Cinco anos se passaram desde o último encontro. E esta noite estariam novamente frente à frente. Tentara se esquivar de todos os modos, mas a convocação era clara. Seu depoimento era essencial para garantir a condenação de mais um cruel comensal da morte. Não desejava compactuar com isso, mas um voto a obrigava. Angustiada e impaciente, adentrou o pequeno lavatório batendo a porta atrás de si. Num gesto mecânico, girou torneira prateada, permitindo que a água fria inundasse a pia ovalada e com as palmas das mãos, passou a jogar parte daquela água sobre seu próprio rosto, destruindo a maquiagem cuidadosamente feita cerca de uma hora atrás.
Conhecida por sua inteligência incontestável, Hermione Jane Granger havia caído em uma cruel e muito bem preparada armadilha. Testemunharia e através de seu relato garantiria que Draco Malfoy fosse punido pelos crimes que praticou a serviço de Voldemort durante a guerra, satisfazendo aqueles que clamavam por justiça. Sua consciência lhe obrigava admitir que conhecia cada delito, cada detalhe sujo... Sabia que ele havia de fato sido o responsável por grandes danos para o mundo bruxo e deveria relatar cada erro, cada atrocidade gerando revolta e o clamor pela punição mais severa. Porém, havia algo mais... Algo que apenas ela sabia e que agora não já não poderia declarar em nome da promessa feita anos antes.
Suas lembranças a torturavam enquanto observava seu reflexo no espelho. Usava negro, refletindo o peso do seu coração que a cada batimento implorava por uma solução que ela sabia que não chegaria. Suspirando derrotada, ela aparatou no prédio do Ministério da Magia. Era chegado o momento e precisava cumprir sua obrigação. Lá já era aguardada por Harry e Rony. O trio estava reunido mais uma vez.
O sorriso fraco não seria nem de longe suficiente para disfarçar o nervosismo de seus amigos. Eles a conheciam bem demais para aceitar qualquer desculpa e por isso, ela havia decidido falar o mínimo possível antes que tudo estivesse terminado. Mas a sorte não estava ao seu lado.
- Venha, Hermione! Precisamos conversar.
Harry Potter poucas vezes havia utilizado um tom áspero para se dirigir à melhor amiga, como fazia naquele instante. Hermione reconheceu de imediato aquele olhar e dando-se por vencida, se permitiu ser conduzida a uma sala reservada. Aparentemente um novo interrogatório se iniciaria.
A sala pequena lhe pareceu abafada e por isso buscou a cadeira mais próxima à janela. Precisava tomar ar e pensar cuidadosamente em cada resposta que sairia de sua boca dali para frente. Sua vida dependia disso. Sentou-se com a coluna ereta, deixando as mãos sobre o colo. Permaneceu em silêncio, mas os expressivos olhos castanhos revelavam sem muita cerimônia, a tensão que a consumia.
- O que está acontecendo, Mione? – questionou Ronald Weasley visivelmente incomodado em ver a amiga adotar aquela postura. – Desde quando você mente pra gente?
- Eu não menti, Rony... – falou com a voz controlada.
- Hermione, você pediu permissão para falar com um prisioneiro perigoso há poucos dias do seu julgamento. Um julgamento onde você é a principal testemunha! O que acha que aconteceria se essa informação viesse a público? – cortou Harry raivoso.
- Você pode ser acusada como cúmplice! - completou Rony.
-Eu sei, mas eu precisava... – tentou se defender num fio de voz.
-Do que você precisava, Hermione? Esse cara é um criminoso, ele te agrediu! – esbravejou o ruivo, fazendo com que o nervosismo vencesse e lágrimas brotassem na face da moça.
Ao ver a amiga naquele estado, Harry se aproximou e procurou moderar o tom de voz. Estava ciente de que Hermione já havia sofrido demais e não desejava prolongar tal situação.
- Escuta, Mione... O que Rony está tentando dizer é que quase te perdemos uma vez e não estamos dispostos a permitir que corra perigo novamente nas mãos desse desgraçado. Não chore mais! Estamos com você! Logo tudo terá terminado e Draco Malfoy terá o que merece!
...
Podia sentir em suas costas o calor dos olhares de desprezo e repugnância. Seu veredito já havia sido dado, antes mesmo que se sentasse naquele banco. Não se importava. Ainda que usasse vestes de prisioneiro, que seus cabelos estivessem mais cumpridos do que gostaria e que sua barba estivesse por fazer, era um Malfoy e conservaria sua postura até o fim.
