Capítulo 19. – At Your Side
Por uma razão estranha, meu ouvido estava zunindo no silêncio daquele hospital trouxa. Morris havia seguido a ambulância com a limusine, depois de chamá-la por celular, e não me lembro de outra coisa a não ser o fato de que havia pessoas estranhas socorrendo Dimitre e levando-o para uma sala em que nenhum de nós foi permitido entrar. Tivemos que nos sentar em cadeiras vazias, e ficar esperando.
Duas horas depois e ninguém havia aparecido na sala para dar alguma notícia. Perguntei-me quando alguém ia me contar alguma coisa. Albus estava ao meu lado, e Natalie havia deitado com a cabeça em seu colo, descansando com um saco de gelo na testa. Rose estava pegando um copo de água para Amber, no outro lado da sala, e entre todos ali, Rose parecia ser a única a conseguir fazer alguma coisa para alguém. Água, gelo, consolo. Não havia conversa entre nenhum de nós, no entanto. E meu ouvido ainda estava zunindo muito forte, quase como se a buzina daquele automóvel tivesse se fixado na minha cabeça depois de ter visto o acidente.
Ela se aproximou de mim.
– Só consegui ter contato com os meus pais – contou. – E eles disseram que vão entrar em contato com a mãe de Dimitre pelos seus pais, e contar o que aconteceu. Creio que já estejam a caminho.
Eu disse baixinho, para que Morris, mesmo dormindo sentado, não escutasse:
– Dimitre tem que ser enviado para St. Mungus. Ele não vai ficar aqui.
A expressão de Rose ficou estranha. Como se eu tivesse virado uma criança de repente e ela tentasse me dizer como as coisas funcionavam naquele mundo.
– Depende da situação, Scorpius, porque se Dimitre – Rose hesitou, passando a mão na testa – quero dizer, o carro nem quis frear.
– Eu sei, por isso não há nada que um trouxa possa fazer...
– Eles vão tentar de tudo, eu prometo. Não temos como levá-lo ao St. Mungos, temos? Se aparatássemos com ele, a chance de um esdrunchamento ocorrer poderia matá-lo definitivamente.
– Isso se só aquele carro não tiver feito o trabalho – eu virei às costas, irritado, apertando o meu ouvido. Por que estavam zunindo tanto?
Senti os dedos delicados de Rose acariciarem minhas costas, mas ela não tentou me dizer nada. Como podia ter tanta calma em uma situação dessas? Meu primo podia estar morto agora. Senão, em algum momento distante. O corpo dele não conseguiria suportar a dor de uma pancada daquelas sem nenhuma magia, nenhuma poção, por tanto tempo. Aquele lugar não ia ajudar em nada.
E foi então que a voz de Natalie soou rouca, quando ela levantou o tronco e começou a dizer:
– Eu sei que estou um pouco bêbada... e talvez o que eu diga não faça sentido porque é só um palpite, mas... se Dimitre estivesse morto agora, os médicos já teriam falado alguma coisa, né? Se não tivesse salvação, eles não estariam demorando tanto para dar alguma notícia. Quero dizer, disseram que meu pai desmaiou e morreu na hora. Não enrolaram para contar isso a nós, porque não tinha mais jeito...
Eu olhei para ela. E depois para Rose e para Albus. Os dois pareciam convencidos de que Natalie tinha razão. Ou apenas queríamos que ela tivesse razão.
– A medicina trouxa avançou imensamente nos últimos anos e viram como a ambulância chegou rapidamente? – Rose perguntou. – Temos que acreditar que...
A voz dela foi sumindo à medida que passos se aproximavam da sala. A gente se entreolhou, cheio de expectativas. Quando um homem alto e careca se aproximou da sala, com vestes brancas e uma postura e olhar refletidos de compaixão, ele na verdade foi de encontro a Amber, que abraçava a barriga. O homem tinha o tipo de olhar que não significava coisa boa. Aquele olhar gentil, reconfortante apesar das notícias que ele guardava.
– Você é a namorada?
– Não. Ele é apenas... – gaguejou com a voz fraca pela gripe e o medo que sentia – pai do bebê.
– Bem – ele pigarreou mesmo assim e começou a contar olhando para cada um de nós – primeiramente o estado dele é muito grave, mesmo que ainda demonstre o mínimo de pulsação. Dimitre sofreu traumatismo craniano, além de outras partes do corpo quebrados...
Depois ele começou a dizer coisas que não nos aliviou, apesar de não ter citado nenhuma vez que Dimitre estava morto. De todo o discurso preparado dele para nos dar a notícia, o que realmente fixou em meu cérebro foi que Dimitre estava em coma. Significava duas coisas. Dimitre podia acordar em qualquer momento ou daqui muitos meses. Ele teria que ficar internado o quanto fosse preciso até receber um estímulo de recuperação. E pela situação dele, não iria ser naquela noite. Não iria ser naquela semana.
Na realidade, significava três coisas. Mas a última era assustadora demais para continuar levando em consideração naquele momento, onde o médico indicava que devíamos acreditar na melhor das hipóteses. Após um minuto de explicação médica, que provavelmente só Rose se esforçou para entender com os detalhes, ele sugeriu que voltássemos para nossas casas – no caso, a de Natalie – para nos recuperarmos do susto, porque Dimitre já estava em observação e não podíamos fazer mais nada, muito menos visitá-lo. Precisávamos comer, e foi só quando ele disse a palavra “comida”, que meu estômago pareceu esmagado de fome.
– A mãe dele está a caminho – disse Rose.
– Eu direi a ela tudo o que disse a vocês – disse o médico.
