O jovem sentou-se diante de Gina, calado e taciturno. Não mexia as mãos nem olhava pela janela. Raras vezes o fazia. Em vez disso, ficava sentado na cadeira, cabisbaixo, e olhava os joelhos. Estendia as mãos sobre as coxas, os dedoos finos, as juntas um pouco aumentadas pelos estalos nervosos. As unhas estavam roídas até abaixo do sabugo. Sinais de ansiedade, embora as pessoas muitas vezes atravessassem a vida bastante bem, estalando, sacudindo e mastigando a si mesmas.
Também era raro ele olhar para a pessoa com quem falava, ou, mais corretamente nesse caso, a pessoa que falava com ele. Toda vez que ela conseguia olhá-lo nos olhos, sentia ao mesmo tempo uma pequena vitória e uma pequena pontada. Via tão pouco nos olhos dele, pois o paciente aprendera em tenra idade a esconder e se proteger. O que via — quando lhe era dada até mesmo essa chance rara e rápida de olhar — não era ressentimento nem mRonyo, apenas um traço de tédio.
A vida não fora justa com Tom Riddle Jr., e ele não correria o risco de receber outro golpe abaixo da cintura. Em sua idade, quando os adultos o solicitavam, ele preferia o isolamento e a incomunicabilidade como defesa contra a falta de opção. Gina conhecia os sintomas. Ausência de emoção exterior, de motivação, de interesse. Ausência.
De algum modo, por algum caminho, ela precisava encontrar o gatilho que o fizesse voltar a gostar primeiro de si mesmo, e depois do mundo à sua volta.
Era velho demais para ela fazer jogos com ele e jovem demais para tratá-lo no nível de adulto para adulto. Tentara as duas coisas, e ele não aceitara nenhuma. Tom Riddle plantara-se firme num espaço intermediário. A adolescência não era apenas difícil para ele, era infeliz.
Usava calça jeans, boa, resistente, com a braguilha de botões alardeada em comerciais berrantes, e um suéter folgado de moletom com a tartaruga aquática de Maryland rindo no peito. Os tênis de cano alto da Nike eram modernos e novos. Tinha os cabelos castanhos cortados em pontas simples em volta do rosto fino demais. Por fora, parecia um garoto de catorze anos normal. Todos os penduricalhos da adolescência em cima. Por dentro, um labirinto de confusão, ódio a si mesmo e ressentimento, que Gina sabia que nem sequer começara a tocar.
Lamentável que, em vez de ser uma confidente, um muro de lamentações ou mesmo uma folha de papel em branco para ele, ela fosse apenas mais uma figura autoritária em sua vida. Se uma única vez Tom tivesse desabafado, gritado ou discutido com ela, Gina teria achado que as sessões progrediam. Durante todas, ele permanecia educado e indiferente.
— O que sente em relação à escola, Tom?
Ele não encolheu os ombros. Era como se o movimento pudesse transmitir algum dos sentimentos que mantinha tão trancados dentro de si.
— Legal.
— Legal? Eu achava que é sempre meio difícil mudar de escola.
Ela lutara contra isso, tentara tudo a seu alcance para convencer os pais a não fazerem uma mudança tão drástica àquela altura da terapia. Más companhias, eles disseram. Iam afastá-lo das pessoas que o influenciavam, que o atraíram para o álcool, um breve flerte com drogas e um namoro igualmente rápido, porém mais inquietante, com o ocultismo. Os pais haviam conseguido apenas aliená-lo e despedaçar-lhe um pouco mais a auto-estima.
Não foram as companhias, más ou não, que levaram Tom a qualquer dessas jornadas. Foram a própria depressão, se movendo em espiral, e a procura de uma resposta que ele julgasse completa e apenas sua.
Como não encontravam mais baseados nas gavetas da cômoda do filho, nem sentiam cheiro de bebida alcoólica em seu hálito, os pais tinham confiança em que ele começava a recuperar-se. Não conseguiam ou não queriam ver que Tom continuava afundando rápido. Ele apenas aprendera a internalizar tudo isso.
— As novas escolas às vezes são uma aventura — continuou Gina, quando não obteve resposta alguma. — Mas é difícil ser aluno novo.
— Não é nada de tão importante assim — ele murmurou, sem deixar de olhar os joelhos.
— Que bom saber — ela disse, embora soubesse que era mentira. — Eu tive de trocar de escola quando tinha a sua idade e fiquei morta de medo.
Ele ergueu os olhos então, não acreditando, mas interessado. Olhos castanho-escuros, que deviam transmitir eloqüente expressividade. Mas eram defensivos e cautelosos.
