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5. Vermelho e Verde


Fic: A Canção da Meia Noite - Atualizado! Cap 24 #Tributo


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 5 – Vermelho e Verde


 


“Meu passado sussurra descendo em meu pescoço


E parece que agora tudo o que posso fazer voltar ao começo


Quando tudo estava adiante,


Uma ilusão passageira agora me flagela ao invés”


Solitary Ground - Epica


 


Esqueça todos os nossos planos. Tenho uma idéia MUITO melhor para o nosso encontro hoje. Passarei na sua casa às nove.


    Essas foram as palavras que Hermione se deparou quando acordou no sábado de manhã de seu último diaem Londres. Suas sobrancelhas ergueram-se, pensando no que estava passando pela cabeça de seu irmão enquanto continuava fitando a mensagem na tela do celular, ainda deitada na cama. Ela apoiou o cotovelo no colchão e inclinou o corpo em direção à mesa de cabeceira para consultar o relógio e pulou da cama ao perceber que só tinha quarenta minutos para ficar pronta.


   Arrumou-se e tomou café da manhã com um pensamento que a deixava um pouco distraída. A súbita surpresa de Aaron tinha bagunçando completamente seus próprios planos, o que a deixou levemente irritada e com a sensação de que fazia as coisas com pressa. E não era preciso conhecê-la muito para afirmar o quanto aquilo tudo caia nas suas definições de horrível e inaceitável.


   De súbito, lembrou que, no dia anterior, tinha cogitado a possibilidade de um imprevisto. Bem, parecia que Aaron Granger, mesmo a quilômetros de distância, tinha conseguido, sabe-se lá como, ler sua mente. E ela conhecia o irmão o suficiente para já ver e quase sentir o sorriso presente em seus lábios por ter desarmado-a, bagunçando completamente sua manhã.


   Mesmo assim, ela conseguiu pisar no hall de entrada de seu prédio quando faltavam cinco minutos para as nove horas. Surpreendeu-se quando viu um homem de aparência conhecida conversando com o porteiro, que virou-se para ela assim que ouviu o barulho dos passos no chão lustroso. Dois sorrisos surgiram, um no rosto dela e outro no dele, quase automaticamente.


   Embora fosse mais novo que ela, a altura de Aaron superava a sua. Os dois tinham alguns aspectos parecidos, e o mesmo tom de castanho do cabelo de ambos era o que chamava a atenção logo de primeira. Os olhos dele poderiam ser cópias dos dela, porém eram ligeiramente mais claros, mas não menos bondosos ou gentis, e até carregavam um brilho de diversão quando eles se voltaram para a cantora. Tinha um nariz reto e perfeito que a fazia sentir uma pontada de inveja vez ou outra, como naquele momento. Os traços de seu rosto eram inteiramente simétricos e faziam com que ele servisse muito bem para o mundo da moda se sua carreira empresarial não estivesse indo tão bem.


   Hermione apressou o passo e jogou os braços ao redor do irmão, tomando-o num abraço terno e tão apertado que os dois se desequilibraram um pouco.


- Que saudades suas, garoto. – a morena disse, sem conseguir esconder a felicidade. – Você não tem idéia.


- Você que não tem idéia, Herms. – Aaron falou com um tom de voz abafado por estar com parte do rosto enterrado no cabelo da irmã. – Eu me senti péssimo por não ter aparecido na festa.


   Os dois se separaram, e Hermione lançou um olhar fingidamente sério ao homem.


- Acho bom mesmo. – ela disse, cruzando os braços. – O que você fez é quase imperdoável.


- Quase. – Aaron repetiu sorrindo mais uma vez. – Espero que o que planejei para hoje compense, e você possa me perdoar.


   A cantora revirou os olhos.


- Sua idéia maluca tem que ser muito boa para compensar, não só a sua ausência no meu noivado, mas o caos que você provocou nessa manhã.


   O sorriso de Aaron aumentou, chegando à imagem que tivera minutos atrás. Eu sabia, a morena pensou brevemente.


- Ah, minha querida, como eu te conheço muito bem, sei que minha... idéia maluca vai fazer seus olhos brilharem. – ele disse, tocando o queixo dela com o dedo e levantando-o de leve.


   Hermione ergueu a sobrancelha, lançou um olhar desafiador ao irmão, depois pegou um dos pulsos dele e começou a puxá-lo de leve.


- Vamos logo antes que eu desista de você. – murmurou baixo. – Tchau, Harrison! – exclamou, virando-se para o porteiro, que devolveu com um pequeno sorriso e um aceno de cabeça.


   Os dois saíram do prédio e entraram no carro dele, estacionado bem na frente.


- E então, como foi a festa? – ele perguntou assim que deu partida no automóvel.


   Hermione largou a falsa irritação e começou a falar sobre o evento. Tinha pensando em algumas pequenas coisas que falaria ao irmão, mas acabou empolgando-se, dizendo o que quer que viesse à mente, resultando numa animada narração fora do tempo cronológico que arrancou risadas do rapaz.


- Pelo visto, perdi uma festança. – ele comentou depois que ela calou-se.


   Hermione, tão entretida na história, tinha parado de prestar atenção no caminho. Quando repôs os olhos na janela, viu que já não mais se encontravam no centro da cidade. Na verdade, a paisagem lá fora era ligeiramente familiar, contudo ela não conseguia lembrar com exatidão onde estavam.


  Seu cérebro deu um estalo quando percebeu uma grande quantidade de automóveis seguindo aquele caminho aparentemente calmo com passageiros que ora vestiam vermelho e dourado, ora verde-escuro e prata, e ela arregalou os olhos e soltou uma exclamação de surpresa quando reconheceu a estrada reta por onde seguia.


- Não acredito! – ela exclamou, virando-se para ele, que ria abertamente da expressão em seu rosto.


- É a primeira vez que te vejo animada para uma partida de futebol. – Aaron comentou com um tom divertido.


- Mas é Hogwarts! – ela retorquiu. – E ninguém tem idéia do quanto eu sinto falta dos meus tempos de Hogwarts... – concluiu com um suspiro.


   Hogwarts. Instituto Hogwarts. O começo de tudo.