Estávamos para sair, mas a entrada do hospital foi escancarada por uma Dafne muito, muito desesperada. Logo atrás, estava...
Minha mãe.
Ela não esperou e me abraçou. Uma enfermeira tentava acalmar Dafne, pois ela gritava para querer ver o filho dela, exigindo explicações para tudo. Minha mãe me soltou para dizer a Rose:
– Agradecemos pelo aviso que seus pais nos enviaram. E por nos ajudarem com as coisas da passagem.
– Eu não sabia como entrar em contato com vocês diretamente – disse Rose a ela, como se desculpasse pelo fato de ter feito nossas duas famílias se colidirem numa razão assim.
– Você fez bem, de qualquer forma, obrigada – disse mamãe. – O que houve realmente? Dimitre foi atropelado por um carro?
Uma voz miúda despertou finalmente a atenção delas para Amber. Acho que ninguém tinha reparado nela, tão silenciosa que estava.
– Ele me salvou. Irônico, não? Ele me fode... e depois me salva. Literalmente – sussurrou. – Desculpe, sra. Greengrass. Ele veio me visitar, mesmo que numa cidade tão trouxa como Los Angeles. Eu só queria ficar o mais longe da minha família... se eu não tivesse... – ela soluçou – se eu não tivesse mandado uma mensagem...
Dafne estava olhando para Amber com tanta frieza que eu teria acreditado que minha tia fosse lhe dar um tapa. Eu nunca realmente entendi as expressões dela. Mas eram bem hostis, desprezíveis, como se sempre estivesse cheirando alguma coisa ruim. Naquele instante, ela parecia olhar para Amber como se realmente a culpasse pelo que o médico estava lhe explicando naquele momento. Dimitre em coma, internado em um hospital trouxa.
Mas, para a surpresa de todo mundo da sala, Dafne desabou ao lado de Amber como se não precisasse mais ouvir outra coisa do médico. Ela até o teria expulsado de sua frente, se não tivesse se ocupado, por um ato esquisito, em abraçar Amber. Com força.
Não entendi.
Amber até parou de soluçar, ficou chocada. Todos nós ficamos olhando para as duas rigidamente abraçadas, até que Amber acabou colocando um braço ao redor de Dafne, dizendo:
– Ele disse que não ia me deixar sozinha.
Dafne a soltou e retrucou de uma forma muito voraz:
– Não vai ficar sozinha. Eu vou cuidar de você e do meu neto o quanto for preciso.
– Neta – Rose sussurrou. Dafne a encarou como se tivesse sofrido um espasmo. – Desculpe.
Ela se levantou, com disposição para alguma coisa.
– Meu filho não vai ficar internado aqui, é só isso o que exijo. Eu não sou do país, se não notou – disse ao médico. – Como posso transferi-lo ao hospital St. Mungus?
– Dafne – minha mãe murmurou. Quero dizer... o cara era um trouxa. – Ele certamente não conhece nenhum hospital St. Mungus.
O médico não estava com a expressão confusa. Na verdade, ele abaixou o tom de voz:
– Não são trouxas?
– Não é um trouxa? – perguntei.
– Eu sou. Mas minha esposa não é. Bem, vocês são de Hogwarts? – perguntou, olhando para mim, Rose, Natalie e Albus.
– Sim – disse Al. – Tem algum filho por lá? Mais coincidências?
– Minha filha é Hanna Hathaway. Está indo para o sétimo ano.
– Espere – eu estava começando a ficar com dor de cabeça. Quase arranquei o gelo das mãos de Natalie. – O senhor é pai de Hanna? – eu apontei para Amber, como se ela fosse a Hanna.
– Ela é mestiça – disse Amber, surpresa. Surpresa? Então nem Amber estava sabendo disso até aquele momento. Bem, parecia fazer sentido agora o motivo de Hanna ter sugerido que Amber morasse na casa de mães adolescente solteiras. Pelo visto, o hospital onde o pai dela trabalha devia receber muitas garotas de lá, gritando que a bolsa havia estourado.
O sr. Hathaway falou a Dafne:
– Vou fazer a transferência de Dimitre para o st. Mungus. Só preciso preencher alguns papeis e até de manhã, ele estará com os cuidados de médibruxos, se isso deixará a senhora mais sossegada.
– Nada vai me deixar mais sossegada, doutor. Mas certamente irá me confortar saber que ele estará perto de mim enquanto... – a voz dela diminuiu um tom – dorme.
– Eu sugiro que se hospedem em um hotel por enquanto...
– Vou ficar aqui – ela teimou. – Quero acompanhar a transferência.
– Você vai querer alguma companhia, Dafne – contou minha mãe. – Vou estar aqui também.
– Não vou dizer que não preciso, Astoria.
Perguntei-me onde estaria Leon, seu marido. Ou se ele sequer se importou. Claro que não. O médico disse que ia ver as coisas da transferência e saiu da sala de espera por alguns minutos.
– Ótimo. E vocês, garotos – minha mãe se aproximou de mim. – O médico está certo quanto a vocês saírem daqui. Já viram demais. Agora as coisas estão nas mãos dos que sabem o que estão fazendo, e vocês precisam descansar.
Não contrariamos. O motorista de Natalie pegou suas chaves e se levantou para dizer a Dafne:
– Eu anotei a placa do carro que o atropelou e vou denunciá-lo. Tenho a impressão de que poderia estar fugindo de algum roubo, assalto ou qualquer coisa.
Dafne o encarou como se isso não fizesse diferença alguma.
– Por que não manda matarem o filho da puta também? Obrigada.
– Só levem eles com segurança agora – pediu minha mãe, obviamente mais educada, para o homem apontando a cabeça em nossa direção.
