Eu coloquei um descansador no centro da mesa e dei uma olhada no pernil. Estava quase pronto. A mesa já estava pronta com todos os acompanhamentos servidos. Restava esperar que os convidados não demorassem a chegar. Fui à cozinha e tirei um vinho da adega. Assim que adentrei a sala, a campainha soou.
- Hugo! Ron! – chamei e logo os dois me faziam companhia.
Abri a porta. Eram Molly e Arthur Weasley.
- Hermione, querida, feliz aniversário! – Molly me cumprimentou com um de seus abraços esmagadores.
- Feliz aniversário, Hermione – Arthur, sempre mais contido, me cumprimentou. E entregou o presente que trazia em mãos.
- Espero que goste, querida – Molly disse.
- Obrigada, Molly, Arthur – agradeci. – Entrem, por favor.
Antes que eu pudesse fechar a porta, vi o carro de meus pais parar à frente de casa e os aguardei. Enquanto isso, os estalidos que vinham do lado de fora da casa, em algum ponto escuro e seguro de meu jardim, anunciavam a chegada de Harry e Ginny.
- Mione! – Ginny foi a primeira a alcançar a soleira da porta. – Feliz aniversário!
- Obrigada, Ginny – eu disse e sorri para a ruiva.
- Feliz aniversário de novo, Mione – foi a vez de Harry me cumprimentar.
Eles estavam acompanhados por Lily, a caçula.
- Feliz aniversário, tia Mione – Lily disse, meiga, e me entregou o presente. Abaixei-me para abraçá-la e sorri calorosamente quando nos afastamos.
- Obrigada, querida. Entre, Hugo está na sala te esperando.
Em seguida vieram os meus pais. Os cumprimentos aqui foram mais simples, sem cerimônia, pois já havíamos almoçado juntos.
- É, acho que já estamos todos aqui – eu disse. – O pernil está quase pronto.
Durante os minutos seguintes, toda a configuração da sala se alterou. Ron e Harry conversavam de pé a um canto, Molly e Ginny estavam acomodadas em um dos sofás, meus pais conversavam com Arthur, e Hugo e Lily pareciam realmente entretidos em uma partida de Exploding Snap.
Eu era a única sem companhia e facilmente podia me encaixar em qualquer lugar ali. Eu só... não queria. As coisas pareciam ser sempre as mesmas, as pessoas eram as mesmas desde os seus onze anos de idade, desde os meus onze anos de idade. Nada mudava. Nada. E isso, por algum motivo, me incomodava.
Tudo bem, eu deixara o Departamento para Regulação e Controle das Criaturas Mágicas e começara a trabalhar no Departamento de Execução das Leis da Magia, Ron fora promovido de amigo a namorado e então marido, eu tivera dois filhos... Bem, todos se casaram e tiveram filhos, mas era só.
A única coisa que mudara fora a minha relação com Ginny. Eu sabia que eu continuava sendo a mesma pessoa, e o mesmo se aplicava a ela. Ela não mudara, continuava sendo a mesma mulher forte, decidida e leal de sempre. Eu adorava a companhia dela, mas quando Harry não estava presente.
E isso eu sabia explicar. Ginny passara de amiga a cunhada e isso definitivamente muda muita coisa em uma amizade. Para além disso, o marido dela era o meu melhor amigo, e sempre o seria. Entre a amizade dos dois, eu sempre preferiria a de Harry. Era algo que eu sempre preferira, a amizade de homens. E, bem, desde que Harry se casara com Ginny, era como se ela estivesse entre nossa amizade.
Quanto ao restante dos Weasley, todos sempre pareceram me querer muito bem. Eu não tinha do que reclamar. Sentíamos todos muita falta de Fred, muitas eram as vezes em que um de nós falava algo como “se Fred estivesse aqui...”, porque sabíamos exatamente o que ele faria em cada situação se estivesse conosco. George era o que mais sentia falta do gêmeo, sem dúvidas. E a razão disso era óbvia para todos nós.
Eu observei Ron e Harry. Eu queria que o tempo parasse e então rebobinasse, voltasse vinte e cinco anos. Porque vinte e cinco anos atrás, todos ainda estavam vivos. Sirius, Lupin, Tonks, Dumbledore, George, Moody, Dobby... Até Edwiges! E Snape, que em seus últimos instantes de vida provara ser o homem mais corajoso e leal que Dumbledore tivera ao seu lado. Não que todos os outros não o fossem, mas ele fizera o que nenhum outro teria coragem de fazer; ele infiltrara-se no lado negro, fizera Voldemort confiar cegamente nele, mostrara a todos quão poderosa era a sua capacidade de oclumência.
Vinte e cinco anos atrás, o mundo de hoje começava a se configurar. Vinte e cinco anos atrás Voldemort voltara.
Percebi um par de olhos me observando. Um par de olhos que atraiu dois outros pares de olhos para a minha direção.
Harry me observava, o que chamou a atenção de Ron e de minha mãe. Ao final das contas, as três pessoas que melhor me conheciam no mundo perceberam a minha – incomum – quietude. Sem graça e buscando disfarçar o melhor que pude, eu sorri para eles, um sorriso amarelo, apagado, mas foi o melhor que consegui. Então eu caminhei rumo à cozinha.
