois passarem um dia todo juntos, se beijando pelos cantos, enquanto ele queria conversar com o amigo. Aceitava de coração o namoro do melhor amigo e da irmã, mas não se acostumava. No começo pensou que era ciúmes de Gina estar roubando-lhe a amizade de Harry, mas à medida que refletia mais sobre o assunto entendeu que o sentimento vazio que se apoderava dele era “dor de cotovelo”.
Se ao menos Mione estivesse ali também. Podiam estar até implicando um com o outro, ainda assim, seria o céu para ele.
Ao chegarem a Grimmauld Place perto das dez da noite, foram abordados por Monstro dizendo que chegara uma carta da Srta. Granger para seu senhor.
Rony queria rasgar o envelope no mesmo instante e devorar as palavras daquele pergaminho, contudo Harry disse para ele levar suas coisas para cima, no quarto que dormiria, e encontrar-lo em alguns minutos na sala de estar, onde leriam juntos.
Meio que a contra gosto e também sentindo seu estômago dando cambalhotas de ansiedade, acatou ao amigo. Minutos depois encontrou Harry na sala com uma garrafa de cerveja amanteigada e dois copos na mesinha de canto entre as poltronas.
―Toma! ― disse Harry servindo os dois.
―Será que a carta vai ser tão ruim assim a ponto de você ter que me embebedar? ― brincou o ruivo, embora tenso com o conteúdo do envelope.
―Isso nós veremos agora... ― argumentou Harry tirando o pergaminho do envelope:
Caro Harry,
Desculpe não escrever antes, é que estive um tanto ocupada procurando meus pais.
Eles saíram da Austrália após algumas semanas de tê-los enfeitiçado como turistas apaixonados pelo país e rumaram para a América do Sul convictos que eram um casal em lua de mel que amavam aventuras em florestas tropicais... Acho que o feitiço saiu um pouco fora do que eu esperava.
Logo lhes devolvi a memória e os trouxe para casa. Eles ficaram indignados e um tanto apavorados com o mundo bruxo. Para ser sincera, histéricos.
Nunca imaginaram que eu pudesse lançar um feitiço assim neles, pior, nunca imaginaram que um feitiço desse pudesse existir.
Então quando contei sobre Voldemort eles surtaram de vez e olha que ainda omiti detalhes.
Foi uma semana difícil, da qual eu tentei não provocá-los com nenhum tipo de mágica e claro que corujas-correios entravam no regime.
Bem... fui digamos que “amansando” os dois e quando a carta de Hogwarts chegou, eles já estavam mais conformados.
Ficaram felizes que esse ano eu vou estudar em casa, o que me indignou profundamente. Como vamos estudar sem a biblioteca? Como ter certeza se estou fazendo o certo sem McGonagall e os outros professores por perto? Isso sem contar a importância dos deveres fora de aula... Bem, mas se isso serviu pra acalmar meus pais, menos mal.
Sobre aquele assunto eu vou dizer só uma vez e espero que você não me amole de novo: Não quero mais ouvir falar nesse garoto!
Daqui algumas semanas vou fazer 18 anos e gostaria que você e Gina viessem a minha festa. Próximo a data mandarei um convite e também o endereço. Vai ser uma festança que papai e mamãe estão armando pra mim. Vocês não podem perder!
Espero que você e Gina estejam bem, também Fred, Jorge, Percy, Gui, Carlinhos, Sr. e Sra. Weasley. Sei que você vai lá na Toca com maior frequencia agora que namora uma Weasley , então não esqueça de transmitir minhas felicitações a estas pessoas acima mencionadas.
Beijos, Hermione
Rony sentiu-se desolado ao final da leitura e por mais que tentasse, não conseguia esconder a frustração ao lado de Harry. Tomou num gole só todo copo de cerveja amanteigada e serviu-se de outro. A sala ficou um instante silenciosa e foi o amigo quem quebrou o silêncio amargurado.
―Rony, poderia ser pior! Pelo menos ela falou “aquele garoto”. Pelo pé desta carta eu não esperava menos que “Aquele - Que –Não- Deve- Ser- Lembrado”.
―Obrigado pelo apoio! – agora ele despencara de vez. Era como se ela soubesse que ele iria ler a carta, fazendo questão de mencionar todos os seus irmãos, até Carlinhos que nem morava no país, menos ele. ― O que você falou de mim na sua carta pra ela responder aquilo?
―Eu disse pra ela ser mais maleável, que vocês tinham que se entender.
― Agora tenho certeza que nunca mais vou ver ela...― sua voz se tornara embargada ―Por que eu a tratei daquele jeito, Harry? Porque fui tão idiota?
― Sem querer ofender, mas você age assim desde sempre com ela... ― Harry esvaziou seu copo também e serviu-se de mais cerveja ― Quando parece que vão se aproximar de vez, você trava e fica esquisito...
― Eu não estava bem naqueles dias. Você sabe disso. ― murmurou o ruivo.
― Olhe Rony, ninguém estava bem naqueles dias. Ainda não estamos, oras! Perdemos amigos, agimos e pensamos como nunca imaginamos que teríamos que fazer. E eu entendo exatamente como você se sentiu, assim como posso imaginar como a Mione se sentiu. Você tinha a família ao seu lado e ela? Ela contava com seu carinho naquele momento, meu amigo.
Rony ficou mais deprimido. Harry deveria estar ali para consolá-lo no meio da bebedeira, não para jogar a verdade dura na sua cara.
― Como você consegue, Harry? Como consegue não ter medo de admitir para todo mundo que ama a Gina?
― Hã... Eu vou lá e digo. Fiquei um pouco nervoso quando pedi sua irmã em namoro na frente de toda sua família, mas me senti seguro por saber que estava rodeado de amigos... E também todos já tinham sacado que havia um lance entre nós.
―Você falando parece fácil!
Rony continuou calado, pensado em como seria ele e Mione juntos, na paz. Depois perguntou ao amigo que já estava na metade do segundo copo.
― Como você descobriu que gostava da Gina?
— Acho que foi naquela noite que a vi se enroscando com o Dino Thomas e você tentou passar um sermão nela.—a voz de Harry ficou um pouco áspera. Talvez aquela lembrança não fosse uma das que ele mais gostava de cultivar.
Rony imaginava que Harry devia estar sentindo nesse momento, a mesma revolta que ele sentiu quando viu Mione e Krum, embora, por sorte, ele fosse poupado de vê-la beijando-o.
— Quando você percebeu que estava gostando da Hermione? — arriscou Harry.
— Não sei... Muitas vezes eu tinha vontade de brigar com ela. Muito mandona, muito sabichona... Mas quando Draco Malfoy ficava pelos corredores xingando ela de sangue-ruim eu meio que saía de mim, e perdia a cabeça com quem quer que a ofendesse.
— E só você podia ter esse direito não?! –comentou o amigo com sarcasmo.
—Você algum dia sacou que a gente meio que... se gostava, ou foi só quando ela me beijou na sua frente ?
Harry deu um sorriso de deboche antes de responder.
—Só pra esclarecer as coisas, eu sabia que vocês se gostavam mesmo antes de se darem conta disso. —desta vez Rony sentiu as orelhas pegarem fogo.
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