Logo após Harry desaparatar, eu fiz o mesmo e num átimo estava na garagem de casa. Pude ouvir um burburinho vindo da cozinha e estranhei. Rose e Hugo não fariam sozinhos aquele barulho todo.
Abri a porta e encontrei James buscando a jarra de suco na geladeira.
- Olá, tia Mione – ele me cumprimentou.
- Olá, querido – ainda confusa, aproximei-me e beijei-o no alto da cabeça. – Quer dizer que você veio bagunçar por aqui hoje?
- Ele está se comportando, tia Mione – Lily garantiu ao adentrar a cozinha.
- Se você diz, Lily, eu acredito – eu pisquei para a pequena ruivinha e os acompanhei até a sala, onde estavam Ron, Ginny, Rose, Hugo e Albus, todos sentados no tapete em torno da mesinha de centro da sala.
- Ora, vejo que os pequenos Potter transferiram a sede da bagunça da casa da vó Molly para a casa do tio Ron – eu disse comentei.
- Desculpe-me a bagunça, Mione – Ginny disse, pondo-se de pé.
- Não se preocupe, Ginny – eu disse, abanando a mão despreocupadamente. – Estamos todos em família!
- Eu disse para ela não se preocupar, Mione – Ron disse. – Mas é Ginny, e você sabe como ela sabe ser teimosa quando quer...
- Eu sei – assenti, entre risos. – Vocês ficam para o jantar? Quero dizer, eu acabo de encontrar Harry saindo do Ministério e acho que ele não sabe que estão aqui.
- Eu deixei um bilhete em casa para que viesse. Muito provavelmente ele virá depois de se trocar – Ginny disse.
- Eu não sei, Ginny, ele parecia realmente esgotado – eu disse e percebi uma sombra de preocupação perpassar o rosto de Ginny. Ron, por sua vez, pareceu menear a cabeça, concordando. Ele também andava bastante cansado e preocupado nos últimos tempos, até distante, e por mais que eu questionasse, tal como Harry, ele mantinha silêncio. – Bem, eu também estou, mas nada que um bom banho não resolva. Se me dão licença...
- Claro, Mione! – Ginny sorriu. – Fique à vontade. Não se incomode conosco.
Eu sorri de volta e rumei para as escadas.
- Será que Harry está bem? – ouvi Ginny indagar, mas não obteve resposta de Ron. – Eu vou ligar para casa...
Era mesmo o melhor a ser feito. Talvez Harry precisasse dela. Ou talvez ele apenas precisasse ficar sozinho e descansar. Eu não sei bem o que ele preferiria. Em outro momento, sei que ele teria me procurado para conversar, me dizer o que estava se passando e dividir suas preocupações comigo, mas, por algum motivo, dessa vez ele preferira manter o que o afligia em segredo. E Ron também.
Não me parecia se tratar somente das investigações acerca do incêndio. Parecia haver mais do que eles estavam contando.
Balancei a cabeça como se isso espantasse os devaneios. Aquilo era assunto de trabalho deles e eu não deveria me meter, ainda que o Quartel General de Aurores fosse um subdepartamento do departamento pelo qual eu era a responsável.
O problema é que aquilo, além de meu próprio trabalho, estava comprometendo a harmonia de meu casamento. Ron estava realmente aéreo, por vezes parecia até mesmo perdido, angustiado, e isso decididamente não era normal. Eu me preocupava com ele.
Após o banho, soltei os cabelos e vesti uma grossa blusa de linho marrom de mangas compridas e uma calça bailarina, calcei meias e uma sapatilha que usava somente em casa. Estava o mais à vontade que o clima permitia. Desci as escadas e encontrei Rose, Albus e James entretidos em uma emocionante e barulhenta partida de Exploding Snap e Hugo e Lily disputando uma gloriosa partida de Xadrez Bruxo sob os olhares atenciosos de Ginny.
- Onde está Ron? – perguntei à minha cunhada.
- Está na cozinha com Harry. Ofereci-me para ajudar com o jantar, mas eles recusaram qualquer ajuda – a ruiva respondeu.
Eu ri.
- Eu vou até lá resolver isso – eu disse e Ginny também riu.
- Boa sorte com isso – brincou e voltou as atenções para o jogo.
Eu alcancei a porta da cozinha em poucos segundos e antes que eu pudesse entrar, ouvi o início da conversa que ali se passava:
- Não acho que Mitchell fosse se arriscar a ser encontrado assim – Ron disse. – Harry, o cara sabe que está sendo procurado. Ele já sabe que fomos a Carlisle atrás dele e que prendemos o homem errado em seu lugar e ele não é burro... Ele sabe que nós já sabemos que ele ainda está por aí.
- E quem mais teria colocado fogo naquela casa, Ron? – Harry indagou.
- Eu não sei! – havia uma nota de desespero na voz de Ron e eu não deixei que isso passasse despercebido. – Mas ele não daria sinal de sua localização assim. Ele nunca facilitou nosso trabalho. Nós temos experiência o suficiente com isso para nos deixarmos enganar. A única coisa que sei é que não foi Mitchell quem causou esse incêndio.
- Tudo bem, talvez você esteja certo – Harry disse. – Mas nós temos que pegar ele o quanto antes. Todos pensam que ele já está em Azkaban há pelo menos dois meses!
- Eu sei, e nós estamos empenhados nisso – Ron garantiu. – Agora deixemos para discutir isso no trabalho antes que alguém escute alguma coisa.
