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5. Torturador Exímio


Fic: A Origem dos Dementadores - A PEDIDOS CAP 8 ON


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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postado em 14/06/2012


P
ARTE 2
 


ATENÇÃO: ESTE CAPÍTULO CONTÉM CENAS EXPLÍCITAS DE TORTURA! TODOS OS EQUIPAMENTOS E MÉTODOS DESCRITOS AQUI, PARA TORTURA, REALMENTE EXISTIRAM.  SE VOCÊ É MENOR DE IDADE OU SE IMPRESSIONA COM FACILIDADE, ACONSELHO A NÃO PROSSEGUIR.

Capítulo 5



Torturador Exímio
 



                 


26 anos antes


 


1443, Inglaterra, Castelo de Homlgard...


 


 


  A palha cheirava a urina e fezes, mas ele já havia se acostumado. Há cinco meses dividia aquela cela minúscula com os ratos e a escuridão. Seus olhos estavam tão adaptados com o negrume do calabouço que quando o carcereiro aparecia para jogar a refeição do dia por entre as grades, a tocha que carregava para iluminar o caminho ardia-lhe as retinas.


 


  O silêncio era quase sempre incrustável como se estivesse vivendo embaixo do mar. Estava sob toneladas de pedra e de andares superiores. Mas havia momentos inesperados em que um grito de dor ou medo rasgava o ar e gelava-lhe a alma. Provavelmente lamúrias lânguidas dos outros prisioneiros; Um último protesto em vida...


 


  Ele sabia que o corredor ao fim do calabouço levava para uma porta, que por sua vez percorria uma escada espiralada e terminava numa sala abafada, impregnada pelos odores de suor e sangue.


 


  A sala usada para confissões dos inquisidores e oficiais do rei.


 


  Irônico o nome daquela sala, afinal quem não confessava qualquer coisa, verdade ou não, enquanto seus membros eram esgarçados em quatro direções opostas? 


 


  Ele nunca tinha ido para lá, mas sabia que era apenas questão de tempo. Quem havia lhe dito sobre os apetrechos que os oficiais do rei utilizavam para arrancar a “verdade” dos prisioneiros, fora um sujeito que até semana passada habitava a cela ao lado.


 


  Havia sido levado por dois oficiais para interrogatório e passou quatro horas ininterruptas gritando e chorando desesperadamente. Na última meia hora, já não emitia nenhum som audível e quando voltou para cela, arrastado como um pedaço de carne humana em farrapos, praticamente não se mexia.


 


  Pouco a pouco, o sujeito foi voltando a si, embora ainda não passasse de uma massa disforme na escuridão. Não era possível supor o estado físico dele, mas pela dificuldade na fala podia-se presumir que estava muito mal. Ainda assim conseguiu descrever o que houve no andar de cima, e fez um relatório detalhado dos equipamentos sórdidos que a sala dispunha. Então passou o resto da noite, ou dia - não era possível saber do calabouço – gemendo e respirando com dificuldade. Muitas horas depois, os mesmos dois oficiais que haviam ido busca-lo para o interrogatório eram os que tiravam seu corpo de lá.


 


  Situações como estas se repetiram muitas vezes durante sua estada naquela cela, e isso era a única coisa que ele não conseguia se acostumar.


 


— Ei! Ei francês! — chamou o prisioneiro novo, duas celas a sua frente.


 


   Henri virou a cabeça na direção do som, porque ali, na total ausência de luz, todas as vozes não tinham rosto.


 


— O que?


 


— Você ainda não me disse por que está aqui.


 


  Henri suspirou, resignado. O novo prisioneiro ainda estava na fase da inquietação; pergunta de tudo, quer saber todos os detalhes do lugar e planeja formas de fugir. Depois vinha a agonia de ficar trancafiado por dias a fio, o desespero de não ver luz do sol, os murmúrios e lamentações do que poderia ter sido melhor na vida lá fora, e por último, - o que ficava - o conformismo.


 


— Que importância isso tem?


 


— Nenhuma. — confessou o outro. — Mas preciso conversar com alguém para não enlouquecer.


 


— Sinto muito, mas você não viverá tempo suficiente para enlouquecer. — disse, sem rodeios.


 


— Deveria tentar ser mais otimista, francês.


