A VÉSPERA
Uma caixa de ferramentas levitou bem na minha frente.
Ela saiu pela porta da cozinha, levitando a meio pé do chão, e passou bem na minha frente, lentamente, indo em direção a porta aberta da rua. Eu a acompanhei com olhos vidrados.
Estou sentada no sofá onde ‘me desovaram’ há quase uma hora.
Sei que não foi por mal.
Meu marido saiu com o marido de Molly para conversarem sobre a vida e aquelas coisas idiotas que homens gostam de fingir que falam apenas para não admitirem que bebem e arrotam, sem trocar nenhuma palavra realmente inteligente.
Minha filha e a futura cunhada haviam entrado pela lareira e desaparecido atrás da costureira, uma tal de ‘madame- alguma - coisa’. Depois haviam voltado e se trancado do quarto da noiva de Harry Potter, a pequena Wesley. Aparentemente os estilistas trouxas não entendiam nada de moda.
Bem, esperava que ela tivesse o mínimo de discernimento e não se vestisse parecido com o que a matriarca deles usavam.
Não que eu não goste de Molly Wesley. Até gosto. Mas ela é mãe demais. Esposa demais.
Eu fui criada para ser esposa e profissional. Tenho meu consultório odontológico. Tenho meus amigos. Tenho uma filha e uma casa arrumadinha. Mas isso não quer dizer que eu também não seja uma mulher atualizada, que pensa em mim e na minha vida.
Mas ela, Molly, não. Tudo é sobre os filhos. Tudo é sobre a casa e o marido.
Ok, com sete filho, a coisa complica, mas mesmo assim, não me sinto a vontade com esse estranho método de viver.
Ainda mais que é inevitável notar como todos parecem amá-la. Filhos perfeitos. Garotos – e garota, claro – fortes, bonitos e independentes. O fato de terem uma origem pobre, apenas servia para realçar os feitos de cada um. Como se ela também não pudesse ter feito o mesmo!
Eu sabia que deveria estar na cozinha ajudando na confeitaria da festa. Mas não suportei aquele jeito superior dela contando as macelas de seus filhinhos!
Se isso é inveja? É claro que não!
Só acho desnecessário alguém ficar se gabando dos seus feitos! Afinal, eu também tenho uma filha bem sucedida! E inteligentíssima!
Mas isso não parece muita coisa se pensar com quem ela vai casar. Ah, vida! Eu suspiro pela milésima vez.
Ok, ele é um bom garoto. É bonito, inteligente, divertido. Está se saindo muito bem no time em que joga e ganha bem. Daria o tão sonhado futuro que planejei para ela, mas mesmo, assim, tem alguma coisa nele que não me deixa simpatizar totalmente com ele.
Talvez seja essa mãe que ele tem. Ou esses irmãos. Ou essa caixa de ferramentas levitando na minha cara, de volta a cozinha!
Será que custa eles darem dez passos e a apanharem e recolocarem no lugar do jeito tradicional???
Ah, sim, eles tem magia. E daí? Até parece que isso decide tudo: eu tenho magia, você não!!!!
Coisa infantil!
Tento me lembrar de meu próprio casamento, da véspera, quando minha mãe e eu ficamos juntas, planejando, rindo, chorando juntas. Não havia pessoas entre nós. Não havia melhores amigas, ou cunhadas com sotaque francês!
Ah, não! Lembro-me bem, meus pais deram a festa e foram responsáveis pela cerimônia. Meu pai ficou três anos pagando o bufe! Mas era assim que as coisas deveriam ser!
Mas, obviamente, que não. Somos trouxas, e minha filha não quer uma cerimônia trouxa. E justamente meu marido que deveria me apoiar e insistir em fazer a festa pareceu bem aliviado em não gastar doze mil dólares numa recepção! Mão de vaca! Unha de fome!
“-É a nossa única filha, Antonio! Temos que insistir!”.
-Eles não a querem do lado deles? Então que paguem! – ele disse sorrindo bem contente depois do jantar, quando estávamos sozinhos bebendo um café.
-Ah, claro! O que você não faz para poupar uns trocados! – digo magoada
-Relaxe, será uma cerimônia inesquecível!”
Tolo. Desde que achara ter sido responsável por matar o garoto naquela queda de avião, que ele se tornara bem conivente com o genro que ela nos arrumou.
Outro dia os flagrei conversando sobre aquele estranho esporte que ele prática. Depois foi sobre a política trouxa e a bruxa, o ponto em comum. Outro dia, sobre a desvalorização do dinheiro e o consumismo do mundo...Tudo isso com um copo de caipirinha não mão, obvio!
“Estou tentando ser amigo do homem que minha filha escolheu.”
Ele havia me dito quando questionei. Amigo? Sei.
Ele estava era adorando ter quem concordassem com ele, isso sim.
Meus olhos se arregalam quando um bebê vem levitando pela sala. Era o filho de alguém que eu jamais poderia identificar, levando em conta que era tão ruivo quanto os outros. Mas aquilo era demais para mim!
Levanto e ando pela sala, decidida a entrar na cozinha e dizer que quero ir embora!
-Mãe!
Eu olho para a escada e perco a fala. Era ela. Olhava para todos os lados como se temesse ser vista por alguém indesejado. Provavelmente o noivo.
Ela veste um vestido de sonhos. Longo e rodado na medida certa, de um tule muito leve e vaporoso. Tomara que caia com o decote arredondado, coberto por pequenos cristais. Os cabelos estavam presos num coque, com fios soltos nas costas, ondulados e naturais. A tiara o decorava com pequenas flores. Não havia véu, nem buquê. Na verdade se olhasse bem, lembrava mais um belo vestido de noite que propriamente um vestido de noiva.
Mas seus olhos brilhavam tão intensamente animados em me mostrar que eu sorri emocionada e subi as escadas para abraça-la.
Ela me puxou pela mão para dentro do quarto onde a caçula ‘deles’ também estava vestida com uma espécie de túnica vermelha, acentuada e rebordada com pedrarias. Havia uma quase idêntica, em verde aveludado.
-Essa é para você, mãe. Se quiser usa-lo, claro. – ela diz rápida e corada.
-É linda, Hermione. Não havia escolhido ainda a minha roupa. É de muito bom gosto. – eu minto, pois já tinha minha roupa separada, mas assumo que essa é mais bonita.
-Todas as mulheres com ligação de família devem vestir roupas semelhantes na cerimônia – explica Ginerva – Mamãe, Fler, Giulia, mulher do Carlinhos, e a pequena Ann Mary, filha do Guilherme com Fler, também. E logicamente, a senhora.
-Foi muita gentileza terem lembrado de me incluir.
Tanto Hermione quando Gina pareceram não me entender. Eu deixo a túnica sobre a cama e seguro as mãos da minha filha com todo amor que tenho dentro de mim.
-Eu estou me sentindo perdida, Hermione. Sem saber como ajudar, como participar desse seu momento. Por outro lado, estou tão feliz em vê-la feliz que isso já não importa mais. Quero tanto que seja feliz, tanto!
-Oh, mãe! – ela me abraça como quando era garotinha e então rimos como tolas.
E talvez sejamos. Nossas vidas, não são iguais. Nossos mundos também não. Mas temos a maior ligação do mundo: o amor.
FIM
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