Capítulo 6 – Transparência
“As probabilidades é que você descubra
Que nós compartilhamos um desconforto comum agora
Eu me sinto andando em uma corda-bamba
Diga-me apenas se isso é real”
Buried Alive – Avenged Sevenfold
Quinze meses atrás
- São músicos, é óbvio que vão se atrasar. Essas pessoas acham que o mundo gira ao redor delas e que podem fazer o que bem entenderem. Nunca estão atrasadas, nós que estamos adiantados.
- Diga-me, é a sua primeira vez cobrindo uma coletiva deles?
- É sim, mas não é a primeira de uma banda ou cantor ou-
- Então está claro que não os conhece.
Walden Kirschner não observava o embate entre os dois colegas de trabalho logo na sua frente, encontrava-se sentado em sua cadeira, com o rosto apoiado na mão, numa pose que qualquer um que olhasse classificaria como repleta de tédio. De fato, achava-se entediado e ligeiramente irritado, mas não com a situação, e sim com os outros dois homens logo a sua frente.
Por mais que houvesse tentado, não conseguia evitar que a conversa deles entrasse em seus ouvidos. As palavras do primeiro homem, de estatura mediana, expressão enjoada e alguns quilos deslocados, e o tom superior que as acompanhava o faziam relembrar os motivos os quais, às vezes, detestava sua profissão. Alguns jornalistas achavam-se os donos da verdade, os detentores da notícia, e por isso mesmo sentiam-se no direito de dizer o que bem entendesse. O pior era que a opinião deles eram clichês, estereótipos criados pela população – e, Walden admitia, alimentados pela imprensa – e, para variar, nenhum deles era a verdade universal.
E esse tipo de jornalista, cuja quantidade parecia aumentar a cada ano, era o que empobrecia a carreira que Walden admirava e sonhava em seguir desde pequeno. A falta de porte crítico e questionador de tais pessoas o faziam sentir uma vontade de ir ao seu editor-chefe, gritar loucamente e pedir demissão.
Mas ele nunca cometeria tal ato, afinal, seria uma atrocidade para a revista onde trabalhava. Ele sabia de sua importância, dos anos de experiência e tinha total conhecimento que seus artigos sobre os fenômenos musicais mundiais carregavam um conteúdo profundo, verdadeiro e interessante que o transformara no maior detentor de matérias de capa da história da redação. Tudo em seus devidos níveis de modéstia, claro, ele não era um cabeça de vento como o gorducho à sua frente.
Além disso, adorava seu trabalho. O que mais gostava era ver as expressões pensativas dos músicos que entrevistava assim que direcionava alguma pergunta a eles e o jeito como seus rostos se iluminavam enquanto falavam, demonstrando com clareza, embora eles mesmos não percebessem, a paixão que tinham por música. E enchia-se ainda mais de orgulho ao saber que aquelas reações eram provocadas por ele, de certa forma.
Por isso estava ali. Os anfitriões daquela coletiva eram exatas provas vivas amantes da música, que haviam seguido aquela carreira por amor, não por dinheiro, como muitos outros astros que Kirschner tivera a infelicidade de entrevistar. Assim que soube que o Paradise Lust estava na cidade e dariam uma coletiva, encheu-se de animação, usou da influência que tinha no local de trabalho - que, apenas para constar, não era pouca – e incitou o chefe para que fosse.
Contudo, sua animação murchou um pouco ao ouvir a topeira que falava besteiras ali perto dele. O Paradise não era o tipo de banda que entrava na definição dele.
O homem que discutia com a criatura, por outro lado, encaixava-se no perfil de um jornalista respeitoso que Walden tinha. Sério, compenetrado e equilibrado. As palavras que pronunciava saiam claras e firmes, mostrando a confiança que tinha. Seu rosto exalava tranquilidade, o que também contava muitos pontos.
- Hey Walden, olha quem está ali. – o fiel companheiro de Kirschner, o fotógrafo Hayden Lynn, responsável pela maioria das fotos de capa que suas matérias conseguiam, sussurrou, fazendo-o voltar à realidade e abandonar os dois homens.
Walden tirou a cabeça da mão, esticando-a um pouco para que pudesse ver o que o dedo de Hayden apontava. Um grunhido escapou de seus lábios ao reconhecer os cabelos negros – tintura, era óbvio que era tintura, ninguém teria um cabelo daqueles naturalmente – de Eleanor Strauss, uma jornalista que ele infelizmente conhecia bastante por ter compartilhado com elas várias salas de conferência com a que se encontrava no momento. Eleanor era o tipo de pessoa que se encaixava no primeiro perfil de Walden, amante da fofoca e da boataria, e fazia questão de demonstrar transparência quanto a isso.
- Por que será que eu ainda me surpreendo com a presença dela? – comentou sem esconder ironia.
- Ela é responsável por artigos que atraem as massas, ou seja, extremamente necessária se quer vender muito.
Walden virou-se para frente, pois não foi a voz de Lynn quem respondeu. O homem que discutia com a topeira agora estava inclinado ligeiramente para trás, olhando para ele e o assistente, seu ombro recoberto pelo longo cabelo castanho-claro que havia prendido num rabo. Acabava de ganhar mais pontos no conceito de Walden.
- Conhece a Strauss? – ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.
- Mais fácil perguntar quem não a conhece. – o homem revirou os olhos e balançou um pouco a cabeça. – A mulher faz questão de marcar presença onde quer que esteja.
- Verdade. – o gorducho se intrometeu. – E ela sempre consegue surpreender.
Walden lançou seu melhor olhar irônico ao cara à esquerda. Ele adorava Eleanor, claro. Por que não? Os dois estavam no mesmo grupo. Walden às vezes se perguntava por que ainda se surpreendia com as pessoas ao seu redor.
- Ah, ela surpreende sim. – o segundo homem respondeu com um toque de deboche tão sutil que Kirschner, com um leve sorriso, logo soube que o outro não perceberia dada à limitação. – Mas te garanto que em vários aspectos, e alguns extremamente contrários a outros.
O gorducho apertou os olhos num gesto que mostrou claramente a Kirschner que ele não entendeu o que o outro quis dizer, mas esforçava-se para fingir que sim.
- Ela é incrível, isso sim, Van der Kohn. Um fenômeno jornalístico.
- Engraçado. – Van der Kohn interrompeu. – Pensei que os astros fossem outros, aqueles que estamos esperando... ou estávamos.
- E que até agora não apareceram!
Mas bastou a exclamação do gorducho para que a porta na extrema esquerda da sala abrisse e revelasse a longa cascata de cabelos castanhos de Lewis Ashbury, o guitarrista rítmico do Paradise. Automaticamente, todos os jornalistas viraram-se para frente, alguns correram para acomodarem-se em seus lugares e os fotógrafos começaram a usar suas câmeras.