 


— Deveria tentar ser mais conformista. Há quanto tempo está aqui?


 


 O outro se calou por um tempo, talvez refletindo.


 


— Três dias, eu acho. – disse por fim.


 


— Então terá muito tempo para ver homens chegarem e não mais partirem. Estamos numa prisão para condenados à morte, se ainda não se deu conta, caro colega. — sentenciou amargamente.


 


— Morto eu não terei mais importância para eles. — retrucou, munindo-se num otimismo irredutível.


 


  Henri poderia argumentar. Ele tinha a resposta na ponta da língua para cada frase esperançosa como aquela. Mas não cabia a ele roubar as esperanças de outro homem.


 


— Qual foi seu crime, afinal? — insistiu o outro.


 


— Qual foi o seu?


 


— Eu falsificava pratarias. Sou um mestre nisso, aliás. — disse orgulhosamente — Castiçais, taças, talheres, e tudo mais que possa imaginar. Aprendi com meu pai, sabe? É a única coisa de que sei fazer realmente. O problema foi quando um maldito visconde encomendou um conjunto completo de louça comigo.


 


— Alguém o informou?


 


— Pior. Eu havia sido aprendiz de ourives na infância. Mas e você, qual foi seu crime?


 


  Num repente um barulho interrompeu a conversa. O som do arrastar pesado da porta de madeira no fim do corredor, de onde o carcereiro vinha duas vezes por dia, reverberou pelas celas. Henri ouviu passos atritarem contra o chão de pedra e espremeu a cabeça por entre as grades para tentar ver melhor quem vinha pelo corredor.


 


— A comida já não foi servida? Porque o carcereiro está aqui de novo? — perguntou o prisioneiro ao lado, confuso.


 


— Ele não está sozinho. — sussurrou Henri, vendo três vultos crescerem na parede, iluminados pela luz de uma tocha.


 


 — Vieram trazer mais prisioneiros? — perguntou o outro, com certo pânico na voz.


 


— Não, não é isso. — murmurou ele temeroso, saindo de perto das grades e indo se recolher no interior escuro, no fundo da cela.


 


  Seus pressentimentos agora eram os piores. Os oficiais estavam indo busca-lo para interrogatório, não restavam mais dúvidas. Desde que chegara aquele calabouço desesperador, viu cerca de quinze homens que estavam lá antes dele, serem levados nessas circunstâncias.


 


  Todos mortos.


 


 Agora restava apenas ele e o novato no calabouço, que certamente ainda não ficara trancafiado tempo suficiente para começar a querer confessar seus pecados.


 


 Então eles chegaram. O carcereiro, um homem robusto e bruto, na frente com a tocha na mão, e dois oficiais vestidos do mesmo modo como àqueles que invadiram a sua casa há cinco meses. Um deles, inclusive, estava presente na invasão.


 


— Eu não fiz nada! Eu sou inocente! Tirem-me daqui! — berrou o novato, grudado a grade.


 


 Os oficiais ignoraram o protesto dele, como se nem o ouvissem. Mas a figura gigante do carcereiro segurou a extremidade oposta da tocha, acertando-a em cheio contra o rosto do rapaz, que caiu no chão gritando de dor.


 


— Cale a boca, verme! — rugiu o algoz, cuspindo por entre as grades.


 


 Um dos dois homens, o mais alto, chamou a atenção do carcereiro para que iluminasse a próxima cela.


 


— Ele está aqui? — perguntou em seguida.


 


 Henri se contraiu no fundo da cela como se a escuridão pudesse o tornar para sempre invisível. O fogo da tocha revelou o contrário, e ele colocou a mão na frente do rosto para proteger os olhos da iluminação.


 


— Ali. — apontou o carcereiro como se apontasse para um rato.


 


 Os três postaram-se diante de sua cela, mas ele continuou acuado como um gato arisco. Era como se todo aquele conformismo com a morte, de minutos atrás, tivesse se dissipado de dentro dele por uma fenda de covardia.


 


— Abra. — exigiu o oficial ao carcereiro.


 


— Chegou sua hora, francês! — riu o homem, abrindo a cela feliz.


 


  Os dois oficiais que o acompanhavam entraram. O mais alto continuava no comando a situação. Não restava mais dúvida, era o mesmo homem que Henri acertara com um estuporamento naquela noite. O oficial olhou-o com extremo desprezo, mas também cautela.