– Afirmativo, senhora. Vamos.
Amber hesitou, olhando para Natalie, quando estávamos saindo do hospital.
– Acho que... acho que vou ficar aqui também. Não vou conseguir descansar tão cedo.
Natalie deu de ombros.
– Tá bom.
– É que eu havia convidado ela para ficar um pouco por lá – explicou Rose.
– Aaaaah! Ah, claro – Natalie abanou a mão. – Bem, faça o que quiser, Davis, mas tem bastante sofá por lá.
– Você vai morar em minha casa por enquanto – disse Dafne a Amber. – Sua mãe não está nem aí para você? Foda-se ela. Você vai sair daqui comigo e não vai ficar sozinha.
– Por que está fazendo isso por mim, sra. Greengrass? Eu não entendo. Achei que me odiasse.
Ela lhe lançou um olhar dos pés à cabeça. Sussurrou mais para si mesma do que para Amber:
– Você me lembra alguém.
Eu até ia me perguntar quem Amber lembrava Dafne, mas então uma luz se acendeu no meu cérebro imediatamente e eu soube decifrar que Dafne estava se referindo a si mesma.
– Ela teria feito tudo diferente, se alguém a ajudasse – murmurou Dafne para si mesma.
– Eu teria ajudado se você tivesse dado alguma notícia de que estava grávida, Dafne – retrucou minha mãe, cruzando os braços.
– Você diz isso agora, Astoria. E eu agradeço. Mas naquela época? Eu me odiaria ainda mais por ter que olhar para a sua cara. Não iria ajudar nada.
Minha mãe não disse nada, mas pareceu refletir que Dafne tivesse razão. De qualquer maneira, as duas estavam se ajudando agora. Minha mãe me encarou e me abraçou de novo, antes que eu fosse embora, dizendo que tudo ia ficar bem. Eu teria ficado envergonhado que ela estivesse me abraçando na frente da minha namorada, mas entendi que o abraço dela significava que ela podia me abraçar. Dafne, por outro lado, não. Deixei que ela aproveitasse o momento e finalmente me soltasse.
Para olhar para a Rose.
– E a senhorita é a garota que roubou o coração do meu filho.
– Mãe – suspirei, mas foi tarde demais. Rose sorriu um pouco corada, e as duas apertaram as mãos.
– Prazer em conhecê-la – disse Rose. – Infelizmente não numa situação boa.
– Esse é o Albus Potter – eu apresentei meus outros dois amigos. – E essa é Natalie Grace.
– Você é a mãe do Scorpius, né? – sorriu Natalie, pegando a mão da minha mãe e a apertando freneticamente enquanto dizia: – A senhora o criou muito bem, é um garoto super educado, gentil, amoroso, simpático, nunca faltou respeito comigo. Eu o considero um amigo sem a gente nunca ter diretamente trocado nenhuma idéia. É porque ele é namorado da Rose, que é minha melhor amiga. E é o melhor amigo do Albus, que agora é o meu namorado. Eu acho. A gente é namorado? Enfim, adorei seus sapatos, sra. Malfoy.
– Nós já vamos – Albus segurou o braço de Natalie e a afastou da minha mãe. – A noite foi difícil hoje. Tchau, sra. Malfoy, sra. Greengrass.
Nós acenamos, enquanto deixávamos minha tia, minha mãe e Amber para trás no hospital. Morris nos levou para o estacionamento e entramos na limusine, calados. Ficamos calados durante todo o trajeto até a casa de Natalie. Ela ficava na estrada perto de uma praia deserta.
A casa herdada de seu pai não era uma mansão, mas mesmo assim apresentava aspectos de uma casa altamente moderna, sofisticada e muito trouxa. Não tinha torres, mas havia dois andares, um jardim, uma grande piscina no jardim, um portão que se abriu automaticamente quando a limusine se aproximou. Morris conversou com um porteiro que deixou a gente passar. Durante os meus seis anos estudando com Natalie, eu nunca pensei que ela seria um tipo de milionária. Ela não tinha o estilo de quem se hospedava em um terreno como aquele, durante as férias de verão. Agora ela estava herdando tudo aquilo, embora Natalie não aparentasse gostar de viver muito por lá.
Mesmo assim, quando entramos na casa, Natalie começou a dizer animada:
– Aqui embaixo tem cinco quartos com camas de casais, mas sugiro que sujem o lençol de uma apenas. Vocês escolhem dormir onde quiserem. No chão, no banheiro, na cozinha... fiquem a vontade. E os banheiros ficam lá em cima. Quando acordarem, cuidado com o Conrado, ele é o empregado, mas está sempre abrindo a porta do banheiro sem bater, porque ela não tem fechadura. Eu sei, mas meu pai morava sozinho, então ele não tinha motivos para trancar uma porta. Minha avó volta do trabalho dela às cinco horas da tarde, mas ela nunca fica em casa, então relaxem que estamos sozinhos.
– Sua avó mora aqui? – perguntou Albus.
– Agora sim. Ela é empresária de uma atriz idiota, mas não se preocupem. Ela nunca fica aqui por mais de dois minutos. Podem colocar suas malas onde vocês irão dormir, ok? Eu vou dar uma descansadinha agora... – Ela se espreguiçou e deitou no sofá da sala, onde havia uma televisão como a de Rose, só que muito maior e fina. Além disso, as paredes eram revestidas com pôsteres. Eram os filmes que o pai dela devia ter feito.
Achamos que ela ia continuar dando mais instruções, mas acabou pegando num sono profundo e começou a roncar.
