“Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor esse é que faz sofrer.”
- Rose? – Encontrei Scorpio no meio do caminho para o Salão Principal. Costumávamos descer juntos antes de obrigatoriamente nos separarmos para comer.
Ele veio em direção aos meus lábios, mas eu desviei sutilmente o rosto para que ele beijasse minha bochecha.
- Está tudo bem? – Ele pegou minha mão. – Não te vi mais ontem... quer dizer, quando fui jantar você já estava subindo, e nós mal nos falamos.
- Não. – Respondi brandamente. – Quer dizer... sim, sim, está tudo bem agora.
Ele me olhou com as orbes azuis gelo confusas. Orbes que, por mais acaloradas fossem, sempre seriam frias demais pra mim. Suspirei.
- Scorpio... precisamos conversar.
- Não. – Ele murmurou, e a nota de dor em sua voz quase trouxe as lágrimas de volta aos meus olhos. – Não, Rosie... não sei o que está acontecendo, mas nós podemos consertar! Eu... eu fui precipitado, devia ter esperado mais... achei que estávamos prontos, mas talvez não estivéssemos! Eu... nós vamos consertar isso!
- Olha... – Eu o puxei para um canto afastado da onda de alunos que passava. – Não tem nada a ver com nossa primeira vez. Sério. – Acrescentei quando ele me olhou descrente.
- Então o que, Rosie?
- Não é com você...
- “Não é com você, é comigo” – Ele exasperou, interrompendo-me. – Não diga isso, eu mereço mais consideração!
Suspirei outra vez, e me forcei a continuar encarando seus olhos. Claro que não seria fácil assim.
- Eu não estou apaixonada por você. – Soltei de uma vez, inclinando a cabeça levemente para o lado. Sei o quanto deve ser difícil para ele ouvir isso. – Você é uma pessoa muito especial pra mim, Scorpio... nós... tivemos uma história linda e digna de livros de romance... mas eu apenas não estou apaixonada por você.
Ele soltou minha mão suavemente, deixando que apenas um de seus dedos encontrasse o meu.
- Eu... não entendo. – E o que eu temia aconteceu. Seus olhos começaram a se encher d’água.
- Nem eu. – Respondi com um sussurro. – Mas preciso entender, e... eu não posso entender estando com você. Me descul...
- Não se desculpe. – Ele me cortou bruscamente. – O que vivemos... não termine com um “me desculpe”. Eu realmente mereço mais consideração. – O garoto soltou um longo suspiro e balançou a cabeça, abrindo um meio sorriso melancólico. – Nos vemos por aí.
Eu o observei caminhar. Mesmo obviamente triste, ele continuava com sua pose altiva, de alguém consciente de sua posição social. Alguém consciente da sua própria exuberância. Alguém que foi treinado desde o nascimento para se comportar daquela forma. Embora soubesse que o verdadeiro Scorpio era um doce de pessoa, afável e gentil... não pude deixar de comparar com Dominique.
Seu andar era natural. Ultrapassava as barreiras do nascimento e da criação. Era dela e dela somente. Por mais que não precisasse mostrar o tempo todo que era atraente, Nic naturalmente o fazia. Não que ela não soubesse de sua beleza, ela só não achava necessário se reafirmar, mesmo que, inconscientemente e a cada movimento de quadril, sempre o fizesse.
Fechei os olhos e respirei fundo. Eu definitivamente estava perdida.
Finalmente desci para o café. Em nada contribuiu para o meu humor ver James sorrindo para seus amigos, e, pelo que eu pesquei, claramente se gabando por ter ficado com Dominique. Hugo estava com ele, sorrindo abobado para o garoto, como se ele fosse um grande ídolo. Um já conhecido gosto amargo subiu pela minha garganta enquanto eu cerrava as mãos em punhos.
- E hoje como estamos, Rose? – Albus perguntou pra mim, abrindo um sorriso.
Eu olhei para ele com ternura.
- Estamos praticamente bem. – Respondi. – Mas meu irmão é um idiota.
- James está insuportável hoje. – Lily sentou-se ao meu lado, concordando. – Não sei como Hugo o idolatra.
Sorri para minha prima, entendendo-a perfeitamente bem, muito embora o ciúmes que ela sentia fosse diferente do que eu estava sentindo.
Então meu olhar encontrou com o dela. Dominique havia acabado passar pela mesa da Corvinal e pegado algumas torradas, parecendo em dúvida sobre o que fazer. Ela olhou para James por um segundo antes de voltar-se para mim. Eu entendi, mas também hesitei por um momento. Eu gostaria de ver como ela reagiria perto de James agora. Precisava começar a entender.