 


— Você é Henri Chevalier? — perguntou num tom de voz alto e enérgico


 


  Henri pensou quão irreconhecível deveria estar por ele não se lembrar de seu rosto, precisando de uma confirmação para tal.


 


 — Esposo de Adoria Chevalier? — reforçou.


 


  O coração dele parou. Há meses que não ouvia esse nome, embora a dona dele estivesse em seus sonhos e pesadelos todos os dias desde o início de sua estada ali.


 


— Minha mulher, onde está? Quero vê-la, por misericórdia! Como ela está? — quis saber angustiado, esquecendo-se do tremor de segundos atrás.


 


— Você tem um interrogatório para participar primeiro, senhor Chevalier – respondeu o oficial, friamente — Coopere e pode ter sua resposta antes do que imagina. Agora vamos.


 


  Henri esforçou-se para se por de pé. Suas pernas, ossudas e enfraquecidas, tremiam como dois galhos de árvore expostos ao vento. Os músculos começavam a atrofiar pela falta de atividade física e ele estava quase desaprendendo a andar. Com muito esforço e ancorado pela parede, conseguiu se equilibrar.


 


 Os oficiais apenas observavam, com um prazer demente no rosto, em ver outro ser humano em tão deplorável estado, lutar para ter controle do próprio esqueleto.


 


 Um homem em pele e osso, barbudo e incrustado numa sujeira medonha, arrastou-se para fora da cela. Henri sentiu como se tivesse cem anos. Deu dois passos diminutos, para então ser arrastado impacientemente pelos dois oficiais, pelos ombros.


 


 Seu corpo continuava dolorido, sua mente girava, mas ele tentava se manter firme porque teria notícias de Adoria. Numa última espiada para trás, viu o rosto ensanguentado do novato na cela ao lado, a lhe fitar.


 


***


   A sala do interrogatório realmente cheirava a suor e sangue, mas visualmente, ela era muito pior do que Henri imaginara. Sua decoração dizia muito de sua verdadeira finalidade: a tortura.


 


  Henri foi posto numa cadeira de madeira e teve os pulsos amarrados a duas fivelas de couro nos encostos de braço. Dali conseguia ver as paredes de pedra, esverdeadas por uma espécie de limo e o chão salpicado de diversos pingos escuros, do qual imaginou ser sangue. A mobília era composta por vários objetos ameaçadores. Identificou alguns utilizados pela inquisição para castigar os hereges. O Berço de Judas*, a Dama de Ferro* e duas Cadeiras de Prego*. Um Pêndulo* gigante com a estrutura de madeira gasta ficava encostado perto da porta que dava acesso ao calabouço. Havia também uma mesa com amarras para mãos e pés, e ao lado, uma estante lotada de apetrechos metálicos, que ele tentou nem pensar qual seria a finalidade. Entretanto, o que mais chamou sua atenção, e mais lhe causou tremor, foi a Mesa de Evisceração*.


 


 Henri respirou pausadamente e tentou convencer a si mesmo de que aqueles instrumentos estavam lá apenas para assustar os interrogados, através de um terror psicológico.


 


 Os dois oficiais que o tinham trazido até ali dispensaram o carcereiro, que parecia louco para ver uma sessão de interrogatório, e ficaram conversando entre si, sem nem lhe dar atenção. Apenas duas vezes o oficial mais alto olhou-o, desconfiado.


 


  Alguns minutos depois, um terceiro homem entrou na sala, outro oficial. Inspirava respeito nos outros dois. Tinha os cabelos castanhos, o rosto bem afeiçoado e olhos confiantes, além de demonstrar ter mais poder de liderança. Deveria não ter mais do que trinta anos de idade, como Henri. Ele o reconheceu imediatamente, daquela noite, cinco meses atrás. Foi inevitável não pensar no que faria com ele se tivesse a varinha nas mãos.


 


— Como vai à estada, caro Henri Chevalier? — disse, aproximando uma cadeira de frente para Henri e sentando-se. Os outros dois oficiais o acercaram.  — Tenho de confessar, o senhor mudou muito de uns meses pra cá. — ironizou.