Seu olhar era de gelo, não esboçou nenhuma reação mesmo quando a viu entrar na sala. Ela sim, parecia abatida. Aquele parecia ser seu julgamento e não o dele. Por um instante, um pensamento lhe cruzou a mente, fazendo com que ele recordasse de como ela costuma ser antes de tudo, mas aquela garota havia se perdido... E ele sabia que jamais veria Hermione Granger novamente.
Sentada no banco das testemunhas, utilizava todas as suas forças para manter sua promessa e não encará-lo. Sabia que não poderia seguir em frente se visse seu rosto. Naquele instante era como se todo o sangue houvesse fugido de sua face. Pálida e abatida, buscava controlar o tremor que parecia se apossar de seu corpo, enquanto o representante do Ministério da Magia lhe questionava detalhes sobre os ataques que mataram centenas de pessoas durante os dias de guerra.
Estava ciente de que a cada pergunta que respondia avançava em um caminho sem volta. Ele seria condenado e receberia o beijo do Dementador e toda a sua vida perderia o sentido. Não podia permitir! O ar parecia não chegar aos seus pulmões, sua vista pouco a pouco perdia o foco e as vozes se tornavam cada vez mais distantes.
- Senhorita Granger, é verdade que foi a primeira a chegar na estação King´s Cross após o ataque que matou dezenas de pessoas? E o réu era o único bruxo presente? É verdade que foi cruelmente atacada por Draco Malfoy nesta ocasião?
Não queria responder. Não podia responder aquela pergunta. Silenciosamente, rezou por um milagre! Um milagre que se personificou em uma enorme coruja negra que adentrou o salão e permaneceu voando em círculos antes de pousar sobre a mesa do senhor Ministro e depositar uma carta.
Um burburinho se formou entre os presentes, enquanto o a carta era examinada.
-Ordem! Silêncio no recinto! - ordenou o Ministro sobressaltado, fazendo com que todos os presentes se calassem imediatamente. – Acabamos de receber uma nova prova! O julgamento está suspenso! Levem o prisioneiro!
- O quê? Isso não é possível! – esbravejou Draco Malfoy enquanto era arrastado por dois guardas para fora do tribunal.
A comoção tomou conta de todos. O que poderia ser tão importante para suspender o julgamento? Horas se passaram sem que respostas fossem ouvidas. Tudo o que Hermione sabia é que não podia deixar o recinto.
Após quase duas horas de espera, foi conduzida a uma sala, onde a cúpula do ministério da magia já a aguardava, entre eles Harry Potter. Ao ver a expressão do amigo, Hermione sentiu uma angústia tomar conta de seu coração. Não sabia se ele conseguiria perdoá-la algum dia.
- Senhorita Granger... A senhorita, ou eu devia dizer senhora, está ciente de que perjúrio é considerado um crime?
-S-sim. – respondeu num fio de voz.
-A senhora está ciente de que pode ser privada de sua liberdade por tempo indeterminado em virtude das declarações que prestou horas atrás? – indagou o ministro impaciente.
- Eu não menti! – ela se defendeu.
- Como não mentiu, Hermione? – perguntou Harry transtornado, aproximando-se da amiga com um olhar furioso.
- Eu não menti!Falei sobre os ataques, dei detalhes sobre as vítimas, sobre os artefatos encontrados no local, mas nunca indiquei a autoria!
- Está dizendo que sabia que Draco Malfoy não havia sido o responsável por estes crimes e ainda assim, aceitou testemunhar contra ele! Exijo uma explicação! – interrompeu o Ministro.
- Fiz um voto. Guardo um segredo, mas disse a verdade. – ela confessou. – Sempre respondi a verdade, porém, todas as perguntas realizadas foram formuladas para garantir a culpa deste homem.
- Muito bem! Em virtude dos novos fatos e provas surgidos, temos então uma última pergunta a lhe fazer: qual é o seu nome completo?
Seu destino estava selado. Não teria perdão.
- Hermione Jane Malfoy.
- A senhora está dispensada!
...
Todos os seus sentidos permaneciam em total alerta. Sempre mantinha tudo sob seu controle, mas naquele instante, tudo era incerto. Viu quando Hermione deixou a sala. Desta vez ela não fugiu do seu olhar, pelo contrário, o encarou como se quisesse lhe avisar. Não sabia o que estava acontecendo, mas definitivamente não lhe parecia algo bom.