– Eu a carrego para algum quarto – disse Albus, coçando a nuca. – Ela também está precisando muito descansar. E, Scorpius, cara... o que vimos... foi terrível. Aquele carro... se alguém tivesse previsto, poderia até ter acionado algum feitiço para impedir, mas foi muito rápido. Sinto muito. Seu primo, ainda. Sei que vocês não eram tão chegados como eu e Rose somos, mas...
– Dimitre é insistente – dei de ombros. – Imperativo. Duvido que consiga ficar mais um tempo deitado naquela cama.
Tentei soar otimista, mas não sei se deu certo.
– Vou ver se tem alguma coisa para comer na cozinha – disse Rose, dando um leve aperto em meu braço, antes de se afastar para a cozinha. Meu estômago roncou e agradeci por ela ter tido essa disposição.
Enquanto Albus carregava Natalie até um quarto, eu direcionei as minhas malas e a de Rose para outro quarto no segundo andar. Havia uma cama de casal, e uma porta de vidro que dava para a sacada. Se nada do que vi tivesse acontecido, eu já estaria preparando a melhor noite com Rose. Já estaria tirando as camisinhas das minhas malas, e nunca achei que eu fosse dizer isso, mas eu não estava pensando nisso naquele instante.
Eu sabia que meus pais já deviam ter visto coisas piores, até me senti fraco por ficar angustiado com a visão ainda nítida que tive do carro atropelando meu primo. Lembrei-me dos testrálios que tinham em Hogwarts. Da minha curiosidade estranha de um dia conhecer a aparência deles. Agora eu não tinha mais essa curiosidade.
Mesmo assim, a vista daquela casa era incrível. O céu estava iluminado de estrelas e mesmo de longe, eu podia escutar o som do mar. Misterioso. Abri a porta de vidro para ventilar o espaço. Estava calor naquela madrugada.
Depois de tomar um banho, desci para comer o que Rose havia preparado para nós.
– Só encontrei alguns sanduíches – ela se desculpou, encolhendo os ombros. Albus sorriu e beijou o rosto dela.
– Está ótimo, prima. Estou morrendo de fome. A comida do avião é terrível, vocês não acharam? Esses sanduíches parecem ótimos.
Eu me sentei à frente deles e mordi um grande pedaço. Estavam deliciosos mesmos. Na terceira mordida eu já estava preparando o segundo. Só depois que terminei o terceiro, que percebi que Albus e Rose estavam me encarando.
– Por que estão me olhando assim?
– Você está péssimo – disse Rose, piscando.
– Eu estou bem, tá legal? Quem não está é o Dimitre. O que a gente pode fazer? Nada, certo? Eu não vou ficar me remoendo. Merdas acontecem.
– É que... – explicou Albus – nós não conseguimos pensar dessa forma. Se um de nossos primos sofresse um acidente desses...
– Bem, vocês não estão ajudando em nada – eu me alterei, levantando-me. Joguei o prato na pia. – E vocês são muito diferentes de nós.
– Desculpe, não queríamos... – Rose olhou assustada para mim.
– Não falem nada. Sério. Nada do que vocês vão dizer é alguma novidade para mim, vocês são muito previsíveis. Não preciso ouvir.
Saí da cozinha para ir me deitar. Embora o zunido do meu ouvido tivesse parado desde que saí do hospital – ou que descobri que Dimitre estava em coma, e não totalmente morto –, eu estava com uma dor de cabeça do caralho. Eu tirei minha camisa e minha calça, enfiando-me embaixo dos lençóis de cueca mesmo, porque o calor também não ajudava em nada.
Eu não me lembro de ter sentido Rose se deitar ao meu lado antes de pegar no sono, o que aconteceu rápido, embora eu ainda visse por trás das minhas pálpebras o atropelamento em lembrança fresca e nítida. Sei que fui injusto dizendo aquelas coisas para Al e Rosie, mas eu estava exausto. Estressado. E Rose e eu não éramos casados para dormirmos a toa na mesma cama. Ela podia achar um lugar melhor para a sua privacidade, eu não estava esperando dormirmos ali, se não fosse para transar.
Tive um pesadelo, onde eu revivia o atropelamento e a buzina forte do automóvel. No sonho, eu tinha sentimento de ódio dos trouxas, porque aquilo era obra deles. Nunca tive esse sentimento, principalmente porque fui ensinado que a segunda guerra bruxa ocorreu por causa dessa vontade de querer liquidá-los, e que minha família sofreu bastante com isso, com esse preconceito – ainda porque eles aplicavam o preconceito. Mas eu sabia que acidentes e mortes aconteciam em todo o lugar, de todas as maneiras. Senti-me mais fraco por estar tão abalado naquele pesadelo. Eu estava completamente assustado. Eu estava trêmulo, sozinho em uma sala de espera. No sonho, fui conduzido por um médico até a sala onde Dimitre estaria em observação. Era dia de visita. Por que eu estava tão nervoso? Quero dizer, eu parecia prestes a chorar.
Quando eu entrei naquela sala, não era Dimitre na cama. Era Rose. Ela estava desacordada, com o corpo enfaixado, o rosto machucado, nos mesmos lugares que Dimitre estava quando o vi caído no asfalto, inerte. Ao lado da cama do hospital, o pai de Rose se levantou bruscamente e começou a me acusar: “Você não a salvou! VOCÊ NÃO A SALVOU! É CULPA SUA! VOCÊ QUEM DEVIA ESTAR NO LUGAR DELA!” Albus, por outro lado, chorava em minha direção: “Amigo o caralho! Você não serve para nada! Você é um inútil e um medroso!”