   A nostalgia atingiu uma Hermione despreparada. Num instante, sua mente foi recheada por várias lembranças. As primeiras relembraram-na dos jardins e campos da enorme propriedade e da arquitetura antiquada, mas elegante, dos prédios que formavam o colégio. Mas, poucos segundos depois, vieram memórias que fizeram Hermione afundar um pouco no banco. Eram momentos que ela tinha passado no colégio... ela e seus dois melhores amigos.


   O bom humor que vinha sentindo desde o reencontro com o irmão diminuiu um pouco de intensidade, sendo substituído por uma sensação de incômodo. Os Harry e Ron que ela via diariamente não eram de fato os mesmos dos que vira na época da escola, afinal, tinham sido esses a ganhar sua afeição. Agora, eles estavam mais sérios, mais fechados, e ela não tinha a menor ideia do que fazer.


   A morena não disse mais nada no resto do caminho. Aaron percebeu seu silêncio desconfortável, porém não disse nada. Cogitou a ideia de contar ao irmão os pensamentos que ultimamente vinham lhe assombrando. Ele entenderia e com certeza usaria de seu dom de dar ótimos conselhos, herdado da mãe dos dois, e a faria sentir-se mais leve, algo que ela não conseguira quando conversara com o noivo.


   Mas também não dissera muita coisa a Nick. Ela apenas incitara o assunto, que não chegou a ser totalmente debatido. Dissera algumas palavras, e Nick tratara de confortá-la, alegando que estava sendo um pouco exagerada, que, se de fato havia algo estranho com Harry e Ron, deveria ser o estresse que o ritmo agitado da turnê adquirira e que, se ainda se sentisse desconfortável, ela poderia muito bem conversar com eles. Afinal, eram seus melhores amigos, não? Contariam o que quer que estivesse acontecendo, ela só precisava dar tempo e espaço a eles.


   A mulher tratou de olhar para fora do veículo para distrair-se e tirar aquelas ideias da cabeça, pois ia para um de seus lugares preferidos. Um leve sorriso não conseguiu manter-se escondido enquanto ela via as famílias encaminharem-se ao colégio para mais uma clássica partida de futebol – tinha assistido àqueles dois times durante sete anos para ter plena consciência do adjetivo que usava.


   Assim que ela se virou para frente e seus intensos olhos castanhos recaíram sobre os portões que davam acesso ao colégio, um suspiro saudoso não pôde ser contido. Aquelas altas barras de ferro de aparência antiga e perigosa não a intimidaram, como geralmente faziam com outros visitantes, apenas aumentaram a sensação de nostalgia, cuja força era tal que parecia um pequeno martelo que colidia ocasionalmente com seu peito.


   Enquanto Aaron direcionava o carro rumo ao estacionamento, Hermione olhou para a esquerda e teve um relance dos prédios suntuosos, dotados de uma beleza que ela nunca seria capaz de retratá-la, exatamente como era,em palavras. Permitiu-se, então, sentir saudade e deixar o carinho que a escola transmitia invadir-lhe. De repente, lembrou-se das palavras de Albus Dumbledore, o maior diretor que a escola já vira, que disse que Hogwarts sempre estaria ali para quem quer pedisse seu auxílio.


   Seu lado perturbado com o dilema de seus melhores amigos entrou em cena bem de leve. Seria Hogwarts capaz de resolver até mesmo isso?


- Sonserina versus Grifinória, aqui vamos nós! – Aaron exclamou, tirando-a de seu próprio mundo. Ela olhou para a direita e viu o irmão saindo do carro, bastante animado, com algo nas mãos que pegou do banco de trás que ela reconheceu como sendo a antiga a jaqueta vermelho e amarelo dele. Como tinha de esquecer um pouco seus próprios problemas, Hermione deixou a alegria de Aaron contagiá-la e também saiu do carro.


   O Instituto Hogwarts era uma das escolas mais prestigiadas de toda a Inglaterra e mantinha um status especial em relação aos outros colégios do mesmo nível. Um dos motivos para a diferenciação era o fato de que os alunos, além de serem divididos por séries, ensino fundamental e médio, espalhavam-se em quatro grupos chamados casas, Grifinória, Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa, a qual eram selecionados no primeiro ano. Hermione não sabia exatamente como ocorria a divisão – sendo esse o maior segredo de toda a escola –, porém em seu primeiro mês ela passou como os outros calouros, não tendo feito nenhuma espécie de teste ou algo parecido e só foi selecionada para sua casa no segundo mês, numa cerimônia bastante tradicional.


   Ela, assim como o irmão, os melhores amigos e Ginny, fez parte da Grifinória. Draco e Lewis, por outro lado, foram da verde e prata Sonserina, a maior rival da casa vermelha e dourada, e isso foi motivo de sobra para que ela, Ron e Harry ficassem anos sem se falar direito com os dois – principalmente com o baixista –, apenas trocando farpas. A situação era um pouco mais profunda entre Harry e Malfoy, que se tornou de total conhecimento de qualquer aluno naquela época que os dois eram arquiinimigos.


   O motivo da rivalidade ninguém soube definir ao certo, mas a morena tinha a leve impressão de que, na época, Malfoy sentia inveja de Harry. Isso por que a família de seu melhor amigo já tinha um legado considerável em Hogwarts, e James Potter foi uma figura que entrou para a história do colégio, fazendo com que Harry entrasse automaticamente embaixo dos holofotes assim que dera o primeiro passo dentro da escola, com todos esperando que ele fosse tão talentoso, inteligente e conquistador como o pai.


   Acabou que Harry atendera razoavelmente às expectativas. Era igualmente talentoso, principalmente quando se tratava de esportes; tornara-se o estudante mais jovem a entrar para o time de futebol da Grifinória, além de ter se destacado como o melhor atacante que o colégio já vira. A única coisa na qual diferenciava do pai era que Harry não tinha o mesmo dom com o público feminino, o que frustrou um pouco as alunas, mas nada que tirasse dele o posto de uma espécie de celebridade – e devido a esse fato, Hermione e Ron juntaram-se a ele, embora num nível singelamente mais baixo, formando, assim, o Trio de Ouro do Instituto Hogwarts, que seguiria para, mais tarde, ser designado como o Trio de Ouro do Paradise Lust, a base bruta da banda.


   Acontece que Harry também tinha os mesmos genes para desprezo e quebra de regras de James; envolvera-se tanto em confusões que o deixaram à beira da expulsão umas duas vezes.