Podia sentir o ódio transbordando cada poro de seu corpo. “Como ela pode ter nos traído dessa maneira? Ele a enfeitiçou! Vou matá-lo!” – pensava Harry ao ver se antigo inimigo de escolar ser conduzido pela sala.
- Senhor Malfoy, pode nos explicar do que se trata este documento? – indagou o representante do Ministério da Magia que horas antes se ocupava em acusá-lo, entregando-lhe um documento gravado magicamente que ele reconheceu imediatamente.
- Como conseguiram isso? – o loiro sibilou entre os dentes, ciente de que seu plano desmoronava.
- Essa informação é irrelevante! – bradou o homem visivelmente contrariado.
- Não, não é. Adianto que não responderei nenhuma pergunta até saber quem foi o responsável por isso!
- Não está em posição de exigir nada, senhor Malfoy! É um prisioneiro sob custódia, devo lhe lembrar! – interveio o senhor Ministro.
- Um prisioneiro que pode optar pelo silêncio. Sim, eu conheço as leis bruxas. – revidou retomando seu habitual tom de arrogância, fazendo com que o Ministro recuasse.
- Pois muito bem! A coruja de aluguel nos trouxe uma cópia de sua certidão de casamento, junto com o testamento de sua mãe.
- Não é verdade! – exaltou-se Draco ciente do que aquilo significava. Se o testamento foi entregue, Narcisa Malfoy já não pertencia aquele mundo e todos os seus esforços haviam sido em vão.
- Examine você mesmo, o documento é autêntico e nele fica clara sua intenção de responder por crimes cometidos por seus pais para proteger sua mãe. Isso é verdade? Forjou provas e se deixou apanhar para que Narcisa Malfoy fosse inocentada?
Sua mãe havia morrido, mas antes havia garantido sua liberdade... Draco não conseguia pensar com clareza. Recordava-se do desespero da mãe quando seu pai fora morto cruelmente e de lhe prometer que solucionaria tudo. Durante uma noite inteira planejou cuidadosamente cada passo. Apagaria cada rastro de Narcisa, pouco a pouco destruiu cada prova, mas não era o suficiente. Havia uma testemunha e ele precisava neutralizá-la.
- Mãe, eu lhe prometo que nada vai acontecer com a senhora, mas preciso que me conte tudo!
Narcisa Malfoy já não era sequer a sombra da mulher que fora um dia. Consumida pela culpa, sua mente se tornara enferma e lhe pregava peças, alternando a realidade com fantasia. Por vezes tratava Draco como se ele ainda fosse um garoto e fazia planos para um futuro que só existia em sua imaginação. Com dificuldade, Draco conseguiu descobrir detalhes das operações e qual não foi a sua surpresa quando a mãe lhe revelou a existência de uma testemunha mantida em cativeiro.
Jamais poderia esquecer a imagem da moça amarrada e amordaçada nas masmorras da antiga Mansão Malfoy. Ela vinha sendo dia-a-dia envenenada. Suas lembranças apagadas e seu corpo enfraquecido. Precisava de um plano e sua mente tratou de trabalhar em uma nova estratégia a partir daquele instante.
- Forjou provas e se deixou apanhar para que Narcisa Malfoy fosse inocentada? – repetiu o Ministro impaciente, despertando Draco de seus devaneios.
- Minha mãe estava doente e precisava de cuidados. Apenas garanti isso. – afirmou Draco.
- Será processado por perjúrio, senhor Malfoy! Seus bens permanecerão confiscados e seus passos serão monitorados pelo ministério. Não tem permissão de deixar o país. Nem o senhor, nem sua esposa!
- Como assim? Ele ficará livre? – questionou um Harry indignado.
- Não, ele não ficará livre! Será processado. Ele e a senhorita Granger, quero dizer a senhora Malfoy serão vigiados até o fim do processo. Ambos deverão ser responsabilizados por obstruir a justiça e além de responder materialmente.
- O que isso quer dizer? – questionou Draco.
- Quer dizer que o senhor e sua esposa estão privados de seus bens e precisam de hoje em diante se portar como um casal exemplar, constituindo trabalho e moradia fixos para não serem privados de sua liberdade.
- Ela não tem nada a ver com isso! – reagiu Draco.
- Não pensamos assim senhor Malfoy! É bom que esteja ciente de que receberão constantes visitas de nossos assistentes sociais para avaliar-los antes de proferirmos a sentença. Se quiser manter sua liberdade e reaver pelo menos uma parte de seus bens, sugiro que ande na linha! Por hora, você e sua esposa serão escoltados até sua residência!
