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1. Vales Secretos


Fic: Imensidão de estrelas - Femmeslash


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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“Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos.”

As árvores passavam como se fossem borrões enquanto eu corria. Galhos eram esmagados embaixo de mim, e todas as formas de vida – grandes ou pequenas – não ousavam se aproximar. Eles sabiam o que eu era. Sentiam. E temiam.
Aumentei o passo quando farejei no ar o cheiro da minha vítima. Aquele inconfundível cheiro que arrepiavam meu pelo, que me fazia torcer o nariz e arreganhar os dentes. Aquele inconfundível cheiro que se espalhava feito uma praga por toda a floresta, como se fosse um organismo inerente ao lugar. Mas a floresta é o meu território. E qualquer um que a invade não merece misericórdia.
Mais algumas largas passadas e finalmente o encontrei. Assim como a morte logo o encontraria.
Minha presa estava abaixada, usando as mãos em concha para beber água do rio. A expressão serena me irritou. Encarei-o com fúria, e assisti sua serenidade se desfazer em um poço de desespero. Possivelmente estava começando a rezar.
Eu poderia aguardar. Sabia que seu fim era tão certo como as folhas secas que caiam no outono. Mas não queria mais esperar. Todos os meus instintos gritavam para que eu rasgasse sua garganta.
Então eu o fiz.
Em um grande salto, derrubei-o no chão, prendendo os ombros com minhas patas dianteiras.
-Você não pode... – Ele conseguiu dizer antes que eu fincasse meus dentes em sua jugular.
O gosto quente e ferroso que se espalhou pela minha boca foi o melhor que eu já provei. Gosto de liberdade.
Joguei o corpo sem vida de Scorpio no rio, e assisti a água se tornar vermelha. Mais vermelha do que era normal. O que estava acontecendo?
Aproxime-me cuidadosamente até o leito, e a água estava espessa. Toquei-a com o focinho e senti queimar, comprovando o óbvio. Rosnei com raiva, enquanto mirava meu reflexo no rio.
Eu era o Sinistro.
E minha liberdade havia sido paga a preço de sangue.