Flashes e mais flashes seguiram Ashbury até seu lugar. Logo depois dele, vieram o baixista e segundo vocalista Draco Malfoy, o guitarrista e compositor Harry Potter, o baterista Ron Weasley e a tecladista Ginny Weasley.
Walden esquecera-se de como Ginny era encantadora. A cascata de madeixas ruivas brilhava com intensidade e balançavam no próprio ritmo. Os traços delicados de seu rosto e os intensos olhos azuis conferiam-lhe um aspecto angelical. Era uma bela mulher, sem dúvida.
Entretanto, o Paradise Lust não estava completo. Faltava uma pessoa, tão linda – ou talvez, na opinião de Walden, ligeiramente mais – quanto a tecladista: a cantora Hermione Granger, a primeira pessoa a cativar Walden durante seu trabalho. Lembrou-se de uma vez que fizera uma entrevista a sós com a bela morena, e surpreendeu-se, além da paixão dela por música, com sua personalidade. Confiante, tranquila, de um humor sagaz e ágil e com vasta inteligência. Nunca tinha conhecido uma mulher daquele jeito. Além de ser um fenômeno musical com sua voz hipnotizante, ainda recebia mais destaque por sua pessoa.
Hermione, como todos ali sabiam, no momento encontrava-se numa turnê de outra banda como convidada especial. E estava sendo muito elogiada por sua performance e pelo clima estabelecido com a outra banda, embora nada superasse a química que tinha com aqueles músicos ali, principalmente com Potter. Walden achava que o Paradise não seria nada sem o compositor, porém também não teria tanto prestígio se não houvesse a parceria dele com a bela morena, algo bastante poderoso. Era como se a voz dela tivesse sido feita para dar vida às palavras dele.
A coletiva iniciou. As perguntas que vinham eram como Walden esperava: algumas muito bem formuladas, outras interessantes e algumas deploráveis. Tudo era anotado por ele e registrado em forma de imagens por Hayden.
Até que a palavra foi dada a Eleanor e um alerta vermelhou acendeu dentro da cabeça de Walden.
- Essa pergunta vai para o Harry. – começou com seu tom de voz irritantemente meloso. O guitarrista abriu um leve sorriso e acenou com a cabeça, e Walden teve que se segurar bastante para não baixar a cabeça e evitar ver aquela vergonha alheia. – Diga-me honestamente, você e a Hermione já tiveram algum caso?
Algumas pessoas começam a cochichar, e quando Walden menos percebeu já estava pensando consigo mesmo também.
A pergunta não era, de todo, aleatória, não mesmo. Várias vezes, Harry e Hermione foram vistos juntos, chegando a premiações, passeando, sempre rindo, interagindo fortemente entre si. No palco, constantemente aproximavam-se um do outro, cantando e tocando, olhando diretamente um para o outro, e era inegável a química que existia entre eles.
Além disso, havia a questão das letras de Harry, que ocasionalmente vinham com uma carga tão passional e poética que faziam muitos perguntar se o compositor tinha uma musa inspiradora – e se a mesma era a bela cantora.
Ao olhar o guitarrista, Walden viu que se mantinha o mesmo de antes da pergunta. Ele esperou pacientemente a repercussão parar e aproximou-se do microfone postado frente a ele.
- Não, não – disse rindo brevemente. – Nós temos uma relação especial e emocional sem nenhuma conexão romântica. Ela é minha melhor amiga, nos conhecemos já há muito tempo, mas nunca houve nada além entre nós. Se há algum... fogo, vamos dizer assim, esse fogo queima entre a incrível voz dela e as minhas músicas.
Após a resposta, a coletiva seguiu sem mais nenhum alarde, até porque Eleanor calou-se após a bomba, o que fez Walden revirar os olhos; a mulher definitivamente amava boatos, e somente eles.
E o mundo jornalístico ficava cada vez pior...
Tempo presente
Orgulho próprio. Claro que era algo que Hermione Granger tinha, talvez até em níveis superiores aos aceitáveis. Somente as pessoas mais próximas a ela sabiam o quão orgulhosa era, a ponto de ser cabeça-dura. Quando, no meio de uma discussão – não importava em qual aspecto fosse –, ela descobria estar certa – ou pior, quando seu interlocutor descobria que ela estava certa – era demasiadamente difícil convencê-la do contrário. E isso também acontecia quando ela estava errada, pois, mesmo com o reconhecimento de seu erro, ela não media esforços para manter sua muralha bastante intimidadora. Destruí-la e fazer a morena a mudar de ideia era uma quase missão impossível.
Quase. Porque havia alguém que era capaz de fazê-la ir contra sua própria maré de pensamentos. Mas isso não vem ao caso agora, pois esse alguém se encontrava meio fora de órbita no momento – e quando entrava, era apenas para tirá-la do sério com pensamentos duvidosos e desesperadores.
Seja como for, Hermione acabou quebrando uma de suas mais marcantes regras. Sabia que estava certa, porém desistiu da luta para convencer a outra pessoa. Talvez porque se dera conta de que sua situação profissional encontrava-se numa espécie de Paz Armada: era bem óbvio que havia alguma coisa vindo por aí e todos estavam se preparando, na surdina, para quando o futuro se tornasse presente. Preparar-se, no caso, significava bolar estratégias e formar aliados. E ela não poderia, como a pessoa inteligente que era, ficar sem aliados no meio daquela semi confusão.
Só que ela não agira exatamente dessa forma. Isso era algo que um canto obscuro de seu cérebro tinha lhe dito numa voz baixa e irritante, o que fez a morena abafá-la o mais rápido possível. Tampouco ela sabia que toda a história de Paz Armada era verdade – uma pena.
Mas ela pensava que fez o que fez por achar ser fruto de seu cansaço ante o problema com seus amigos, e sua outra parte lhe dizia que era preferível tê-los por perto do que não ter ninguém. Achava que estava sendo boazinha e, por que não, superior.
A verdade? A verdade mesmo? Bem... ela ainda não era capaz de vê-la, pelo menos não por enquanto. Ou talvez visse apenas um vislumbre e não quisesse assumir por não ser algo, de fato, concreto – ainda.
Por isso, assim que o Paradise Lust voltou à turnê, uma das primeiras coisas que Hermione fez foi conversar com Ginny sobre o desentendimento delas no Starbucks. Culpou uma louca descarga hormonal vinda da TPM pela sua irritação sem sentido, disse que não tinha planejado dizer nada daquilo e que ficou bastante chateada consigo mesma por ter magoado uma de suas grandes amigas. Ginny sorriu, também despejou sua quota de desculpas e as duas voltaram a se comunicar como antes.
Os dias passaram com a banda viajando pelo resto da Europa com shows lotados e com a imprensa assídua. Quando davam uma entrevista, seja com a banda toda ou com um ou outro integrante, as revistas e os jornais esbanjavam artigos grandes, bem humorados e com vários elogios despejados ao logo dos textos, cuja qualidade que Hermione passou a achar um tanto desconfiável. Percebeu que a quantidade de elogios era tanta que parecia algo bastante forçado.
