And you said it don’t matter
Sabíamos que seria difícil. Tínhamos previsto a possibilidade de erro desde o inicio. Estávamos preparados para qualquer coisa. Prometemos não guardar rancor caso o desrespeito surgisse. E acho que foi por isso que sobrevivemos à tanto caos. Mas nenhum de nós poderia, ou estava preparado para a dor.
O fim veio como uma pancada. Foi mais doloroso do que lamentável e mais triste do que realmente deveria. Mas creio que o fim, por mais passivo e silencioso que seja, é sempre triste. No meu caso, o fim foi recheado com a mais pura e refinada culpa, embora tenha sido concedido com alívio.
Chorar foi uma coisa que pude dispensar com facilidade, mas ela, visivelmente, não hesitou em derramar suas lágrimas.
Olhar para ela agora, afogada no próprio choro e encolhida no sofá, torna difícil ver a real pessoa que conviveu comigo durante um ano da minha vida. A meu ver, ela parece frágil e indefesa, embora me lembre claramente de sua personalidade quando tudo ainda estava bem.
Vê-la chorar era tão comum, que, aos poucos, esta cena parou de me perturbar. Será que ela era feliz? Afinal, ela chorou tanto. Era estranho me dar conta disso apenas agora, pois convivi com ela durante muito tempo. Mas minha mente insistia em jogar milhões de imagens de seu sorriso na minha cara.
Acho que essa era a origem de minha culpa.
I’m getting tired of asking
This is the final time
So, did I make you happy?
Because you cried an ocean
But there’s a thousand of lines
About the way you smile
Written in my mind
But every single word’s a lie
Foi difícil, mas eu consegui enxergar o que havia de errado. Não era eu. Era ela. O problema sempre foi ela. E não consigo ver o porque, mas não posso dizer que me magoei mais do que me aliviei. Seria mentira. Fico feliz por finalmente ter um motivo para acabar com tudo. E esse motivo me foi concedido quando peguei o suposto amor da minha vida na cama com outro homem à pouco mais de duas horas. Não era perfeito? O motivo exato, na hora exata e a culpa pode (e deve) ser considerada como dela.
Eu havia chegado a casa e ido para o quarto, certo de que a encontraria dormindo. Porém, o que encontrei foi minha mulher deitada, nua, ao lado de uma criatura do sexo masculino. Machucou ver tal cena. Mas, diante dos últimos acontecimentos, não posso dizer que fiquei mais do que magoado. Talvez um pouco decepcionado.
I never wanted everything to end this way
But you can take the bluest sky and turn it gray
Em um dado momento, eu cheguei a pensar que a culpa era minha. Isto é, deveria haver algum motivo para que ela fizesse isso comigo. E a única resposta plausível que me veio foi que eu não dei refugio à ela quando esta precisou.
Havíamos perdido um filho pouco depois do parto. Ela ficou acabada por conta disso e eu me fechei ao redor de mim mesmo, torcendo para acordar e descobrir que era só um pesadelo ridículo. Enquanto eu fazia isso, ela sofria, chorava.
Tenho que admitir que as vezes que ela procurou minha ajuda, eu não estava disponível. Assim como quando eu procurei ajuda-la, e acabamos brigando. Ela esfregou na minha cara os últimos acontecimentos e disse que eu não dava à ela o apoio necessário. Lembro-me de prometer mudar aquilo e ela retrucar, dizendo que já não importava mais.
I swore to you that I would do my best to change
But you say it don’t matter
Mas, entenda, eu não podia imaginar que ela, a mulher da minha vida, fosse procurar refugio nos braços de um outro homem. Sim, eram tempos difíceis, mas nem por isso eu saí de casa, procurando refugio em outra pessoa que não ela.
Tive a sensação de sempre saber que havia algo de errado, embora não soubesse exatamente o que era.
A cena que presenciei a pouco me fez perceber que já não a amava mais como antes e me fez vê-la de um modo diferente. Me fez questionar o amor – se ele realmente nos deixava cegos. Me fez perguntar a mim mesmo se o amor era uma coisa boa, com a exceção de alguns casos.
I’m looking at you from another point of view
I don’t know how the hell I felt in love with you
I’d never wish for anyone to feel the way I do
- Ronald… - ela me chamou, retirando-me de meus devaneios.
Foi quase um problema levantar a cabeça para olhá-la. Eu não queria encarar seus olhos.
- Ronald, olhe para mim...
Obriguei-me a fixar os olhos nela. Ela estava com os olhos vermelhos pelo choro, o lábio inferior tremia levemente.
- O que é? – perguntei.
Pude notar que ela se assustou com a frieza na minha voz.
- M-me... – ela pigarreou e tentou de novo. – Me desculpe. – conseguiu balbuciar.
- O que era para acontecer, aconteceu. Não há pelo que se desculpar. – respondi, soando mais frio do que deveria.
Is this a sign from heaven
Showing me the light?
Was this supposed to happen?
Ela deixou que as lágrimas escapassem, manchando seu rosto bonito. Não consegui deixar de sentir pena. Como uma criatura tão miserável podia existir?
- P-por fa-favor... – pediu, soando quase histérica.
Entenda, eu até a perdoaria. Diria que poderíamos começar de novo. Diria que tentaríamos ter outro filho. Diria que ela poderia encontrar um emprego que a agrade (embora ela nunca tenha gostado de trabalhar). Diria para ela procurar um psiquiatra, para que cuidasse de sua depressão.
Sim, eu poderia,
Mas não acho que conseguiria conviver com a dor. Não acho que conseguiria deitar na cama e dormir, com a desconfiança de que ela poderia estar se encontrando com outro homem pelas minhas costas.
- Sinto muito.
Ela se desesperou.
- Ronald, não é o fim! – exclamou, ajoelhando-se na minha frente. – Não pode simplesmente desistir de tudo.
- Sinto muito. – repeti, dando de ombros. – Vou dar até amanha para você arrumar suas coisas e sair. – acrescentei. – E não tente voltar. Não tem volta.
Ela arfou.
- Não pode ser um adeus. Deve haver outra maneira.
I’m better off without you
So you can live tonight
And don’t you dare come back and try to make things right
‘Cause I’ll be ready for a fight
Eu perdi a paciência e, resistindo ao impulso de esbofetá-la e leva-la para fora arrastada pelos cabelos, agarrei seus braços e a coloquei de pé.
- Eu não queria dizer adeus, Lilá. Mas ultimamente é você quem coloca as palavras na minha boca.
Sem dizer uma palavra, Lilá Brown foi para o quarto reunir suas coisas.
Quando comprei esta casa, nunca pensei que tudo fosse acabar aqui. Foi quase doloroso vê-la ir ao quarto fazer as malas para ir embora. O que eu faria naquela casa enorme, sozinho?
I never wanted everything to end this way
But you can take the bluest sky and turn it gray
I swore to you that I would do my best to change
But you say it don’t matter
I’m looking at you from another point of view
I don’t know how the hell I felt in love with you
I’d never wish for anyone to feel the way I do
Calado, observei Lilá Brown sair da minha vida.
And you said (6x)
And you said it don’t matter
(I do)
And you said (6x)
And you said it don’t matter
(I do)
N/A: parabéns, Gabi.