Acordei assustada, puxando o ar como se eu estivesse me afogando. Tudo ainda parecia distorcido por um momento, e demorei alguns segundos para me situar. Sala precisa. Sim, eu estava na sala precisa. Albus havia me contado do lugar no ano passado. Se ao menos ele soubesse para que eu o usei... senti uma pontada desconfortável no estômago.
Olhei para Scorpio ao meu lado da cama, ainda adormecido, os cabelos loiros espalhados desordenadamente pelo rosto tranquilo. Levantei-me desnorteada, tentando não acordá-lo.
Passei a mão pela testa, tentando entender aquele mal-estar súbito. Meu olhar recaiu sobre a grande mancha de sangue no lençol. A única coisa que restara da minha virgindade.
Minhas mãos começaram a tremer enquanto eu pescava as roupas espalhadas pela sala. Vesti-me silenciosamente, e segurei uma risada histérica quando percebi que estava fazendo o papel geralmente atribuído ao homem. Fugir apressadamente no dia seguinte.
O sol começava a despontar no horizonte, e os corredores de Hogwarts ainda estavam desertos enquanto eu praticamente corria até o salão comunal.
- Tritão barbudo. – Murmurei a senha para a mulher gorda, que se desfez em reclamações por eu a ter acordado, mas liberou a passagem.
Subi para o banheiro do dormitório em uma apatia que contrastava totalmente com minha afobação anterior. Liguei o chuveiro na sua temperatura mais quente e entrei. A água castigava meu corpo, entretanto, eu mal percebia.
As cenas do meu sonho misturavam-se com as lembranças da noite passada, e eu não sabia o que fazer. Olhei para minhas mãos, e para o meu ventre dolorido. Em uma vontade súbita, apanhei a bucha e esfreguei-a vigorosamente por todo o meu corpo, na esperança de sentir alguma coisa. Qualquer coisa. Ou talvez eu quisesse apenas lavar junto tudo que tinha acontecido.
Obviamente falhei nas minhas duas expectativas.
Coloquei um uniforme limpo, e joguei, com certo asco, minhas roupas sujas para debaixo da cama. Eu lidaria com elas depois.
A comida do café parecia apenas um bolo pastoso, e, por mais que eu tentasse empurrar qualquer coisa para dentro com suco de abóbora, até mesmo este estava intolerável.
- Ah, estou morto de fome. – Um garoto sentou-se folgadamente ao meu lado. – Ei, Rose, Dominique já passou por aqui hoje?
- Não. – Respondi apenas.
- Dominique para cá, Dominique para lá... não sabe mais falar de outra coisa, James?
- Albus, não enche. – Um segundo garoto juntou-se a nós.
- Rosie... tudo bem? – Albus sussurrou para mim. – Você está um pouco abatida.
Ah, eu estava abatida... talvez fosse porque eu queria sumir. Senti seu olhar tentando ver além do que eu gostaria de mostrar e tentei pensar em uma resposta.
Por sorte, percebi uma movimentação entre os garotos, que começaram a se virar para a esquerda. Lógico que isso só poderia significar uma coisa. Com apenas um oitavo de sangue veela, Dominique ainda assim era estonteante. Do tipo que quebrava o pescoço de todo mundo quando passava.
- Mon chéri. – Ela veio por trás de mim, e passou os braços pelo meu pescoço. Sua cascata de cabelos loiros caiu no meu rosto quando ela se inclinou para depositar um beijo na minha bochecha.
- Nic! – James levantou-se imediatamente, despenteando os cabelos num gesto que diziam ser igualzinho ao do seu avô. – Como você está? Além de mais linda a cada manhã, claro...
Dominique sorriu e beijou-o na bochecha também.
- Muito bem, priminho. – Ela disse em um leve tom de deboche. Se fosse qualquer outro dia, eu provavelmente teria rido com a careta de meu primo ao ouvir a última palavra.
- Eu sou mais velho que você...
A conversa foi interrompida pelo correio matinal, e a coruja alva de Dominique pousou ao lado do meu prato quase intocado.
- Merci, Desirée. – A garota passou delicadamente o dedo na cabeça da ave depois de aliviá-la de sua carga. A coruja piou satisfeita e levantou vôo. - Sabia que mamãe não se esqueceria de me mandar!
- O que é? – Albus perguntou, interessado.
- Ah... isso é um segredo. – Nic sorriu, e estendeu a mão para mim. – Só Rosie pode ver.
Aceitei a mão e levantei-me molemente.
- Isso é injusto. – James reclamou infantilmente.
- Prometo que logo você saberá, priminho.
- Eu sou mais ve...
Mas não ficamos para ouvir o final da frase insistente de James. Dominique já havia me puxado para longe. O pacote havia vindo em uma boa hora. Poupara-me de encontrar Scorpio, uma vez que ele ainda não havia descido.
Caminhamos em silêncio até um pequeno corredor vazio. Minha prima sentou-se encostada a parede, e eu a imitei.
Ela desembrulhou o pacotinho, e lá continha nada menos que... sorvete.