Nunca fora fã do jornalismo. Achava-o extremamente essencial, é claro, porém às vezes ele parecia ser falso e mais pessoal do que deveria. E isso ela culpava quem o controlava, pois tinham pela ideia de seu poder e consciência de que, justamente por serem os donos, poderiam fazer seus subordinados anunciarem e colocarem as opiniões que apenas os interessava, ignorando a verdadeira essência da crítica e da exposição da verdade.
E quando se tratava do mundo dos artistas e dos famosos, a hipocrisia era multiplicada por mil. Assim que se tornou mundialmente conhecida, Hermione começou a perceber o quanto os sensacionalistas poderiam ser irritantes e, acima de tudo, falsos, especialmente quando se tratavam de tentar mergulhar em sua vida privada.
Contudo, havia exceções, claro, e já tinha conhecido uma quantidade boa de entrevistadores que criavam perguntas que incitavam ao máximo a exploração da música que a banda fazia, mostrando que o que queriam era, de fato, anunciar aos fãs o que eles pensavam do próprio trabalho.
E aquele era o caso de Simone Birarelli, uma jornalista que conseguiu surpreender Hermione durante a entrevista, numa sexta-feira em Milão, que fazia junto com Harry. O moreno, ela também notou, encontrava-se ligeiramente estupefato, além da personalidade tranquila e do bom humor da italiana, pelas perguntas interessantes que eram feitas, o que mostrava o quanto aquela mulher apreciava e conhecia a música dele.
- Bem, - ele começou a dizer como resposta a uma pergunta. – eu não diria que esse álbum converge cem por cento com a mesma ideia do anterior, mas são bem mais próximos do que se eu fosse comparar os nossos penúltimo e antepenúltimo álbuns. Acho que boa parte das músicas desse lançamento é mais pesada do que a do anterior, sabe, com guitarras mais distorcidas e com riffs mais trabalhados, e o mesmo vale para a bateria. Devo dizer que, agora, nos concentramos mais no barulho do que nos tons melódicos que fizemos com Ginny antes.
- É. – Hermione disse em concordância. – E também acho que os teclados também estão mais trabalhados. O som não está tão melódico, está mais sombrio, mais pesado, de modo complementar bastante as guitarras e a bateria soando loucamente. Mas quando é uma música mais tranquila, o teclado fica muito mais notável e com uma carga musical muito maior, sabe, um tanto onírico.
Simone deu um breve sorriso e terminou de escrever algo em seu bloco quando ergueu a cabeça de novo.
- E quanto às letras? Deu para notar que, enquanto os dois últimos álbuns convergem na melodia e harmonia, as letras estão mais diferenciadas... – disse olhando os dois periodicamente.
Hermione abriu um sorriso quando a entrevistadora pousou, por fim, seus olhos azul-esverdeados nela.
- Acho que é melhor perguntar para ele porque não participei tanto assim da composição das letras. – disse, tocando o ombro direito de leve com a mão e lançando um breve sorriso para ele.
Harry, que se encontrava ligeiramente inclinado para frente e com o olhar meio perdido devido aos pensamentos sobre o que iria falar, virou a cabeça de leve na direção dela. Uma das sobrancelhas erguidas ilustrava o olhar divertido que lançava a cantora.
Pelo visto, a descontração no verde dos olhos dele parecia bem real para Hermione. Depois de dias decorridos, o encontro deles na partida de futebol em Hogwarts e o jeito estranho com que ele agira acabaram indo para um canto mais esquecido do subconsciente de Hermione, embora continuassem lá – o que ela notou ao comparar o momento atual ao passado.
Às vezes não conseguia entender o que se passava com Harry, se era uma nova fase da personalidade dele ou se era algum problema que o assolava, mas suas preocupações logo iam embora quando via seu melhor amigo não mudara completamente, apenas um pouquinho.
O que era bem compreensível, aliás, ela realmente achava que o Harry que conhecera aos onze anos permaneceria o mesmo? Ele cresceu, viu novas faces de coisas na vida, viu o próprio mundo ao seu redor mudar e não lhe restou nada a fazer senão mudar para adaptar-se ao ambiente em que vivia.
Ela mesma também tinha mudado, mesmo que um pouco. Continuava mandona, embora não tanto quando na época do colégio, e sua mania por organização e por regras ficou cada vez mais acentuada. Sem contar que, é claro, descobriu que a música representava algo muito mais que um simples hobby para acalmar e tornou-se sua vida profissional.
- Que mentira. – Harry disse. – Você compôs comigo também, lembra?
- Eu sei, mas acho que a ideia geral do álbum veio de você e... Sinceramente? Acho que nem eu consegui entendê-la direito. – a cantora virou-se para a entrevistadora, que abriu mais um pequeno sorriso. – Difícil entender cem por cento o que se passa na cabeça dele, principalmente quando se trata de música. A ideia desse álbum não é tão facilmente captável como a do anterior.
- Acontece que o anterior foi um álbum-contexto, sabe, com uma ideia geral que é refletida e percebida em cada música. Esse lançamento não. Ele foi mais... Como posso dizer? Ele é mais um álbum do momento, sabe. – Harry começou a explicar enquanto ocasionalmente gesticulava, sendo mais uma vez observado pelas duas mulheres. Hermione surpreendeu-se mais uma vez com ele enquanto falava sobre suas composições de uma forma tão tranquila, mas que exalava a admiração que ele tinha pela música. Era facilmente notável para qualquer um o quanto Harry era extremamente apaixonado pelo que fazia, mas mesmo assim a intensidade e a emoção das palavras nunca falhavam em encantar a morena.
Bem, embora a banda como um todo estivesse ligeiramente mudada, ainda havia alguns ideais intactos, tais como o fato de fazer música por paixão, o que era bem visto no guitarrista naquele momento.
- Eu compus as letras sem um ideal, - Harry continuava a falar – sabe, eu apenas escrevi quando me sentia inspirado. E essa inspiração vinha de qualquer canto, seja de um filme, uma paisagem, uma foto, lembranças da infância, durante uma viagem, qualquer coisa mesmo. Às vezes eu me encontrava perdido em pensamentos e... sei lá, aí vinha uma onda de criatividade que batia em mim e eu já estava procurando papel e caneta para escrever. Algo bem instantâneo: eu pensava e escrevia. Não tem algo concreto nisso, algo minuciosamente pensado e criado que nem os CDs anteriores. E acho que isso tornou o processo de composição mais fácil e com uma participação maior dos outros membros da banda.
- E o que isso influenciou em você internamente? – Simone já emendava outra pergunta. – Afinal, suas letras se tornaram conhecidas pelo surrealismo, pelo onírico, pelas figuras de linguagem, o que não está cem por cento contido nessas letras... embora ainda sejam, é claro, bem trabalhadas... Algo mudou em você durante com as composições recentes?