- Ah, parece que Nic chegou. – Falei um pouco mais alto do que normalmente falaria, e me levantei lentamente. Funcionou. James já estava de pé e marchando até a garota. Caminhei tensa atrás dele, um pouquinho mais nervosa do que deveria.
Quando ele chegou até ela, antes que pudesse fazer qualquer coisa, Nic disse energicamente, como se nada tivesse acontecido:
- Bom dia, priminho. Com licença, por favor. – Então Dominique desviou-se dele e encaixou o braço no meu, puxando-me para longe.
Eu não pude evitar uma risadinha ao ver a cara de tacho dele.
- Por que você fez isso? – Ela exclamou enquanto nos afastávamos. – Eu não queria vê-lo e você sabe disso!
- Isso o que? – Apertei os lábios tentando evitar a risada.
Nic revirou os olhos antes que nós nos sentássemos no mesmo lugar do dia anterior.
- Tome uma torrada, eu percebi que você não estava comendo nada... Rosie, sei que você está meio estranha com o que aconteceu e tudo mais, mas você não pode parar de se alimentar simplesmente...
- Não quero comer. – Protestei. Era verdade. Por mais que eu não amasse Scorpio, por um ano ele foi presente todos os dias da minha vida, e doía ter que machucá-lo. Doía ainda mais perceber os motivos por trás de tudo isso.
- Nem sempre fazemos tudo que queremos na vida, afinal... – Ela tentou colocar a torrada na minha boca, mas desviei. Nic continuou tentando, e eu ia cada vez mais para o lado, até que ela estava praticamente deitada em cima de mim. Quando me dei conta da situação, senti uma onda de calor espalhar-se pelo meu rosto, e paralisei.
Dominique estava tão perto, os lábios pintados de vermelho entreabertos, como se estivesse acabado de perceber o que estava acontecendo também. Suas bochechas adquiriram uma suave tonalidade rosa, e eu me obriguei a olhar para elas, abandonado sua boca.
- Hum... – Comecei, constrangida. – Tudo bem, eu posso comer uma torrada.
Ela piscou algumas vezes, aparentemente sem registrar o que eu tinha acabado de falar.
- OK – Ela disse três segundos depois, se ajeitando melhor e voltando para a posição original.– Certo... acho bom... você, ahn, precisa se alimentar.
Comi a torrada de má vontade, enquanto encarava meus próprios pés.
- Acho que esse tem que ser nosso novo lugar para revelações bombásticas. – Comecei, olhando para Nic.
- Que aconteceu? – Ela perguntou, encarando-me preocupada.
- Terminei com Scorpio. – Olhei novamente para meus pés, mas Dominique apertou meu braço e me forçou a olhar para ela.
Sua expressão era assustada.
- O que aconteceu? – Ela repetiu a pergunta. – Como você está? Não teve nada a ver com que... com que eu disse, teve, Rosie? Eu não me perdoaria... eu não devia ter dito...
Dei de ombros.
- Não estava apaixonada por ele. – Respondi todas as perguntas em apenas uma sentença, tentando fugir de seus olhos. Era impossível.
Ela me abraçou.
- Estou aqui, Rosie. Eu... je ne savais pas. Eu não sabia... mas estou aqui. Je suis ici.
- Que bom que você está. – Respondi, fechando os olhos. – Que bom. – As lágrimas começaram a cair e deixei que ela continuasse a me abraçar.
- Definitivamente. – Funguei. – Esse é o nosso novo lugar para revelações bombásticas.
Dominique riu, tentando parecer descontraída. Mas eu percebia que ela estava um pouco perturbada.
- O que falta me dizer agora... que se apaixonou por outra pessoa?
Forcei uma risada sem graça e fingi procurar algo na minha mochila.
- Bem... vamos? – Levantei-me.
Nic balançou a cabeça.
- Você me assusta às vezes, Rosie. – Ela disse baixinho.
- Por quê?
- Essa sua força quase fria em relacionamentos... você sofre em um segundo e no outro já parece estar ok...
- Mas por que isso te assusta, Nic? – Perguntei suavemente.
A garota deu de ombros e levantou-se. Ficamos em absoluto silêncio até o momento que íamos nos separar.
Quando eu ia virar para tomar o caminho em direção à minha sala, Dominique me puxou para um abraço.
- Promete que nunca vai me descartar assim? – Ela sussurrou próximo ao meu ouvido, o rosto enterrado no meu pescoço.
Arrepiei. Talvez pela impressão de que seu tom de voz saiu menos fraternal do que o normal, ou talvez apenas pelo fato de ela estar ali, tão perto.