- Tome, peguei-as na mesa. – Nic me entregou uma colher, e tirou outra para si mesma. – Morangos silvestres com mirtilo! A nova receita da mamãe, estou louca para experimentar! Ela disse que precisa de uma opinião antes de lançar o sabor na sorveteria... mas que eu deveria ser discreta. Ninguém sabe desse sabor ainda. 
Fleur e Bill Weasley haviam comprado a antiga sorveteria Florean Fortescue no Beco Diagonal, e abrido a sua própria. Mas era Fleur quem basicamente cuidava e administrava o lugar, já que meu tio estava sempre muito ocupado com seu emprego em Gringotes.
Dominique enterrou a colher no pote e tirou um grande bocado do sorvete. Eu me limitei a observá-la fechar os olhos em uma clara expressão de prazer, e a reparar na maneira que seu costumeiro batom vermelho continuava impecável, não importando quanto sorvete ela comesse.
- Divino, não acha? – Ela disse, já na terceira colherada. Então ela olhou para minha colher limpa, e seus grandes olhos azuis começaram a me analisar de verdade pela primeira vez no dia. E eu tinha certeza que, diferente de como era com Albus, eu não conseguiria esconder nada dela. – Rosie... tenho plena consciência de que você é praticamente um morto-vivo de manhã, mas hoje está quase um inferi! O que aconteceu? Você nem tocou no sorvete de frutas... e eu sei o quanto você gosta de doce!
- Eu... – Comecei, fugindo de seus olhos inquisidores e encarando a teia de aranha no teto. Respirei fundo. – Eu... – Tentei novamente, mas as palavras simplesmente não saiam. Antes que eu pudesse evitar, toda a descarga de emoção em mim manifestou-se de uma vez só, expulsando bruscamente a apatia. Dominique soltou uma exclamação surpresa antes de me abraçar. Apoiei-me em seus braços e deixei que as lágrimas caíssem copiosamente pelo meu rosto.
De uma maneira bizarra, seu cheiro me acalmava. Lembro-me de quando tinha onze anos, no meu primeiro café-da-manhã em Hogwarts. Estava nervosa na mesma medida que excitada. Não fazia ideia de como chegaria até minha sala, mas Dominique havia se atrasado para sua própria aula, a fim de me levar até a sala correta. E olha que ela é da Corvinal. Naquele dia, foi só ao sentir seu cheiro açucarado que eu havia conseguido me tranquilizar.
Açucarado. Era exatamente essa a definição para o cheiro de minha prima. Doce, mas nem um pouco enjoativo. E havia a canela. Sim, lá no fundo dava para sentir a canela. No fim, Nic exalava um perfeito aroma de torta de maçã. Essa constatação varreu o resto de minhas lágrimas.
- Está melhor, Chéri? – Ela perguntou. – Por favor, me conte o que aconteceu...
- Transei com Scorpio. E sonhei que o matava. – Disse de uma vez só, sem entrar em qualquer detalhe.
- Você... – Ela mirou-me em choque, os olhos arregalados. – Você... Je n’en reviens pas!
- Por mais que você tenha sido criada falando francês, Dominique... eu não fui! – Suspirei contrariada.
- Rose... eu não sei o que dizer... – Nic continuava com a expressão perplexa. – Ele não foi... gentil? Je vais le tuer!
- Que disse? – Perguntei irritada.
- Disse que o mato! Ele não foi cuidadoso, Rosie?
- Ele foi. Mas não se preocupe, eu já o matei. – As lágrimas ameaçaram a cair novamente, mas minha prima segurou meu rosto.
- Não foi bom, Rosie?
- Foi... – Parei por um momento. – Eu não sei como foi, Nic! Não tenho nenhuma referência. – Uma risada seca escapou por minha garganta.
- Por favor, me conte qual foi o problema! – Ela exigiu.
- Apenas não pareceu... certo. – Desabafei por fim. – Então eu o matei. Eu o matei! Merlin, logo depois de transar com ele.
- Oh, mon chéri... foi apenas um sonho. – Ela segurou minha mão.
- Mas sonhos não podem significar... coisas?
- Peut-être vous devriez rompre avec lui...- Dominique sussurrou naquele maldito francês.
- O quê?
- Nada importante...
- Dominique!
Silêncio.
- Não dá pra conversar com você! – Fiz menção de me levantar, mas ela me puxou de volta.
- Não quero te ver sofrer, Rosie!
- Então repita a frase!
- Como?
- Repita o que você acabou de dizer.
Dominique hesitou por um momento, mas cedeu.
- Peut-être vous devriez rompre avec lui.
Gravei-a mentalmente. A memória herdada de minha mãe tinha que servir em alguma outra coisa que não fossem as provas, afinal.
- Bom. Vamos para a aula? – Recompus-me e levantei.
Dominique continuou sentada, olhando para o pote de sorvete esquecido no chão.
- Nic?
- Sim, tudo bem... você tem certeza que está em condições de ir pra aula?
- Merlin, eu só perdi a virgindade, não estou mortalmente ferida.
Minha prima soltou um risinho nervoso e pôs-se de pé. Ela me olhou com uma expressão estranha, que não identifiquei muito bem.