Ele avançou em mim, de um jeito que parecia querer me enforcar, mas minhas pálpebras se abriram imediatamente e o silêncio da casa de Natalie voltou à tona em meus ouvidos. Escutei os grilos. As ondas lá fora. Uma brisa refrescante roçou meu corpo descoberto pelos lençóis. Eu me movi muito na cama, o meu lado estava todo desarrumado, com o travesseiro em meu pé.
Sentei-me, apoiando minhas mãos no colchão. Quando olhei para o meu lado e vi que Rose estava deitada de costas para mim, senti um alívio tão grande que minha respiração ficou entrecortada. Passei a mão no rosto. Eu estava suando. Não pensei e me aproximei de Rose de uma forma gentil, arrependido por ter achado que eu não precisava dela naquele instante.
– Rose – chamei, roçando os dedos em seu braço. – Está acordada? Rosie... – coloquei uma parte do seu cabelo atrás da orelha e beijei seu rosto.
– Hum?
– Está acordada?
– Estava – murmurou com a voz mole. – Que horas são?
– Eu não sei, mas não quis ter falado com vocês daquela forma hoje.
Ela se moveu para olhar para mim através da pouca luz do quarto.
– Tudo bem, eu sei que você está nervoso com tudo o que rolou. Eu não poderia exigir...
– Eu não quero magoar você. Nem ninguém.
Ela franziu a testa.
– O que foi, Scorpius?
Lembrei do sonho que acabara de ter, Rose numa cama do hospital, no lugar de Dimitre. Provavelmente um resultado de que se não tivesse sido Amber a atravessar a rua naquele instante, eu não teria salvado Rose.
Ela analisou meu rosto, intrigada, ainda pedindo alguma explicação por eu tê-la acordado às quatro horas da manhã. No fim ela só me beijou fraquinho, desistindo de ouvir alguma coisa. Sussurrou algo como “você só teve um pesadelo”, mesmo que ela não soubesse sobre o quê. Eu não queria ser fraco com ela, compartilhando esse pesadelo. Nada aconteceu a ela, estava tudo bem, porque ela estava ali ao meu lado. Eu perguntei:
– Como consegue?
– O quê?
– Você esteve calma o tempo todo. Sei que Dimitre não é nada para você, mas... você não hesitou em nada. Correu para ver se ele estava respirando, sem medo de qualquer outra notícia. E consegue controlar as pessoas. Acalmá-las.
Ela demorou um tempinho para responder:
– Se eu passar nos N.I.E.M’s no ano que vem... presenciarei cenas mais imprevisíveis que atropelamentos. Já falei a você que meu sonho é ser médica. Não só porque a medicina me fascina, mas porque salvar uma vida quer dizer salvar a vida de muitas outras pessoas ao mesmo tempo. De uma família preocupada. Dar esperanças a elas. É isso o que eu quero alcançar profissionalmente.
– Profissionalmente? Isso já é natural para você. Sua família salvou o mundo.
Ela abriu um sorrisinho, concordando.
– Tive boas influências.
Eu me deitei novamente. Olhei para o teto e usei meu outro braço como um travesseiro para Rose, quando deitamos colados e abraçados. Ela começou a passear o dedo indicador pelo meu peito, de uma forma distraída. Ficamos em silêncio por um tempo.
– Seu cabelo está cheiroso – falei baixinho.
– Xampu novo.
– Gostei.
– Sabia que iria.
– Você me conhece.
– Sempre.
Fechei meus olhos, que estavam pesados, e no resto da noite não tive nenhum pesadelo. O aroma do xampu novo de Rose me tranqüilizou de muitas coisas.
Acordamos juntos na manhã seguinte e a casa ainda estava silenciosa. Albus e Natalie dormiam no quarto deles. Rose fez café enquanto eu preparava alguns sanduíches com atum, que tínhamos achado na geladeira. O empregado de Natalie, Conrado, era um homem corcunda e velho, e estava passando pano pela casa de um modo cansado. Ele olhou para nós na cozinha, mas em vez de dizer alguma coisa ele pegou um sanduíche e voltou a limpar a casa, cantarolando.
Rose e eu nos entreolhamos e começamos a rir baixinho. Quando terminamos de preparar a mesa, Al e Natalie desceram as escadas e nos viram.
– Vocês preparam o nosso café da manhã? – disse Natalie, passando a mão no rosto, e se sentando à mesa. – Eu quem deveria fazer isso! Sou uma péssima anfitriã...
– Está tudo bem – sorriu Rose. – Acordamos cedo mesmo, além disso... as coisas não devem estar fáceis pra você. Por que não foi ficar com sua mãe?
– O namorado dela é um pé no saco. Não vejo a hora de voltarmos para Hogwarts, mesmo que para o nosso último ano. Aqui também é um pé no saco quando só tem o Conrado como companhia.
– O tempo passou voando – comentou Albus. – Até parecia ontem que Scorpius disse para mim que odiava sapos de chocolates, no quinto ano, lembra? E já vamos para o nosso último ano.
– Você odeia sapos de chocolates? – Natalie exclamou estupefata.
– Maluco, não?
– É o meu gosto, porra.
– Claro que sim. – Natalie mastigava o pão quando olhou para nós, animada. – Tenho tudo planejado para hoje. Morris irá nos levar a praia.
– Por quê? Ela fica ali à frente... podemos ir a pé – sugeriu Rose.
– Vamos à outra praia. Um pouco longe da cidade. Tem bastante gente e as ondas de lá são incríveis.
– Você parece animada – comentou Albus.
– Eu estava ansiosa para passar o tempo com vocês.
– Hum, Natalie, você se lembra do que ocorreu ontem, certo? Com o primo de Scorpius...