- Mas a mansão está bloqueada... – disse Draco confuso com tantas informações.
- Me refiro ao apartamento que sua esposa mantêm em Londres! Agora é melhor se apressar. Seus pertences lhe serão devolvidos antes de partir. – declarou o Ministro enquanto deixava o recinto.
...
De uma prisão para outra. Estava condenado a permanecer confinado com uma estranha, num cubículo ridiculamente decorado em tons pastéis que ele odiou desde o primeiro segundo. Havia perdido tudo o que lhe era caro e em contrapartida, ganhou uma esposa que sequer conhecia. Precisava pensar. Precisava sair dali e respirar, mas logo veio a lembrança de permanecer sob um feitiço rastreador. Derrotado, jogou-se no pequeno sofá surpreendentemente confortável e deixou o corpo cansando relaxar por alguns segundos.
Parada na porta da pequena cozinha, Hermione observava seu marido. Os fios dourados estavam um pouco mais cumpridos agora e lhe cobriam parte do rosto pálido. Parecia cansado; Havia desabotoado os primeiros botões da camisa e arregaçado suas mangas, revelando parte do peito e dos braços definidos. O sofá era demasiado pequeno para um homem com o porte de Draco Malfoy.
Sua mente sabia que era errado sentir compaixão por aquele homem que lhe causara tanta dor, mas seu coração só conseguia enxergar alguém que sofria a perda da mãe, uma dor que ela mesma ainda vivencia a cada dia. Ela concordara em ajudá-lo e agora não poderia recuar. Deixou que adormecesse e providenciou uma coberta. Após uma noite de sono, seria mais fácil chegar a uma conclusão.
Ao ser vencida pelo cansaço e finalmente mergulhar no mundo de Morfeu, Hermione viu-se novamente diante do momento que alterou todo o seu destino. Era então prisioneira de Lúcio Malfoy. Tinha o corpo e a alma dilacerados pelo medo e pela dor que lhe era infligida diariamente, de modo que tudo o que lhe restava era rezar pela morte. Sua mente não raciocinava com clareza em virtude de uma porção desconhecida que lhe obrigavam a ingerir com freqüência. Imaginava que devia ser usada como isca para atrair Harry, mas esse momento parecia nunca chegar. Já havia perdido as esperanças de rever a luz do sol quando ele chegou e a tomou nos braços, levando-a para longe da escuridão.
Ao recobrar a consciência, ele veio a seu encontro e propôs o acordo. Ela teria sua liberdade e suas memórias intactas, mas jamais proferiria uma palavra contra a família Malfoy. Ela provaria ao mundo que a família Malfoy já não é obcecada pela pureza do sangue, tornando-se ela mesma parte da família, até que todas as investigações chegassem ao fim. Ele desejava proteger sua mãe e deixou claro que estava disposto a qualquer coisa para que Narcisa Malfoy não fosse presa. Ofereceu-lhe então o que ela desejasse, em troca de uma promessa. Naquele instante, ela soube que ainda que muito bem escondido, Draco Malfoy tinha um coração.
- Eu responderei por todos os crimes de meus pais. Serei preso e jamais a importunarei, terá sua liberdade e o que mais quiser. – ele assegurou.
Ao firmar o compromisso, sabia que não se encontrava senhora absoluta de sua vontade em virtude das poções. Tudo era confuso, mas quando deu por si, já havia assinado a documentação e feito um voto perpétuo. Não poderia voltar atrás.
...
Raios de sol invadiram a sala e claridade passou a incomodar o homem adormecido no pequeno sofá. Os olhos azuis abriram-se buscando se adaptar ao ambiente estranho. Moveu-se lentamente e sentiu os músculos reclamarem pela posição desconfortável. Levantou-se recordando o que havia se passado na noite anterior e foi surpreendido com a constatação de sua nova condição. Sua mãe estava morta. Seu sacrifício fora em vão. E agora passara de prisioneiro perigoso de Azkaban para prisioneiro de uma vida medíocre ao lado de uma nascida trouxa.
- Mas que droga!- pensou frustrado enquanto caminhava de um lado para o outro, como um felino enjaulado.
- Acho que você devia ver isso... – uma voz feminina interrompeu os devaneios de Draco, enquanto lhe apontava um exemplar do Profeta diário com a manchete: Os novos senhor e senhora Malfoy.