A aula de transfiguração foi uma bela de uma porcaria. E meu furão não ficou nem um pouco parecido com um guarda-chuva.
- Srta.Weasley, onde a senhorita estava hoje? Você geralmente é a melhor na minha aula... – A professora falou comigo quando eu estava juntando meu material, e a maioria dos alunos já havia saído.
- Só não dormi direito, professora Gainsbrouth. Lamento. – Não estava mentindo.
- Tudo bem, querida... mas vá se deitar mais cedo essa noite.
- Pode deixar. – Murmurei antes de me retirar.
Queria passar na biblioteca antes de ir para a próxima aula, então apressei o passo, ziguezagueando alguns alunos molengas no corredor.
Quando estava quase chegando, ouvi uma voz familiar.
- ROSE! Ei, Rose!
Parei onde estava e fechei os olhos. Não poderia fingir que não tinha ouvido. Ele havia gritado.
- Scorpio. – Virei para encarar meu namorado ofegante.
- Rose... – Ele olhou para mim e colocou as mãos nos meus ombros. – Você está bem? Hoje eu acordei e você... você não estava mais lá!
- Está tudo bem. Eu fui tomar um banho antes de descer para o café. – Mais uma vez, não estava mentindo.
- Ah... – Ele desceu as mãos para minha cintura, e aquilo de certa forma me incomodou. – Eu fiquei preocupado... você poderia ter me acordado, sabe.
- Não achei necessário. – Respondi impaciente. Realmente queria chegar até a biblioteca.
- Rose... – Ele abaixou o tom de voz. – Eu fiz alguma coisa errada, Rose? Não foi bom pra você? Eu te machuquei?
Desvencilhei-me de seu toque.
- Eu só queria tomar um banho, Scorpio! Pare com essas inseguranças bobas! – Virei-me e voltei a andar.
- Eu estava preocupado! – Ouvi sua voz magoada e parei novamente. Respirei fundo. Eu não estava sendo a melhor das namoradas, não é? E o coitado não havia feito nada de errado. Não merecia ser tratado assim. Com certa resignação, decidi que passaria na biblioteca na hora do almoço.
- Desculpe. – Eu o abracei. – Mas você não tem com que se preocupar, OK?
- Certo. – Scorpio disse baixinho, mas eu ainda via uma pontada de magoa em seus olhos. – Vamos, eu te levo até sua sala.
Reprimi a vontade de pedir pra que ele não fizesse isso e forcei um sorriso.
A única coisa boa é que era História da Magia, então eu passaria a aula toda apenas fazendo anotações. Não teria muito mais tempo para pensar em nada.
Albus entrou e me cumprimentou animado, mas, tão logo o professor Binns começou a falar, ele abaixou a cabeça e fechou os olhos. Não entendia porque as pessoas dormiam... o assunto é fascinante...
Entretanto, eu não conseguia me concentrar.
Memórias pipocavam na minha cabeça no meio da explicação sobre a guerra dos gigantes, deixando-me frustrada. Eu simplesmente gostaria de apagar noite passada. Mas não. Além de me lembrar vivamente de cada detalhezinho, ainda tinha aquele sonho perturbador. Parecia que eu queria... expulsar Scorpio de mim. Tirá-lo de dentro do meu corpo, da minha alma. Balancei a cabeça.
O que eu estava pensando?
Ele é meu namorado. E nós só transamos porque eu consenti. Eu quis. Não foi como se ele tivesse me estuprado nem nada disso. Suspirei. Eu quis.
Assustei-me levemente quando o professor nos dispensou. Levantei apressada, lembrava-me perfeitamente bem de que devia passar na biblioteca.
Entrei afobada antes de encontrar mais alguém que me parasse no meio do caminho. Estava passando pela parte de Literatura Trouxa quando vi um livro caído no chão. Bufei. As pessoas são tão mal educadas! Por acaso é impossível guardar um livro no lugar certo? Peguei-o para arrumar, mas o título me chamou a atenção. “Little Prince” e embaixo, em letras pequenas, o nome original – “Le Petit Prince”. Olhei interessada e folheei algumas páginas. Sorri. Dominique certamente gostaria do livro.
Então me lembrei do meu propósito principal. Fui até a seção de Tradução e achei o que eu queria. Um dicionário Francês-Inglês.
Sentei-me em uma mesa e comecei a tentar traduzir a frase de Dominique.
“Peut-être vous devriez rompre avec lui”.
“Talvez você deva romper com ele”.
Olhei meio incrédula. Era aquilo? Aquilo que ela queria dizer? Mas por que não dizer em inglês? E além do mais, por que dizer isso em primeiro lugar? Não foi ela mesmo que falou que foi só um sonho?
Minha barriga roncou, interrompendo minhas indagações. Eu não havia comido nada, afinal.