- Se mudou, eu não tenho certeza em admitir, mas posso garantir que tive acesso a uma estranha sensação de liberdade... Não que eu tenha me sentido preso quando escrevi outras músicas, porém não posso esconder que, vez ou outra, me sentia na obrigação de escrever, de pensar cada mínimo detalhe. Acho que nesse lançamento, as ideias fluíram com maior naturalidade, eu não pensei tanto em rebuscá-las, apenas em transmiti-las para o papel. As coisas encaixaram mais facilmente, e isso fez com que eu me sentisse bem. Enfim, foi uma experiência que eu não pretendia fazer, mas que acabou ocorrendo e com um resultado muito bom.
- Acho que podemos dizer que esse álbum foi uma ligeira escapada do mundo imaginário para a realidade. – Hermione emendou assim que Harry parou de falar. – Mas que ainda contém as mesmas características dos anteriores, afinal, são elas que nos definem.
- Liberdade, experimento não planejado, melodia mais pesada... – a jornalista ponderava enquanto perpassava de leve os olhos pelo seu caderninho. – E o que pode dizer dos vocais, Hermione? Qual foi a sua experiência com os vocais? Porque deu para perceber que eles continuam fortes, mas os momentos líricos estão mais destacados e isolados, como em “The Siren”, e não no todo.
Hermione olhou para as próprias mãos cruzadas na frente enquanto pensava. Não era um gesto de nervosismo, mas, assim como Harry, gostava de movimentar-se enquanto era entrevistada.
- Essa parte mais deslocada foi uma boa, confesso. Tiramos essa carga clássica um pouco e aplicamos nos momentos certos. Acho que isso serviu para a minha voz se adaptar e mesclar um pouco mais com a do Draco, cujo papel vocal notoriamente cresceu agora em relação a lançamentos anteriores. Temos duetos que fizeram com que eu colocasse um pouco mais de agressividade na voz, e esse foi um lado que eu descobri que gostei bastante de trabalhar. – ela riu e continuaria a falar se não fosse pela interrupção de Harry.
- E o álbum todo seria assim se eu não a freasse. – ele lançou-lhe mais um olhar divertido antes de voltar-se para frente. – Mas foi bom ela se empolgar tanto, assim como também o Draco. Eu já tinha descoberto o potencial de ambos num dueto, mas só pude ver a versatilidade disso durante as últimas gravações. Se há duetos com os dois sendo agressivos? Há, porém eu convenci os dois a explorar mais a voz de cada um e fizemos isso, atingimos outros níveis com ela e com Draco, e esse resultado só contribuiu a favor da integridade do álbum.
E a entrevista continuou durante mais um tempo. Hermione saiu do local com uma ótima sensação de leveza e bastante feliz por ter expressado um pouco do quanto a música era sua paixão. Harry também se encontrava de um jeito parecido, tanto que os dois engataram numa conversa que se seguiu até o hotel.
O humor da cantora melhorou ainda mais ao perceber que agia com ele do mesmo modo que faziam quando eram adolescentes. Chegaram até a brincar um com o outro enquanto distribuíam autógrafos para alguns fãs na saída da redação da revista, e os sorrisos que ele lhe lançou ali eram tão brilhantes quanto os que ela se lembrava do passado.
O assunto não morreu depois que eles entraram no veículo que os levaria de volta ao hotel onde a banda e a equipe estavam hospedados.
Assim que chegaram, descobriram que os amigos estavam na sala de jogos. Ao entrarem lá, viram Nicholas, Ron, Draco e Dean entretidos numa partida de sinuca. Ginny, Lewis e o resto da equipe estavam distribuídos entre o tênis de mesa, as duas mesas de carteado e os jogos eletrônicos.
- Não sei por que vocês já estão fazendo planos, ainda nem propomos essa ideia ao Harry e a Mione. – Ron dizia enquanto Dean fazia sua jogada.
- Ótimo, então podem propor sabe-se lá o que agora. – a mulher disse sorrindo aproximando-se com Harry.
Os quatro se viraram e cumprimentaram brevemente os recém-chegados. Hermione abraçou o noivo de lado, que depositou um beijo cálido em seus lábios em seguida, e Harry acomodou-se ao lado do baterista.
- Nick, Ginny e Lewis comentaram algo depois que vocês saíram que levou a um debate que nos fez chegar a uma ideia bastante interessante. – Dean disse, contornando a mesa depois da jogada.
- Que seria? – Harry quis saber, cruzando os braços enquanto se apoiava no canto da mesa.
- Melhor sair daí, Potter, porque é justamente onde essa bola azul vai entrar. – o baixista falou provocativo.
Harry ergueu a sobrancelha e lançou um olhar à mesa depois mais um ao loiro.
- Tem certeza? Você não é tão bom quanto acha que é, Malfoy. – ele respondeu no mesmo tom. – E se agora você quiser me acertar com essa bola, volto a dizer a mesma coisa. Aliás, fazer isso é mais difícil do que acertar a caçapa.
Todos riram, menos Draco, que estreitou os olhos na direção do moreno.
- É, mas aposto que empalar você com esse taco é bem mais fácil do que fazer as duas coisas. – disse balançando o objeto em mãos perigosamente.
- Empalar. – Ron repetiu. – Wow. Não sabia que você conhecia essa palavra, Draco.
- Silêncio, Weasley. – o baixista sibilou. – E só falei desse jeito porque há mulheres no recinto.
Hermione, ainda apoiada em Nick, abriu um sorriso e devolveu:
- Se está se referindo a mim, Draco, não precisa se preocupar com o respeito. Já ouvi coisas piores de você, muito piores. E, não, não foi com você bêbado, embora nesses casos tenham sido piores, mas bem sóbrio.
O baixista fez sua jogada e, como Harry previra, não acertou a bola azul na caçapa, o que desencadeou mais uma onda de risadas.
- ‘Tá, mas que tal contarem a ideia interessante que Dean disse? – Hermione perguntou enquanto Ron contornava a mesa para jogar.
- Eles propuseram que nós façamos um DVD do último show da turnê. – Nicholas foi quem respondeu.
- Boa ideia. – o guitarrista comentou. – Faz um tempo que não lançamos um DVD, um bom tempo.
- É. – Nick concordou. – E podemos aproveitar todo esse momento ótimo que estão vivendo para realizar o show num lugar amplo e fazer uma produção maravilhosa.
- Apoiado. – Ron disse inclinando-se na mesa, os olhos fixos na bola branca enquanto analisava seu próximo passo. – Porque os palcos dos shows gravados não eram exatamente interessantes.
- Verdade. – Draco adicionou. – Merecemos o palco grande agora.
- Tudo poderá ser arranjado se falarmos com as pessoas certas. – Nicholas sorriu de modo tranquilizante. – Então, todos gostaram da ideia, só faltam as opiniões de vocês. – e apontou para a noiva e o compositor.