– Sim – ela disse. – Mas o que isso significa? Não há nada que ele possa fazer agora, há? Não adiantará ficar se remoendo, com medo de que algo ruim de repente aconteça. Temos que aproveitar tudo, enquanto ainda estamos em pé e saudáveis, por mais que a vida seja uma merda, os amigos fazem ela valer a pena.
– Natalie tem razão – eu disse. – Estou bem, de verdade. E nunca fui a uma praia.
– Scorpius, você não teve infância – exclamou Rose.
– Está realmente precisando pegar um sombreado – disse Albus me analisando.
– Ou ficar torrado no sol, se não usar protetor solar – lembrou Natalie.
– Vamos fazer tudo isso – sugeri, sorrindo.
Eram dez horas da manhã quando Morris pegou seu carro menos chamativo para nos levar até a praia que Natalie prometeu ser incrível. Pelo visto, Morris também ia passar o dia com a gente, porque ele estava usando óculos escuros, shortes com flores, camiseta cavada e creme nas bochechas e na extensão do nariz. Não combinava muito com a arma que ele carregava no bolso. Parecia que ele ia pegar uma onda e atirar em ladrões. O que viesse primeiro.
O lugar era infestado de turistas. Foi difícil achar um espaço para estacionar o carro, mas no fim deu certo. Quando atravessamos a rua em direção a praia, algumas pessoas apontavam em nossa direção.
– Não se preocupem, eles estão acenando para mim – disse Natalie, quando Morris se adiantou a frente, segurando a prancha de surfe dela. – Vocês são famosos na Inglaterra bruxa e eu sou em Los Angeles, baby.
– Só porque você era filha de um ator? – perguntei.
– Isso significa muita coisa por aqui – ela respondeu. E agarrou o braço de Rose. – Vamos, vamos pegar um lugar na sombra, perto de onde os caras gostosos jogam vôlei de areia.
– Ei – reclamou Albus quando as duas correram para estender as toalhas na areia. E realmente tinha uns caras jogando o esporte por perto. Não era melhor do que Quadribol, mas os times pareciam se divertir. Eu também estava para reclamar que Rose fosse ficar observando aqueles homens batendo em uma bola, mas foi quando nós percebemos que a praia podia ser um inferno e um paraíso. Nunca vi tantas garotas de biquíni passando por mim em um mesmo momento. Duas delas, bastante atraentes, deram risadinhas ao passar desfilando por mim e por Albus. – Olá – ele acenou simpático.
Elas gargalharam uma para a outra, mas não responderam ao olá. Simplesmente continuaram se afastando.
– Te acharam idiota – comentei.
– Acharam você idiota – ele retrucou.
– O que isso importa? Nós temos namoradas.
– E elas estão discutindo qual daqueles jogadores é o mais gostoso – apontou para Rose e Natalie, embaixo de uma árvore. Fomos até elas. Morris sentou a um lugar mais distante, respeitando nosso espaço.
– É melhor você passar isso daqui – falou Rose, entregando-me o protetor solar. Tirei minha blusa, ficando apenas com a bermuda, e ela me ajudou a aplicar em minhas costas também. Albus pegou um boné e vestiu no topo da cabeça. Estávamos tão trouxa quanto qualquer outro daquela praia. Imaginava como meu pai ficaria se visse uma cena dessas.
Não importou muito, de qualquer maneira, quando Rose tirou os shorts e a blusa folgada, mostrando que ela vestia um biquíni verde, com alguns detalhes não muito chamativos. Ela roçou o um dedo no meu queixo, para fingir limpar a baba.
– Tonto – sorriu.
– Não posso mais admirar a paisagem?
– Vamos nadar – sugeriu, pegando minha mão, enquanto Albus e Natalie ficavam ali tomando um pouco de sol, lado a lado na areia.
Foi patético, porque eu nunca havia entrado em um mar antes, então as ondas me irritavam por estarem querendo me derrubar. Rose gargalhava alto, enquanto eu xingava toda vez que levava um empurrão da onda.
– Porra!
Ela não conseguia parar de rir, e ainda me ajudava a levantar.
– Você é patético, Scorpius!
– Essas ondas são patéticas – retruquei.
– Vai querer sair? – perguntou, em tom de zombaria. Como se eu estivesse amarelando ou algo assim. Aconteceu que uma grande se quebrou bem acima de nós, e Rose soltou um berrinho agarrando-se em mim, em meu pescoço, apertando-me com força. Quando passou, eu continuei segurando-a, e nos encaramos. Rimos um pouco. Aos poucos, fui aprendendo a lidar com a imprevisibilidade das ondas e consegui usá-las ao meu favor, por exemplo, para ficar derrubando Rose e gargalhando. Mas antes que ela ficasse irritada de verdade, eu parei e na calmaria das ondas puxei-a para ficarmos nos beijando.
Nosso dia se resumiu a nadar no mar, a saborear comidas estranhas da praia que eu nunca havia comido, e houve um momento à tarde que um grupo de amigos se aproximou de nós quatro, segurando uma bola na mão. O mais alto deles, mas que aparentava ter a nossa idade, olhou para Albus e perguntou:
– Tão a fim de jogar contra a gente? – apontou com a cabeça para seu amigo, e suas outras duas amigas. Uma loira e outra morena.
Natalie arrancou a bola da mão dele.
– Vamos arrebentar seus traseiros Hollywoodianos – garantiu, fazendo a gente andar até a quadra dividida por uma rede, aceitando o desafio.
– Esses são Will, Layla e Jane – o garoto se apresentou. – Eu sou Brad. E vocês?
– Natalie – ela apontou para si mesma. – Albus, Scorpius e Rose.
Eles se entreolharam. Layla zombou:
– Quem diabos colocaria o nome do filho de Albus?