— Não tem nada do que sentir medo, é só uma escola.
— Por que não me fala dela?
— E só uma escola.
— E os outros garotos? Alguém interessante?
— A maioria é idiota.
— Ahn? Como assim?
— Tipo ficar zoando numa galera. Não tenho vontade de conhecer ninguém.
Ninguém que ele conhecia, corrigiu Gina. A última coisa que precisava àquela altura era sentir-se rejeitado pela escola após perder os colegas de turma aos quais se habituara. É mais difícil ficar sozinho, Tom, do que tentar conhecê-los.
— Eu não quis trocar de escola.
— Eu sei. — Nisso, ela estava com ele. Alguém tinha de estar. — E sei que é duro sentir-se como se a gente pudesse ser empurrada de um lado pro outro, sempre que as pessoas que fazem as regras têm vontade de mudá-las. Seus pais escolheram a escola porque desejam o melhor para você.
— Você não queria que eles me tirassem. — Ele ergueu mais uma vez os olhos, porém tão rápido que ela mal viu a cor. — Ouvi mamãe falando.
— Como sua médica, achei que talvez se sentisse mais à vontade na escola antiga. Sua mãe ama você, Tom. Transferi-lo não foi uma punição, mas um meio de tentar fazer tudo ficar melhor pra você.
— Ela não queria que eu ficasse com meus amigos.
Ele não disse isso com ressentimento, mas aceitação simples e categórica. Sem opção.
— Como se sente em relação a isso?
— Ela temia que, se eu convivesse com eles, começasse a beber de novo. Não estou bebendo.
Mais uma vez, não disse isso ressentido, porém exaurido.
— Eu sei — disse Gina, e pôs a mão no braço dele. — Pode sentir orgulho de si mesmo por sair dessa, fazer a escolha certa. Sei o esforço que você tem de fazer todo dia para não beber.
— Mamãe vive pondo a culpa das coisas que acontecem em outra pessoa.
— Que coisas?
— Coisas, só.
— Como o divórcio? — Como sempre, a menção disso não trouxe reação alguma. Gina recuou. — Como se sente por não ir mais de ônibus?
— Os ônibus são uma droga.
— Sua mãe leva você para a escola agora.
— É.
— Tem falado com seu pai?
— Ele está ocupado. — Tom olhou para Gina com um toque de ressentimento misturado a uma súplica. — Arranjou um novo trabalho numa loja de computadores, mas na certa vou passar o fim de semana com ele no mês que vem. No Dia de Ação de Graças.
— Como se sente em relação a isso?
— Vai ser bom. — Sucinto, o menino resplandecia de esperança. — Vamos ver o jogo dos Redskins. Ele vai comprar ingressos na área cinqüenta. Vai ser como era antes.
— Como era antes, Tom?
Ele tornou a olhar para os joelhos, mas juntou as sobrancelhas de raiva.
— É importante entender que nada vai ser como era antes. Diferente não quer dizer ruim. Às vezes a mudança, mesmo quando difícil, pode ser o melhor pra todo mundo. Sei que você ama seu pai. Não tem de deixar de amá-lo porque não mora mais com ele.
— Ele não tem mais casa. Só um quarto. Disse que, se não tivesse de pagar pensão, poderia ter uma casa.
Ela sentiu vontade de mandar para o inferno Tom Riddle pai, mas manteve a voz firme e suave:
— Você entende que seu pai tem um problema, Tom. Não é você o problema. É o álcool.
— Nós temos uma casa — ele resmungou.
— Se não tivessem, acha que seu pai seria mais feliz? — Nenhuma resposta. Tom mais uma vez baixou a cabeça. — Me alegra saber que vai passar algum tempo com seu pai. Sei que sente saudades dele.
— Está ocupado.
— É. — Ocupado demais para ver o filho, ocupado demais para retornar os telefonemas da psiquiatra que vinha tentando curar as mágoas do filho adolescente dele. — Às vezes os adultos ficam enrolados demais na vida. Você precisa saber como tudo é difícil pro seu pai agora, num novo trabalho, porque também está numa nova escola.
— Vou passar um fim de semana com ele no mês que vem. Mamãe disse pra eu não contar com isso, mas eu vou.
— Sua mãe não quer que você fique decepcionado se surgir algum imprevisto.
— Ele vai me pegar.
— Espero que sim, Tom. Mas se ele não vier... Tom... — Ela tocou-lhe mais uma vez o braço, e por pura força de vontade atraiu seu olhar. — Se ele não vier, você tem de saber que não é por sua causa, mas por causa da doença dele.