- Por mim, está tudo ótimo. – Hermione disse rapidamente.
- O show deve continuar. – Harry sorriu.
- Beleza. Falarei com os técnicos e as meninas da imprensa depois. Seria uma boa começar logo para deixar tudo preparado para o grande evento.
- Com certeza será um grande evento!
Não era de se espantar que o local estivesse cheio. Além de ser o melhor clube no estilo latino que existia em Milão – especialmente acoplado num hotel como aquele –, ainda era sexta-feira à noite. O movimento incessante de pessoas era composto pelos hóspedes do hotel mais os italianos e turistas em busca de uma noitada agradável, regada a uma música animada e a drinks saborosos e exóticos.
A banda estava espalhada pelos bares, pelas mesas, na pista de dança e até mesmo enturmando-se com outros músicos renomados que lá também se divertiam.
Em uma das mesas, Harry, Ron e os engenheiros de som jogavam cartas de um baralho que, àquela altura do campeonato com todos afetados pelas incontáveis doses de álcool, ninguém seria capaz de explicar de onde surgiu.
Mas ninguém ligava para aquilo, afinal, os homens estavam mais interessados em saber por que diabos somente um deles estava com uma pontuação astronômica enquanto alguns ali nem mesmo tinham saído da casa do zero. E os gritos que surgiram ali após o término de mais uma partida ilustravam tal fato, além de chamarem atenção para mesa, embora o volume não fosse tão incomum assim à já barulhenta atmosfera do ambiente.
- Parecem mais animais do que homens jogando! – exclamou uma voz. Os jogadores viraram-se e viram Nick aproximando-se com um copo de mojito na mão direita. Suava um pouco, dois botões da camisa já tinham sido abertos e ele quase colidiu com a mesa em sua aproximação, mostrando que já não respondia mais por seus músculos. – Que merda‘tá acontecendo aqui?
- Esse desgraçado do Harry ganhou de novo! – Dean exclamou com a voz um tanto enrolada. – Ele ‘tá ganhando a porra toda!
O guitarrista riu.
- É um dom que poucos têm. – falou zombeteiro.
- E ele ganha tudo mesmo! – Dean continuou a falar aparentando não ter ouvido a interrupção. – Sério! Todas as mulheres caem aos pés dele quando ele passa, ele pode escolher qualquer uma... Ah, eu trocaria de vida com ele num piscar de olhos porque a minha vida é um saco. – E fez um gesto como se cuspisse na mesa, porém um copo de bebida chamou a atenção, e ele tomou o enésimo gole daquela noite.
- Ih, olha aí o álcool falando. – Harry murmurou ainda divertido. – E com vocês, o estágio das falas desconexas.
- Acho que a coisa mais legal da minha vida foi Ginny... E que droga! Até Ginny esse daí já teve! – o engenheiro gesticulou afobado para Harry, o que fez com que um pouco do líquido em seu copo escorresse para fora. – Lembro quando os dois estavam juntos na escola... Pareciam o casal mais perfeito do mundo! E Ginny parecia mais radiante que nunca... Na verdade, agora ela parece mais radiante que nunca. – Um suspiro escapou pelos lábios grossos dele. – Ah... Ginny é uma mulher incrível. – De repente, o homem começou a rir loucamente. – Mulher... Acho que nunca tinha falado da minha ruiva assim. Deve ser porque eu a conheci quando ela era garota... E falando em garota... A Hermione! Ela também virou uma mulher e... Se me permite, Nick – Dean virou-se para o empresário que assista a tudo com um sorrisinho meio débil nos lábios, aparentemente uma consequência da bebedeira. –, que mulher! Já viu a mulher que Hermione virou, Harry? Porque só falta você tê-la! Aliás, faltava porque ela ‘tá comprometida. – E, enfim, ergueu o copo na direção de Nick num sinal saudoso.
O guitarrista lançou um olhar estranho na direção do amigo enquanto tomava sua própria bebida. Que rumo aquela conversa estava tomando?
- Acho que já. – disse, amaldiçoando seu coração por ter dado um pulo à menção do nome dela. – Afinal, eu cresci com ela, não é mesmo? – emendou para disfarçar. Disfarçar o que, idiota? Só se for para você mesmo!
- É verdade, você cresceu. - Dean pausou e, com olhos vidrados, ficou observando algum ponto atrás de Harry durante uns três segundos antes de balançar a cabeça e se recompor. – Cresceu e ficou com todas as mulheres que queria...
- Deus, esse cara não deve beijar na boca há séculos... Ou melhor, não deve nem ter tocado uma mulher durante um bom tempo. – Ron murmurou para o melhor amigo, que sufocou uma risada com o olhar ainda no ex-colega de escola.
- Esse cara consegue qualquer uma! – Dean continuava a exclamar, batendo na borda da mesa com o fundo do copo. – Também, com muito dinheiro, até eu... Calma, cara, não quero dizer que elas só gostam de você por isso. – Ron abafou mais uma risada, recebendo o olhar do engenheiro caído sobre si. – Mas não é verdade? Esse cara pode ter a mulher que quiser, não acha Nick? – perguntou, subitamente virando-se para o empresário.
- Acho que não. – Nick respondeu, fazendo todos, que pareciam compartilhar da mesma opinião de Thomas, se virarem um tanto assustados para ele, inclusive Harry, que achou algo estranho na voz do loiro.
Mas o que poderia afirmar com certeza? Sua mente não estava funcionando cem por cento havia certo tempo. Nem a de Nicholas, que se encontrava num estágio ainda pior.
- E por que não? – foi Ron quem questionou.
- Porque se isso fosse verdade ele já estaria por aí – o loiro indiciou o centro do clube com um aceno de cabeça. – à procura de alguma garota.
- Alguma garota. – Harry repetiu erguendo uma das sobrancelhas. – Fala como se fosse uma coisa, um objeto. Curioso para alguém que está noivo de uma mulher. – E era bem provável que a mulher com quem Nick estava não passasse de um mero objeto para ele, Harry pensou um tanto irritado.
- Ah, que legal, ele também percebeu! – Dean exclamou feliz, recebendo todos os olhares dos amigos antes que Nick se pronunciasse.
- Claro que percebeu. – o empresário virou-se para o moreno. – Como não perceber, não é? E eu não falei como se fosse uma coisa... Se você parar para pensar, eu disse garota, não mulher. Porque uma garota é tudo o que você vai conseguir aqui.
Harry estreitou os olhos. Tinha ingerido álcool também, mas não a ponto de fazê-lo perder o raciocínio lógico. Por isso mesmo, pôde notar o provocante tom desafiador que saiu dos lábios do outro.
Nicholas tinha algum propósito com aquela conversa. O músico conseguia sentir cheiro de jogo de palavras de longe, afinal, ele mesmo era bom naquilo; vinha praticamente havia meses e, como bem diziam, a prática levava à perfeição.