 


 Calado, Henri havia se decidido que só diria o estritamente necessário. Não daria a eles prazer algum, como os outros prisioneiros costumavam fazer, em implorar ou redimir-se. Queria apenas saber de sua Adoria.


 


— Eu não sei se lembra do meu nome, mas é costume o responsável pelo int...


 


— Seu nome é Charles Carter. — respondeu ele sem titubear.


 


— Ótima memória, francês. — surpreendeu-se o oficial — Certo, já que as apresentações não são necessárias, vamos direto ao ponto. O senhor sabe por que veio parar aqui?


 


— Porque fui acusado de algo que não cometi. — disse, friamente, abraçando a raiva dentro de si para não deixá-la extravazar.


 


— Porque foi acusado de omitir bruxaria. — corrigiu-o Charles. — Três aldeões, próximo a sua casa, afirmam piamente terem visto sua mulher pratica-la para curar uma velha moribunda que morava perto da igreja.


 


 “Como é difícil calar-se diante dessa calúnia” pensou ele, cerrando os punhos presos.


 


— Ela apenas fez um chá para acalmar as articulações daquela senhora. — respondeu, numa falsa calma. — Que mal há em ajudar o próximo?


 


— Nenhum, senhor Chevalier. Contanto que não seja pelo auxílio da magia negra. — argumentou serenamente, como se eles fossem grandes amigos discutindo trivialidades - Ela poderia ter orado. A misericórdia de Deus é a única forma de curar os enfermos. O curandeirismo é uma obra demoníaca. A alma daquela senhora pode estar para sempre corrompida nas mãos do satã, por causa dessa “boa ação” de sua senhora.


 


— Onde ela está? Quero ver Adoria. — pediu.


 


 Charles ignorou-o.


 


— Não o bastante, temos acusações contra o senhor também. Atacou meu regimento, quando fomos buscar sua mulher, e possuído por ela, começou a executar uma magia bestial. Lembra-se disso?


 


 O oficial alto olhou-o com certo tremor. Henri havia assustado o regimento que viera pegá-los na casa. Com a varinha, antes de ser confiscada e quebrada, conseguiu estuporar uma meia dúzia deles.


 


— Ela não fez nada! Eu sou bruxo. Eu! — gritou, chocado.


 


— Não, Henri. Todos sabem que a bruxaria é algo exclusivo das mulheres. — disse Charles, quase que didaticamente.


 


— Onde está ela, por favor... Onde? — implorou.


 


 Teve de amarrar num nó na garganta para não chorar de desespero. Precisava saber que ela estava bem, que não havia sofrido tanto quanto ele, durante todos aqueles meses.


 


— Para este interrogatório terminar tão logo e você ter sua resposta, é preciso apenas que confirme que sua esposa é, de fato, uma bruxa. Este é o oficial Meyer, que por acaso também é um diácono. — apontou para o oficial mais baixo, a sua esquerda — Ele irá ouvir sua confissão e retratar ao inquisidor responsável por sua esposa, e então, tudo acabará rapidamente.


 


— Ela está viva? — perguntou esperançoso.


 


— Sim. — respondeu Charles — Apenas aguardando julgamento.


 


— E nosso filho?


 


 Charlie suspirou, fingindo ressentimento.


 


— Nosso acordo era você confessar, depois eu falar, não se lembra?


 


— Meu filho! Eu quero saber dele! — seu peito continuava cada vez mais pesado.


 


— Não é ele, Chevalier! — exclamou Charles, perdendo a paciência com as lamúrias de Henri. Atirou a cadeira que sentava para o lado e começou a apontar o dedo em seu rosto, num tom mais acusatório — É ela! Infelizmente é uma menina, que provavelmente desenvolverá os mesmos poderes satânicos da mãe.


 


— Não! Elas não têm nada haver com isso.  


 


— O inquisidor tem outros casos pela frente, Henri.  Confesse que sua esposa é bruxa e podemos não condena-lo a morte. Existe até uma possibilidade de a criança ser exorcizada e domada num convento de freiras pelo resto da vida.


 


— NÃO! MINHA ESPOSA NÃO É BRUXA! NÃO É! — berrou, não podendo mais controlar-se.


 


— Certo. Será do jeito difícil então. — disse Charles mais para si mesmo — É por isso que eu sou sempre o escolhido para este trabalho. Eles não cooperam. Nunca. Finningham? – disse ao oficial mais alto – Pegue o garfo. — pediu.  