Ele concordou, porque concordar era o meio mais rápido de evitar um confronto. Gina sabia disso, e desejou, não pela primeira vez, conseguir convencer os pais de que Tom precisava de terapia mais intensiva.
— Sua mãe trouxe você hoje?
Embora ele continuasse cabisbaixo, a raiva, pelo menos por fora, passara.
— Meu padrasto.
— Você continua se dando bem com ele?
— Ele é legal.
— Há meninas bonitas em sua nova escola?
Gina queria um sorriso, de qualquer tamanho, qualquer tipo.
— Acho que sim.
— Acha? — Talvez fosse o sorriso na voz dela que o fez erguer os olhos de novo. — Pra mim, você parece ter bons olhos.
— Talvez duas. — E ele curvou um pouco os lábios. — Não presto muita atenção.
— Bem, há tempo pra isso. Vai voltar na semana que vem?
— Acho que sim.
— Me faria um favor enquanto isso? Eu disse que você tem bons olhos. Observe sua mãe e seu padrasto. — Ele virou a cabeça, mas ela tomou-lhe a mão e segurou-a. — Tom... — Esperou até aqueles olhos escuros, ilegíveis, encontrarem de novo os seus. — Observe. Eles estão querendo ajudar. Cometem erros, mas estão tentando, porque gostam de você. Ainda tem meu número, não?
— É, acho que tenho.
— Sabe que pode me ligar se quiser conversar antes da semana que vem.
Ela foi até a porta do consultório com ele e viu o padrasto levantar-se e dar a Tom um grande e afável sorriso. Era um empresário bem-sucedido, sereno e educado. A antítese do pai.
— Tudo terminado, hein? — Olhou para Gina, sem sorriso algum, apenas tensão na expressão. — Como nos saímos hoje, Dra. Weasley?
— Muito bem, Sr. Monroe.
— Isso é bom, isso é bom. Que tal pegarmos uma comida chinesa no caminho, Joey, e fazer uma surpresa à sua mãe?
— Falou. — Tom enfiou a jaqueta da escola, a escola que não mais freqüentava. Deixando-a aberta, virou-se para trás e olhou um ponto além do ombro direito de Gina. — Tchau, Dra. Weasley.
— Até logo, Tom, vejo você na semana que vem.
Vinham alimentando-o, ela pensou, ao fechar a porta. E ele morria de fome. Vinham vestindo-o, mas ele continuava com frio. Gina tinha a chave, mas ainda não conseguira girá-la de modo a abrir a fechadura.
Com um suspiro, encaminhou-se de volta à mesa.
— Dra. Weasley?
Gina atendeu ao telefone interno, guardando de volta a ficha de Tom Riddle na pasta atrás da mesa.
— Sim, Kate.
— A senhora recebeu três telefonemas enquanto estava na sessão. Um do Post, um do Sun e um da emissora de TV WTTG.
— Três repórteres?
Gina tirou o brinco para coçar de leve o lóbulo da orelha.
— Todos os três queriam confirmação de sua contratação nos homicídios do Padre.
— Droga. — Ela largou o brinco na mesa. — Não estou autorizada a fazer comentários, Kate.
— Sim, senhora.
Devagar, Gina atarraxou de novo o brinco. Prometera anonimato. Fazia parte do acordo com o gabinete do prefeito. Nada de mídia, alarde ou comentários. O prefeito lhe dera garantia pessoal de que ela conseguiria trabalhar sem pressão da imprensa. De nada adiantava culpá-lo, lembrou-se, levantando-se para ir até a janela. Vazara e teria de lidar com isso.
Não gostava de notoriedade. Esse era seu problema. Gostava da vida simples e privada. Também esse era seu problema. O bom senso dissera-lhe que a história toda viria a público antes de acabar, mas mesmo assim aceitara o trabalho. Se estivesse aconselhando um dos seus pacientes, teria lhe dito que enfrentasse a realidade e tratasse tudo um passo de cada vez.
Lá fora, o tráfego da hora do rush começava a intensificar-se. Algumas buzinas estrondeavam, mas o barulho era abafado pela janela e a distância. Tom Riddle dirigia à entrega de comida chinesa para viagem com o padrasto, em quem se recusava a permitir-se confiar ou amar. Os bares já estavam prontos para servir o "vamos tomar uma rápida antes da clientela do jantar". As creches esvaziavam-se e a multidão de mães que trabalham fora e solteiras e de papais exaustos acomodava os pré-escolares e manobrava Volvos e BMWs por grupos de outros Volvos e BMWs com uma idéia em mente: chegar em casa, ficar seguro e aquecido atrás das portas, janelas e parRonyes, junto da família. Era improvável que ocorresse a algum deles a idéia concreta de que havia alguém mais lá fora. Alguém com uma pequena bomba tiquetaqueando dentro da cabeça.
