Seus ouvidos reagiram ao barulho de um córrego fazendo o ganhar consciência, mas não abriu os olhos. Começou a prestar atenção a sua volta. O barulho de um córrego, o canto de um grilo, o zumbido de uma mosca, o farfalhar das árvores. O vento batia delicadamente em seu rosto fazendo com que sua franja dançasse sobre sua testa. Abriu os olhos e deu de cara com o céu limpo, sem nuvens. A lua e as estrelas brilhavam intensamente iluminando o local a sua volta. Estava numa clareira, mas não lembrara como chegara lá. Na verdade, não se lembrava de nada desde o fim da aula de História. Levantou-se e ficou olhando pro nada. Não conseguia pensar em nada, não conseguia raciocinar. A única coisa que vinha em sua mente era o instinto mais velho de qualquer criatura. Sede. Muita sede. Decidiu prestar atenção no barulho do córrego e seguiu. Correu, correu e correu. Como se sua vida dependesse disso. Há cinco quilômetros de distância de onde acordara, finalmente achou um pequeno riacho. Afobado, correu até lá tropeçando entre as pedras. Sua vida dependia disso. Pegou a água com a mão em formato de concha e bebeu. Nada. Não saciava. Tentou novamente com as duas mãos. Nada novamente. Já em desespero, mergulhou sua cabeça no riacho e engoliu toda água que conseguia. Ainda não estava satisfeito.
Logo ele desistiu da idéia de fazer isso quando começou a prestar atenção no trotar de alguma criatura. Percebeu que ia em direção a ele. Começou a ouvir os músculos da criatura se mexendo, o fluxo do sangue dentro de seu corpo. Sangue... Um centauro apareceu por de trás das folhas de um arbusto. Seu olhar era de surpresa ao ver um aluno de Hogwarts lá aquela hora. A criatura se aproximou, segurando uma lança em posição de ataque.
- O que você está fazendo aqui há essa hora? Alunos são proibidos de virem para cá desacompanhados! – O centauro grunhiu. Entretanto, Myles não respondeu. Suas pupilas dilataram. Seus olhos ficaram vidrados na criatura. Escutou o coração batendo, bombeando sangue por todo seu corpo. Abriu um sorriso mostrando os caninos afiados e tombou a cabeça pro lado ainda olhando o centauro com seus olhos vermelhos, sedentos por morte. Este percebeu a grande burrada que fez e com quem estava se metendo e saiu trotando a toda velocidade. Myles foi logo atrás correndo desesperadamente, trombando por tudo que estava no caminho, empurrando galhos de árvores e arbustos. O centauro viu que sua vida estava em grande perigo, mas não tinha coragem de olhar para trás pra ver o quanto o garoto estava perto. A única coisa que pode ouvir foi “sede”. E era isso que o rapaz balbuciava enquanto corria desajeitadamente. Sede... Sede... SANGUE! A criatura conseguiu uma grande distância de vantagem, mas o estudante se acostumou a correr ganhando cada vez mais velocidade. E a velocidade era tanta que já estava correndo feito um animal quadrúpede pulando agilmente de um canto para outro. Argh... Isso foi a única coisa que saiu de sua boca quando o rapaz mordeu sua jugular antes de arrancar um pedaço do pescoço. Tombou morto no chão fazendo uma trilha de derrapagem.
O local parecia um abatedouro. Pedaços do corpo do centauro estavam jogados por todos os cantos, sangue estava espalhado pela grama, árvores, arbustos e em sua própria roupa. Com um sorriso de satisfação, se deliciava com as últimas gotas que escorria pela cabeça do centauro. Sem mais nada pra tomar, jogou a cabeça fora e decidiu voltar para o castelo. Passando pelo lago, ele viu seu próprio reflexo e parou de andar. Olhou atentamente e pela primeira vez desde que acordou, ele conseguiu recobrar a consciência. Olhou aterrorizado para si mesmo. Seu rosto estava lambuzado de sangue seco assim como as vestes de seu uniforme. Olhou para suas mãos no qual as unhas pareciam garras e havia sangue seco entre elas. Com a mão, tocou os dentes para ter certeza e se machucou ao encostar-se ao canino afiado. Caiu pra trás no susto e voltou a engatinhar para o lago para ter certeza do que vira. A única coisa que pode fazer foi berrar.
Fique calmo... Não é hora de pânico agora! Apenas... Tente pen- ARHG!
Seus pensamentos foram interrompidos por uma súbita invasão de vozes em seu cérebro. Milhares de palavras desconexas começaram a martelar em seu pensamento. Pessoas gritavam dentro de sua cabeça. Sangue. Morte. Vingança. Clã. Malkavian. Vingança. Caiu de joelhos no chão, segurando sua cabeça como se a impedisse de explodir. Berrou aos céus de novo por misericórdia.
- CALEM A BOCA!!!!!!
Silêncio.
Ficou sem se mexer por alguns minutos. Tentou pensar em nada relevante para evitar que acontecesse de novo. Se não bastasse já ter virado um monstro, agora era um louco. Soltou uma leve risada de frustração. Agora, com a mente um pouco mais calma, decidiu pensar no que ia fazer. Na verdade, não havia nada o que ele poderia fazer. Tinha que pedir ajuda. Levantou-se e tirou sua varinha do bolso interno de sua capa. - Targeo. – Murmurou enquanto apontava a varinha para suas vestes fazendo com que limpasse o sangue. Fez o mesmo com o resto e suas mãos. Agora que estava limpo, decidiu voltar para a escola. Em vez de voltar para o dormitório, foi em direção a enfermaria. Ele mesmo não sabia o que estava fazendo. Chegou até a porta e abriu, fazendo um grande rangido. Se arrependeu de aparecer lá aquela hora.