 


 Finningham foi até a estante de apetrechos e voltou com um objeto metálico, com uma haste e duas pontas opostas, com espetos em forma de garfo.


 


 Charlie pegou o instrumento e aproximou-se de Henri, que recuou a cabeça não conseguindo imaginar o que ele faria com tal instrumento em mãos. Entretanto, Finningham foi por trás dele e agarrou sua cabeça firmemente para que não pudesse se mover, enquanto Charles amarrava uma tira de couro ao redor do pescoço dele.


 


— Não... — grunhiu Henri.


 


  Charles, que parecia muito experiente no manuseio do instrumento, encostou uma das pontas no maxilar e a outra no início do tórax dele. Depois o ajustou o mais apertado que pode. Terminado, Finningham soltou sua cabeça, mas Henri percebeu que não podia mais se mexer. Se respirasse forte, ou movesse-se um milímetro que fosse a cabeça para baixo, às pontas do garfo espetar-lhe-ia a carne impiedosamente.


 


— Isso é um objeto de penitência. Eu o deixarei com ele, pensando em suas escolhas, enquanto nós vamos comer. Até daqui a pouco, Sr. Chevalier. Aproveite esta chance.


 


 Os três oficiais saíram do seu campo de visão. A porta que dava acesso a um andar superior àquele, fechou-se com um estrondo. Henri estava sozinho, amarrado a uma cadeira, dois espetos afiados, posicionados entre o queixo e o peito.


 


 Ele fechou os olhos e tentou pensar nas soluções, mas logo seus pensamentos foram varridos pela lembrança de Adoria, pelo medo do que pudesse ter acontecido com seu corpo e sua alma durante tanto tempo na mão de algozes tão impiedosos. Pensou no nascimento da filha deles – uma menininha! -, e em que lugar ele deveria ter acontecido. Fora numa palha infestada de piolhos, como a sua? Ou será que deram alguma dignidade a ela, ao menos neste momento?


 


 A primeira lágrima desesperada escapou pelo rosto dele. Involuntariamente Henri pendeu a cabeça e sentiu quatro fisgadas dolorosas no lugar onde estavam os espetos. Sua pele fora perfurada sem piedade. De imediato ele voltou a erguer a cabeça o máximo que pode.


 


  Os minutos se arrastavam e mais lágrimas vieram fazer companhia a sua face descarnada. Sua nuca começou a sofrer de cãibra e ele teve que se forçar para não relaxar a cabeça outra vez. Por mais que se esforçasse, não conseguia mover nada ao seu redor com força de vontade. A magia o tinha abandonado por completo, assim como ele fez com ela. Aquela sensação era agonizante. Ele mal conseguia respirar sem que os espetos avançassem.


 


 Num repente a porta se abriu de novo, e o trio de oficiais voltou a seu campo de visão.


 


— Vejo que aguentou firme e forte, francês. — brincou Charles. — Vamos ver se depois desse tempinho você já conseguiu refletir sobre aquela confissão. — e desafivelando a tira de couro sob seu pescoço, retirou o garfo de Henri. Ele abaixou a cabeça imediatamente para compensar a dor de ter ficado muito tempo com a cabeça erguida.


 


— E então? Sua mulher é mesmo uma bruxa, Chevalier? — perguntou.


 


— Vá á merda! — exclamou Henri, ainda cabisbaixo.


 


— Ah, outra vez. — suspirou Charles, passando a mão nos cabelos castanhos. Seu rosto parecia fatigado daquilo, mas seus olhos estavam ansiosos para que o interrogatório não acabasse tão cedo — Adoria Chevalier é uma bruxa?


 


— VÁ PARA O INFERNO, SEU DESGRAÇADO! — urrou ele, com todo ódio retido dentro de si.


 


— Prepare o pêndulo. — exigiu Charles, ignorando Henri.


 


— Pode me torturar de todas as formas possíveis, maldito. Eu não vou nunca falar contra ela. Jamais! — continuava a berrar.


 


 Finningham e Meyer ajustaram as cordas do pêndulo e, tirando Henri da cadeira, levaram-no até o objeto. Henri tentou resistir quando amarraram suas mãos juntas pelos pulsos, numa corda atrás das costas, mas ele estava fraco demais para lutar. Os seus pés, prenderam em fivelas grossas deixando-o imóvel. E então o pesadelo começou...