Por um momento, Gina desejou poder juntar-se a eles naquela tranqüila rotina noturna, pensando apenas num jantar quente e na conta do dentista. Mas o arquivo do Padre já se achava na sua pasta.
Ela se virou e pegou-a. O primeiro passo era ir para casa e certificar-se de que todas as chamadas fossem selecionadas e exibidas na pequena tela do celular pelo serviço de atendimento e gravação automática de mensagens.
— Quem deixou vazar? — Exigiu saber Harry e soprou uma baforada de fumaça.
— Ainda estamos trabalhando nisso.
Em pé atrás da mesa, Shacklebolt examinava os policiais designados para a força-tarefa. Rony, desengonçado numa cadeira, passando um saquinho de sementes de girassol de uma mão para outra. Finnigan, com o grande rosto corado e mãos fortes, batucava com os pés. Lilá Brown, atrás de Harry, tinha as mãos nos bolsos. Thomas sentava-se ereto na cadeira com as mãos juntas no colo. Harry olhava-o, como se fosse arreganhar os dentes e rosnar à primeira palavra de mau jeito.
— O que temos de fazer agora é trabalhar com a situação. A imprensa sabe que a Dra. Weasley está envolvida. Em vez de bloqueá-los, vamos usá-los.
— Temos sido martelados na imprensa há semanas, capitão — opôs-se Lilá. — As coisas mal tinham começado a acalmar-se.
— Eu leio os jornais, detetive.
Disse isso com moderação. Finnigan mudou de posição na cadeira, Thomas pigarreou e Lilá fechou a boca.
— Vamos marcar uma coletiva de imprensa para amanhã de manhã. O gabinete do prefeito entrará em contato com a Dra. Weasley. Potter, Prewett, como chefes da equipe, quero vocês presentes. Sabem quais informações podemos passar à imprensa.
— Não temos nada de novo para eles, capitão — salientou Rony.
— Façam parecer novo. A Dra. Weasley deve bastar para satisfazê-los. Marquem a reunião com esse monsenhor Dumbledore — acrescentou, desviando o olhar para Harry. — E mantenham isso em segredo.
— Mais psiquiatras. — Harry esmagou o cigarro. — A primeira não nos disse nada que já não soubéssemos.
— Disse que o assassino está numa missão — observou Lilá em voz baixa. — Que, embora as coisas andem tranqüilas há algum tempo, não é provável que ele tenha terminado.
— Ela nos disse que está matando jovens louras — rebateu Harry. — Já tínhamos descoberto isso.
— Me dá um tempo, Harry — murmurou Rony, saHarrydo que o mau gênio iria dominá-lo.
— Me dá um tempo você. — Harry fechou as mãos em punhos nos bolsos. —Aquele filho-da-puta só está esperando para estrangular a próxima mulher que estiver no lugar errado e na hora errada, e a gente fica sentado conversando com psiquiatras e padres. Não dou a mínima para a alma nem para a psique dele.
— Talvez devamos dar. — Thomas olhou primeiro para o capitão, depois para Harry. — Escute, sei como se sente, como acho que todos nos sentimos. Apenas o queremos. Mas já lemos o perfil feito pela Dra. Weasley. Não estamos lidando com alguém que anda por aí só atrás de sangue, de baratos. Se quisermos fazer nosso trabalho, acho melhor entendermos quem ele é.
— Você deu uma boa olhada nas fotos do necrotério, Dino? Sabemos quem são e quem eram elas.
— Tudo bem, Potter. Se quiser liberar mais pressão, vá para a academia de ginástica.
Shacklebolt esperou um instante, reunindo a todos com seu senso de autoridade. Fora um bom policial de rua. Era ainda melhor na administração. Saber disso apenas o deprimia de vez em quando.
— A coletiva de imprensa está sendo marcada para as oito da manhã, no gabinete do prefeito. Quero um relatório sobre monsenhor Dumbledore na minha mesa amanhã. Finnigan, continue trabalhando sobre o lugar de onde vieram aquelas malditas estolas. Lilá, Thomas, voltem e trabalhem sobre a família e os amigos das vítimas. Agora saiam daqui e vão pegar alguma coisa pra comer.
Rony esperou todos assinarem o ponto da saída, percorrer os corredores e atravessar o estacionamento.
— Não vai fazer bem algum a você descarregar a raiva pelo que aconteceu com seu irmão na Dra. Weasley.
