postagem em - 01/02/12
PARTE 1 - OGDEN

1469, Inglaterra
O duque de Bordon era um homem rico. Sua grandeza vinha de suas origens, mas muito mais do que isso, dos feitos e conquistas durante suas décadas de vivência. Senhor de um poderio incalculável de terras férteis que se estendiam do norte das montanhas de Sherring até a orla cristalina dos lagos de Bordon.
Era conhecido entre os amigos e dentro de sua casta como um senhor generoso, bondoso e de caráter irrefutável. Dentro do lar todos que conviviam com ele cultivavam igual admiração pela sua personalidade ardilosa.
Sua esposa Jane, uma senhora educada de origens aristocratas como ele, havia a vinte e seis primaveras atrás lhe presenteado por ser seu exímio esposo e senhor, com um glorioso bebê. Um garoto de pulmões fortes e maxilares duros, perfeito como todo herdeiro deveria ser. Aquele fora o dia mais feliz daquele duque: ter o primeiro filho homem era uma benção para qualquer nobre.
Quanto mais os anos se estendiam mais ao duque de Bordon, que ainda não havia recebido este título, entendia que teria de abandonar seu ofício no exército se quisesse continuar a participar do desenvolvimento do primogênito. E assim ele fez, quatro primaveras após o nascimento da criança, o duque abandonou de vez suas obrigações oficiais para se engajar numa vida campestre e caseira, mas nem por isso menos rentável.
Enquanto comprava terras e mais terras e as enchia de algodão e trigo, o ex-oficial foi pouco a pouco se transformando na figura afortunada e inexorável que era agora. Tudo isso sempre acompanhando todos os movimentos do filho que veio se tornar seu único herdeiro, quando Jane adoeceu seis anos após o nascimento do rebento.
Entretanto, a vida era boa no campo para ele, e se tornou apenas melhor ao passar dos anos, a cada dia em que seu garoto se tornava mais forte, mais corajoso, mais parecido com ele.
Hoje era mais um dia de felicidade na vida do velho Duque. A música era alta e melodiosa, e um cantor realmente talentoso, vindo especialmente da corte como um presente do Rei, cantava com sua garganta de ouro uma canção dedicada ao filho.
No meio do salão de festas, dentro do castelo, centenas de convidados do mais alto padrão aglomeravam-se para ver o aniversariante demonstrar suas habilidades galanteadoras numa valsa com a prometida noiva. Aplausos, risadas, admiração, prestígio... Tudo o que o Duque de Bordon e seu filho, o aniversariante, estavam acostumados a ter.
— A futura esposa de Ogden é indiscutivelmente bela, caro Duque. — disse o marquês Finningham, sentando ao lado do duque que ocupava a mais alta cadeira do salão de danças.
— Claro, meu filho é um Carter. O bom gosto está em seu sangue. — vangloriou-se o duque, alisando as suíças cinzentas.
No meio do salão, Ogden, vestido numa exuberante túnica azul marinho com detalhes em prata, havia enlaçado Mademoiselle de Paxton pela cintura e rodopiava com o corpo esguio da noiva na frente dos convidados. A coluna ereta, o porte atlético, o olhar verde, fixo e penetrado na parceira de dança, apenas faziam ressaltar a todos que Ogden era um exímio cavaleiro.
— Ela me faz lembrar da sua senhora falecida, por vezes. ― continuou o marquês que já tinha tantos anos de vida quanto o duque ― Se for como Jane, dará um afortunado casamento a Ogden, com todo o respeito, caro amigo.
— Sim, sim. — refletiu o velho, ainda que não se lembrasse com tanta nitidez assim do rosto e dos modos da esposa morta há vinte anos. — Mas o que o trás a Bordon, além do desejo inquietante de rever seu afilhado após 6 anos completando o vigésimo sexto ano de vida? — perguntou o duque de forma irônica.
A senilidade poderia ter lhe tirado a memória dos dias vividos com Jane, mas continuava vigente nas lembranças compartilhadas com Finningham. Ambos haviam servido a Inglaterra, fizeram parte do mesmo regimento e conheciam muito mais um do outro do que gostariam. Portanto, o duque sabia quando o antigo companheiro estava rodeando o terreno para pousar suavemente feito uma ave de rapina.