Você não está exagerando, Potter?, uma vozinha disse em sua cabeça. Vai ver você só está desconfiado assim por causa do álcool... Você fica assim, lembra, desse jeito meio desconfiado antes de perder a noção total quando fica bêbado de fato. E ele também está bêbado!
- É o que, você está duvidando de mim ou só porque está com uma mulher que as outras se tornam automaticamente desprezíveis? Ou será que na verdade essa é sua opinião geral?
O moreno só percebeu o quão ríspidas saíram suas palavras quando Ron exclamou seu nome baixinho ao seu lado com um tom de incredulidade. Mas ele tampouco ligou.
- Não, essa não é minha opinião geral. Será que você não me ouviu? – Nick resmungou com um suspiro que Harry classificou como o nível máximo de falsidade. – E a minha opinião sobre aquelas garotinhas que só se interessam pelos bens materiais, não sobre mulheres de verdade, que de fato conquistam um homem... Como Hermione, que não sabe, mas encanta todos por ser quem ela é.
Harry não pôde segurar a irritação que seus olhos voltados para o loiro começaram a transparecer. Não demorou nem um segundo sequer para reconhecer as próprias palavras do discurso feito na festa de noivado.
Então, o moreno sentiu como se tivesse batido numa parede invisível que rachou ao seu redor, revelando algo surpreendente.
Nicholas sabia.
E o olhar lançado ao loiro só fez Harry reafirmar sua descoberta. O outro homem só estava testando-o, e o olhar serviu como confirmação.
O músico se segurou até seu último fio de cabelo para não demonstrar surpresa. Manteve o olhar e retirou toda a frustração, mas ele já sabia que era tarde demais. Também fez o possível para se manter passível enquanto um leve alerta era aceso dentro de seu cérebro e todas suas células gritavam a verdade.
Nicholas McAllister já sabia sobre seus verdadeiros sentimentos em relação a Hermione. Sabia que a amava mais do que uma simples melhor amiga.
Incrível como uma simples descoberta poderia desencadear outras. Enquanto, por fora, Harry mantinha-se indiferente e por dentro sua cabeça trabalhava a cem por hora, memórias passadas começaram a passar velozmente na frente de seus olhos... Especialmente uma do dia da festa de noivado e outra do jogo em Hogwarts, duas cenas que protagonizavam ele e a irmã.
“... Sei que está entretido numa jornada própria...”
“Ela não o conhece inteiramente... Até porque, se isso fosse verdade, não estaríamos aqui, certo?”
Delinda! Delinda também sabia. Finalmente compreendeu as indiretas, as palavras enigmáticas e os sorrisinhos provocantes – mais do que o normal. A advogada não estava agindo daquele jeito por excessos, e sim porque queria fazê-lo se dar conta que ela sabia de Hermione.
“Eu sei o que você sente, sei o quanto está magoado...”
E Ron? O ruivo confessou com todas as palavras! Disse que via como ele, Harry, estava agindo de forma estranha... principalmente ao redor da melhor amiga e do noivo dela.
O noivo dela, inferno! Nicholas, a última pessoa que deveria ter conhecimento que mais alguém estava apaixonado por sua morena, já tinha feito questão de mostrar ao guitarrista que seu segredo não era mais tão secreto assim.
Diabos, se três sabiam, quem mais? Estaria tão óbvio assim? Tão transparente?
Ou seriam apenas mentiras?
Um blefe do estado alcoolizado de Nicholas, talvez?
Antes de qualquer coisa... Aquilo tudo era real?
Um forte latejo assaltou a lateral de seu crânio. Eram tantas informações que vinham numa velocidade e força intensas que sua cabeça já estava começando a doer, e por isso ele mesmo não conseguia se decidir, não conseguia dizer se aquelas conclusões eram verdadeiras ou apenas efeitos das doses de bebida.
Se bem que...
Se os outros prestaram atenção nas letras escritas por ele, que eram menos perceptivos que Hermione – não que isso fosse uma ofensa... Bem, pelo menos para Delinda e para Ron não era para ser –, por que a morena não tinha se dado conta de nada?
Porque essa era a única explicação plausível, afinal, Delinda mesmo disse que se Hermione tivesse percebido algo, aquela situação presente não existiria...
Ou seria que não?
Pelo menos ela teria aberto a boca! Teria dito algo, mesmo que fosse para rejeitá-lo – isso sim era óbvio.
Agora Nicholas acabou de deixar claro que sabia de seus sentimentos.
Ótimo. Maravilha. E o enredo acaba de ficar mais interessante..., o moreno pensou ironicamente.
E pior, o empresário também deixou claro que era ele quem tinha Hermione, não Harry. Na verdade, o filho da puta nem está deixando claro, está praticamente esfregando na sua cara, Potter! Tal pensamento fez o músico chegar a mais uma conclusão naquela noite, a de que Nicholas estava certo. Ele não poderia ter todas as mulheres que desejava... porque Hermione era uma dessas mulheres, e ela já era de outro.
O que mais irritava o músico naquilo tudo era o fato de que o loiro falava da noiva como se ela fosse um objeto a ser mostrado numa feira de exibições, como se fosse mais uma garota da qual ele tão incessantemente falava. E isso só reforçou a ideia de Harry que McAllister só estava casando com a cantora porque ela era uma espécie de passe para elevar o status dele e apenas isso. Talvez Hermione tivesse encantado Nick, mas não do mesmo jeito, não com a mesma intensidade com a qual encantara ele próprio... Desde quando mesmo? Harry nem sabia, afinal, ele não teve consciência do processo de se apaixonar pela melhor amiga, apenas se deu conta de que não podia mais amá-la fraternalmente.
E ele realmente deixaria a mulher que amava ir para os braços de outro sem levantar um dedo sequer para questionar?
Mas o que diabos poderia fazer para mudar a situação? Não era como se Hermione fosse abandonar o empresário para ficar com ele... porque ela não o amava. Na verdade, ela nem acreditaria nele, nem mesmo se olhasse em seus olhos, porque ultimamente a relação dos dois vinha se desgastando num ritmo mais rápido que o normal.
E lá veio novamente a sensação de estar batendo na parede. A relação dele e de Hermione estava mudando. Mas como, inferno? Ele não tinha nem ideia de onde começar a explicar por que, aliás, não tinha nem ideia de onde procurar respostas. Bizarramente, essa situação assemelhava-se quando se descobriu apaixonado pela cantora... Bizarra, irônica e dolorosamente na verdade, não é?, ele pensou amargurado.
A noite ia de mal a pior. Ele nem ergueria a mão aos céus e perguntaria o que mais faltava para ferrar com tudo de vez porque, no quadro atual na qual sua vida se encontrava, era bem possível que algo fosse acontecer para transformar aquela noite que em teoria deveria ser um momento agradável com os amigos num cenário infernal pós-apocalítpico.