— Josh nada tem a ver com isso.
Mas a dor continuava. Ele não podia dizer o nome do irmão sem ferir a garganta.
— Tem razão. E a Dra. Weasley está fazendo seu trabalho, como o resto de nós.
— Ótimo. Por acaso não acho que o trabalho dela tenha qualquer ligação com o nosso.
— A psiquiatria criminal tornou-se uma ferramenta viável no...
— Rony, pelo amor de Deus, você precisa parar de ler essas revistas.
— Parar de ler, parar de aprender. Quer sair pra tomar um porre?
— Isso vindo de um homem que anda com sementes de girassol. — A tensão continuava ao longo da nuca de Harry. Perdera o único irmão, mas Rony aparecera e quase preenchera o vazio. — Esta noite, não. De qualquer modo, me constrange ver você mandar despejar todo aquele suco de fruta na vodca.
— A gente tem de pensar na saúde.
— Também tem de pensar na reputação.
Harry abriu a porta do carro e ficou tilintando as chaves. Era uma noite fria, fria o bastante para ver a respiração no ar. Se chovesse antes da manhã, como indicava o céu sem estrelas, cairia chuva com neve. Na série de casas geminadas, restauradas e com pé-direito alto, os ricos de Georgetown iriam acender a lareira, tomar Irish coffees e apreciar as chamas. Os sem-teto podiam preparar-se para uma noite longa e desagradável.
— Ela me perturba — disse Harry de repente.
— Uma mulher com aquela aparência tem de perturbar qualquer homem.
— Não é tão simples assim. — Harry entrou no carro e desejou conseguir entender o que o perturbava. — Pego você amanhã. Sete e meia.
— Harry. — Rony curvou-se, segurando a porta aberta. — Diga a ela que eu mandei lembranças.
Harry fechou a porta e pisou fundo. Os parceiros passavam a conhecer um ao outro bem demais.
Gina desligou o telefone e, com os cotovelos na mesa, apertou a base das mãos nos olhos. Tom Riddle pai precisava tanto de terapia quanto o filho, mas se envolvera demais na destruição da própria vida para entender isso. O telefonema nada resolvera. Mas também conversas com alcoólatras de pileque raras vezes resolviam. Ele apenas chorara à menção do filho e fizera com a fala arrastada a promessa de telefonar no dia seguinte.
Não iria telefonar, pensou Gina. As probabilidades eram de que nem se lembrasse da conversa pela manhã. O tratamento de Tom dependia do pai, e o pai não se desgrudava da garrafa — a mesma garrafa que destruíra seu casamento, fizera-o perder inúmeros empregos e deixara-o sozinho e infeliz.
Se ela conseguisse levá-lo a uma reunião dos AA, fazê-lo dar o primeiro passo... Gina soltou um longo suspiro ao deixar cair as mãos dos lados. A mãe de Tom não explicara quantas vezes ela tentara, quantos anos se dedicara a afastar Tom Riddle pai da garrafa?
Gina entendia o ressentimento da mulher, respeitava sua determinação de recomeçar a própria vida e enterrar o passado. Mas Tom não conseguia. Durante toda a infância, a mãe o protegera, protegera-o da doença do pai. Dava desculpas pelas noites que passava acordado e os empregos perdidos, acreditando que devia esconder a verdade do filho.
Na infância, Tom vira demais, ouvira mais, depois aceitara as explicações e desculpas da mãe, e construíra uma parede de mentiras ao redor do pai. Mentiras em que decidira acreditar. Se o pai bebia, então beber era legal. Tão legal que aos catorze anos já o tratavam por dependência de álcool. Se o pai perdia o emprego, era porque o patrão tinha inveja. Enquanto isso, as notas de Tom na escola iam despencando cada vez mais à medida que o respeito pela autoridade e por si mesmo diminuía.
Quando a mãe não conseguira mais tolerar a bebida e ocorrera o rompimento, as mentiras, promessas quebradas e os anos de ressentimento extravasaram. Ela amontoara os defeitos do pai no filho, na desesperada tentativa de fazê-lo ver os erros e não culpá-la. Tom não a culpara, claro, nem culpara o pai. Só a uma pessoa podia culpar, e essa era a si mesmo.
A família desintegrara-se, ele tivera de sair da casa em que fora criado e a mãe passara a trabalhar fora. O menino afundara. Depois que a Sra. Riddle se casara de novo, foi o padrasto de Tom quem insistira na orientação psicológica. Quando Gina começara a vê-lo, Tom tinha treze anos e meio de culpa, ressentimento e dor para atravessar com dificuldade. Em dois meses, ela mal fizera uma mossa na armadura usada por ele — nas sessões privadas ou na orientação familiar duas vezes por mês com a mãe e o padrasto.
