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1. Capítulo Único
Fic: O Dia Que Nunca Chegou - U.A. - FEMME - FleurxGina
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O Dia Que Nunca Chegou
Elevadores, telefones, máquinas. Muitas máquinas. Chegamos junto com a eletricidade e tecnologia em Nova Iorque. Nada daquilo me seduzia, pois em meu país tudo já deixara de ser novidade. Ah, França! Minha querida France. Meu lar! Partimos de lá depois que papai quebrou. Era demais para seu orgulho de homem ter de encarar nossa sociedade; nossos amigos - ou aqueles que se diziam – depois que, infantilmente, investiu em um mau negócio.
“Tudo há de melhorar” – dizia mamãe.
Não melhorou. Mudamos.
A casa não era a mesma, a comida não era francesa. Tudo perdera o sabor e cor.
Agarrei a mão de Gabrielle para que não se perdesse em meio aos saiotes e sapatos altos e baixos. Marchávamos na Greene Street, como soldados indo pra guerra.
Primeiro dia de trabalho.
O Asch era alto. Possuía dez andares, a Shirtwaist funcionava nos três últimos andares daquele edifício, iríamos trabalhar ali, sustentaríamos nossa família nada acostumada à pobreza, Gabrielle e eu. Mamãe cuidaria de papai, que caíra numa depressão profunda. Havia meses que procura por emprego ou fingia procurar, chegava tarde, bebia, apanhava na rua. Mamãe chorava. Mamãe cozinhava para fora, mamãe limpava casa, mamãe lavava banheiros. Por que não poderíamos ajudá-la?
Ajudamos mamãe. Misturamo-nos a outras centenas de jovens, muito delas estrangeiras como nós. Prostrávamo-nos à frente das máquinas, os pedais, apertávamos. Quatro e quarenta e cinco preparávamos para voltar para casa. Conheci Genevra, uma inglesa, por lá. Seus sapatos eram gastos e rasteiros (o que facilitava seu desempenho com pedal), ensinou-me como operar a máquina.
1
“Faça assim. Faça assado”, dizia ela, sorrindo ao ver minha falta de jeito.
Ignorei-a. Era pobre. Desmaquilada. Gostava de rir de meu sotaque e de meu jeito burguês e soberbo, assim me disse ela.
Detestava-a dia após dia, mas tolerava sua presença indesejada por me ajudar quando a máquina engasgava.
“É só fazer assim” - disse atrás de mim, seus cabelos (vermelhos e descuidados) caíram em meus ombros. Senti repulsa pelo cheiro de xampu sem marca e não escondi isso, ela recuou arrependida por querer me ajudar. Ouvi-a dizer qualquer coisa de eu ser uma esnobe, uma vaca. Chamou-me Fleuma, e saiu pra fumar seu cigarro.
Fumava tanto quanto uma maria-fumaça. Como podia? Se ao menos o tabaco fosse francês, entenderia.
Era vez dela me ignorar. Quando havia um problema, fingia não me ver. E eu, orgulhosa como papai, não pedia por sua ajuda. As coisas ficaram difíceis na fábrica e em casa, produzia poucas peças, ganhava menos de sete dólares por dia. Gabrielle também ganhava pouco. E papai continuava a gastar em bebidas e até conheceu o vício do jogo e das mulheres de esquina. Mal comíamos, não agüentávamos ficar em pé. Passei mal uma vez, desmaiei enquanto costurava.
Costurei meu dedo ao tecido de roupa sem qualidade (me disseram), acordei com Ginevra limpando meu sangue. Senti vergonha. Arrependida pelo modo que a tratava. Chorei baixinho, sem perder a classe, é claro.
“Vou levá-la pra casa.”
Desesperei-me e pedi para que fosse embora e me deixasse sozinha; recusou-se em ir, era teimosa. Chorei e ela me abraçou.
“Ficará tudo bem, venha comigo.” – disse olhando em meus olhos.
“Não quero ir pra casa. Não quero. Tenho trabalho.”
“Trabalhar com dedo assim? Vai ter que ir embora.”
“Não posso... Não posso perder o dia! NÃO POSSO!
“Shh, vamos pra minha casa.”- silenciou-me com seu dedo.
“Obrigada pela ceia.”, agradeci.
“Volte amanhã.”
Voltei. Comi da mesma comida (eram as sobras), porém o tempero era igual. De lamber os lábios. Comi com dedos. Ri com eles. Ri deles. Caminhei no jardim na luz do luar com Gina.