Uma vez longe de todos os olhares, fechei os olhos e respirei fundo. Por que eu não estou feliz?, perguntei-me.
Sem mais, abri o forno e retirei o pernil, que estava dourado e cheiroso. Inspirei profundamente e apreciei aquele maravilhoso cheiro. Se estivesse tão gostoso quanto parecia, certamente não sobraria pedaço algum para contar história.
- Pronto, pessoal, o jantar está servido! – eu anunciei da maneira mais animada que consegui ao retornar à sala, e dessa vez eu sabia que soaria sincera.
◊ ◊ ◊
Eu levantara cedo para organizar as coisas de Ron e Hugo, pelo menos aquelas que eu não havia organizado desde o dia anterior. Todo verão era a mesma coisa: eles saíam com Harry e o outros Weasley para jogar Quadribol. E como o dia anterior marcara o início do outono, eles aproveitariam para jogar pela última vez antes que os ventos de outubro se fizessem presentes e a temperatura começasse a cair.
Assim que terminei, arrumei rapidamente as camas e desci. Ron e Hugo terminavam de tomar o café-da-manhã.
- Está tudo pronto. Eu, inclusive, já preparei a chave de portal – eu disse ao adentrar a cozinha. – Ela estará ativa às 9h, então eu realmente espero que estejam todos juntos até lá.
- Vamos nos encontrar n’A Toca, no horário de sempre, então não se preocupe – Ron me tranquilizou.
O horário de sempre era 8h10, o que dava a eles uma pequena folga com relação ao horário.
- Então se apressem para não atrasarem – eu avisei. – Coloquei os sanduíches nas mochilas de vocês. O restante é por sua conta, Ron. E, por favor... por favor, não esqueça dos horários de refeição de Hugo.
- Eu sei, Mione, eu sei...
- Hugo, o horário de ir pra cama em dias de fim de semana é às 22h, certo? Nem um minuto a mais que é para não desregrar o seu sono.
- Certo, mamãe – Hugo concordou.
Antes que minha atenção fosse aprisionada por mais algum detalhe, nossa coruja, Freya, entrou voando pela janela mais alta da cozinha, feita especificamente para ela.
- Acho que temos notícias de Rose – eu disse e esperei até que Freya tivesse pousado em seu poleiro para recolher a carta que ela trazia pendurada em sua pata.
Mamãe,
Não tenho tido tempo para escrever. Desde que as aulas começaram o único horário que me resta para fazê-lo é pela madrugada, e como tenho o hábito de dormir relativamente cedo de modo a não desregrar o sono, acabo por só poder escrever durante as noites de sexta-feira, que são mais tranquilas. De todo modo, as novidades também não são muitas.
Albus parece cada vez mais próximo do Malfoy, ainda que ele seja insuportavelmente arrogante e prepotente. E, mamãe, você sabe que tenho medo de a amizade entre os dois acabar por afastar Albus de mim. E ele, antes de ser meu amigo, é também meu primo, oras!
Quanto ao resto, tudo parece estar em ordem e espero que assim continue.
Ah, e antes que me esqueça, feliz aniversário atrasado! Eu realmente queria estar com você anteontem, ter podido te abraçar e dizer o quanto eu amo você. Além disso, tenho certeza de que fez um jantar maravilhoso! Sinto muito a sua falta, sinto falta de nossas conversas...
Diga a papai que o amo muito e que sinto saudades. Gostaria de estar aí para o último acampamento. Quanto a Hugo, entregue a ele a carta em anexo.
Mandarei notícias em breve.
Com amor,
Rose
- Por que ela sempre escreve diretamente à você? – Ron questionou.
- Por que você sempre pergunta isso a mim, ao invés de perguntar a ela? – eu fiz.
- Não quero parecer ciumento e superprotetor.
Eu ergui uma sobrancelha, descrente.
- Está falando sério? – foi Hugo que perguntou e eu tive que rir.
- Se não quer parecer ciumento e superprotetor, escreva você mesmo uma carta e envie – eu disse. – Mas tente soar natural, sem cobranças e muitos conselhos que ela já sabe de cor.
- Talvez quando voltarmos – Ron disse. – De todo modo, me faria muito gosto se ela e Albus...
- Ron! Eles são primos...
- No mundo bruxo é normal, Mione, primos se casarem.
- Que seja. Eles só têm doze anos.
- E eu sou o superprotetor... – Ron bufou.
- Não acho que seja hora para discutirmos isso, Ron. Vocês já deviam estar n’A Toca há dois minutos – eu disse, cortando o papo.
Hugo logo se pôs de pé e veio a mim. Beijei sua bochecha e sorri.
- Se cuida direitinho, ok?
Ele assentiu e caminhou até a sala, colocando a própria mochila nas costas. Ron fez o mesmo e eu os acompanhei até a garagem de casa.
- Nós voltamos amanhã pela tarde – Ron disse e eu estalei um beijo nos lábios dele.
- Como sempre – eu disse e o vi abraçar Hugo e os dois desaparecerem bem diante de meus olhos.