– É um nome muito respeitado de onde venho! – retrucou Albus, ofendido.
– Rose – Will se aproximou dela. Indiscretamente, observei o engraçadinho apoiar as mãos na cintura dela. – Por que não troca com Jane e você joga no nosso time?
Ela se afastou dele, meio enojada. Quero dizer, oi? Se afasta, cara. Peguei a bola da mão de Natalie e joguei na direção do Will. Ele era lerdo e a bola bateu em seu peito.
– Vocês começam – falei. Eu não sabia como jogava, mas não devia ser mais difícil do que voar numa vassoura e acertar um balaço com um bastão.
Natalie era ótima no jogo. Pelo menos ela fez todos os pontos para o nosso time. Albus conseguia acompanhar e na terceira vez seguida que erramos, Natalie mandou a gente jogar qualquer bola para ela, que finalizava a jogava fazendo cortadas. Rose estava meio perdida no jogo, e nenhuma das jogadas que ela pegou foi porque ela sabia o que estava fazendo. Uma vez jogaram a bola na testa dela, e acabou ajudando Natalie a fazer outro ponto, o que fez a gente aplaudir. Ela ficou toda humilde dizendo “ai, gente, não fiz nada demais”. A metade do jogo, parecia que Natalie e Layla estavam levando a coisa muito a sério, porque quando uma errava a outra fazia muita comemoração.
– 20 a 19 – contou Jane e falou para os amigos dela: – Último ponto a gente vence!
– Vocês estão roubando! – protestou Natalie. – Quero dizer, a bola bateu na risca, o ponto foi nosso!
– Foi para fora, eu vi! – disse Layla com veemência.
– Então precisa colocar um óculos, que você tá cega! – ela disse.
– O quê? – Layla avançou, nervosa. Mas tinha uma rede separando as duas. – Está me ofendendo.
– E você está roubando!
– Nat – Rose exclamou –, não importa, é só um jogo. Não vamos brigar por isso.
– Eu conheço sua cara, garota – apontou Layla para Natalie. – Você é a tal filha daquele drogado, Bob Grace, não é? Garotinha mimada, tem tudo o que quer, agora fica aí mandando a gente rever a jogada.
– Cala a boca – brigou Natalie, e acrescentou baixinho: – Vadia.
– Não fala assim com a minha namorada – interrompeu Brad num tom bravo.
– E você não vem apontando esse dedo para a minha, cara – disse Albus.
– Ela chamou Layla de vadia. Ninguém a chama de vadia a não ser eu.
– Olha, então você é a vadia do seu namorado – Natalie estava vermelha e não era pelo fato de termos ficado expostos pelo sol a tarde toda. – Isso é romântico. Ele te coloca outros apelidos também?
– Cala a porra da sua boca se não eu vou aí fazer esse trabalho. Quero ver seu pai fracassado pagar a reconstrução dos seus dentes. Ou um salão de beleza, porque vou arrancar esse teu cabelo ruim!
– Natalie, não! – exclamou Rose e Albus, mas Natalie já tinha passado a rede e avançado em Layla. As duas começaram a se estapear, caídas no chão. Rose olhou horrorizada, mas Brad e Will estavam assistindo e encorajando Layla, para que vencesse a luta. Layla deu um soco no rosto de Natalie. Parecia ter habilidade em luta, o que foi desvantajoso para Natalie. Albus tentou separar as duas, mas acabou recebendo uma cotovelado e saiu de perto.
– Meu pai morreu, idiota! – Natalie havia perdido controle e gritou. O nariz dela sangrava. – Ele podia ser um fracassado, mas se arrependeu de tudo o que fez, inclusive de ter fodido vadias como você a vida toda!
Morris se aproximou com todo aquele peso e tirou Natalie de cima de Layla, com um braço só. Natalie tentou empurrar o seu segurança, mas não teve sucesso.
– O jogo acabou – murmurou Albus, jogando a bola de volta para Brad. Morris levava Natalie para outro espaço da praia, ignorando todo mundo que havia parado o que estava fazendo para assistir a briga.
– Ei, Rose, foi um prazer conhecê-la – disse Will, sorrindo de lado. – A gente tem que se ver de novo.
Em vez de armar outra briga por isso, Rose não respondeu. Ela se aproximou de mim e coloquei um braço em seu ombro, logo atrás de Albus, Natalie e Morris.
– Estraguei tudo – tristemente, Natalie murmurou no carro quando decidimos voltar para a casa. O sol já estava sumindo. – Queria ter me controlado, mas não consegui. Eu tinha essa visão de que a semana seria incrível, mas veja só o que aconteceu. Fui bêbada buscar vocês no aeroporto, Dimitre foi atropelado e está em coma, meu nariz está sangrando porque encontrei uma garota que não era fã dos filmes do meu pai... Desculpem, gente.
Rose segurou a mão dela, daquela forma que só ela sabia reconfortar.
– Não estamos zangados com você.
– Ainda bem. Porque não quero que vão embora – disse com sinceridade.
– Não vamos – prometeu.
Nós realmente não fomos embora.
A casa era confortável e decidimos passar o resto da noite aproveitando o lugar. Havia sala de jogos, filmes para assistir. Em outras palavras, não ficamos entediados, e isso era o mais importante.
Pouco antes da janta, uma coruja pousou a janela do primeiro andar e Natalie me chamou. Era uma carta para mim. Da minha mãe.
Dimitre já está internado no hospital St. Mungus, com médicos bruxos cuidando de seu estado grave. Volte quando sentir que precisa, e se divirta bastante. Amber vai passar os últimos meses de gravidez na casa de Dafne mesmo. É só esperar que, com o tempo, as coisas melhores. Aproveite com seus amigos! Vou enviar mais notícias se tiver.