“O que uma jovem como você faz naquela fábrica?”, perguntou-me. Um silêncio constrangedor tomou conta do ar, ela continuou percebendo que eu não falaria: - Você é delicada, machuca-se fácil, suas mãos são lisas, sem calos, seu cheiro é doce, é jasmim. Não entendo, não entendo como trabalha lá. É nojento aquele lugar, você não gosta de coisas assim... que cheiram mal. Nem gosta do cheiro de meus cabelos, lavo-os todos os dias, fique sabendo.”
“Seu cabelo é despontado - falei com sinceridade, não sou de mentir e não mentiria pra ela nem para ninguém. - Não gosto de seu cigarro.”
“O que tem de errado com meu cigarro?”
“Fede.”
Ela riu. Aquilo me deixou irritada. E pra piorar, pegou um cigarro e o acendeu. Tragou vagarosamente, soltou a fumaça em meu rosto. Tossi. Queria esbofeteá-la, mas quando me aproximei, segurou minha mão machucada me machucando, e obrigou-me a cheirar seus cabelos.
“Continua a desgostar?”
Não respondi. Tragou novamente. Esperei que mais uma baforada de fumaça chegasse em minhas narinas para então brigarmos, mas se virou de lado, deixou cair o cigarro apagado. Olhou-me nos olhos.
Me beijou.
Gina era toda nicotina. Viciosa. Chamas da boca aos cabelos. Veneno. Beliscava meus seios, atormentava-me com seus dedos; seus cabelos – nada sedosos – percorriam minha pele, meu sexo. Desejo.
Afastei-a. Aproximou-se. Beijamos-nos. Transamos.
“Venha amanhã” – mandou quando terminamos. Minhas mãos trêmulas abotoavam os botões que ainda restavam. Parti, sem olhar para trás, sem me despedir. Sequer retribui seu sorriso lascivo. Sorriso que atormentou meus sonhos.
Não apareci em sua casa. Na fábrica a evitava. Tinha vergonha. Também havia outros motivos. Trabalhava em dobro agora. Assim como a mim, Gabrielle passara mal, mamãe e eu decidimos que ela não retornaria para fábrica, que ficaria a tomar conta de casa, ajudar com papai. Só.
Comecei a chegar antes para poder largar às quatro. Não era benefício, mas houve quem pensasse que fosse. Olharam isso com maus olhos. “Uma novata sair cedo? Deita-se com o chefe.” Os olharres acusatórios me seguiam, deixaria tudo, mas as contas, que sempre chegavam aos montes, não me deixavam tomar tal atitude, tinha que pagá-las, tinha de sustentar Gabrielle, e ajudar mamãe. Tinha de ser papai.
Gina me evitava, isso doía.
“Não acredita no que dizem, não é?” – perguntei-lhe, quando saíra para fumar seu cigarro às escondidas.
“O que importa?” – disse sem me dar importância.
“Tudo importa, eu me importo. QUE DROGA, GINA – arranquei o cigarro de seus dedos e o joguei longe. – OLHE PARA MIM. OLHE! Veja se estou mentindo. – minha voz saiu falhada. Meu coração palpitava rápido, respirava com sofreguidão, temerosa quanto à recusa dela. Temia que duvidasse de mim.
“Você não mente? Nunca mente? – perguntou-me sem tirar os olhos dos meus.
“Nunca.”
“Gostou da forma que a toquei naquele dia?” – o máximo que consegui foi assentir com a cabeça, fora suficiente para ela. Suas mãos afagaram meus cabelos, seus lábios massagearam os meus – “Gosta disso?”
Sussurrava seu nome. Dizia amá-la. E nos amamos enquanto as máquinas ao fundo trabalhavam sem cessar.
“Você é minha! Só minha, não aceito a ideia de que haja um outro alguém...”
“E não há!”
“Demita-se.” – ordenou-me.
“Não posso... não posso...” – Gina afastou-se de mim com raiva, não esperou que lhe explicasse que aquilo era importante... que aquele emprego que cheirava mal, pagava mal era realmente importante para minha sobrevivência.
Às quatro horas fui para casa. Falaria com ela no outro dia, colocaria os pingos nos “is”. Mas... Se soubesse que não teria um outro dia, correria atrás dela, a tomaria como minha, em meus braços, para que todos nos vissem. Faria isso... Ah, faria! Minha Gina, minha ousada e destemida menina, que viciou-me com sua fumaça, menina que queimou-se nas chamas, dia 25. Que partiu antes daquele que nunca chegou.
Fim
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Comentários: 2
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| Enviado por Re Status em 29/05/2012 |  | *____________________* ah, tinha que morrer... não tinha como :p Brigada por ler, Mi!! | | Nota: 5 |
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| Enviado por MiSyroff em 26/05/2012 |  | Nossa, realmente de tirar o fôlego! Fiquei pasma com o final, e queria tanto que não tivesse sido assim... Parabéns mesmo, adorei! | | Nota: 5 |
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