- Nunca. – Prometi firme. – Você é uma das maiores certezas da minha vida. – Eu podia jurar que, se o abraço se prolongasse por um segundo a mais, eu choraria de novo. Não sei de onde Nic tirou que eu tenho uma “força quase fria”. Eu sou uma força quase torrencial, isso sim.
Não podia fingir que a ausência de Scorpio não me afetava. Afetava. Demais. Mas no final, era apenas a sua amizade que me fazia falta. Cada vez mais eu vinha percebendo vestígios dos meus verdadeiros sentimentos. Detalhes sutis. Um olhar mais demorado, um toque desnecessário, um sorriso tímido de quem está flertando, um tom de voz mais caloroso. E o que era ainda mais surpreendente... por vezes eu tinha certeza que Dominique se comportava da mesma forma.
Nesses últimos dias eu vivia me perguntando se ela já tinha se dado conta que... bem, que eu estava apaixonada. É difícil de dizer. Nic sempre foi muito introspectiva. Mesmo comigo, que é quem a melhor a conhece. O mundinho interior de Dominique devia ter mil vezes mais florestas que o meu. E eu apenas podia esperar habitar ao menos uma delas.
Em uma manhã, ao descer para o café, logo percebi um clima diferente. James estava igual uma criança que ganhou um doce grande demais, Albus sorria solenemente, Lily ria e parecia nem notar que uma coruja havia derrubado toda sua tigela de cereal. Dominique estava escorada casualmente na mesa da Grifinória, animada. Assim como Louis, que nunca saía da mesa da Lufa-Lufa, e até mesmo Molly – que estava sempre com seus amigos sonserinos. Hugo acenou para mim, o sorriso de uma orelha a outra. Sentei ao seu lado, deixando-me contagiar pela excitação que percorria meu irmão e primos.
- Você não vai acreditar! – Ele passou pra mim uma carta com uma caligrafia caprichada que eu conhecia bem.
À medida que eu lia, meu sorriso se ampliava, acabando igual ao do meu irmão.
- Eu realmente não acredito! – Soltei uma risada.
- Não é demais? – James exclamou.
Sorri. Eu nem conseguir achar muito ruim o fato de que ele estava perto demais de Nic.
Minha mãe havia conseguido um lugar na Suprema Corte dos Bruxos, e meu tio Harry havia ganhado uma promoção. O mais novo chefe do quartel dos aurores! Para comemorar, eles decidiram fazer uma festa de natal um tanto quanto diferente...
- Vamos ter um baile à fantasia? – Perguntei com animação.
- Ideia de Dominique. – Louis falou, parecendo realmente feliz.
- Nic, você é foda! – James passou o braço nos ombros da garota.
Dominique reparou meu olhar em direção aos dois, e desviou-se levemente, adiantando-se para pegar um bolinho de abóbora na mesa.
- Você tem razão, James. – Albus disse, olhando de soslaio para mim. – Pena que ela é muito fogo para o seu dragão.
Lily e Molly soltaram uma risadinha.
- Ora... você vai ver o que é muito fogo... – Ele deu um coque no irmão risonho.
- Que tipo de ditado é esse? – Hugo perguntou, confuso.
- É um ditado adaptado dos trouxas. Você não presta atenção em nada que a sua mãe fala? – Lily provocou.
- Claro que presto... mas ela fala muitas coisas. Meu pai sempre diz que às vezes o melhor que você pode fazer é concordar com a cabeça e ficar calado.
Não pude deixar de rir. Fazia tempo que não tínhamos esse clima descontraído. Mesmo estudando juntos em Hogwarts, nem sempre agíamos propriamente como uma família.
- Então, Nic, que ideia genial! – Comentei.
A loira sorriu para mim e deu de ombros.
- Eu tinha pensado nisso para o seu aniversário, na verdade... – Ela comentou, as bochechas ficando imediatamente rosadas. – Seria uma surpresa, sabe... mas essa ocasião apenas pareceu propícia. Não é todo dia que temos boas notícias assim na família. O sabor de sorvete novo de mamãe fez muito sucesso também... as vendas não poderiam estar melhores... Enfim, com tudo isso acontecendo, uma festa especial não cairia nada mal. Tio Jorge está particularmente animado. – Nic levantou uma sobrancelha. – Seu pai, no entanto, não pareceu muito feliz.
Eu ri, imaginando que tipo de fantasia papai usaria.
- Do que você vai se fantasiar? – Perguntei com curiosidade genuína.
- Ah, isso é uma surpresa! – Ela sorriu misteriosa.
- Nic! – Protestei – Me cooonta!
- A festa é em duas semanas. Não seja impaciente, Rose... você tem a própria fantasia para se preocupar!