   E, numa dessas confusões, surgira a amizade de Hermione com Harry e Ron.


   Os três já se conheciam desde o primeiro dia de aula, porém os garotos não foram muito com a cara da morena devido a sua irritante pose arrogante e sua vontade de mostrar a todos o poço infinito de sabedoria que era. Num dia, Hermione ouviu Ron falando dela com um tom carregado de desprezo, o que a fez ficar magoada e trancar-se no banheiro feminino. Mas o destino interveio, provocando um incêndio no colégio na hora do almoço. Hermione, por ser a única pessoa fora do refeitório naquela hora, não soube de nada e provavelmente teria sido uma vítima fatal do incidente se Harry e Ron não tivessem surgido. Juntos, eles arrombaram o vitral secular do colégio – já que, devido à rapidez com que se alastrava, o fogo destruiu a entrada do banheiro – e conseguiram fugir pela janela. E a situação foi coroada pelo fato de Hermione ter mentido para defender os dois quando foram questionados pela vice-diretora, alegando que tinha lido num livro sobre a escola que havia uma rota de saída mais rápida e que tinha ido procurá-la.


 


   O fogo começou a se estender para dentro do banheiro. Um segundo vitral explodiu enquanto o trio corria em direção aos bosques que circundavam o colégio. O impacto foi grande o suficiente para que onda provocada pelo deslocamento de ar os atingisse, derrubando-os. A menina, bastante assustada, continuava presa às vestes do garoto de cabelos negros bagunçados como se fosse a coisa mais importante do mundo. Ele ergueu um pouco o corpo para olhá-la.


- Hey... Você está bem?


   Ela respondeu acenando a cabeça negativamente, a cabeça enterrada na roupa dele, algumas lágrimas escapando de seus olhos.


   Por algum motivo, ele sorriu.


- Relaxa... Estamos bem, estamos vivos.


...


- O que os três estavam pensando?! Desobedeceram às ordens dos superiores! Escaparam da rota de saída de emergência! E foram justamente para onde o fogo se alastrava! Deram muita sorte, por um milagre estão aqui!


- A culpa foi minha, professora McGonagall.


   A voz calma da menina em contradição com o tom frenético da vice-diretora calou todo o aposento.


- Eu... Eu li em “Hogwarts, uma história” que os fundadores da escola criaram uma rota de fuga muito mais curta que a usada atualmente, só que ela era um tanto confusa. Quis ver como era. Não esperava que estivesse indo justamente para onde o fogo se espalhava.


   Os garotos se entreolharam. Estaria a aluna mais certinha de Hogwarts contando uma mentira para livrá-los do castigo?


...


- Não acredito que fez isso por nós. – o garoto de olhos verdes disse, ainda um tanto incrédulo.


- Era a minha vida que estava em jogo. Vocês me salvaram. Tinha que corresponder à altura, mesmo que isso significasse colocar em risco minha permanência na escola.


- Mas você não foi expulsa. – falou o ruivo.


- É.


- Fico feliz que não tenha sido expulsa, Hermione. – o primeiro garoto abriu um sorriso tímido.


   Sorrateiramente, os outros dois também sorriram do mesmo modo.


- Mas Hermione é um nome muito grande... Que tal se a gente só te chamar de Mione?


 


   Ali, se deu início a uma amizade pura, sincera e verdadeira. De uma cumplicidade tão singela e ao mesmo tempo tão forte, cuja plataforma parecia ser formada de um material especial que dava um aspecto único a eles. Uma conexão tão intensa que invejava qualquer um que ficasse perto deles tempo o suficiente para perceber.


   Ou assim era o que ela achava.


   Porque o presente não lhe mostrava isso. Ou melhor, até mostrava, mas de um jeito doloroso; mostrava que a força e a sinceridade iam embora lentamente e que ela não podia fazer nada a não ser observar.


   E agora ela estava de volta ao começo. Enquanto caminhava pelos campos do colégio, circundando e entrando nos prédios antigos, as mesmas imagens eram reacendidas em seu cérebro. Eram memórias intactas, que lhe faziam lembrar de que tudo tinha sido verdadeiro...


   ... Menos as memórias de seus amigos. Porque agora não pareciam reais, eram boas demais para isso. Hermione, inconscientemente, chegou a um estágio que a fazia duvidar até mesmo das lembranças.


   Teria sido tudo uma ilusão que agora a flagelava lentamente?


 


 


   Os olhos verdes miravam as pessoas do outro lado da janela do utilitário preto que estacionava. Embora elas lançassem olhares discretos ao automóvel, era bem visível a curiosidade bem destacada nas expressões, que também mesclavam admiração e interesse.


   O dono das esmeraldas virou-se para a direita para fitar a motorista, que girava o volante, manobrando o carro de modo fazê-lo encaixar no retângulo que era a vaga.


- Acho que eles esperam que saia da porta do motorista um homem alto e mal encarado, não uma mulher como você, Delinda. – disse divertido.


   O deboche na voz representava um lado que sempre despertava dentro dele quando estava perto dela. Era bom agir um pouco como o adolescente de anos atrás que adorava implicar com a irmã.


   A mulher, por outro, lado, apenas lançou-lhe um olhar torto de esguelha e fez mais uma manobra.


- O que quer dizer com isso? – perguntou ameaçadoramente.


- Bem, acho que está bem na cara que esse carro é tipo aqueles que aparecem em filmes de ação com policiais mal encarados. – respondeu dando de ombros de um jeito calmo, tranqüilo, inocente. Irritantemente inocente. Na verdade, quase inocente, afinal, ele sabia o que estava fazendo, sabia que a provocava.


- Desculpe-me, lorde Harry, mas nem todos têm o mesmo poder aquisitivo que o seu para dirigir uma BMW exclusivamente personalizada. – ela retrucou cheia de rispidez e sarcasmo.


   Um sorriso debochado surgiu nos lábios dele. Ele não era o tipo de pessoa brincalhona ou que sempre chamava a atenção num grupo pelo seu senso de humor, mas não podia evitar de agir daquele jeito ao lado da irmã. Devia ser pelo fato de que ela partilhava de um sangue parecido que o dele e talvez houvesse algo correndo ali nas veias que o fazia querer sempre tirá-la do sério, vê-la bufando, irritada e soltando palavras ácidas. Delinda era dona de um pavio ainda mais curto que o seu, e eram necessários apenas segundos para atiçar seu lado irado. Não conseguia negar: amava enlouquecê-la, amava bastante.