Havia uma foto dos dois deixando o prédio do Ministério da Magia e uma longa reportagem de autoria de Rita Skeeter narrando como a nascida trouxa Hermione Granger havia traído seus amigos e conseguido seduzir o herdeiro Malfoy. A cada palavra Draco sentia seu estomago revirar. Hermione era descrita como uma prostituta oportunista e ele como um idiota que colocou a tradição e patrimônio de sua família a perder por causa de uma mulher. A matéria insinuava ainda que Narcisa morrera de desgosto ao tomar conhecimento do casamento do filho.
Hermione sentou-se no sofá antes ocupado por Draco, agora todo o mundo bruxo sabia de seu casamento e foi questão de segundos até seu apartamento ser invadido por corujas que traziam mensagens de repúdio e mesmo um berrador de Rony. Draco assistiu atônito o pequeno dispositivo mágico proferir uma série de ofensas a sua esposa e não pode deixar de se sentir mal, ao vê-la daquela forma. Mas aquilo não ficaria assim!
Em meio à bagunça que agora se instaurara no pequeno recinto, Draco recolheu seus pertences e puxando Hermione pelo braço, aparatou em um prédio comercial no beco Diagonal. O ambiente não parecia familiar para Hermione. Draco caminhava apressado e praticamente a arrastava, fazendo com que as pessoas comentassem a cena inusitada.
- Hei, o que está fazendo, Malfoy? As pessoas... – a moça começou a repreender o marido, mas foi solenemente ignorada por ele.
Draco seguia a passos firmes até se deparar com uma imensa porta de madeira maciça e empurrá-la sem dar qualquer atenção aos protestos de uma senhora de óculos que repetia seguidas vezes que ele não tinha autorização para estar naquele local.
- Ora, mas o que é ... Draco Lúcio Malfoy? – surpreendeu-se um bruxo de vestes negras.
- Eu disse que ele não poderia entrar – tentou se defender a atendente consternada.
-Deixem-nos. Parece que o senhor Malfoy e eu temos muito a conversar... – ordenou o homem, indicando assentos para Draco e Hermione.
- Diga-me, jovem Malfoy o que lhe fez mudar de ideia após dispensar meus serviços de forma tão veemente...
- Heathcliff! Vamos pular a baboseira, não tenho paciência para suas ironias. Você está de volta ao caso e como meu advogado, eu quero que me diga como posso desbloquear meus bens e rebater isso! – esbravejou enquanto atirava o exemplar do profeta diário já retorcido sobre a mesa, despertando um sorriso de satisfação no rosto do velho bruxo.
-Sempre soube que era inteligente jovem Malfoy, mas não imaginava que seria tanto. Foi mesmo um golpe de mestre. A propósito, senhora Malfoy devo dizer que esta fotografia não lhe faz justiça, é muito mais bonita pessoalmente... – disse – Alfred Heathcliff fazendo com que Hermione corasse!
- Pare com essa ladainha e me diga como posso conseguir o que eu quero legalmente! – exigiu Draco.
- Ora, na verdade é muito simples. Tomei a liberdade de ingressar com um pedido para liberação de um valor inicial do seu cofre de Gringotes, o que obviamente só foi aceito parcialmente, de modo que liberaram a metade do valor solicitado. – disse enquanto apresentava um documento com o demonstrativo bancário que comprovava que Draco teria à sua disposição um valor mais do que considerável para recomeçar sua vida.
- Então sabia que eu viria... – constatou Draco.
- Ora, como disse, sempre o julguei inteligente, mas vejamos... Essa quantia deve ser revertida em algo que seja considerado relevante. Crie algo que seja fonte de renda e que ao mesmo tempo eleve sua imagem. Acha que pode fazer isso?
- Considere feito – o loiro respondeu sem hesitar. E quanto a ela? – questionou sem sequer dirigir o olhar para Hermione, fazendo que uma onda de indignação a atingisse, mas antes que pudesse dizer algo, o advogado respondeu.
- Hermione Malfoy é uma jóia preciosa e dever ser tratada como tal. Sabe o que fazer. Os dois devem dar início à nova dinastia Malfoy. Serão vigiados pela justiça, pela sociedade e pelos jornalistas por tanto, devem ser simplesmente perfeitos.
- Espera aí, o senhor está sugerindo que tornemos esse casamento de verdade? – perguntou Hermione chocada.
- Imediatamente para ser mais exato. – respondeu Heathcliff com um olhar incisivo para Draco, que já se levantava, puxando Hermione. Precisava sair dali imediatamente.
- Enviarei os documentos e o contrato para que assine Senhor Malfoy! – gritou o homem visivelmente satisfeito enquanto via o jovem casal deixar seu escritório. Certamente havia conseguido sua melhor causa em anos.