— Receio que este não seja o melhor local. ― avaliou o marquês com a voz levemente tensa. ― Embora seja o melhor momento.
— Certo. ― suspirou o duque — Me siga, então. ― ordenou, erguendo-se imperiosamente do seu assento, deixando Ogden continuar comandando o espetáculo aos anfitriões.
Uma vez dentro da Sala de Pedra, nos aposentos superiores, o duque fechou a porta de carvalho selando qualquer ruído que os convidados da festa estivessem fazendo no salão. Aquela sala havia sido projetada especificamente para ocultar conversas e abrigar discussões importantes como a que o duque sentia que aconteceria agora.
Dirigindo-se a escrivaninha ele se serviu de uma dose generosa de vinho, mas não se deu ao trabalho de oferecer algo ao outro.
— Meu afilhado se transformou em um homem maravilhoso, realmente. Estou orgulhoso pelo o que vi e vejo hoje à noite. — comentou Finningham.
— Me poupe desses elogios maquiados. Ogden não precisa disto. ― resmungou, grosseiramente — O que havia de tão importante a me dizer, Finningham?
— Que safra é esta? — indagou o outro, ignorando a pergunta do duque.
— Diga de uma vez! ― ordenou o velho, fitando o marquês que ficou ereto e muito sério ao pé da lareira crepitante.
— Eu vim adiando isto há alguns dias, mas quando a confirmação veio não pude mais ignorar. ― balbuciou. ― O que temíamos aconteceu... Aconteceu, meu velho amigo...
— O que temíamos sobre o quê? — questionou-o, ligeiramente confuso.
Como se momentaneamente carregasse um fardo pesado demais sobre os ombros o marquês sentou-se na poltrona mais próxima e enterrou as mãos enrugadas e trêmulas, nos cabelos grisalhos.
— Ele voltou. Ele sobreviveu há todos esses anos e voltou...
A mão do duque afrouxou por um segundo, fazendo o copo de vinho espatifar-se contra o chão. O choque daquela notícia em segundos começou a percorrer-lhe todos os músculos, fraquejando-os. Logo ele também sentiu que precisava de uma poltrona para apoiar-se sobre o impacto daquele fato.
— Não pode ser verdade, Finningham. — conseguiu dizer após longos minutos em silêncio — O enviamos a própria sorte. Um homem num barco no meio do Atlântico. Sozinho. Ele era apenas um homem!
— Nós dois sabemos que ele não era um homem comum, ou será que você se esqueceu daquela noite, caro amigo?! — disse o marquês com os olhos injetados de pavor.
— Cale a boca, seu verme! — brandiu o duque de Bordon, num acesso de raiva — Eu disse para você nunca tocar nesses assuntos aqui, no meu castelo.
— Como não tocar se tudo está diretamente relacionado a ele?
O duque voltou a erguer-se da poltrona, sentindo agora um novo sentimento se apoderar de si — a descrença.
— De onde tirou essa informação absurda, afinal?
— Eu o vi pessoalmente. Foi no dia que fui para o porto cuidar do carregamento de chá, atrasado há uma semana. Ele estava lá, rodeado de uma tripulação mestiça e selvagem. Me reconheceu ao primeiro olhar, mesmo depois de tantos e tantos anos... ele não esqueceu meu rosto.
— Ora, não seja tolo! — exclamou o duque farto dos temores do outro. — Como pode ter tanta certeza?
— Por que, — murmurou o amigo, erguendo-se da poltrona e aproximando-se do duque sob a luz bruxuleante da lareira. — ele disse seu nome. Ele me olhou nos olhos e disse “Diga ao Charles que estou indo lhe fazer uma visita dia desses. Em nome do Rei.” Sim, foi exatamente isto que ele disse.
Naquele momento Charles Carter, um ex-oficial inglês, o Duque de Bordon, rezou para que seu companheiro Finningham estivesse apenas delirando com a chegada da idade.