As férias de natal pareciam cada vez mais perto, e eu realmente não havia pensado na bendita fantasia. Recorri, obviamente, à biblioteca, e achei algo inspirador. Esses tais de contos de fadas trouxas podiam ser realmente interessantes.
Durante a viagem de volta para casa, eu fiquei em silêncio. Na ronda pelos vagões e até mesmo quando sentamos. Dominique praticamente falava sozinha – o que era muito estranho, considerando que eu posso ser bastante tagarela. James até que tentava puxar um assunto com ela, mas Nic insistia no seu quase monólogo comigo, e isso me deixou bem satisfeita. Albus estava no seu canto observando Lily e Hugo implicarem um com o outro.
Em determinado momento, a loira bufou e puxou um livro qualquer da mochila.
- Que foi, Nic? – Perguntei, despertando de uma série de divagações.
- Você não me escuta! – Ela abriu o livro e começou a resmungar em francês.
- Eu estou te escurando! – James protestou, mas minha prima não lhe deu atenção.
- Estava pensando na minha fantasia. – Menti, ignorando James também.
Ela estreitou os olhos, desconfiada, mas não voltou a falar.
Suspirei, chateada por tê-la irritado. Mas a verdade é que eu estava muito ocupada pensando em como a festa a fantasia poderia ser uma boa oportunidade para... bem, revelar meus sentimentos. Nós todos estaríamos de fantasia, e, pelo que eu ficara sabendo, seria um evento relativamente grande. Muitos amigos e colegas de trabalho de meus pais e tios estariam presentes além de, claro, a nossa já enorme família.
Mesmo sob o reconfortante disfarce das fantasias, os mais próximos nos reconheceriam, então eu tinha que pensar bem em onde eu faria. Devia ser em um lugar afastado o suficiente para que pudéssemos escapar caso ela correspondesse à minha paixão... mas também um lugar com algumas pessoas, para que, caso ela me rejeite – meu estômago se contraiu – eu consiga sumir com facilidade e, assim, remoer minha vergonha e meu sofrimento sem que ela me encontre. Então o onde já estava praticamente certo... já o como...
- Mãe! Pai! – Localizei meus pais assim que saímos do trem – Parabéns! Estou tão feliz por você! – Exclamei animada, abraçando minha mãe.
- Obrigada, querida! – Ela sorriu afetuosamente para mim, indo abraçar Hugo enquanto meu pai tentava me erguer.
- Argh. – Ele fingiu uma careta. – Ok, meu bem, acho que você já está um pouco grandinha para isso. Talvez eu deva ser um bom inglês agora e apenas te dar um breve abraço...
Eu ri, passando os braços em torno do seu pescoço.
- Hey, tio, parabéns! – Cumprimentei tio Harry e tia Ginny, seguido por todos os outros tios e tias. Merlin, é nessas horas que eu agradeço por minha memória ser tão boa, e eu ser capaz de me lembrar do nome de todos.
Por mais que Hogwarts fosse um dos meus lugares favoritos no mundo, era realmente bom estar em casa. Sentia falta do olhar zeloso de mamãe, e de treinar quadribol com meu pai e Hugo. Ocasionalmente, tio Harry e tia Ginny apareciam com meus primos, e formávamos dois times. Embora tentasse para valer, eu era um lixo em quadribol. Sempre era a primeira a descer da vassoura e ouvir os resmungos de minha mãe. Por vezes era mais divertido ouvi-la gritando alertas do que propriamente jogar. Então, quando ela se cansava de repetir o quanto esse era um esporte perigoso, e que meu pai e meus tios estavam ficando muito velhos para isso, nós nos sentávamos na varanda e conversávamos sobre praticamente tudo. Ela me contava sobre seu trabalho, e eu contava sobre a escola – era bom, porque mamãe sempre tinha informações relevantes para acrescentar.
Quando lhe disse que terminei meu namoro com Scorpio, ela apenas levantou uma sobrancelha e perguntou se eu estava bem. Nada de dramas nem nada disso. Por outro lado, quando meu pai ficou sabendo, ele fez um gesto de vitória com os braços antes de ser fortemente repreendido por um olhar de mamãe. Embora eu me fingisse ter ficado zangada com ele, de certa forma foi engraçado.