 


— Puxe. — ordenou Charles. Finningham, que detinha a outra extremidade da corda, que passava por cima de uma roldana, deu um puxão brusco.


 


 Henri sentiu uma fisgada lancinante no antebraço, fazendo uma careta de dor.


 


— Vamos francês. Você não precisa passar por isso. Confesse... — pediu o oficial Charles, sorrindo.


 


— Nunca! — e cuspiu na direção dele.


 


 Charles Carter assentiu para Finningham. Desta vez não foi um puxão. A corda começou a ser estendida vagarosamente enquanto os braços de Henri eram sendo torcidos para trás, estirando seus músculos no sentido oposto e provocando mais e mais dor. As perguntas continuavam o convidando a dizer o que ele não queria, atentando-o numa troca que teria como recompensa livra-lo daquela agonia.


 


 Mas Henri era forte. Ele podia resistir aquilo. Devia. Devia isso a Adoria, já que não conseguiu o essencial que foi protegê-la aquela noite.


 


“Merlin! Porque eu fui dar as costas à magia. Aos meus poderes”. Pensou.


 


— Bruxa?


 


— Não! Não...


 


 A corda era estendida mais e mais, e Henri viu seus membros sendo esgarçados para trás. Uma força mórbida contra seu ombro, os tendões e articulações não resistindo à força contrária, o primeiro ligamento se partindo...


 


— Não! Não vão contar. NUNCA! NUNCA! — ele se viu berrando, como seu antigo companheiro de calabouço a dias atrás.


 


— Você sabe quem fez o parto dela, Henri? — perguntou Charles com um sorriso demente. Henri tentou focaliza-lo em meio a tanto sofrimento e lágrimas — Fui eu. Conhece a Pera? É um objeto curioso, e eficiente. Foi com ele que consegui a confissão dela. Vou explicar: nós introduzimos a Pera, um artifício metálico em formato da fruta mesmo, nos orifícios genitais do acusado. — Henri começou a sentir seus pulmões sendo esmagados por uma força invisível e os tímpanos perfurados pela narração bestial de Carter. Tudo era irreal. — Então a única coisa que se precisa fazer — continuava ele — é expandir a Pera dentro da pessoa. Entenda, Adoria é meio obstinada como você. Foi à única forma de fazê-la falar... infelizmente.


 


 Não havia remorsos nem na sua voz nem no seu rosto.


 


— Assim sua pequenina veio ao mundo. Será que você está me entendo, caro francês, ou preciso ser mais específico?


 


— Eu vou te matar... te matar... te matar... — arfou Henri quase desmaiando de dor. Seu braço esquerdo parecia mais não fazer parte do resto do tronco.


 


— Não, você não vai apagar agora. — disse Charles irritado — Pare Finningham! – os braços de Henri despencaram e ele caiu molemente no chão. Iria fechar os olhos se não fosse uma tina de água gelada chocar-se contra seu rosto.


 


  Novamente ele viu seu corpo sendo erguido e transportado, desta vez para a mesa com amarras. Levantaram seus braços com violência, a fim de prender-lhe os pulsos, e ele passou por uma dor imensurável, com esses movimentos. Estava com articulações estouradas e músculos rompidos, tinha certeza. Repetiram o procedimento com os tornozelos.


 


— Adoria é bruxa? — perguntou Charles outra vez.


 


  Henri olhou-o com a fúria de um dragão. Conseguia imaginar a cena nos mínimos detalhes, ainda que a dor física tentasse cega-lo. Adoria; o instrumento de expansão sendo penetrado impiedosamente em sua vagina até a altura do útero, onde a filha deles se acalentava; o sangue; um pedido de confissão imposto sob muita crueldade; contrações constantes; sangue... sangue... dor e gritaria.


 


— Vou me vingar. Guarde isso para sempre dentro de você. Eu perseguirei sua família e acabarei com ela...


 


 — Que pena que seja só isso que você tenha a me falar. — respondeu Charles, fingindo ressentimento.


 


  Finningham passou um instrumento para seu oficial, enquanto Meyer arrancava o pano encardido que era as calças de Henri. Por um momento ele pensou que fosse a Pera na mão de Charles, mas não. Era uma faca pequena.