Exagero? Como se ele ainda ligasse...
O sete de copas está na mão do Cody, sei disso. Ele olha para cá toda hora!, Harry dizia a si mesmo enquanto olhava para a mesa, totalmente ligado no jogo. Depositara toda sua concentração nas cartas assim que Nicholas afastara-se. Pensara que se forçasse todos seus neurônicos a focarem em uma coisa, não daria espaço para que os pensamentos sombrios que aterrorizavam o canto de sua mente viessem à tona. Até então, tudo seguia conforme o plano.
De repente, a música parou e um barulhinho irritante começou a castigar seu ouvido, como se alguém assoprasse um apito muito agudo. O DJ disse alguma coisa em italiano que o guitarrista nem se esforçou para entender, mas que fez muitos presentes gritarem e agitarem. Em seguida, uma nova canção preencheu a atmosfera.
- Smooth do Santana. – Dean disse antes de realizar sua jogada. – É bizarro demais eu saber que música é essa?
- Bêbado do jeito que está, ninguém dúvida mais de nada. – disse Cody Jobs, um dos assistentes de som e o alvo dos pensamentos de Harry.
- Babaca. – Dean sibilou antes de depositar a carta na mesa.
- Ih, qual é! – exclamou Patrick Warrington, outro assistente, enquanto tomava seu mojito. – Carlos Santana é um ótimo guitarrista, ta? Não é do meu estilo, mas convenhamos, não?
- Será que dá para vocês pararem de discutir que nem maricas e jogar logo? – Ron enfureceu-se.
Harry riu e o jogo continuou por mais alguns segundos antes que Lewis se aproximasse, vindo do bar.
- Harry! Ron! – exclamou rindo. Carregava seu próprio drink, o que demonstrava que também estava “alegre”. – Vocês sabiam que a melhor amiga de vocês sabe dançar? Dançar bem? Olha que a doidinha estava dizendo que não! – e concluiu apontando para o centro do clube.
No meio da pista de dança, Hermione e Nicholas estavam entretidos numa dança com movimentos sensuais, bastante sensuais. Naquele momento em particular, Nick a fez girar para depois puxá-la de volta aos seus braços e inclinar seu corpo para baixo, descendo um pouco o próprio tronco. A mão que estava na cintura dela escorregou para sua coxa.
O queixo de Ron caiu.
- Meu Deus! Por essa eu não esperava! – exclamou ainda abismado. – E ela sabe dançar alguma coisa!
Os outros homens também viraram-se.
- Caramba! Só eu estou achando que ela está sexy com aquele vestido? – Cody disse.
- É, meus amigos, a nerd de Hogwarts cresceu. – Dean comentou e levantou seu copo num gesto de brinde.
- Querem que eu pegue o babador para vocês? – Lewis provocou, agora rindo da reação dos amigos.
- Eu quero é voltar a jogar essa porra! – Patrick exclamou irritado. – Até parece que nunca viram mulher!
Os homens ao redor começaram a protestar ao mesmo tempo, criando uma cacofonia que só piorava a acústica do ambiente.
- Eu vou é embora daqui. Deixei Ginny sozinha lá no bar. Só vim aqui mesmo falar isso. – Lewis disse e, ainda gargalhando, saiu da mesa.
O jogo continuou, contudo a concentração de Harry não se encontrava mais impecável. Sabia que Lewis não tinha falado por mal, apenas feito um singelo comentário, mas seus olhos pareciam ter adquirido uma atração cruel e inescrupulosa com o casal no centro do salão. Por mais que quisesse, não conseguia desviar o olhar, e isso apenas servia para que ele sentisse seu coração ser perfurado com lentidão por uma espada grande e demasiadamente afiada.
Por que cismava em ver aquilo, diabos?! Gostava de se torturar tanto assim? Não tinha ideia de que pudesse ser tão sádico...
Mesmo assim, a cena constantemente entrava em seu campo de visão, pois, em intervalos de tempo cada vez mais regulares, seus olhos fugiam do jogo de cartas a sua frente. Via a mulher que amava entretida numa dança para lá de sensual com o noivo, via os sorrisos encantadores e inocentemente sedutores dela, via o homem conduzindo-a com um ritmo rápido e arrebatador, via-o prendendo-a em seus braços, depois a inclinando para trás, levando seu corpo junto, para logo depois voltarem a passear pela pista como se fossem os donos do mundo.
De repente, o loiro esticou o braço, fazendo-a rodopiar para logo depois voltar para ele, ficando de costas. As mãos dele percorreram toda a lateral do belo corpo dela e pararem na cintura com um aperto quase possessivo. Depois, os dois juntos – tão juntos que pareciam um ser apenas – requebraram e rebolaram até o chão. Ela sorriu de novo, olhando para as mãos dele e para o movimento que faziam, completamente deliciada com o que fazia.
Os dois ficaram em pé de novo e, numa rodada súbita e pelo visto muito bem calculada, Nicholas rodou-a mais uma vez, prendendo-a em seus braços com força, e guiou-a para frente e para trás. Os lábios dele movimentaram-se, dizendo algo que a fez abrir mais um sorrisinho malicioso, soltar uma risada e, em seguida, aproximar seu rosto do dele; a distância tão curta que qualquer esbarrão sequer juntaria as bocas de ambos.
Ele a fez rodopiar mais uma vez, afastando-a e tomando-a nos braços segundos depois. Ela aproveitava tanto aquela dança que quando voltou estava com os próprios braços para o alto, o que deu permissão para que seu parceiro aproximasse mais, deixando seus corpos, enfim, colados. Os olhares que cada um lançou ao outro naquele instante foi tão intenso, tão cheio de sedução e desejo que entranharam ainda mais a espada no peito do moreno que assistia a tudo. Mais uma vez, Nick explorou o corpo dela com as mãos, fazendo-a jogar a cabeça levemente para trás e fechar os olhos, mostrando que já sentia prazer só com aquilo... e que queria muito mais.
A partir daquele momento, Harry odiou qualquer tipo de música e dança latina.
Não, não poderia mais olhar. Tinha que se concentrar naquelas malditas cartas como se ele próprio estivesse jogando, como se fosse um coração de copas – se bem que, caso fosse mesmo, tal coração estaria totalmente despedaçado.
Os batimentos cardíacos atingiam um ritmo frenético nunca sentido antes, inúmeras gotas de suor escorriam de seu rosto, rolavam para dentro do vestido, os pés latejavam tanto que mal conseguia andar. Não precisava mais de indicadores para lhe informar que era hora de parar com a festança.
Despedira-se dos amigos e do noivo e agora subia, com dificuldade, os poucos degraus que separavam o clube do hall do hotel. Ao sentir os nervos dos pés praticamente cometerem uma rebelião, parou no meio do caminho com uma expressão de agonia e retirou as sandálias de salto alto. O alívio a invadiu como uma onda refrescante e, com um pequeno sorriso, voltou a subir a escada.