- Sei disso. – ele disse ainda num tom de quem fala sobre o tempo. – Mas você tem um poder aquisitivo bastante considerável para não dirigir um carro que parece ter pulado para fora de um episódio do CSI.


   Ah, se olhares matassem... Delinda só faltava soltar dardos letais por aquelas íris esverdeadas. Bem, ele agradecia por isso, caso o contrário não teria nem chegado aos quinze anos.


   Ou, quem sabe, não teria sobrevivido nem para ter começado a aprender a tocar guitarra.


   Sem conseguir evitar, uma risada escapou dos lábios dele.


- Maldito! – ela exclamou, estapeando-o no braço forte. – Se está reclamando tanto, por que não propôs que viéssemos no seu carro? Aposto que você curtiria os olhares que receberia, não é, só femininos... com extrema cobiça e principalmente interesse. Aposto que iria adorar. Mas... Ah! O único olhar que realmente quer receber não viria, não é? – concluiu, crispando os lábios.


   Dessa vez, foi a vez de Harry de estreitar os olhos para a irmã, que abriu um sorriso maroto antes de desligar o motor do veículo e retirar a chave.


- Minha vez de perguntar o que você quer dizer com isso.


- Você sabe mais que ninguém. – a advogada piscou o olho. – Agora chega de patadas e gracinhas porque senão vamos perder o jogo e eu sei que você não quer que isso aconteça. – e, sem mais nenhuma cerimônia, ela abriu a porta.


   Harry bufou antes de sair do carro. Às vezes a irmã vinha-lhe com aquele ar sério e enigmático que usava no trabalho que o deixava confuso, encabulado e pensando sem parar no que diabos ela queria dizer, e isso o irritava profundamente. Não gostava que realizassem joguinhos de palavras consigo, ainda mais do tipo de Delinda, o que era um tanto egoísta – não que ele tivesse noção disso, claro – para alguém que se deleitava em brincar com os outros. Talvez fosse esse o motivo pelo qual se sentia tão frustrado: o fato de alguém estar usando seu feitiço contra o próprio feiticeiro.


   Ele não poderia perder a cabeça ali, afinal, tinha aceitado ir ao jogo de futebol em seu antigo colégio com a irmã justamente para se afastar um pouco de suas perturbações internas. Além do mais, era Delinda Potter, a criatura que vinha revirando sua vida de cabeça para baixo havia vinte e cinco anos. Já deveria ter se acostumado com os sorrisinhos e com as palavras enigmáticas dela, afinal, ela não fazia aquilo por mal, e sim porque gostava de atazaná-lo.


   Os irmãos começaram a andar em direção ao colégio, Delinda com um resquício do sorriso maroto e Harry ainda um tanto frustrado, cabisbaixo e pensativo. Após alguns segundos, ele soltou um suspiro e ergueu novamente a cabeça, apenas para que a fachada do prédio da administração entrasse em seu campo de visão. Automaticamente, vieram as lembranças.


   A primeira vez que ouvira sobre o Instituto Hogwarts tinha sido um ano antes de entrar no colégio, e o nome trouxera-lhe um ódio grande demais para um garoto de dez anos. Na época, os Potter moravam nos Estados Unidos – haviam se mudado para lá meses depois do nascimento dele –, e James e Lily queriam que ambos os filhos estudassem na mesma escola que eles, e Delinda, por ser mais velha, tinha acabado de completar os onze anos necessários para ingressar no colégio. Por isso, teriam de voltar à Inglaterra, o que não agradara o garoto nenhum pouco, pois teria de abandonar sua vida em Hartford, Connecticut.


   Ao voltarem ao país natal, uma animada Delinda entrou em Hogwarts, e um Harry ranzinza ficou meses ainda reclamando sobre a mudança. A situação ficou ainda pior quando ele próprio foi avisado que também iria para o mesmo lugar, mesmo com a irmã descrevendo como tudo era maravilhoso.


   Ao colocar o primeiro pé no Instituto, Harry não se sentia nada satisfeito. Dias depois, e a aura mágica e fantasiosa da escola começou a fazer efeito até que toda a irritação fosse embora.


   Acabou que Hogwarts tornou-se o segundo lar para ele, seu lugar preferido em todo o planeta.


   Lá, descobriu-se mais querido pelas pessoas do que pelos amigos de infância, mesmo que ele se achasse esquisito com seus óculos tortos e sua cicatriz em forma de raio, resultado de um acidente de bicicleta ainda nos Estados Unidos.


   Também descobriu que a música não era um hobby, e sim uma paixão. Os anos de aula de piano com a mãe contribuiu para que chamasse ainda mais atenção dos colegas, assim como sua incrível habilidade com guitarras. O lado musical aflorou ainda mais, revelando também um talento em arranjo e composição musical.


   O colégio também foi responsável pelas amizades que mantinha até hoje – principalmente as amizades de Ron e Hermione.


   O tipo e a força de ligação que descobriu com os dois eram de uma intensidade jamais vivenciada por ele. Logo no fim do se primeiro ano em Hogwarts, disse a si mesmo que não poderia ficar sem eles.


   Qual não foi sua surpresa quando percebeu que os melhores amigos tinham aptidões musicais bem atrativas?


   Aos doze anos, soube que Ron estava aprendendo a tocar bateria. Ocasionalmente, os dois fugiam para a sala de músicas do Instituto e ficavam tocando como se não houvesse amanhã, e os fins de semana eram gastos na casa dos Weasley com arranjos que enlouqueciam a matriarca da família e a fazia ficar além de zangada – principalmente com o marido, afinal, fora ele a dar o instrumento dos infernos, como dizia, para o filho mais novo. E assim passaram-se anos, os dois foram evoluindo e Molly desistiu dos surtos.


   Hermione, certinha e inteligente do jeito que era, só vivia na biblioteca do colégio e passava os fins de semana estudando, algo que deixou de incomodar os meninos depois de certo tempo. Por isso, nenhum dos dois esperava que ela tivesse habilidades quando se tratava de música.


   Era bem verdade dizer que Harry e Ron se sentiram surpresos quando a aluna mais brilhante que conheciam sabia tocar piano, pois eles só achavam que ela vivia enfurnada em livros e deveres de casa. Mas o choque não foi tão grande assim.