Segurei com força o livro que eu peguei para Nic, muito embora estivesse decidida a não contar que eu traduzi sua frase. Tudo estava muito confuso ainda.
Depois de alguns anos em Hogwarts, você já sabe muito bem que caminhos tomar para evitar multidões, para chegar mais rápido aos lugares. Viraria à esquerda na armadura do Cavaleiro Cego, em um corredorzinho que certamente estaria deserto. Dali para o Salão principal era apenas entrar em uma porta escondida no meio da tapeçaria da Senhora Solitária, e virar a esquerda novamente.
Estaquei.
Acontece que o corredor não estava tão vazio assim.
Observei James prensar Dominique contra a parede e beijá-la com um entusiasmo exagerado, enquanto minha prima enrolava os dedos em seus cabelos sempre bagunçados. Senti uma sensação diferente. Meu rosto ardia e eu esqueci que estava com fome. Havia agora um gosto amargo no fundo da garganta, e eu não tinha ideia do que fazer.
Pela primeira vez, simplesmente odiei minha mania de pegar rotas não convencionais. Talvez eu devesse voltar... mas havia um problema: eu estava congelada. Como se um visgo do diabo estivesse me prendendo ao chão. Então a mão de James começou a descer...
Certo. Esse apenas não é um bom momento para paralisar, Rose.
Forcei-me a virar e corri em direção oposta ao casal.
- ROSIE?! – E pela segunda vez no dia eu fui vista quando não queria. A voz chocada de Dominique me fez parar.
Ela desvencilhou-se do garoto e começou a vir até mim.
Ótimo. Está satisfeita, sua ogra? Você poderia ter se virado gentilmente e andado devagarinho... mas não... você aprendeu sutileza com a Murta-que-geme!
- Eu... não queria atrapalhar. – Respondi, abaixando a cabeça para evitar o contato visual.
- Rose...
- Vocês vão almoçar? – Eu cortei-a.
- Certamente que vamos. – Ouvi a voz feliz e animada de James. Oh, claro que estava animada... finalmente conseguiu, não é, seu diabrete?!
O pensamento me assustou. Por que tanta irritação? Preferi não preocupar com isso agora, e, no lugar, tornei a andar pelo caminho que voltava para a biblioteca.
- James, eu te encontro no Salão, vá indo, por favor. – Ouvi Dominique dizer antes de apressar o passo para me acompanhar. Ela segurou minha mão. – Rose, você não vai comer?
- Não. – Soltei sua mão com um gesto meio brusco, e continuei andando.
- Espera aí! - Ela voltou a me seguir. – O que foi?
- Nada. Só tenho que finalizar meu relatório de poções... é pra entregar hoje e eu ainda não termi...
- Mentira! – Ela bradou energicamente. – Não minta pra mim, Rose Weasley, eu sei muito bem que você nunca deixa deveres para última hora!
- Rose Weasley? – Voltei-me para ela de uma vez, fazendo com que a garota se recuasse um passo. –Você não é minha mãe pra me chamar de Rose Weasley, Dominique! – Respondi com raiva.
- Graças a Merlin que não! – Ela gritou irritada.
Estreitei os olhos.
- O que você quer dizer com isso?
Nic me olhou daquela forma estranha novamente, e meu estômago se contraiu.
- Eu... por que estamos fazendo isso? – Ela suspirou. – Por que você fugiu, Rosie?
- Já disse. Não queria atrapalhar.
- Você nunca atrapalha! – Ela protestou.
- Você parecia muito... envolvida... eu só não queria quebrar o momento. – Fui fria, mesmo que não entendesse bem o motivo da frieza. Dominique pode muito bem ficar com James... não tenho nenhum direito de me aborrecer com isso, certo?!
- Não faz isso! – Ela bateu o pé no chão.
- O quê? – Retruquei ríspida.
- Isso! Falar nesse tom comigo. O que foi, Rose?
Fiz um biquinho infantil.
- Preciso terminar o relatório de poções.
Ela soltou um grunhido impaciente.
- Foi porque eu fiquei com James? Foi isso?
Não aguentei mais.
- Você falou que jamais ficaria com ele! Que ele é muito novo pra você! –Exclamei com uma nota de rancor.
Dominique piscou três vezes para mim antes de responder.
- Eu não implico com as pessoas que você fica, Rosie... por que isso agora?
Gargalhei sarcasticamente.
- Ah é? “Talvez você deva romper com ele” não é uma implicância?! Você nem teve coragem de dizer na minha cara! Balbuciou a frase no maldito francês!
Dominique me olhou assombrada e magoada; e dessa vez foi ela quem deu as costas e saiu andando.
DROGA! Parabéns, Rose, cada vez mais perto de ganhar o prêmio de babaca do ano!