Chegando ao hall dos elevadores, viu Harry com as mãos nos bolsos da calça, olhando para o alto. Carregava uma expressão de cansaço e parte da camisa que usava estava molhada de suor.
A mulher se aproximou, meio andando, meio mancando.
- Também cansou do clube maluco? – perguntou parando ao lado dele.
O que aconteceu em seguida durou frações de segundo. Primeiro, o olhar de Harry se arregalou e a falta de brilho nele ganhou evidência. Depois um sorriso maroto apareceu, que encobriu a observação anterior.
- Você cansou do clube maluco? Wow, realmente não esperava de você, Mione, ainda mais considerando o número que você estava protagonizando. Daqui a pouco poderá ir para a Broadway. – comentou divertido.
Hermione segurou a cintura com a mão vaga e riu.
- Deu para ver que cansou mesmo. – ele disse apontando para os sapatos na mão dela.
- Cansei sim. E não estava dançando tanto assim, ‘tá legal? Nick me chamou, insistiu para que eu fosse e, mesmo eu tendo negado, ele me puxou... Aí acabou que deixei a música me levar. – explicou-se um tanto acanhada.
- O que mostra que gostou de ser puxada. – O tom de voz do guitarrista saiu meio sério, estrangulado. – E também do seu momento inconsequente.
A morena ergueu a sobrancelha, tentando manter-se na esportiva. Todavia, não pôde sequer pensar no que responder quando o elevador fez um barulho, abriu as portas, e os dois entraram.
O silêncio caiu sobre eles. Hermione olhou para o lado e pôde notar que o amigo estava... estranho. Calado, olhava nervosamente para o mostrador de andares no topo do veículo, e sua postura encontrava-se dura e tensa demais, como se ele se contivesse a fazer algo.
Não havia mais dúvida alguma de que o desconforto que se apresentava entre eles era algo praticamente permanente. E ela questionou a si mesma sobre o que deveria fazer. O receio ante a reação de Harry lhe dava impressão de estar andando numa corda bamba.
- Harry, está tudo bem? – disse, por fim, num tom doce.
Se ainda o conhecesse – e rezava desesperadamente para que sim –, poderia dizer que ele se sobressaltou com a pergunta, e uma sombra cruzou seus olhos verdes. O sorriso que dirigiu a ela parecia muito forçado.
- Está sim. – ele balançou a cabeça de leve. – Só estou meio cansado... E acho que a bebedeira de hoje já atingiu seu limite.
Mentira, a palavra ecoou em sua mente. Harry continuava normal demais – ou tão normal quanto ultimamente vinha agindo –, tranqüilo demais, o que demonstrava que não tinha bebido tanto assim. Já tinha visto-o fazer coisas piores antes que finalmente tivesse declarado o limite da bebedeira.
- Sério mesmo? – ela questionou, aplicando um pouco de humor na voz para amolecê-lo. – Quer dizer que o grande Harry da época de Oxford sumiu, é? Porque eu e você... principalmente eu... sabemos o que você fez lá. Aquele Harry ingeria garrafas antes de pedir arrego, agora uns dois copinhos e você já está se arrastando pelo chão...
Ele revirou os olhos e riu de leve, porém mesmo assim parecia tudo forçado.
Hermione suspirou. Bancar a relaxada e despreocupada não estava tendo o efeito desejado, então teria que ser um pouco mais ríspida.
- Harry, tem certeza que está tudo ok? – perguntou, virando-se para ele e jogando o peso do corpo para a perna direita. – Porque... Eu não sei, sinto que você está escondendo algo de mim. Algo que está te deixando muito mal. Sabe que odeio ver você sofrer, sabe que odeio quando, além de estar sofrendo, prefere fazer isso sozinho. Estou te deixando livre para conversar comigo quando estiver à vontade, mas eu não consigo mais aguentar vê-lo desse jeito.
O moreno suspirou no exato momento em que o elevador parou. Os dois saíram juntos e, naquele momento, Hermione percebeu que se separariam ali. O quarto dela ficava para a esquerda e o dele, para a direita.
Ela se virou para ele.
- Tenho mesmo que abandonar meu lema de “odeio clichês” para te dizer que você pode confiar em mim? Porque eu nunca precisei disso. Você já sabe disso... pelo nosso sistema de comunicação. – disse, abrindo um leve sorriso no final.
Mais um sorriso veio dele. Dessa vez, pareceu um tanto mais verdadeiro que o anterior.
- Estou aqui para quando precisar. Sempre estarei.
Hermione se esticou para beijá-lo na testa, porém não alcançou nem metade do rosto dele. Talvez se ainda estivesse usando os saltos... Ela bufou de leve e revirou os olhos antes de estalar um beijo na bochecha dele.
O guitarrista riu, segurou-a pela cintura e encostou seus lábios na testa dela.
- Sei disso, – murmurou próximo aos cabelos dela – minha pequena. – emendou brincalhão.
Ela bufou de novo.
- Não sou pequena, sou alta para os padrões femininos. – retorquiu. – Você é que é alto demais.
Harry se afastou e pôs as mãos nos bolsos da calça.
- Você quem diz. – deu de ombros e começou a se afastar.
Hermione estreitou os olhos.
- Vá logo para seu quarto antes que eu te atinja com isso. – ela ergueu a mão esquerda e mostrou o par de sandálias.
Ele soltou uma gargalhada, já a quase um metro dela, antes de se virar brevemente e gritar:
- Boa noite, Hermione! E não é para sonhar com o meu assassinato!
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N/A: Em primeiro lugar, me desculpe pelo vocabulário meio descabido desse cap. Eu não gosto de escrever assim, mas me diz aí um bêbado que nunca falou um palavrão sequer, né? Tentei deixar mais real.
Enfim, nem ia fazer isso, mas acontece que fiquei muito realizada comigo mesma por ter fechado dois caps hoje! Tudo bem, as cenas desse daqui já estavam escritas, só faltava juntá-las e mexer em uma coisa e outra. Mas convenhamos né? Fiquei tão feliz que resolvi fazer essa dobradinha de caps XD Falei que o cap 6 tava mais interessante. Adorei escrevê-lo, mesmo que isso tenha acontecido em etapas. Cara, relendo a parte da entrevista, fiquei abismada comigo mesma: da onde tirei tudo aquilo? Haha Viagem total! E a cena inicial, essa tipo um flashback, foi uma ideia do nada e que deu um resultado legal. Gostei muito. Mas nada vai superar a cena do clube... Ah, essa estava na minha mente desde que eu vi A Verdade Nua e Crua quando tava começando a fic. Dá pra ver que as duas últimas cenas são inspiradas no filme né? E a Smooth foi viagem total também, nem da onde ela veio. É uma música que coroou a dança.
Espero que também tenham gostado e podem comentar a vontade! : ) Beijos.