   Só que Hermione ainda mantinha mais um segredo e este só foi descoberto aos dezessete anos.


   Harry ainda lembrava-se perfeitamente da cena quando ouviu aquela voz incrível e hipnotizante... que vinha dos lábios de sua melhor amiga. Um calafrio percorrera toda a extensão de sua espinha e, se tivesse sido possível, seu queixo teria ido literalmente até o chão. O assombro estampado no rosto não fora capaz de começar a ilustrar o que havia sentido naquele instante.


   Acabou que Hermione confessara que fazia aulas de canto desde os dez anos de idade. Parte do que ela dizia serem idas à biblioteca na verdade eram saídas do colégio para a escola de música. Ela tinha uma licença especial que a permitia sair de Hogwarts quando pudesse, algo que fora mantido em segredo, pois o instituto tratava-se também de uma espécie de internato e controlava rigidamente o fluxo de saída de alunos.


   O choque provocado pela voz da amiga nunca abandonou Harry completamente. Anos mais tarde, quando se viu apaixonado por ela, ele percebeu que, embora não estivesse consciente do processo de mudança de sentimento, a descoberta fora extremamente importante para tal: foi quando Hermione começou a encantá-lo.


   Após aquele dia, Harry gastou boa parte de seu sétimo e último ano no colégio tentando convencer a amiga a juntar-se às loucas sessões que ele e Ron faziam. Ela relutou bastante até que aceitou apenas para calá-lo.


   E as sessões tornaram-se o que tinham hoje.


   Agora o moreno estava de volta ao local que dera início ao Paradise Lust e nenhuma daquelas memórias lhe pareciam muito agradáveis. Na verdade, eram quase surreais de tão felizes e tranquilas, totalmente o contrário do presente vivenciado.


- Ah, eu queria tanto ter achado a minha jaqueta! – exclamou a voz de Delinda que o trouxe de volta à realidade.


   Viu-se dentro do pavilhão administrativo de Hogwarts, no meio do extenso corredor de teto alto que cortava o prédio de uma ponta a outra. As cores escuras destacavam-se no ambiente, principalmente os tons de vermelho. As paredes eram recobertas por madeira de alta qualidade, com a presença de desenhos e colunas. O chão de xadrez preto e branco brilhava intensamente, mais polido do que Harry se lembrava. Quadros de vários tamanhos, épocas e estilos, estátuas de pedra, armaduras e outros itens artísticos contribuíam para a decoração do lugar.


   Em uma região da parede à esquerda, encontravam-se os halls de destaque do instituto. Alguns quadros imortalizavam alunos que haviam se destacado nas atividades internas. Ali atrás, Harry sabia que havia a sala de troféus, onde seu próprio nome estava marcado como o capitão do time de futebol da escola quando Hogwarts levou o campeonato estadual aos seus dezesseis anos.


   Ele também sabia que num quadro do hall encontrava-se o nome de Hermione Granger como detentora de uma das maiores médias escolares em todos os anos de existência da instituição.


   Tentando ignorar o último pensamento, ele decidiu ver o que tinha alarmado a irmã. Seguindo o olhar dela, viu um homem alto, de costas, trajando a já conhecida jaqueta do time da Grifinória. Estava de pé próximo à saída do prédio que desembocaria no pátio principal e era dono de uma silhueta familiar. Demasiadamente familiar.


- Hey – Delinda o cutucou no braço, o olhar apertado ainda na figura. – Aquele não é Aaron?


   Aaron. Aaron Granger, sua mente ficava repetindo. Seu estômago despencou. Isso só podia significar que...  


   Uma gargalhada de Delinda de repente ecoou no ar, antecipando o receio dele.


- Hermione Granger numa partida de futebol? Ah, essa temos que ver!


 


 


   Nem precisou se esforçar muito para imaginar como a cara dele estaria. Várias pessoas caminhando para o campo, as arquibancadas ficando cheias, a probabilidade de encontrar um lugar bom cada vez mais aproximando-se do zero... É, ele deveria estar irritado.


   E isso não era algo comum para ele, que ostentava um nível de paciência consideravelmente alto. Porém, tratava-se de futebol e, independente se era a copa do mundo ou apenas uma pelada de fim de semana, todos os homens comportavam-se do mesmo jeito: como se fosse o jogo de suas vidas. Qualquer mísero deslize – ou a ameaça para a ocorrência deste – que pudesse arruinar os planos era capaz de tirá-los do sério. Seu irmão não era uma exceção.


   Seus olhos recaíram sobre ele assim que saiu do toalete. A expressão dura mostrava o embate interno, perguntando-se se deveria ou não irritar-se com sua demora.


   Ela aproximou-se, o rosto calmo em total contraste com o dele.


- Vamos antes que você exploda e vire o Hulk. – disse divertida.


   O homem virou-se e houve uma transformação em sua face. Agora, olhava-a como se a visse pela primeira vez.


- Deus, Hermione! Que demora! – exclamou.


   Não pôde deixar de revirar os olhos. Como se fosse culpa dela!


- Aaron, é o banheiro feminino. Sempre tem fila em qualquer lugar do mundo. – respondeu, cruzando os braços. – Agora, vai querer realmente discutir comigo? Assim perderemos o jogo.


- Hermione Granger!


   A voz não foi a de Aaron, e sim de alguém que vinha de detrás deles. A expressão constantemente irônica, o sorriso provocativo nos lábios avermelhados, o olhar impactante e os olhos castanho-esverdeados. Não havia dúvida de quem era. Nem também de quem estaria acompanhando a dona daquelas características.


   Mesmo assim, o coração de Hermione deu um salto ao ver seu melhor amigo indo em direção a eles com a irmã.


   E por que o espanto? Harry adorava futebol, fora do time da escola e havia uma partida sendo realizada num fim de semana justo quando a banda estava de folga da turnê. Ele não era a surpresa ali, e sim ela.


- Mas o que você está fazendo aqui? – O sorriso continuava a estampar o rosto da advogada.


   Hermione revirou os olhos e riu de leve, entrando no jogo.


- Estou matando saudade do meu colégio, importa-se? – devolveu com um tom descontraído.