Sentei-me ao lado de Albus para a aula de poções, evitando seu olhar insistente.
- Você sabe que pode falar qualquer coisa para mim, certo? – Ele disse no meio da aula, aproveitando que todos estavam ocupados com seus caldeirões fumegantes.
- Certo. – respondi apática.
- O que está acontecendo, Rose?
- Nada está acontecendo, Albus, podemos nos concentrar nessa poção?
Ele me dirigiu um olhar chocado que me fez respirar fundo.
- Estou sendo uma vadia com todo mundo hoje... me desculpe.– Falei com o tom arrependido. – Meu dia está uma merda. – Reclamei.
- Então mude isso. – Ele me olhou perspicaz, como se soubesse algo a mais.
Encarei-o por um instante.
– Professor... – Levantei a mão. – Acho que a fumaça me deixou um pouco tonta, posso ir até a enfermaria?
O professor me olhou preocupado. Jamais desconfiaria de mim. Rose Weasley, usar doença para cabular aula? Nunquinha...
- Claro, Srta.Weasley, claro... quer que eu peça alguém para ir com a senhorita?
-Não senhor, obrigada. – Levantei-me e saí.
Fui até a sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, onde sabia que Nic estava tendo aula. A porta estava entreaberta e eu não pude evitar espiar. Olhei as diversas formas prateadas dançando pela sala e sorri com admiração. Patronos. Virei meu olhar para Dominique, mas ela parecia frustrada. Nada além de uma fumacinha fraca saía de sua varinha.
-Srta.Weasley? – A professora veio até mim, e eu me sobressaltei.
- Ahn... com licença, professora, eu poderia falar com Dominique por um momento? Surgiu um assunto na monitoria. – Inventei. Senti-me mal por abusar da minha posição de monitora, mas Nic é monitora-chefe, e essa desculpa é provavelmente a única que eu encontraria para falar com ela no meio da aula.
- Rose? – A loira apareceu um momento depois. – O que você quer? – Ela falou, tentando parecer zangada, mas sua voz apenas saiu fina demais.
Fechei a porta atrás de nós.
- Nic, me desculpe. – Eu fui uma idiota! É que eu estou com muito na minha cabeça no momento... acho que pirei.
Ela me olhou com a compreensão, e me abraçou.
- Tudo bem, Rosie... eu não deveria ter ficado com James... isso foi idiota também. Eu estava...
- Ei, você não me deve satisfações, ok? – Forcei um sorriso e Nic abaixou a cabeça.
- Olha, eu tenho algo pra você. Achei na biblioteca hoje, acho que você vai gostar... – Entreguei o exemplar de “Le Petit Prince” para ela, e vi seu rosto se iluminar.
- Eu amo esse livro! – Ela sorriu.
- Você já leu? – Não pude evitar a nota de desapontamento na minha voz.
- Eu li o original em francês. – Nic disse. – Mas eu vou adorar lê-lo novamente! – Ela completou rapidamente.
Sorri.
- Acho que você não quer perder mais da sua aula. Patronos. – Exclamei excitada.
-É... - Ela não pareceu muito animada.
- Vamos, Nic... – Segurei sua mão. – Pense em algo feliz!
Ela me encarou e apertou minha mão antes de entrar.
Dominique havia deixado a porta meio aberta outra vez, e eu obviamente não resisti.
A garota estava com uma cara de extrema concentração, e agora seu patrono começava a tomar forma. Na quinta tentativa, uma charmosa loba saiu de sua varinha, olhando orgulhosa para os outros patronos. Contemplei o patrono de Nic com verdadeiro arrebatamento. Era linda!
- Resolvido o problema, Srta.Weasley? – A professora me pegou espiando outra vez.
- Claro. – Corei. – Desculpe, eu me perdi nos patronos.
A professora Bones abriu um sorriso de lado, como se entendesse bem o que eu estava falando.
- Compreendo... mas você precisa ir pra sua aula agora.
- Claro. – Repeti. – Obrigada.
Como meu horário de poções era duplo, e o próximo horário era livre, não havia mais aulas. Fui jantar feliz que, afinal, o dia não terminou um desastre.