De algum modo, fiquei um pouco mais sossegado depois de ler a carta.
Durante o filme que assistíamos, Natalie convidou Albus para passearem pela praia deserta naquela noite, deixando Rose e eu sozinhos na sala. Ela encostou-se mais a mim enquanto víamos o final do filme na tela da televisão. Eu segurei uma mecha do seu cabelo, distraído. Pensei em dizer alguma, qualquer coisa, mas Rose olhou para mim silenciosamente, segurando desejos e expectativas. Descobri que não precisávamos de palavras às vezes. Eu apenas segurei o queixo dela e trouxe seus lábios para os meus. Minhas mãos prensaram em seu cabelo, nossas bocas juntas e as línguas se tocando. Rose entendeu o recado, puxando meu rosto para aprofundar o beijo.
Momentos depois, nossas roupas estavam espalhadas pelo chão daquele quarto em que dormimos. Nossos movimentos sobre a cama eram leves, lentos. Os gemidos dela me deixavam excitado, assim como as pernas dela que me trancavam e me colavam contra seu corpo delicioso. Seus dedos prensavam minha pele nas costas. Acariciei o rosto dela, e ela abriu um sorriso calmo para mim. Pensei em como nunca fiquei tanto tempo com uma garota antes. Mas o tempo parecia ser o que menos importava, porque eu nem estava contando. Talvez nem ela estivesse se preocupando com isso. Beijei seus ombros quando ela se deitou de bruços. Colei meu peito contra suas costas e as minhas mãos agarraram seus seios rígidos. Rose não reclamou da posição, na verdade ela estava me chamando baixinho, desesperada, excitada, para ela. Obviamente obedeci, descendo a mão direita para acariciar seu clitóris, e a outra para segurar seu quadril, enquanto guiava meu membro em sua intimidade. Aquela posição me enlouquecia, e com nossos corpos em movimento... Rose nem sequer abafou os gemidos.
Eu os amava. Demonstravam que eu estava sendo o suficiente. Meu coração parecia ter se encolhido, difícil era conseguir respirar e eu dizer alguma palavra sem ser em gemidos. Eu só ofegava, penetrando Rose, e murmurando coisas para ela, coisas que eu sentia o tempo todo.
Antes de acabar completamente, Rose ficou sobre mim, cavalgando-me. Ela atingiu o orgasmo naquela noite. E me abraçou como sempre fazia depois que transávamos. Suados e ofegantes, ficamos apenas nos encarando. Nenhuma palavra. Eu não precisava agora. Por fim, depois que nos refrescamos no banho, colocamos de volta nossas roupas para sairmos dali. Segurando a mão dela, andamos até a praia no intuito de encontrar Natalie e Albus. Não foi difícil, porque avistamos uma pequena fogueira, sendo a única iluminação da praia, e avistamos os dois por perto.
Albus estava assando alguns espetinhos no fogo e entregou um deles para Rose quando ficaram prontos. Ela sentou ao lado de Natalie, que segurava um violão.
– Você sabe tocar? – perguntei.
– Um pouco – respondeu. Albus fez um muxoxo, então ela decidiu ser franca: – Tá, na verdade eu toco pra caralho. Querem ouvir?
– Queremos – disse Rose. – E cante também.
– Eu estava esperando esconder esse talento, mas se insistem – sorriu, pigarreando antes de soar as primeiras acordes do violão, animados.
Ela tinha uma boa voz e parecia saber o que estava fazendo. Rose, pelo visto, conhecia a música e murmurava a letra como se não quisesse estragar a apresentação de Natalie. Mesmo assim, Natalie deu um empurrão no braço dela e exclamou: “solta essa voz, ruiva”, sem parar de tocar o violão. No final, acabou que as duas começaram a berrar, e não a cantar. Albus também não escondeu o fato de que sabia cantar a música. Pareciam bêbados, mas só estavam animados. Natalie ficou tocando outras músicas depois, mais lentas, do tipo com letras melosas. Mas isso parecia diverti-la tanto que não ousei pensar em críticas. Quando cantava, Natalie sorria. E ela não era de sorrir a toa.
Rose sentou na areia e se ajoelhou atrás de mim, abraçando-me com o queixo apoiado em meu ombro. A gente continuou ali, comendo marshmallow numa fogueira na praia deserta, em um mundo trouxa. Parecia ser típico, mas nunca fizemos aquilo antes. Pelo menos não com trilha sonora, com a sensação de que, independente do que fosse acontecer em nossas vidas dali em diante – não tínhamos o poder de mudar o passado –, nós estaríamos ali um pelo outro.
A primeira parte de Money Honey termina no capítulo 19. A partir do 20, a gente passou a conhecer a visão “adulta” da Astoria.
Em Born For This não vai ser diferente. Não foi nem calculado, e esse é o último capítulo da primeira parte também. Os próximos capítulos serão como uma segunda temporada. A fic já tem cinco meses e só dividindo ela em partes que consigo organizar os acontecimentos. Tem bastante coisa pra rolar por causa dos primeiros 19 capítulos, tipo a explicação da morte de Markus – q vcs estão curiosos! –, Dimitre em coma, Amber, Dafne, a bebê que vai nascer. Relação concreta entre a família Malfoy e Weasley. Como Rose, Albus, Natalie e Scorpius estarão no sétimo ano nessa Parte II, vão ter que decidir o que fazer da vida depois, e vamos abordar isso. Novas personagens podem aparecer também.
Querem mais? Apóiem a segunda parte de BfT!! E MTO OBRIGADA, amo todos os seus comentários e espero por eles a cada capítulo postado =)
To be continued.