 


— O que você vai fazer? — perguntou, vendo a mão de seu torturador baixar na altura do ventre.


 


  Oficial Charles Carter não respondeu. Meyer contraiu o rosto e recuou meio passo da mesa. Finningham assistia numa expectativa de aprendiz curioso. Cenas desconexas começaram a preencher sua mente. Lembrou-se dos pais; dos primeiros anos na escola de magia; a primeira vez que vira Adoria; os amigos que deixara para trás; uma noite de amor; o anúncio de que ele seria pai; Tudo aquilo fora a sua vida, e o homem que estava diante dele não parecia ter alma suficiente para entender o significado disso. Algo muito ruim aconteceria a seguir...


 


  E, num repente, a primeira pontada veio. A lâmina fria da faca encostou-se à pele, e, lentamente, começou a rasgar a túnica epidérmica que protegia seus testículos. Ele quase cantou de agonia, enquanto sua bolsa escrotal era separada.


 


— Adoria é bruxa? — perguntou o outro, sem parar de cortar.
 


— Não, não... — arfou Henri.


 


  Ele colocou mais força no cabo e lâmina entrou dois milímetros dentro da bolsa. A visão de Henri era um completo borrão. Então, num movimento rápido, quase cirúrgico, Charles causou uma ablação de cima a baixo.


 


  Henri urrou, contorcendo mãos e pernas. Buscou focalizar um ponto no teto que o tirasse daquela dor física, não conseguiu. Tudo era demais...


 


— Adoria é bruxa? — perguntou.


 


— Nã... não... não... — balbuciou, ouvindo sua voz distante.


 


  Charles deslizou os dedos por dentro da bolsa escrotal. O sofrimento só crescia. Envolveu-os no testículo, em carne viva e sussurrou:


 


— Mais uma chance...


 


— Vou... t... ma-tar.


 


  A seguir Meyer recuou dois passos, o rosto horrorizado. Finningham com as expressões chocadas não conseguiu se mexer. E Charles, ele portava um dos testículos de Henri, uma trama albugínea de vasos sanguíneos, como um troféu na mão.


  


— Ahhahaah.... É! É! — gritou Henri, sentindo a pior dor física de toda sua vida.


 


— O que? Adoria é bruxa? — perguntou Charles entre a expectativa psicopata e um sorriso débil.


 


— É... é... — murmurou Henri, e caiu na mais completa escuridão. Finalmente deixou a dor para trás.


 


 


***


   No dia que Henri saiu do calabouço do castelo de Homlgard estava chovendo. Ele agradeceu aos céus por não encontrar um céu ensolarado, depois de um ano vivendo na mais completa escuridão, suas retinas doíam demais perto da luz.


 


  O guarda do castelo empurrou-o para fora e fechou a portinhola com força atrás de si. Henri permaneceu no meio da estrada sem saber o que fazer primeiro. Não sabia se era o primeiro prisioneiro a sair com vida de Homlgard, mas também não se sentia como alguém vitorioso.


 


  Sua alma fora escoada para baixo da terra há meses, e ele torcia para que forças ocultas levassem seu corpo machucado o mais rápido possível. Nada aconteceu. Jamais adoeceu dentro das precárias condições de existência nos calabouços. Mas Henri tinha fé que algo o levaria dali vivo ou morto. Foi quando alguém quis falar com ele. Não era oficial nem carrasco, era um mensageiro, vinha da parte do convento de St. Paul.


 


  Eles haviam decidido seu destino, afinal. Henri nem sabia que seu futuro ainda estava sendo julgado. Esposos e filhos das mulheres bruxas das aldeias de Wessex e Brigtham, queimadas há sete meses, teriam uma segunda chance, mas longe daquele país. Um navio partiria dali quinze dias e ele deveria estar nele se não quisesse ser perseguido outra vez. Apenas uma promessa fazia seu coração bater fracamente, as crianças apreendidas – dentre elas, sua filha - já estariam no convés.


  Sua menininha... Como seria? Parecida com ele ou com Adoria?


 


  Estaria com perto de um ano de vida, agora. Ele esperava encarecidamente que tivesse sido cuidada como um ser humano, nesse tempo. Alimentada, banhada e vestida... Ao menos isso.   