...
- Ele não pode estar falando sério! Nós não podemos fazer isso! Não nos conhecemos, nós nos odiamos! – reagiu Hermione indignada logo ao retornarem ao apartamento.
- Não temos escolha, Granger! É a única forma de consertarmos isso, ou será que você prefere ter sua reputação destruída? Quem daria emprego a você agora? Acha que ainda pode contar com seus amiguinhos, acorda Granger! – revidou Draco nervoso.
- Estamos presos! – concluiu Hermione derrotada, reconhecendo que Draco tinha argumentos válidos.
- Não é hora pra lamentações, Granger! Agora, tire essa cara de vítima e me deixe pensar! – ordenou Draco incomodado com a reação da esposa.
- Você é um ogro! Não pense que vai tomar decisões sobre a minha vida! Não vou permitir! – ela respondeu imediatamente, deixando claro que não seria um capacho.
A tensão era visível, os dois estavam próximos e ofegantes. Draco não estava acostumado a ser questionado, menos ainda por uma mulher. Geralmente, elas não mediam esforços para agradá-lo, mas aquela certamente era diferente. Ciente de que não conseguiria nada com aquela atitude, decidiu recuar brevemente.
– Certo, Granger! Qual é a sua ideia brilhante para nos tirar dessa situação.
- Eu... Eu não tenho nenhuma ideia – foi forçada a admitir. – Mas isso não significa que eu vou aceitar que você decida minha vida!
- Não temos escolha! Todos devem acreditar que somos um casal perfeito é o único modo de termos um parecer favorável. Precisamos que as pessoas tenham simpatia e nos apóiem, sem isso, ficaremos exilados socialmente para sempre. – ele concluiu.
Hermione ainda não estava muito segura, mas não tinha outra escolha. A partir daquele instante, seria uma feliz recém-casada, em êxtase com a libertação do marido.
...
Para o resto do mundo eram um casal, mas dentro das paredes do pequeno apartamento no centro de Londres, eram dois estranhos. Os dias se arrastavam sem que houvesse qualquer modificação na condição dos dois, permaneciam colocados à margem da sociedade e o nome Malfoy ainda era sinônimo de escândalo.
Nos últimos dias, Draco havia se dedicado exaustivamente a planejar como investir o pouco dinheiro que conseguira resgatar. Passava a maior parte do tempo debruçado sobre tabelas e documentos, tentando montar uma estratégia. Recuperar-se financeiramente era agora sua prioridade, além da desculpa perfeita para ignorar a esposa já não tão indesejada.
O desconfortável sofá da sala permanecia lhe fazendo as vezes de cama e julgava ser essa a melhor solução. Ainda não havia decidido se seguiria o conselho de Alfred Heathcliff e tentar seduzir a esposa, embora a ideia não tivesse abandonado seu pensamento nem por um segundo. Um negócio politicamente correto e extremamente lucrativo, uma bela esposa e filhos bem criados, uma utopia distante que agora tinha que tinha que tornar realidade.
Conhecer o inimigo seria o próximo passo. Em silêncio passou a observar Hermione Granger e a aprender tudo sobre ela. A convivência estava aos poucos revelando uma mulher determinada, inteligente, organizada e incrivelmente atraente. Por várias vezes, o loiro havia surpreendido a si mesmo observando a moça dormir. Inquieta até durante o sono, Hermione se movia permitindo que a coberta revelasse partes da pele alva, que parecia clamar por um toque, um toque dele. Mas ainda era cedo demais, precisava agir cautelosamente.
Hermione era naquele instante como um pássaro ferido, longe de seus amigos, isolada de seu mundo e ele era o único culpado. O remorso não chegava a lhe tocar, mas a certeza de sua culpa fez com que ele preferisse ir devagar, testar as resistências da moça com seguidas provocações, antes de tentar uma aproximação que não tardaria a acontecer.
Naquela manhã, Hermione despertou vagarosamente e sem desejar encarar mais um dia ao lado do marido intratável, escolheu permanecer de olhos fechados. Em seus sonhos, ainda tinha seus amigos e a perspectiva de um futuro brilhante, tinha também amor... O amor que sempre sonhou e que agora lhe parecia mais distante do que nunca.
Com um suspiro profundo decidiu encarar a realidade e deixar a cama; com um breve aceno de varinha os lençóis foram impecavelmente recolocados instantaneamente. Ainda preguiçosa caminhou pelo dormitório enquanto erguia os braços acima da cabeça alongando os músculos lentamente. Num movimento lento alcançou a barra da camisola florida e a tirou pela cabeça no exato momento que seu marido adentrou o dormitório com um pedaço de pergaminho nas mãos.