O inverno chegou, junto com a renovação das minhas esperanças. Claro que isso é um tanto quanto contraditório. Quer dizer, todo esse lance de ser a estação mais triste do ano. Mas eu não sabia explicar, e não concordava com isso. Eu apenas amava o inverno, e pelos motivos mais estranhos possíveis. Eu gostava de ver a neve, mas preferia ver como qualquer cor se destacava ao contrastar com a imensidão branca. Gostava do vapor que saia da minha boca, e gostava de usar roupas pesadas, e cachecóis de mil tonalidades. Amava os suéteres Weasley que vovó me dava, mas, principalmente, gostava da proximidade que o inverno gerava. Todas as pessoas inconscientemente ficavam mais perto de você, como em um velho instinto de sobrevivência. A estação era a perfeita desculpa para se agarrar a alguém que você ama, sem parecer grudento demais.
Dois dias antes do natal, passamos no Beco Diagonal, onde comprei uma roupa mais ou menos igual á que eu precisava. Passamos na Gemialidades Weasley, e também na sorveteria. Dominique estava ajudando no balcão. Como era férias, estava particularmente dificil de se locomover no lugar apinhado de pessoas.
- Hey, o que você tem aí? – Ela me perguntou, tentando espiar.
- Ah, isso é uma surpresa. – Imitei seu tom de voz, e ela riu.
- Donminique, por favorr atenda esses clientes, non temes tempo para converrsas! – Ouvi a voz de minha tia lá do fundo, e vi Nic revirar os olhos antes de fazer o que sua mãe pediu.
- Como está, Rose? – Tia Fleur me perguntou com um sorriso. – Me desculpe, mas realmente temes muito o que fazer!
- Tudo bem. – Sorri, terminando de tomar meu sorvete de maçã. Definitivamente o meu favorito. E, ironicamente, o sorvete de maçã da sorveteria da minha tia era o melhor do mundo. Soltei uma risadinha. Mal sabia a mulher que o ele só reafirmava o tanto que eu gostava de sua filha. Quer dizer, o sorvete e Nic tinham praticamente o mesmo cheiro.
Era engraçado. Não importava quanto tempo tia Fleur estava na Inglaterra, ela nunca deixou de ter aquele sotaque francês, e fez questão de ensinar a língua para seus filhos. Soube que ela tinha até insistido para que eles estudassem na França, mas tio Bill venceu essa briga.
Um dia antes do natal, tive que pedir a ajuda de minha mãe para terminar minha fantasia. Não poder usar magia fora da escola era frustrante.
- Chapéuzinho-vermelho? – Ela perguntou orgulhosa. – Você anda lendo literatura trouxa?
Dei de ombros.
- É divertido. – Respondi, ocultando o verdadeiro motivo. Com todos os meus sonhos recorrentes sobre lobos e florestas, Chapéuzinho não poderia ser uma fantasia melhor.
Ela sorriu e me mostrou sua fantasia.
- Deusa Atena? - Perguntei, quando ela me contou o que era.
- Mitologia grega trouxa. Sabe, é a deusa da sabedoria, da estratégia, da justiça...
- Combina com você. – Sorri.
Meu pai e meu irmão não foram tão originais assim. Papai escolheu ir de goleiro do Chudley Cannons; Hugo, de vampiro.
- Você poderia ir de gnomo. – Provoquei.
- Não implique com seu irmão... – Mamãe repreendeu vagamente enquanto Hugo me fuzilava com os olhos.
No dia de natal, almoçamos na casa dos nossos avós, já que não teríamos janta. Meus pais e alguns dos meus tios ficaram para ajudar na decoração para a noite. Todo o jardim foi coberto por um toldo, dispuseram várias mesinhas e cadeiras brancas de um lado, enquanto uma pista de dança foi montada em outro. Tio Jorge providenciou uma fonte que às vezes espirrava água nas pessoas – para o desgosto de Vovó Molly, uma vez que “Já é inverno, você quer adoecer meus convidados?”. Ele também importou dos trouxas espelhos que alteram sua forma no reflexo enquanto você passa, e os colocou em uma espécie de corredor na entrada. Para finalizar, foi montado um bonito jogo de luzes prateadas, azuis, roxas e rosas, que deixou o ambiente com uma áurea quase surreal. Foram contratados alguns garçons vestidos de leprechauns que serviam hidromel, suco de abóbora e, se você fosse velho o suficiente, firewhisky e vinho branco.
Quando todos ficamos prontos, as primeiras pessoas começaram a chegar. Cheguei a ver algumas fantasias bizarras, como um unicórnio decapitado, uma murta-que-geme e um dementador. Mamãe não gostou muito desse último, achou que era uma piadinha muito sem graça. Sereianos, jogadores de quadribol, trouxas, um ou dois duendes, personagens históricos... e eu ainda não encontrara quem eu mais procurava.