- É, mas existem os bailes anuais da escola para isso.  O futebol não está aí para isso... ainda mais para alguém que passou sete anos reclamando do mesmo. – Delinda cruzou os braços e começou a imitá-la. – “O que tem de tão interessante em ver um bando de garotos correndo atrás de uma maldita bola e com uma dificuldade imensa em jogá-la dentro de um gol gigante?”


   Aaron riu.


- Delinda, você sabe como o meu tempo é apertado, então não posso simplesmente escolher os eventos da escola em que posso vir. – falou Hermione, fitando diretamente a outra. – Além disso, foi esse daqui – e deu um leve tapa no irmão. – que me trouxe. Não estaria aqui se não fosse por ele. Nunca viria por vontade própria.


- Eu faltei à festa, tinha que te recompensar, o único dia livre era hoje e tinha o jogo... Pensei: por que não? – Aaron defendeu-se, olhando a irmã de esguelha. – Além do mais, de quem eram os olhos que brilhavam quando viu a fachada do colégio, huh? De quem mesmo?


- Então ela gostou da ideia e só está sendo uma cínica mentirosa. – Delinda disse.


- Cara, você quer recompensar e acaba trazendo-a para um programa do esporte mais chato do mundo na opinião dela? Está assinando sua sentença de morte. – Harry comentou, lançando um sorrisinho ao irmão da amiga.


- Ela não pode me matar. Eu que dirigi. – Aaron devolveu com o mesmo gesto cúmplice.


- E daí? Delinda pode me levar para a casa. – Hermione rebateu com firmeza, ainda no joguinho.


- Para a cadeia, isso sim. – a outra morena interrompeu. – Você terá cometido um assassinato, querida, e eu, como uma oficial de justiça, não posso simplesmente deixá-la livre, não foi assim que fiz meu juramento quando me formei em Oxford.


   Harry explodiu em gargalhadas.


- Ah ‘tá! Agora a oficial de justiça aparece, não é? Não me lembro de ela ter dado as caras quando o ameaçado era eu. Justiça interesseira, isso sim. Engraçado, era você quem me ameaçava... e ainda por motivos infames. – falou cheio de ironia.


- Cala a boca! – a advogada exclamou antes de dar um soco no braço dele.


- Para que a violência, Dels? – Harry continuava com a provocação. – Estamos numa instituição de ensino, devemos dar o exemplo da diplomacia, da conciliação, da conversa, não da violência. Além do mais, você é uma oficial de justiça.


   Delinda bufou e revirou os olhos, claramente sem paciência.


- Vamos logo antes que eu jogue esse garoto no lago. – ela disse e saiu pisando a passos largos e firmes em direção aos campos do colégio. Os outros três logo a seguiram.


   Durante o caminho, Harry e Delinda continuaram discutindo. Hermione percebeu que o melhor amigo agia excessivamente com sarcasmo e ironia, muito mais do que as doses que lhe eram características por natureza. Chegou a um momento que as palavras dele começaram a cansar a cantora, e ela começou a dar motivos para Delinda estar irritada com ele. Certo que os dois normalmente brigavam quando se viam – era o que ela e os amigos chamavam de Efeito Potter –, mas era apenas um jogo bobo entre irmãos, e o que ela via naquele momento ia além dessa simples definição.


   E tudo por culpa de Harry. Claro.


   Pela primeira vez na vida, Hermione agradeceu ao chegar ao campo e acomodar-se na arquibancada. Sabia que, assim que o jogo começasse, as provocações iriam parar e a atenção dos dois seria destinada a torcer.


   Quinze minutos depois, o jogo começou e, por se tratar de um clássico Sonserina contra Grifinória, começou eletrizante e acirrado. Ambas as torcidas gritavam a plenos pulmões, completamente ligadas, e a energia que vinha delas era tão intensa, alegre, pulsante e viva que dava a impressão de ter se transformado numa onda que se alastrou pelo ambiente, formando um campo invisível que atraia todos.


   Hermione lembrou-se das vezes em que estivera ali como aluna, gritando e torcendo para o capitão-atacante e o goleiro, seus dois melhores amigos. Então, não conseguiu se segurar e viu-se vibrando vez ou outra, lamentando a chance perdida que o time de sua ex-casa teve de sair na frente no placar.


- Eu falei para aquele meio de campo doido ter mandado a bola para o lateral direito, não esquerdo! Por isso que não marcaram! – Delinda gritava agarrada à grade logo a frente, quase se erguendo do assento.


- A esquerda deles ‘tá muito forte! Aí deu no que deu! – Harry concordou.


- Cara, a direita ‘tá livre, livre. Tem uma avenida ali. Será que ninguém se toca disso? – Aaron deu sua opinião.


   Para Hermione, que conhecia um tantinho do esporte graças aos amigos e ao irmão, pareceu que os jogadores da Grifinória ouviram os três. Tanto que, nos poucos minutos seguintes, marcaram o primeiro gol, provocando um urro ensurdecedor no lado vermelho e dourado da arquibancada.


   Mas os verde e prata responderam logoem seguida. Aanimação, dessa vez, veio do outro lado de onde Hermione estava, porém não durou tanto, visto que, assim que a árbitra – que a morena reconheceu, com um espasmo de surpresa, como sendo Madame Hooch, sua ex-professora de educação física – apitou, encerrando a partida, o placar marcava três gols para a Grifinória e um para a Sonserina.


   As pessoas ao seu redor pularam dos assentos e começaram a comemorar, sendo Delinda uma delas. A festa continuou por mais alguns minutos antes que os jogadores deixaram o campo e os espectadores começaram a sair das arquibancadas.


   Os quatro refizeram o caminho por dentro do prédio da administração. Harry e Aaron iam um pouco mais à frente conversando sobre futebol enquanto as mulheres caminhavam mais lentas entretidas em seus próprios assuntos.


   Ao passarem próximos ao balcão de recepção, localizado em frente à porta principal, os rapazes disseram que perguntariam quando seria próximo jogo, deixando-as paradas, um tanto mais afastadas, ainda conversando.


- Não acredito! Srta. Granger? – Uma voz foi ouvida, chamando a atenção das duas. Ao se virarem, deram de cara com Minerva McGonagall, ex-professora de inglês e atual diretora do Instituto. A mulher continuava exatamente do mesmo jeito que Hermione lembrava: traços fortes, expressão severa destacada pelos óculos retangulares, o tipo de pessoa que brincadeiras ou qualquer demonstração de desrespeito.