 


  Voltando-se para esquerda, começou manquitolar em direção a cidade. Henri ainda tinha quinze dias para tomar um banho, tirar a barba, cortar os cabelos, encontrar vestes novas, ganhar um pouco de peso e se tornar mais humano do que se sentia, ultimamente.


 


  Adoria fora queimada viva, mas sua filha ainda o esperava. Era ela sua única motivação agora.

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Glossário:

Berço de Judas: Peça metálica em forma de pirâmide sustentada por hastes. A vítima, sustentada por correntes, é colocada "sentada" sobre a ponta da pirâmide. O afrouxamento gradual ou brusco da corrente manejada pelo executor fazia com que o peso do corpo pressionasse e ferisse o ânus, a vagina, cóccix ou o saco escrotal.

Dama de Ferro: A dama de Ferro é uma espécie de sarcófago com espinhos metálicos na face interna das portas. Estes espinhos não atingiam os órgãos vitais da vítima, mas feriam gravemente. Mesmo sendo um método de tortura, era comum que as vítimas fossem deixadas lá por vários dias, até que morressem.

Pêndulo: Um dos mecanismos mais simples e comuns na Idade Média. A vítima, com os braços para traz, tinha seus pulsos amarrados (como algemas) por uma corda que se estendia até uma roldana e um eixo. A corda puxada violentamente pelo torturador, através deste eixo, deslocava os ombros e provocava diversos ferimentos nas costas e braços do condenado.

Mesa de Evisceração: O condenado era preso sobre a mesa de modo que mãos e pés ficassem imobilizados. O carrasco, manualmente, produzia um corte sobre o abdômen da vítima. Através desta incisão, era inserido um pequeno gancho, preso a uma corrente no eixo. O gancho (como um anzol) extraía, aos poucos, os órgãos internos da vítima à medida que o carrasco girava o eixo.

Cadeira: Uma cadeira coberta por pregos na qual a vítima era obrigada a sentar-se despida. Além do próprio peso do corpo, cintos de couro pressionavam a vítima contra os pregos intensificando o sofrimento. Em outras versões, a cadeira possuía uma bandeja na parte inferior, onde se depositava brasas. Assim, além da perfuração pelos pregos, a vítima também sofria com queimaduras provocadas pelo calor das brasas.

Pêra: Instrumento metálico em formato semelhante à fruta. O instrumento era introduzido na boca, ânus ou vagina da vítima e expandia-se gradativamente. Era usada para punir, principalmente, os condenados por adultério, homossexualismo, incesto ou "relação sexual com Satã". 

* EXTRAÍDO DO SITE  http://www.spectrumgothic.com.br.

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 NOTA: 


   Este capítulo é oferecido, especialmente, a minha amiga Anne. Se não fossem seus pedidos, o capítulo teria continuado adormecido num arquivo de Word dentro do meu Pc.


   A todo mundo, me resta pedir desculpas pela demora. Estava sem inspiração pra sentar e continuar, mas forcei-me assim mesmo e olhem só, saiu!


   O capítulo foi bem pesado como eu havia planejado. Espero que não tenha soado exagerado demais. Fiz umas pesquisas sobre os métodos que a Santa Inquisição usava na Idade Média para torturar; e adivinhem só – isso que o Henri e sua família passaram é “fichinha” perto de tudo que eles faziam naquela época.


    O ser humano é realmente assustador!


   Mas deixando questões antropológicas de lado, me digam o que acharam do capítulo. Virão como o Duque de Bordon aprontou poucas e boas no passado, quando ainda era o oficial Charles Carter?


  Agora, no próximo capítulo, que prometo não demorar tanto, voltaremos para o presente de Ogden novamente. Será que ele foi mesmo viajar com o misterioso Conde de Durham... que pode já não ser tão misterioso assim? Continuem conferindo.


   E comentem, se puderem. 


 

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Comentários: 1

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Enviado por Neuzimar de Faria em 16/06/2012

Olá! Deixei para comentar somente após ler todos os capítulos. Você escreve de maneira diferente, criativa e magnética sobre um tema misterioso e difícil. Estou muito curiosa com relação ao que você ainda vai mostrar, então, por favor: não deixe esta fic incompleta e não demore a postar o próximo capítulo. 

Nota: 5

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