Tateei com as patas o chão úmido e coberto de folhas caídas. O cheiro de terra molhada, juntamente com a familiaridade do lugar, me aqueceu por dentro. O sol escondia-se na copa das árvores, tingindo o céu de laranja e deixando minha floresta cair em uma quase escuridão mística. Conseguia ouvir ao longe um passarinho solitário assoviar sua canção de despedida ao dia, enquanto um outro saudava a noite com seus pios agudos.
Os últimos raios de sol deixaram o horizonte, e eu comecei a caminhar tranquilamente, pisando nos galhos secos e pulando as raízes protuberantes. Eu conhecia cada tom de verde e marrom daquele lugar, cada centímetro de terra e lama, todas as curvas sutis das flores, e toda a aspereza dos troncos das árvores. Não precisava pensar para que meu corpo me levasse automaticamente ao centro da floresta. Ao meu lugar sagrado.
Então aquele aroma conhecido me atingiu, e eu sabia que não devia continuar. Mas eu não tinha escolha. Pela primeira vez, em minha floresta, eu não tinha mais escolha. Algo maior e muito mais forte que eu parecia me guiar gravitalmente para onde antes era meu refúgio.
Vislumbrei o lago, e ele estava límpido novamente. Todos os resquícios de sangue haviam desaparecido, e a luz da lua tremeluzia calmamente por entre as águas. A dona do mais agradável aroma que já impregnou a floresta estava sentada na margem, os pés nus brincando com a água.
Forcei-me a parar entre as árvores, antes do lago. Dominique não poderia me ver. Se ela me visse, tudo estaria perdido. E em tão pouco tempo! Eu não podia permitir que ela morresse! Tentei recuar alguns passos, minhas patas tremiam. Antes que eu pudesse recuperar o controle, ela me viu. Um instante de seus olhos nos meus e eu senti tudo desabar. Era tarde demais.
- Venha. – Ela incentivou.
Eu quis protestar, gritar, mas apenas um uivo estrangulado saiu pela minha garganta.
- Como você não percebe? – Ela perguntou pra mim, o sorriso alargando-se cada vez mais. – Venha mais perto.
Balancei a cabeça em uma negativa veemente. Talvez se eu apenas saísse correndo... talvez ela tivesse uma outra chance.
- Venha. Por favor. – Dominique me pediu, os olhos azuis brilhando incomumente.
Aproximei em passos hesitantes, até que eu ficasse do lado oposto da margem de onde ela se encontrava.
- Quando nos sentimos maculadas, distorcemos a visão de nós mesmos. O eu se transforma em outro, e, mesmo no nosso mais profundo íntimo, a essência se perde... torna-se apenas um borrão turvo do que realmente somos. – Ela levantou-se e me ofereceu novamente um sorriso. – Veja por você mesma.
Eu vi. Nas águas límpidas, eu vi. Eu não era o sinistro.
Eu era um lobo.


Abri os olhos de uma só vez. Encarei o teto do dormitório enquanto tentava clarear os pensamentos. O segundo sonho com a tal floresta em dois dias. Meus braços pendiam pesados na cama, e eu não tinha vontade de me mover. Tudo parecia tão transparente agora... como as águas do lago... tão claro.
Quanto tempo eu mastiguei a situação sem realmente a processar? Quanto tempo eu sabia sem saber? Respirei fundo quando uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Eu estava tão, mas tão perdida!
Perdida no momento em que se encontrou, que ironia infeliz, não, Rose Weasley?!
Olhei no relógio, mas, antes que eu pudesse realmente registrar as horas, minhas companheiras de quarto começaram a se remexer preguiçosamente na cama. Mais um dia começava oficialmente.
Levantei, saindo do meu estado letárgico. Tomei banho e murmurei um “bom dia” para as garotas antes de descer para o café. Havia algo irremediável a ser feito.

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Comentários: 1

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Enviado por Lana Silva em 20/02/2013

Gostei do capitulo. Nunca havia lido uma fanfic com esse Ship... Na verdade eu quase não leio Femmeslash, mas gostei bastante do capitulo. 


beijoos! 

Nota: 5

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