Eu andava pela festa sem rumo, esbarrando em um Godric Gryffindor perdido e em um Fred II fazendo arruaça com sua fantasia de exposivim. Enquanto isso, entornava algumas taças de vinho branco. Eu podia ser menor de idade, mas, com o meu gorro vermelho, ninguém seria capaz de dizer. O fato era que eu precisava de algo alcoólico no sangue. Precisava criar coragem para minha grande declaração. Firewhisky era horrível, enquanto o vinho branco descia fácil, tinha um sabor único. Eu odiava desrespeitar regras, mas era por uma boa causa.
No meio da festa, tio Jorge apareceu, encerrando o suspense sobre sua fantasia. Imponente, ele surgiu em uma fantasia enorme de dragão. O dragão soltava pela boca fogos de artificio Weasley, que não queimavam. Um explosão de formas, cores e faíscas surgiram. O céu foi completamente tomado. Um pequeno teatrinho de fogos começou a se formar, e eu logo identifiquei meu pai, minha mãe e tio Harry em Hogwarts. Era uma homenagem. As pessoas torceram em uníssimo quando tio Harry começou a enfrentar o dragão do Torneio Tribruxo, e todos sorriram com imagens sobre a criação do F.A.L.E – que ainda existe e conquista grandes avanços para a vida dos elfos domésticos.
As milhões de cores, junto com a boa quantidade de taças de vinho branco que eu havia tomado, me deixaram um pouco tonta. Não tonta o suficiente para que não pudesse vê-la. Longe de todos, em um canto afastado, Nic segurava uma máscara de teatro junto ao rosto e usava um longo vestido esmeralda, os cabelos loiros presos em um coque no topo da cabeça. O batom vermelho. Foi o inconfundível batom vermelho que me deu a certeza de que era ela. Aquele vermelho era a marca registrada de Nic. Ela o usa desde que ganhou de presente da mãe, quando tinha treze anos. Nunca sai dos lábios.
Aproximei-me dela em passadas largas, tropeçando um pouco no caminho. Todas as atenções estavam voltadas para os fogos. Eu precisava aproveitar.
Engraçado, pensei com o raciocínio distorcido de alguém que está definitivamente bêbado, ela parece um pouco menor do que eu me lembro... mas talvez seja apenas a cor do vestido que não favorece sua altura...
Parei na frente de Dominique com mil frases prontas para serem ditas. Gostaria de dizer que sabia que podia ser impossível, sabia que talvez nossa família podia não aprovar – Éramos primas e, além de tudo, duas mulheres! Sabia que ela podia gostar de outra pessoa... mas que, ainda assim, eu a amava. Merlin, como a amava! Eu devia ser uma idiota para não ter admitido antes. Porque eu sempre soube, claro que soube. Uma chance... eu só queria dizer que ela precisava me dar uma chance.
Mas o vinho branco no meu organismo não pareceu querer que eu falasse qualquer uma dessas coisas. Então eu apenas aproximei um último passo, colando nossos lábios num movimento rápido. Antes que eu pensasse sobre o que tinha acabado de fazer, antes mesmo que eu avaliasse como era a sensação de beijar a mulher da minha vida, fui empurrada bruscamente.
- ROSE? – A máscara de teatro havia caído no chão. Falaram duas vozes em uníssimo.
Uma careta formou-se no meu rosto, e eu cambaleei para trás.
- O QUE SIGNIFIQUE ISSE? – tia Fleur falou, esquecendo-se completamente de sua máscara no chão.
- E-eu pensei que fosse... – Então eu olhei para trás, e achei a verdadeira Dominique. Os cabelos soltos não me impediram de identificar quem ela era. O pequeno príncipe. Engoli em seco.
- QUAL É O SEU PROBLEME? – Eu ainda ouvi minha tia gritar antes que uma mão segurasse meu braço e começasse a me puxar para dentro da casa.
- HERRMIONE! PARE COM...
- Pare de gritar Fleur! – A voz de minha mãe saiu baixa, mas letal.
Dominique olhava para os próprios pés, enquanto sua mãe cruzou as mãos no peito, revezando-se em lançar olhares furiosos para todas nós.
- Você... – Ela apontou para mim. – O que deu em você?! Ela... – Então olhou para minha mãe. – Ela me beijou, Herrmione!
- Minha intenção não era te beijar! Por que eu iria querer beijar você? – Perguntei com a voz arrastada.
- Como você pôde me confundir com minha mãe?! – Dominique disparou de repente, ignorando as outras duas mulheres. – Como, Rose?!
- Ela está usando seu batom! – Justifiquei-me, como se fosse óbvio.
- Ela me deu o batom que uso Rose, você não pensou nisso? Aliás, que diferença faz?! VOCÊ ME CONFUNDIU COM MINHA MÃE! – Dominique gritou, as lágrimas começando a cair.