A raiva tomou-a com tanta rapidez que ela teve de sentar-se durante vários minutos e reprimi-la. Não era sua função enfurecer-se, mas ouvir, perguntar e oferecer opções. Compaixão — podia permitir-se sentir compaixão, mas não raiva. Por isso ficou sentada, com a raiva recuando, lutando contra o controle com que nascera e depois afiara como ferramenta profissional. Queria chutar alguma coisa, bater em alguma coisa, eliminar de algum modo aquela detestável sensação de desesperança.
Em vez disso, abriu a pasta de Tom e passou a fazer mais anotações sobre a última sessão à tarde.
Começou a cair uma mistura de chuva e neve. Gina pegou os óculos, mas não olhou pela janela, não viu o homem do outro lado da rua, parado no meio-fio e observando a luz em seu apartamento. Se houvesse olhado, visto, não teria pensado nada disso.
Como quando veio a batida à porta, Gina pensava apenas no aborrecimento da interrupção. O telefone tocara sem parar, mas ela conseguira ignorá-lo e deixá-lo para a secretária eletrônica. Se uma das ligações fosse de um paciente, o bipe ao lado teria soado. As chamadas, adivinhara, haviam sido todas ligadas à matéria do jornal da noite, vinculando-a à investigação da Divisão de Homicídios. Deixando a pasta aberta, ela se encaminhou para a porta.
— Quem é?
— Potter.
Podia-se colher muita informação do tom de uma voz, até de uma palavra. Ela abriu a porta, sabendo que a abria para um confronto.
— Detetive. Não é um pouco tarde para uma visita oficial?
— Bem a tempo do noticiário das onze. - Ele entrou e ligou o aparelho de televisão. Gina não se afastara da porta.
— Não tem TV em casa?
— É mais divertido assistir a um circo com companhia. - Ela fechou a porta, irritada o bastante para deixá-la bater.
— Escute, estou trabalhando. Por que não diz o que tem a dizer e me deixa voltar pro meu trabalho?
Harry olhou a mesa, as pastas abertas e os óculos de grandes aros largados em cima de tudo aquilo.
— Não vai demorar.
Ele não se sentou, ficou com as mãos nos bolsos, vendo a introdução da equipe do noticiário. Foi a bonita morena, de rosto em forma de coração, quem leu a principal matéria da noite:
— O gabinete do prefeito confirmou hoje que a Dra. Ginevra Weasley, respeitada psiquiatra, foi designada para a equipe de investigação dos homicídios do Padre. Não conseguimos encontrar a Dra. Weasley, neta do veterano senador Jonathan Writemore, para comentar. Suspeita-se que os assassinatos de pelo menos três mulheres estejam ligados ao assassino descrito como Padre pelo emprego de um amicto, estola branca usada na cerimônia da missa pelos padres católicos romanos, para estrangular as vítimas. A polícia continua a investigação iniciada em agosto último, agora com a ajuda da Dra. Weasley.
— Nada mal — murmurou Harry. — Teve seu nome citado três vezes.
Ele nem piscou quando Gina se aproximou e, com uma pancada, desligou o botão.
— Vou repetir, diga logo o que tem a dizer.
A voz dela foi fria. Ele pegou um cigarro, decidido a igualá-la.
— Temos uma coletiva de imprensa às oito, amanhã, no gabinete do prefeito.
— Fui notificada.
— Mantenha os comentários vagos, afaste-se o máximo possível dos pormenores do caso. A imprensa sabe sobre a arma do crime, mas conseguimos evitar o vazamento das notas e o conteúdo delas.
— Eu não sou tola, Harry. Sei lidar com uma entrevista.
— Tenho certeza que sabe. Por acaso esta é sobre assunto departamental, não glória pessoal.
Ela abriu a boca, mas só saiu um silvo de respiração. Sabia que era ao mesmo tempo humilhante e inútil perder a paciência. Sabia que uma declaração tão ridícula e ressentida não merecia resposta. Sabia que ele, ali parado julgando-a, merecia apenas o mais frio e controlado descaso.
— Seu jumento intolerante, tacanho, insensível. — O telefone tornou a tocar, mas os dois o ignoraram. — Quem diabo você pensa que é, entrando aqui sem pedir licença e atirando suas preciosas idiotices?
Ele procurou um cinzeiro em volta e decidiu-se por um pequeno prato pintado à mão, ao lado de um vaso de frescos crisântemos outonais.