- Tem razão – Harry concordou. – Eu vou levar os pratos para a mesa.
Eu não podia acreditar no que eu acabara de ouvir. Henry Mitchell, o homem cuja captura Ron, Savage e Williamson eram os responsáveis estava à solta? Então eles haviam pego o homem errado... Mas como? O homem que fora preso era exatamente idêntico ao retrato falado que tínhamos de Mitchell. Como poderia não ser ele?
Antes que ele pudesse deixar a cozinha, eu adentrei o aposento, esforçando-me para não parecer que havia escutado a conversa que acabara de se passar ali.
Harry estava de pé ao lado da mesa da cozinha e tinha uma enorme toalha dobrada pendurada em um dos ombros e uma pilha de pratos bem segura em suas mãos.
- Não precisa se incomodar, Mione, temos tudo sob controle – Ron me disse.
- Ginny me disse que vocês dispensaram a ajuda dela, mas eu faço questão, afinal, eu ainda sou a anfitriã e você, Harry, o convidado – e, dizendo isso, tomei a toalha que estava no ombro dele e a pendurei no braço, em seguida pegando também a pilha de pratos.
Quando finalmente deixei a cozinha, parei no meio do corredor, fechando os olhos e respirando fundo. Eu nem imaginava o que poderia significar Henry Mitchell estar ainda à solta e nem queria imaginar. Não quando ele sabia os nomes dos responsáveis pela sua suposta captura.
◊ ◊ ◊
Harry, Ginny e as crianças haviam saído há pouco mais de meia hora. Assim como nós, estavam cansados. Na noite seguinte nos encontraríamos novamente n’A Toca para o jantar de despedida dos pequenos Weasley que retornariam à Hogwarts.
Eu já colocara Hugo na cama enquanto Ron guardava os jogos e a louça que eu já lavara. Agora eu estava com Rose. Estávamos as duas sentadas à cama dela e conversávamos.
- ... e James escapou por pouco da detenção – ela me contou. – Se o professor Longbottom não tivesse aparecido, provavelmente James teria ficado em apuros. Ele sempre fica fora da cama após o horário, mas sempre consegue escapar. Parece conhecer aquele castelo como a palma da mão!
- James não tem jeito! – eu comentei, sorrindo enquanto balançava negativamente a cabeça.
- Não mesmo! Tão diferente de Albus...
- São três crianças completamente diferentes, Rose. Os três, James, Albus e Lily – eu disse. – James parece ter herdado não somente o nome do avô e do padrinho do pai deles, mas o espírito fiel à bagunça. É um verdadeiro maroto! Está no sangue dele. Seu tio George e o gêmeo dele, Fred, também eram assim nos tempos de escola – contei. – Aliás, você vê até hoje como são as coisas quando estão reunidos Bill, Charlie e George.
- Uma grande bagunça! – Rose concordou.
- Exatamente – concordei. – Já Albus é uma criança mais tímida e é muito inteligente. E Lily... Lily é a meiguice em pessoa, embora tenha tendências tempestuosas como a mãe. E, posso estar enganada, mas tenho certeza de que a Casa para a qual for selecionada terá uma excelente artilheira muito em breve.
- Certamente. Já até posso ver... James, Lily, Fred, Hugo e Lucy, todos no time de Quadribol da Grifinória. E Louis, é claro, no time da Corvinal.
Lucy, filha de Percy e Audrey, assim como James, estava em seu quarto ano em Hogwarts e fora selecionada para a Grifinória. Louis acabara de entrar para a escola e, por sua vez, fora selecionado para a Corvinal. Fred, Lily e Hugo somente entrariam em setembro próximo.
- Não sabemos para que Casas seu irmão e seus primos irão, querida, mas certamente serão bem sucedidos em quaisquer que sejam – eu disse, sem querer acabar totalmente com as esperanças de Rose, afinal eles poderiam, sim, ser selecionados para a Grifinória. Então mudei de assunto: – Soube que Scorpius também é muito bom – eu disse.
O sorriso de Rose sumiu, mas ela assentiu.
- É, ele é um dos favoritos para assumir a vaga de artilheiro que vai ficar em aberto no time da Sonserina no próximo ano – disse.
- E como anda você com relação à amizade entre Albus e ele? – questionei.
- Apesar de ser um tanto quanto prepotente e arrogante com algumas pessoas, ele me trata bem – ela respondeu, sem realmente me olhar. Estava mexendo distraidamente na colcha de sua cama e os olhos estavam inquietos.
- Hum, então ele te trata bem? – repeti.
- É, ele me oferece doces, pergunta como eu estou e até já me chamou para sentar com Albus e com ele na biblioteca – Rose contou.
- Isso me parece uma coisa boa, não? Quero dizer, ele não está tentando te afastar de Albus...
- Eu sei, mas...
- Ele só está tentando se aproximar de vocês, Rose – eu concluí. – Por que não permite que ele se aproxime? Ele não precisa ser como o pai dele, certo? Ou como o seu pai diz ser o pai dele.
- E então, como estão as minhas garotas? – Ron nos interrompeu, adentrando o quarto.
- Rose já está indo dormir – eu respondi, piscando para ela e depois me levantei, voltando-me para fitar o meu marido. Rose rapidamente puxou as cobertas e se cobriu, deitando-se confortavelmente em seu travesseiro. – Boa noite, querida. Durma bem.
- Boa noite, mamãe, papai – ela disse e nós a beijamos antes de apagar as luzes e deixar o quarto dela.