- O QUE ESTÁ ACONTECENDE?! VOCÊS TEM UM CASO?! – Fleur interrompeu nossa discussão particular.
- Olha só, se depender da minha vonta... – Comecei. Já havia perdido a noção desde a quarta taça de vinho.
- Calada. – Mamãe sibilou, interrompendo-me. – Você está bêbada. Não existe nenhuma desculpa para isso. Não fale nesse tom desrespeitoso com sua tia. Ela pode estar sendo completamente mal educada, mas você não vai retribuir a gentileza!
- MAL EDUCADE?! HERRMIONE, VOCÊ NÃO SABE O QUE ESTÁ ACONTECENDE AQUI?
- Sei. – Ela respondeu, colocando a mão na testa. – Pare de gritar, Fleur, por favor. Minha cabeça está começando a doer.
- Herrmione, temes uma situação mais urrgente que sua cabeça!
- Não vejo situação nenhuma aqui. Minha filha bebeu demais e te beijou. Fato por qual ela vai se desculpar para sempre por ter feito. Mas, fora isso, realmente não vejo nada urgente.
- Sua filhe quis beijar a minha! Espere só até Rony e Bill ouvirem falar disse...
- Eles não vão ouvir falar de nada que aconteceu hoje. Quando as meninas estiverem prontas, elas mesmas contarão de seus sentimentos.
- SEUS SENTIMENTES?? Isso é errado, Herrmione!! - Minha tia olhou para Dominique com o olhar frio. – Você, mocinha, eu sabia que devia ter te colocade na Beauxbatons. E É ISSO MESME QUE VOU FAZER! Não vai ter uma palavre de seu pai agora que vai me impedir. Você vai ficar bem longe dessa lesbicazinhe, e, quem sabe, você não cria jei...
Minha mãe apontou a varinha para cima e soltou algumas faíscas vermelhas.
- Rose, Dominique... saiam da sala. Eu preciso falar com Fleur em particular. – Mamãe disse, a voz perigosamente calma. As maiores broncas da minha vida começaram com ela falando nesse tom.
Dominique, que estava paralisada com tudo que estava acontecendo, despertou de seu transe e foi para a sala ao lado, enquanto eu a seguia. Lágrimas ainda escorriam silenciosas por sua face, e eu me senti enjoada. Nic, por mais sensível que fosse, raramente chorava.
- Accio Orelhas Extensíveis. – Ela murmurou assim que a porta se fechou. Olhei-a admirada. Por mais abalada que estivesse, Nic conseguia exercer seu raciocínio rápido de maneira exemplar.
As orelhas voaram pelo andar de cima até sua mão, e ela me passou uma sem dizer nada. Deixamos que os fios passassem pela porta e logo eu pude ouvir a voz de minha mãe.
- Você nunca mais vai falar assim da minha filha! Sua hipócrita! Duplamente hipócrita.
- No-non sei do que está você está falando! – a voz de minha tia tremeu.
- Sabe sim. Ou você já se esqueceu do que aconteceu quando você tinha a idade das meninas?! Porque eu não esqueci, Fleur. Diga o que quiser, eu não esqueci e você não vai negar isso agora!
Um silêncio constrangedor tomou conta do lugar. Mesmo não estando no mesmo lugar que as outras duas mulheres, eu podia sentir a tensão e entender as implicações das palavras da minha mãe. Eu podia sentir o constrangimento palpável da minha tia e pegar entre os dedos tudo que ele significava. Olhei para Dominique, para ver se ela tinha ouvido o mesmo que ela. Ela correspondeu meu olhar assombrado, e eu assimilei lentamente com meu organismo bêbado, enquanto os segundos se arrastavam.
- Fleur... – Minha mãe cortou aquele silêncio constrangedor que gritava lembranças de um passado há muito enterrado. – Rose e Dominique se amam. Eu vejo isso há anos. Como você nunca percebeu? Há tempos eu vejo essas duas se amando muitas vezes sem saber, e, certamente, sem entender. Eu fico feliz que Rose finalmente tenha tido força para aceitar isso. Lamento pelo incidente, contudo. Uma pena que ela tenha recorrido ao maior clichê a fim de tomar coragem para dar o primeiro passo. Agora, antes que eu te obrigue, nós vamos sair por aquela porta e você nunca mais vai tocar no assunto de hoje, entendeu?
- Diga o que quiser, Herrmione, isso non vai ficarr assim. Eu non vou falar sobre hoje, mas se você pense que vou assistir a isso calade, se engana!
Ouvi alguns passos, seguindo de uma porta batendo e um suspiro. Recolhi rapidamente as orelhas, segundos depois, minha mãe entrou na sala que eu e Nic estávamos.