- Granger fomos notificados e...
Draco não pôde continuar seu raciocínio ao ver a esposa tirar a camisola que vestia e displicentemente atirar a peça em cima da cama, sem saber que estava se expondo a seus olhos famintos. Por um instante o ar lhe faltou e seu coração bateu descompassado. Prendeu-se na visão dos seios desnudos, até que fossem ocultados pelas mãos delicadas que os pressionavam, sem saber que aquele movimento se convertia em algo demasiadamente sexy.
Sua mente registrou a visão de dois pequenos círculos entrelaçados desenhados sobre as costelas do lado esquerdo da jovem. “O símbolo do infinito” – ele divagou até que a voz indignada que saía da boca da ninfa a sua frente o despertou de seu transe.
- O que pensa que está fazendo, Malfoy? Quem te deu permissão para entrar no meu quarto?- esbravejou Hermione, enquanto usava um robe de seda verde para ocultar seu corpo do marido.
Engolindo seco, Draco buscou controlar suas emoções. Não permitiria que ela soubesse o quanto o havia afetado e retomando o seu tom habitual atirou o pedaço de pergaminho que trazia nas mãos aos pés de Hermione.
- Ora, Granger não tenho tempo para os seus chiliques! Fomos notificados e a qualquer instante receberemos a visita de um oficial da condicional. Não podemos cometer nenhum erro, me entendeu?
....
Apenas o som dos ponteiros do relógio podia ser ouvido no recinto. Sentada no sofá de sua sala, Hermione jamais havia se sentido tão desconfortável como naquele instante. Draco permanecia ao seu lado, segurando sua mão num carinho fingido que a incomodava imensamente, enquanto eram examinados por uma mulher roliça que fazia anotações em silêncio. Mais do que curiosa, a mulher era inconveniente e intrometida, já havia feito duas dúzias de perguntas e ainda parecia insatisfeita. Hermione se sentia como um animal de zoológico, não sabia por quanto tempo suportaria aquela situação.
- Hum... Senhora Malfoy, vejo que a senhora não está usando seu anel de casamento... Algum motivo especial para isso? – questionou a mulher, fazendo com que imediatamente Hermione ocultasse a mão esquerda visivelmente desconcertada.
- Minha esposa certamente esqueceu de recolocar seu anel. De fato, ela esquece algumas vezes. Acho que possivelmente a culpa é minha, já que na ânsia de demonstrar o quanto a amo, escolhi um diamante pesado demais para o dia-a-dia. – respondeu Draco prontamente.
-Entendo... Um diamante de tamanha grandeza não deve realmente ser usado a todo momento, mas agora confesso que ainda me encontro mais curiosa para espiá-lo. É possível senhora Malfoy?
- C-claro. – respondeu Hermione se levantando e caminhando em direção ao dormitório.
- Creio que o deixou no banheiro, querida! – interviu Draco, indicando a jóia antiga deixada sobre a pia do banheiro.
- Aqui está! – respondeu Hermione exibindo o enorme diamante solitário, cujo o aro de outro branco se encaixava perfeitamente em seu dedo.
- É mesmo magnífico! Importa-se de me contar como foi que seu marido a pediu em casamento? Uma mulher como eu adora ouvir relatos românticos...
- Bom, nós... – começou Draco.
-Senhor Malfoy, se não se importa, gostaria que sua esposa respondesse dessa vez. Nós mulheres somos mais sentimentais e detalhistas – disse a senhora cortando Draco e o deixando tenso.
- Er... – “Acalme-se Hermione! Você consegue fazer isso” – ordenou a si mesma enquanto respirava fundo e começava a falar: - Meu marido e eu nos conhecemos no colégio, freqüentávamos Hogwarts, mas pertencíamos à casas diferentes, éramos praticamente rivais. Com o tempo passamos a nos conhecer melhor. Draco sempre competia comigo pelo melhor desempenho escolar, e isso fez com que passássemos a respeitar um ao outro, primeiro como oponentes e depois como pessoas... – começou Hermione surpreendendo Draco.
Sua mente, imediatamente o levou de volta para Hogwarts onde sempre brigavam por cada ponto, especialmente na matéria de poções. Ele levava vantagem, visto que o professor era Severo Snape, diretor de sua casa, mas não aceitava ajuda queria vencê-la por mérito próprio e no último ano havia conseguido, embora ela ainda houvesse ganho o prêmio pela melhor média geral.