— Que preciosidade foi essa?
Ela ficou ereta como um soldado, enquanto ele, à vontade, batia de leve as cinzas no prato.
— Vamos apenas pôr uma coisa em pratos limpos. Eu não vazei essa história para a imprensa.
— Ninguém disse que vazou.
— Não? — Ela enfiou as mãos nos bolsos da saia com a qual trabalhara durante catorze horas. As costas doíam-lhe, tinha o estômago vazio e queria algo pelo qual lutava com tanto esforço para dar aos pacientes... paz de espírito. — Pois bem, eu interpreto essa pequena cena de outra forma. De fato me prometeram que meu nome jamais seria ligado à investigação.
— Tem algum problema em deixar as pessoas saberem que coopera com a polícia?
— Ah, você é inteligente, não é?
— Pra burro — ele devolveu, fascinado pela completa aniquilação do controle dela.
Gina andava de um lado para o outro ao falar, os olhos de cor violeta agora escurecidos. A raiva era rígida e gélida, ao contrário do tipo cuspir veneno e atirar pratos a que ele se habituara. Ainda mais interessante.
— De qualquer jeito que eu aja, você tem uma resposta. Já lhe ocorreu, detetive, que talvez eu não goste de ter meus pacientes, meus colegas, me questionando sobre este caso? Já lhe ocorreu que eu não queria pegar o caso, antes de mais nada?
— Então por que pegou? O pagamento é execrável.
— Porque fui convencida a acreditar que poderia ajudar. Se não pensasse assim, eu lhe diria pra pegar seu caso e se sufocar nele. Acha que eu quero perder meu tempo discutindo com algum juiz tacanho, designado por si mesmo, sobre a moralidade de minha profissão? Tenho problemas suficientes em minha vida sem você se acrescentar a eles.
— Problemas, doutora? — Ele percorreu o apartamento com um demorado olhar, as flores, o cristal, tons pastéis suaves. — Tudo me parece muito satisfatório aqui em volta.
— Você não sabe nada de mim, da minha vida e do meu trabalho. — Ela se aproximou da mesa e apoiou as mãos no tampo, mas ainda não recuperara o controle. — Está vendo essas pastas, esses papéis, essas fitas? Há a vida de um garoto de catorze anos aí. Um garoto que já é um alcoólatra, que precisa de alguma coisa que possa despertá-lo o suficiente para ver seu próprio valor e seu próprio lugar. — Tornou a virar-se, os olhos escuros e ardentes. — Sabe o que é tentar salvar uma vida, não, detetive? Sabe como dói, como assusta? Talvez eu não use uma arma, mas é isso que estou tentando fazer. Passei dez anos da minha vida tentando aprender como. Talvez, com tempo suficiente, talento e sorte, eu consiga ajudá-lo. Droga. — Ela se interrompeu, percebendo até que ponto se deixara pressionar por algumas palavras. — Não tenho de justificar nada a você.
— Não, não tem. —Ao falar, ele esmagou o cigarro no pratinho de porcelana. — Me desculpe. Fui desrespeitoso.
A respiração dela saiu com dois soluços, enquanto tentava recompor-se.
— Que há em mim e no que eu faço para deixar você tão ressentido?
Ele não estava pronto para dizer, revelar aquela antiga ferida exposta para inspeção e análise. Em vez disso, apertou os dedos nos próprios olhos cansados.
— Não é você. É a história toda. Faz com que me sinta andando numa corda muito bamba sobre um espaço muito longo.
— Acho que posso aceitar isso. — Embora não fosse toda a resposta, ou a que ela queria. — É difícil ser objetiva neste momento.
— Vamos recuar um passo por um minuto. Não tenho muito apreço pelo que você faz, e acho que nem você pelo que eu faço.
Ela esperou um instante e assentiu com a cabeça.
— Concordo.
— Estamos presos a isso. — Harry aproximou-se da mesa e ergueu a meia xícara de café dela. — Tem um pouco deste quente?
— Não. Mas posso fazer.
— Não tem importância. — Ele ergueu a mão para massagear a tensão pouco acima das sobrancelhas. — Escute, eu sinto muito. Parece que temos corrido numa esteira mecânica, e o único avanço que fizemos foi um vazamento para a imprensa.
— Eu sei. Talvez você não consiga entender, mas estou tão envolvida e me sinto tão responsável quanto você agora. — Interrompeu-se de novo, mas dessa vez sentiu afinidade, empatia. — Essa é a parte difícil, não? Sentir-se responsável.
Gina era boa mesmo em seu trabalho, pensou Harry, recostando-se na mesa.