   Hermione abriu um sorriso. Adorava aquela mulher. Além de ter sido sua professora preferida, McGonagall era uma das mulheres mais brilhantes e apaixonadas pelo trabalho que tivera a honra de conhecer em sua vida.


- Professora Minerva.


- Olá professora. – Delinda falou.


   A diretora postou-se à frente delas.


- Já não são alunas há anos e ainda têm o “professora” na ponta da língua. Bom vê-la também, Srta. Potter, embora não faz muito tempo desde o nosso último encontro. – disse, mirando o típico olhar sério na advogada.


- Ainda me lembro das consequências caso houvesse desonra a um professor, professora. – Delinda respondeu divertida. – Sofri algumas delas durante meus sete anos aqui.


- Mas era uma boa aluna. – a diretora contrapôs com um tom mais suave.


- Não tanto quanto essa. – Delinda bateu de leve no ombro da outra morena, cujas bochechas ganharam um levíssimo tom rubro.


- A Srta. Granger foi um destaque prazeroso na minha vida profissional. Logo soube que teria um futuro brilhante. Qual não foi minha surpresa quando descobri que desistira da carreira na área de ciência política e decidira seguir carreira musical? Então, ouvi o talento dela no piano e no vocal e não tive mais dúvida alguma.


- É, o futuro brilhante agora é presente.


   Hermione com certeza teria adquirido a tonalidade dos cabelos de Ron se as duas continuassem com os elogios. Contudo, naquele instante, Harry reapareceu.


- Aaron já está vindo e... Professora McGonagall?! – ele arregalou os intensos olhos verdes ao ver a diretora.


- Potter, quanto tempo também não o vejo. – a mulher saudou-o com um aceno de cabeça. – Mudou bastante, pelo visto. Está bem mais alto e não está mais usando os óculos.


- Agradeça à medicina com suas cirurgias de correção. Não aguentava mais aqueles negócios, me atrapalhavam muito, ainda mais jogando. – ele respondeu, sorrindo.


- Aposto que estava se lembrando dos seus próprios tempos naquele campo. – Uma sombra de sorriso perpassou pelo canto dos lábios finos e firmes da diretora. – Nunca esquecerei aquele time da Grifinória. Com certeza foi o melhor que esse colégio já viu.


- Definitivamente. Foi ótimo ter feito parte daquele grupo. Hoje me senti dentro de campo novamente. Foi bom ter vindo, mesmo com minha rotina louca e apertada.


   Uma nova figura surgiu. As longas vestes negras e o longo cabelo oleoso eram inconfundíveis. Severus Snape, o dono do título de professor mais odiado de Hogwarts, apresentava quase o mesmo rosto macilento, com apenas algumas rugas a mais as quais não existiam na época de Hermione.


- Diretora, é bom a senhora vir comigo. O corredor da ala leste está ficando com um clima... ah, tenso com a presença dos alunos das casas que acabaram de jogar. – O tom frio e arrastado continuava bastante presente em suas palavras. Naquele momento, ele percebeu a presença dos três ex-alunos. – Ora, vejam só, senhoritas – seus olhos cor de ébano percorreram lentamente o rosto das mulheres, depois recaíram-se à esquerda de McGonagall. – e... Potter.


   Logo no primeiro dia de aula que Hermione e os melhores amigos tiveram com Snape, ficou bem claro que ele detestava Harry. Aparentemente, não havia motivo algum, porém depois os três descobriram que o professor e James Potter eram inimigos quando estudaram no instituto. A extrema semelhança entre pai e filho reacendera o ódio de Snape, fazendo-o direcionar tudo a Harry, apenas uma vítima no meio de tudo.


   E Snape tinha acabado de dar uma demonstração que os sentimentos continuavam intactos.


- Snape. – Harry disse num tom baixo, mas que mostrava que, embora seu respeito à McGonagall continuasse, ele não fazia mais nenhuma questão de chamar o homem de professor uma vez que já não estudava mais lá.


   Hermione sabia que o olhar que o melhor amigo lanço ao professor de Química carregaria rispidez, porém assustou-se ao ver puro desgosto e escárnio brilhando nas íris verdes.


   Deus, fazia anos que os dois não se viam, e ela achava que as palavras frias e ácidas lançadas um ao outro caracterizassem apenas uma relação professor-aluno às avessas. Por que aquele olhar? Por que Harry agia daquele jeito?


   E se houvesse algo por trás que seu amigo não lhe tivesse contado? Com algo incômodo preso na garganta, Hermione concluiu que aquela não seria a primeira vez. Aliás, fazia um tempo que o moreno não lhe confidenciava mais nada.


- Então, – Delinda começou, seus olhos indo de Snape ao irmão; claramente também notou a atmosfera pesada que ia se formando. – Aaron acabou de sair do balcão de informações, podemos ir?


- É, e a professora McGonagall tem problemas a resolver. – Hermione emendou, lançando um sorriso amável à diretora. – Até mais, professores.


- Até.


- Foi bom vê-los, queridos. – a diretora disse antes que os três se afastassem e fossem encontrar com Aaron.


   Harry continuou carrancudo depois que os quatro saíram do prédio. Hermione ia dizer algo para tranquilizá-lo, porém desistiu ao ver o olhar torto que ele lançou à Delinda quando ela disse algo. Se ele reagiu daquele jeito tendo uma relação ótima com a irmã, imagine o que não faria se fosse ela a dizer algo, considerando que os laços fortes, resultado de quatorze anos de convívio, afrouxavam a cada dia num ritmo mais rápido.


- Bem, é aqui que ficamos. – Aaron disse ao parar perto de seu carro. – Ou eu e Herms ficamos. Já está quase na hora do almoço... por que não saímos os quatro para um restaurante legal? Sabe, comemorar a vitória da nossa eterna casa e o último dia desses dois – ele apontou para a irmã e o guitarrista. – antes de sumirem pelos próximos meses?


- Adoraríamos. Coroaria esse nosso encontro não marcado, mas prometemos à minha mãe que iríamos para lá. – Delinda respondeu tranquilamente. – E justo por isso que você acabou de dizer, Aaron, é que devemos ir. Imagine como minha mãe ficaria se não passasse o último dia de folga do filho dela com ele? – emendou, revirando os cabelos do irmão, que revirou os olhos, ainda irritado.


