Saber seu nome foi como o dia em que desarrumava minhas malas assim que adentrei meus novos aposentos como professor pela primeira vez. Os conteúdos todos empilhados na mesa, sem uma ordem correta, mas decerto alinhados como os planetas. Planetas que refletiam em seus olhos, pequena Dolly, patinando em Saturno ou balançando no suingue de Marte. A escolha, querida, não é mais minha, e há muito tempo passou a pairar em suas mãos. Quem me dera eu fosse o escravo; o que eu sou está abaixo disso: escravos não idolatram seu senhor como eu me curvo de joelhos a ti. Era mais como um pequeno cachorro vira-lata, como se você houvesse me salvado de uma vida que eu não queria e me dado casa. Mas ora, querida, minha rotina andava em linha reta antes de você chegar, aos tropeços e lentamente, mas de fato andava de modo retilíneo. E você adentrou como uma Vênus, colocando pontos e vírgulas e pausas no meu desejo imperdoável.
Livros. Lembro-me de livros. Muitos deles, embaixo das camas para dormirem junto aos monstros e espantá-los. Minha teoria é que nem mesmo os mais ferinos demônios conseguem espancar a beleza de um livro, e assim os temem. Trajado em minhas vestimentas exageradamente caras, eu arrumava meus livros como se fossem filhos. Maurício, era meu nome. Um guru intelectual que fumava cigarros demais. Dormi naquela noite com um livro cutucando-me as orelhas. E adormeci ao seu lado, sem nem saber, entretanto sem a tormenta de sua presença. O dia seguinte batia na porta, e eu sussurrei olá, um olá felizardo, com uma dose de uísque e um cachimbo fumado, mas decerto era um cumprimento alegre.
Ah, se eu soubesse a dor que todo aquele maldito dia me traria, talvez me arrependesse de ter existido. Existir, entretanto, longe de você, é tão errôneo com voar em minha infância. As volúpias de seus toques sempre foram incomparáveis, e as comprei com muito sofrimento e suor, ah, Lolita... Nossa sina nasceu num nome e num autor. A mais bela das vidas se curvava diante da possibilidade de nosso amor, como uma pêra a ser mordida por um vampiro. Os fatos se misturam como uma cremosa poção, semelhante a uma sopa, tão convidativa e venenosa. Eu colhia-lhe cogumelos alucinógenos ao invés de flores, e você me entregava arranhões no lugar de beijos. Entristece-me a perspectiva disso tudo não passar de loucura, um personagem que inventei, pois eu nunca fui Humbert. Mas a penugem loira de seus braços não me deixa mentir...
A cerimônia começava pontualmente, e eu jazia em frente ao espelho, a admirar meus cabelos. Sou um homem de aparência tolerável, mas se há algo em mim que é válido, são meus cabelos. Terminando de alisá-los, desci pelas escadas teimosas, em rumo ao grande salão. Foi lá onde tudo começou. Postei-me no meu lugar, esperando tediosamente os alunos entrarem. Francamente, interessava-me mais pairar em meu quarto a ler um grande romance de Tolstoi, a ansiedade prévia do dia anterior desaparecera por completo. Mas a obrigação martelava em minha mente, e então eu estava lá. Antes de podermos nos alimentar, entretanto, havia a tão aclamada (por outros) grande Seleção, onde os primeiranistas seriam selecionados para as definitivas casas. Nada me interessava esse tipo de evento, então apenas continuei mexendo em minhas mãos despretensiosamente.
Foi no meio de pensamentos vazios, então, que eu ouvi seu nome.
Ah, Lolita... Que nome doído que tinha. Que nome! Nossa prisão, nosso pecado, tudo graças a seu nome. Amaldiçôo e rezo todos os dias a sua mãe por ter escolhido esse e não outro, minha doce criança, por sem ele não haveríamos nos amados. Alguns amores nascem em metáforas, e o nosso floresceu num nome. Do-lo-res...
― UMBRIGDE, DOLORES.
Eram três palavras, tais como três sílabas em seu apelido. Assim que as vibrações lamberam meu ouvido, levantei-me como um tigre e procurei a quem elas se referiam. Uma menina de cabelos longos e ondulados, como Vênus, e corpo miúdo e pálido se dirigia ao banco onde o Chapéu Seletor estava colocado. Assim que sentou-se, observei seus joelhos; Dolores (eu ainda não conhecia seu lado Lolita) tinha joelhos pontudos, como armas que cortariam a primeira pessoa que se atrevesse a colocar-se entre eles e algum objetivo. Tinha lábios estreitos e olhos arredondados, como duas bolinhas de gude castanhas. Seu nariz escondia-se no rosto, sem causar grande impacto, o que criou em minha mente idéias de que talvez ela fosse reservada. Tolice, basear-se na personagem de alguém por seus traços. Logo tive certeza de que ela era uma ninfeta. Soube então que dançava nas profundezas de meu sonho, e que todas as mulheres que eu tivera eram apenas um reflexo, um treinamento para o que viria agora. Sentei-me. Algo dentro de meus órgãos doía, torcendo-se.
― SONSERINA! ― Gritou o Chapéu, e a mesa toda aplaudiu com entusiasmo. Surgiu em mim uma vontade súbita de aplaudir também, aplaudir a presença dela em minha vida, ela que sem nem me olhar já havia me causado náuseas. Nada fiz, entretanto. Nada fiz que não fosse observá-la durante o jantar inteiro, o modo gracioso com que comia, movendo a comida da bochecha esquerda (sempre a esquerda primeiro!) para a direita, vagarosamente... Coletava esses pequenos detalhes com tanto prazer que era quase sexual, eu estava invadindo-a e ela nem ao menos sabia. Um segredo, era tudo um segredo... E assim permaneceria. Através das cortinas ninguém espiaria, mas atrás delas... Bem, estaríamos sós. E eu fazia milhares de planos, maquilando minha vontade dela com medos e ambições para o futuro. Dolly... Dolly tinha uma feição de tédio. Sua voz eu ainda não havia ouvido, mas seus sussurros já adormeciam em minha orelha, tão baixos por serem segredos, e tão secretos que nem mesmo eu sabia o que significavam. Ah, Lolita... Seria você minha alma? Vinha você iluminar minha vida, ou arruiná-la?