Ela falava a verdade. De alguma forma, havia sido precisamente naquela época em que passou a notá-la como algo mais do que a amiga de Harry Potter. No último dia de aula havia reparado que ela havia mudado o cabelo, que passou a mostrar ondas mais suaves e claras. Lembrava-se de tê-la observado e pensado que estava bonita, porém desviou o olhar antes que qualquer um no grande salão percebesse.
Mas ainda que quisesse não podia deixar de olhá-la. Sorrindo com os amigos idiotas. Andando com uma pilha incorrigível de livros. Rindo de alguma piada que certamente não importava de verdade.
- Mas como começaram a namorar? – a mulher quis saber, fazendo com que Draco retornasse para a realidade.
Hermione não sabia ao certo o que dizer e por isso tentou imaginar como poderia ter sido sua vida ao lado de Draco Malfoy.
- Pouco a pouco nos conhecemos melhor e antes que pudéssemos perceber passávamos a maior parte de nosso tempo livre juntos, embora ninguém soubesse disso. Eu sempre inventava um trabalho extra na biblioteca ou algo assim.
- E por que o segredo?
- A família de Draco não aprovava o nosso relacionamento... – ela respondeu sem olhar para o loiro.
-Entendo... Mas prossiga.
- Quando a escola terminou sabíamos que iríamos nos separar e nenhum dos dois queria isso... Devíamos nos despedir na estação, mas antes de deixarmos o expresso Hogwarts, Draco me abraçou e disse que não me deixaria ir... Prometeu que falaria com seus pais e depois me encontraria onde eu estivesse para que começássemos uma nova vida. Ele não tinha um anel naquele momento, mas eu não precisava de um. Tudo o que importava é que ele sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele. Naquele instante eu soube que nada poderia nos afastar um do outro. – narrou Hermione impressionando não apenas a oficial da condicional, mas também ao rapaz que a ouvia atônito.
- Foi mesmo muito bonito, a senhora tem sorte... – declarou a mulher, tomando mais um gole de chá e piscando para Hermione que imediatamente sentiu as faces serem tingidas de vermelho.
- Então digam-me, quando pretendem iniciar uma família. Pretendem ter filhos em breve?
-Sim! – respondeu Draco.
-Não! – respondeu Hermione.
-Ora isso é pouco comum...
- Minha esposa ainda reluta um pouco dada a situação delicada que vivemos... – respondeu Draco.
- E o senhor não, senhor Malfoy? – quis saber a velha curiosa.
- Por mim já teríamos começado, mas entendo a preocupação de minha mulher. – disse Draco.
- Bem, acho que é suficiente. Retornarei em alguns dias. Obrigada pelo chá, senhora Malfoy! – disse a mulher pouco antes de aparatar.
- Pensei que ela nunca mais fosse embora! – reclamou Draco.
- Eu também... Que mulherzinha mais intrometida! – concordou Hermione fazendo com que Draco risse de sua indignação.
- Você foi muito bem. Sua narrativa foi bastante convincente, embora um tanto melosa. – Draco começou.
-Disse a ela o que toda mulher deseja ouvir só isso. – respondeu a moça, enquanto tirava o enorme solitário do dedo e o entregava à Draco. – Acho que isso é seu.
Vendo a delicada mão estendida em sua direção, Draco não teve qualquer dúvida. Segurou a mão de Hermione e recolocou o anel em seu dedo e percebendo que se encaixava com perfeição soube que não se equivocara em sua escolha.
- Esse anel pertence tem pertencido às mulheres Malfoy há gerações... Agora é seu. – disse Draco observando o brilho do cristal que agora se mostrava mais intenso, enquanto sentia as batidas de seu coração se tornarem ainda mais aceleradas. Aquilo era um sinal e ele sabia exatamente o que significava.
- Não posso aceitar! Você deve entregá-lo a outra mulher...
- Eu o entreguei a você. – ele afirmou seguro enquanto a puxava para um inesperado beijo.
Os lábios que tocavam os seus não eram frios como teria imaginado. Eram quentes e intensos; Apossavam-se de sua boca sem cerimônia e transmitiam uma forte descarga elétrica que percorria todo o seu corpo. Não houve nenhuma chance de reagir e por isso entregou-se aqueles segundos mágicos, subitamente interrompidos pelo próprio Draco.
- É uma verdadeira Malfoy, Hermione. Aceite isso.