Ela apontou a varinha para mim e deve ter mentalizado um feitiço realmente útil, porque eu senti uma parte da minha tontura passar.
- Isso vai atenuar sua bebedeira. – Ela falou, olhando severa para mim. – Mas não pense que isso será esquecido, teremos uma conversa séria mais tarde.
Abaixei a cabeça.
- Obrigada, mamãe.
- E não me deixe te pegar espiando a conversa dos outros novamente! Isso é muito feio, mocinha! – Ela disse, a expressão, entretanto, mais amena. – Como vocês ouviram, por agora, está tudo resolvido. Fleur não é nada fácil, nem muitas pessoas... mas tudo vai se acertar com o tempo. Seria bom começar com o que acabou de acontecer. De qualquer forma, preciso voltar para a festa. Não foi nada educado de minha parte sair durante uma homenagem feita em partes para mim.
Então ela saiu, enquanto eu a observava atônita. Ela sabia que eu estava ouvindo. E mesmo assim continuou falando. Minha mãe queria que eu compreendesse que não estava fazendo nada errado – exceto a parte do beijo e tudo mais. E, bem, queria que eu me acertasse com Dominique. Minha mãe é a melhor do mundo! Certo, eu ainda estava BEM encrencada, mas minha mãe é, definitivamente, a melhor do mundo!
- Ok. Isso foi muito estranho. – Dominique falou, terminando de enxugar as lágrimas. – Eu... eu acho que vou voltar para a festa ou algo assim... entender tudo isso que está acontecendo... essa... confusão toda. Je suis confus...
- Me desculpe. – Comecei. – Me desculpe, Nic... eu... eu realmente pensei que fosse você, eu bebi demais. Que droga!
- Acho que nunca vou esquecer. Nunca... a cena. – Seu olhar tornou-se vago.
Apoiei as mãos na testa, sentando no chão sem cerimônia.
- Eu faço tudo errado! – Exclamei, experimentando o gosto amargo da decepção. – Tudo que eu queria era te dizer... te dizer o que estava entalado na minha garganta... desde que terminei com Scorpio... eu fiz tudo errado, e agora já era. – As lágrimas começaram a se acumular nos meus olhos.
- O que você queria me dizer, Rose? – Então ela balançou a cabeça, sorrindo. – Você não precisa dizer mais. Eu sei. Também errei... eu poderia ter dito, o quanto te amo... mas eu me remoía. Eu me remoía porque pensava que você me odiaria, me chamaria de doente... quando eu criei coragem, apareceu Scorpio. Mas isso não é desculpa. Me omiti tanto quanto você. Claro que eu nem desconfiava de que você poderia... sabe... e agora, não sei o que pensar. Porque eu sinto essa alegria invadindo meu peito, gritando “ela também te ama, ela também te quer”, mas, ao mesmo tempo... o que eu acabei de ver... doeu. Doeu ter que presenciar essa sucessão de cenas, e tá tudo embara-
Ela dizendo aquelas coisas todas... eu não pude evitar. Eu não pude evitar o sorriso enorme no meu rosto, nem o ímpeto – dessa vez não motivado pelo álcool, e sim pela minha felicidade. – Eu a beijei. Juntei nossos lábios com tanta intensidade, que o universo poderia simplesmente explodir que eu não notaria.
- Me desculpe. – Descolei um misero centímetro, para que pudesse falar. – Eu te amo, Nic. Eu te amo tanto, que não posso mais ficar longe de você... sei que tudo está uma confusão, mas já foi confuso por tempo demais...por favor.
Ela soltou uma exclamação qualquer antes de apertar as mãos firmemente no meu pescoço, puxando-me para perto.
O choque com o segundo contato me arrepiou, Nic gemeu contra meus lábios quando eu os abri para estreitar a proximidade. Sua língua encontrou a minha e eu derreti. Era... bem, era tudo que eu esperava, só que multiplicado por, sei lá, um milhão. Sei que não sou a melhor pessoa para definir sentimentos e sensações, mas quando Nic contornou a língua contra a minha, tudo pareceu tão... Certo. Não havia outra palavra. Era apenas certo.
Quando nos desgrudamos, Nic encostou a testa contra a minha, e eu não sei dizer quanto tempo ficamos assim.
- Oh, veja... – Ela disse, sorrindo para mim. – Está nevando.
Então eu olhei para a janela, abrindo um sorriso também, enquanto observava os cristais de gelo desfilarem preguiçosamente pelo céu.
- Já estava mais do que na hora. - Voltei a olhar seus olhos azuis e soube que, assim como a neve sempre viria em todo inverno, tudo ficaria bem.