- Verdade. Lily é uma pessoa amável, mas não é nada aconselhável vê-la zangada. Bem... Tchau para vocês, então.


   Os quatro se despediram. Harry e Delinda seguiram caminhando e os Granger entraram no carro.


   Aaron informou que iriam ao restaurante italiano preferido de Hermione, o que a fez ficar um pouco alegre, mas nada que fizesse seus pensamentos em torno de Harry desaparecerem completamente de sua mente. Ela continuou pensativa e calada até chegarem ao local, onde Aaron não aguentou mais a pose da irmã enquanto esperavam os pedidos.


- Um milhão de libras pelos seus pensamentos. – disse num tom divertido, o que a fez erguer o olhar do guardanapo.


- Que pensamentos?


   A expressão descontraída que surgiu no rosto dele desapareceu, sendo substituída por uma repleta de preocupação.


- Algo está te perturbando, não está? Você está sim desde quando estávamos indo para Hogwarts. Estava tão feliz contando sobre o noivado... E quando chegamos ao colégio você ficou calada. O que há com você, minha irmã?


   A ideia que viera mais cedo sobre desabafar com o irmão voltou com força total. Cada célula de seu corpo sussurrava-lhe incessantemente para botar tudo para fora.


- Eu não sei... – ela mordeu o lábio inferior, ilustrando a expressão pensativa e preocupada que estampava seu rosto. – Às vezes, eu acho que o Harry está agindo estranho.


- Estranho como? – o homem ajeitou-se na cadeira e pôs as duas mãos cruzadas sobre a mesa.


   O olhar dela perdeu-se no ambiente ao seu redor. Olhava tudo, mas não via nada de fato. Os pensamentos foram a mil mais uma vez naquelas últimas semanas. Tal esforço contínuo e aparentemente interminável exigia muito de seu cérebro, que não tinha tempo para se recuperar entre uma reflexão e outra. O resultado era que sua cabeça estava doendo desde o dia anterior, um leve latejar, que poderia servir de aviso para fazê-la parar com aquilo.


   Ela virou-se para fitá-lo diretamente no rosto.


- Como se ele estivesse escondendo algo. O pior de tudo é que existe certa dúvida em relação a isso. Quer dizer, eu sempre conheci muito bem o Harry, de tal maneira que bastava olhá-lo nos olhos que eu poderia dizer que tinha algo errado... Mas agora eu nem tenho certeza se de fato há algo errado com ele. Parte de mim diz que tem, mas outra reluta a acreditar... E nem sei por quê. É quase como se ele estivesse se escondendo, sabe, e de mim... De mim! Eu, a melhor amiga dele, a garota que jurou que estaria sempre lá para ajudá-lo com qualquer coisa. Agora parece que tudo isso foi por água abaixo!


- Já parou para pensar na situação dele, Hermione?


   A morena lançou um olhar inquisitivo na direção do irmão. Ele, por sua vez, abriu um breve sorriso e aproximou-se, descruzando os braços.


- Vai ver tem sim tem algo de errado com ele que ele está escondendo. E isso pode ser algo ruim, forte, e que pode mudar alguma coisa e, por isso, difícil de contar. Você pode estar exagerando um pouco, sabe. Dê a ele espaço e tempo. Quando ele se sentir pronto, irá conversar com você devidamente e explicará o que quer que esteja errado. Ele ainda não parou de confiar em você.


   Hermione abriu um pequeno sorriso ao sentir a mão esquerda dele envolvendo as suas que brincavam com o guardanapo. Ela desviou o olhar, repousando-o naquele rosto que, embora não o tenha visto por meses, sabia que sempre lhe serviria como porto seguro para suas divagações loucas.


- Tem certeza?


- Absoluta. – ele depositou um beijo nas costas da mão esquerda. – Porque tem que ser muito tolo para parar de confiar em alguém como você, que faz qualquer coisa pelos amigos. – os olhos castanho-claros voltaram-se para baixo de novo. – Aliás, esse anel é lindo. Nick tem um bom gosto. Já têm previsão de quando vai ser o casamento?


   As engrenagens dentro da mente de Hermione estalaram, e ela sobressaltou-se de leve na cadeira enquanto seus olhos se arregalavam em algum ponto atrás do irmão.


- Meu Deus! O casamento! Ele! – exclamava incoerente. – Aaron! E se... e se eu não conseguir me acertar com... Porque eu o quero como meu padrinho, eu o quero ao meu lado no momento mais importante da minha vida. Não posso fazer isso se eu não estiver cem por cento de bem com ele.


   O moreno deu um sorriso tranqüilizador.


- Relaxa, Herms. Você está surtando demais por causa do presente. Harry só está vivendo uma fase ruim, só isso. Ele não mudou... Até porque eu sou daqueles que acredita que não acredita em mudanças. Não radicais, ao menos. O mundo pode mudar, mas a essência continua a mesma. Volte ao passado, atenha-se mais a ele. Lembre-se do Harry de lá, que é o verdadeiro e aquele que você conhece.


   Ela também sorriu de leve, deixando que a calmaria dele passasse para dentro de si. Deveria estar ficando paranóica mesmo, afinal, com um irmão maravilhoso que tinha tirado o dia de folga apenas para vê-la e estava se preocupando excessivamente com o guitarrista? Além disso, aquele era seu último dia em sua cidade natal e com sua família? Iria destruí-lo por algo que apenas seus olhos viam?


   Não, iria aproveitar o máximo possível. E foi o que fez a partir daquele momento.





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N/A: Nem acredito que finalmente postei! Sério, esse cap tava me consumindo toda e não conseguia fechá-lo x.x Pensei até em deletá-lo, mas o conteúdo dele é muito importante. E, sim, também sei que ele foi entediante e maçante com todos esses paragráfos detalhados, mas eu realmente senti os impulsos de adptar a história original a essa UA. E eu gostei disso, sabe-se lá por que. Todo esse processo da descoberta musical na época do colégio, o começo da amizade, o começo da banda... tudo isso ainda vai ter seu peso no futuro da fic. Ainda assim, me desculpem se os chateei. Prometo que o cap 6 vai estar melhor! Aliás, ele está praticamente pronto, só esperando seu dia de postagem :D Agora sim posso dizer que as coisas vão ficar mais... interessantes. Brace yourselves Muhahahaha Beijos!

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