—Tenho uma sensação de que não consigo me livrar, de que ele já não agüenta mais esperar pra atacar de novo. Não nos aproximamos nada de encontrá-lo, doutora. Podemos enrolar um pouco a imprensa amanhã, mas o que temos de engolir é que não chegamos nem um pouco mais perto. O fato de você me dizer por que o Padre mata não vai ajudar a próxima mulher para a qual ele avança.
— Só posso lhe dizer como ele é por dentro, Harry.
— E eu que não dou a mínima. — Ele contornou a mesa para encará-la. Ela ficara mais uma vez calma. Via isso apenas examinando os olhos. — Quando o pegarmos, e o pegaremos, vão receber esse seu perfil psiquiátrico. Vão mandar fazer outros, depois pôr você ou qualquer outro psiquiatra na prateleira, e ele vai se livrar.
— Será confinado num hospital de doenças mentais. Não se trata de um piquenique, Harry.
— Até uma equipe de médicos diagnosticá-lo curado.
— Não é tão simples assim. Você conhece melhor a lei. — Gina correu a mão pelos cabelos. Harry tinha razão e ela também. Isso só dificultava mais as coisas. — Você não trancafia alguém porque tem câncer, porque não pode controlar a desintegração do próprio corpo. Como pode punir alguém sem levar em consideração a desintegração da mente? Harry, a esquizofrenia apenas incapacita mais pessoas por um período maior de tempo que o câncer. Centenas de milhares de pessoas estão confinadas em hospitais. Não podemos abandoná-las, nem queimá-las como bruxas, por causa de um desequilíbrio químico no cérebro.
Não lhe interessavam estatísticas, motivos, apenas os resultados.
— Você disse uma vez, doutora... insanidade é um termo legal. Louco ou não, ele tem direitos civis e terá direito a um advogado, e o advogado vai usar esse termo legal. Eu gostaria de ver você reunida com aquelas três famílias depois de tudo terminar, e falar sobre desequilíbrios químicos. Ver se consegue convencê-las de que obtiveram justiça.
Ela orientara famílias antes, conhecia bem demais a sensação de traição e ressentida impotência. Era uma impotência que, sem controle, podia extravasar no terapeuta.
— É você aquele que tem a espada, Harry, não eu. Só tenho palavras.
— É. — Ele também as tinha, e usara-as de uma maneira da qual não se orgulhava. Precisava sair, ir para casa. Quisera que houvesse um conhaque e uma mulher à sua espera. — Vou marcar uma consulta com monsenhor Dumbledore amanhã. Vai precisar estar lá.
— Sim.
Ela cruzou os braços e perguntou-se por que um ataque de raiva sempre a deixava tão deprimida.
— Tenho compromissos o dia todo, mas posso cancelar o das quatro horas.
— Não é loucura demais?
Como ele fizera o esforço, ela também fez, e sorriu.
— Vamos deixar passar essa.
— Verei se posso marcar para as quatro e meia. Alguém vai ligar pra você e confirmar.
— Ótimo. — Parecia não restar mais nada a dizer, e talvez mais a dizer que qualquer um dos dois podia lidar. —Tem certeza de que não quer aquele café?
Ele tinha e, mais que isso, queria sentar-se com ela para falar de qualquer coisa, menos do que os unia.
— Não, preciso ir. As ruas já estão uma zorra.
— É?
Ela olhou em direção à janela e notou a chuva com neve.
— Trabalhando demais, doutora, quando não vê o que se passa fora da janela. — Harry se encaminhou para a porta. — Você ainda não comprou aquela fechadura reforçada.
— Não, ainda não.
Ele virou-se com a mão na maçaneta. Queria ficar mais com ela do que com o conhaque e a mulher imaginários.
— Bogart foi legal na outra noite?
— Sim, foi ótimo.
— Talvez a gente deva fazer isso de novo qualquer hora.
— Talvez.
— Até mais, doutora. Passe a corrente.
Ele fechou a porta, mas esperou até ouvir o matraquear da corrente da fechadura sendo presa.
N/a: Oiii geente, mil desculpas por não ter postado esse capítulo mais rápido, mas é que a faculdade está super corrida.
Tirando algumas dúvidas: não teremos o casal Rony e Hermione nessa fic e o assassino não é o óbvio Draco ou Tom. Não quis que o assassino fosse o óbvio, então surpresaaa! rsrrsrs
Prometo que tentarei postar o próximo capítulo mais óbvio.
E muito obrigado à todos que estão lendo minha fic, pois são vcs que me incentivam a continuá-la.
beeijos