- Quem está aí? – A voz de uma velha senhora ecoou pela enfermaria. Ele ficou quieto. – Quem está aí? – A mulher repetiu, saindo do quarto dela e indo em direção a entrada. Avistou o garoto. – O senhor não devia estar em sua cama? – Forçou os olhos para vê-lo, mas não adiantou muita coisa.
- Me ajude! – Respondeu desesperado.
A mulher levantou o lampião que segurava para ver seu rosto melhor. Myles fechou os olhos rapidamente. A luz o cegava. Colocou a mão na frente dos seus olhos para proteger, fazendo uma careta mostrando seus dentes. Rapidamente se acostumou com a luz e tirou a mão da frente fitando a enfermeira que a essa hora estava de boca aberta. Ela balbuciou algo e apontou para uma das camas para que ele ficasse ali. Depois, saiu correndo em direção a um quadro e murmurou para que chamassem o diretor urgentemente.
Não demorou muito tempo para se ouvir passos vindo do corredor. Ela pediu para que o garoto ficasse ali esperando enquanto dava uma rápida palavra com o diretor antes dele falar com o aluno. Saiu da enfermaria e encostou a porta da entrada.
- O que aconteceu, Papoula? – A voz calma e baixa do diretor ecoaram pelos ouvidos do garoto, como se o mesmo estivesse ao lado deles escutando.
- Eu... Eu não sei, diretor. Ele apenas veio aqui falando que precisava de ajuda. E... Meu Deus! O senhor precisa ver com os seus olhos! – Ela respondeu apressada, empurrando o diretor para dentro da enfermaria.
Ele olhou o garoto cabisbaixo sentado na cama. O aluno afogou o rosto em suas mãos querendo chorar. Ele viu o desespero do garoto mas ainda não vira o quão grave a situação era. Pediu que a enfermeira trouxesse um pouco de chá para eles e se aproximou de Myles.
- Senhor Dawkins. – Dumbledore disse com um sorriso. O garoto evitou olhar para ele. – O que aconteceu? – Levantou a mão para tocar em seu ombro, mas quando se aproximou, Myles deu um tapa fazendo-o recuar.
- NÃO ENCOSTE EM MIM! – Berrou para o velho. – Não encoste... em mim... – Colocou as pernas em cima da cama e abraçou afogando o rosto. Sentiu lágrimas escorrerem pelo rosto. Ficou surpreso como um monstro como ele podia chorar.
- Escute... Eu estou aqui para ajudá-lo... – Sentou-se ao lado dele. – O que aconteceu? – Madame Pomfrey chegou com uma bandeja com um bule com chá, um recipiente com leite e outro com açúcar e duas xícaras. Dumbledore mandou que deixasse ali e pediu para que ela se retirasse, educadamente. – Que tal um pouco de chá antes? Assim você pode me contar o que aconteceu, Myles. – Colocou chá em uma xícara. – Açúcar? Leite?
- Apenas leite, por favor. – Murmurou ainda sem mostrar o rosto. Dumbledore colocou leite na xícara e preparou uma xícara para ele também. Estendeu a mão para entregar para o garoto.
- Não tem como você pegar a xícara se está abraçando as pernas... – Myles sentou direito na cama, seus suas pernas balançando no ar já que a cama era alta demais para ele encostar os pés no chão. Tomou coragem e levantou o rosto para o diretor. Pegou a xícara e agradeceu sem olhar nos olhos dele. Não percebeu o quanto Dumbledore estava perplexo. O mesmo rapidamente mudou para uma expressão serena e reconfortante. Ficaram em silêncio. Myles bebericava o chá. – Como aconteceu, Myles? – O diretor finalmente quebrou o silêncio.
- O senhor... Percebeu.
O diretor abriu a gaveta do criado-mudo ao lado, retirou um espelho e entregou ao jovem.
– Aparentemente, quando vampiros choram, eles choram lágrimas de sangue...
Myles pegou o espelho apressadamente e olhou seu reflexo. Seus olhos ostentavam olheiras profundas, mas não estavam vermelhos. Voltaram a ser azuis. Mas, ele viu o caminho das lágrimas em suas bochechas... Parecia que havia furado os próprios olhos e o sangue escorreu por elas.
- Como Madame Pomfrey percebeu que algo estava errado?
O diretor riu levemente.
- Sempre astuto, hein? Não esperava menos do senhor. – Disse sorrindo. – Mas, caso você não tenha notado, você não limpou direito seu pescoço. – Apontou para uma mancha no pescoço onde o colarinho da camisa a escondia. – E seus caninos estão levemente afiados. Posso dizer que você já se alimentou, certo? – O garoto assentiu. – Quando vampiros se alimentam, seus olhos voltam a cor normal. Mas quando estão com sede, seus olhos ficam vermelho sangue. Mas... O que você atacou?
- Um... Centauro. – Ele hesitou em falar. – Mas juro que foi sem querer! Eu não –
- Estava sob controle. – Myles parecia surpreso. – Era de se esperar, jovem. Você estava sem sangue. Vampiros quando estão com muita sede e quase sem sangue no corpo, eles entram em um estado de frenesis onde eles não conseguem mais controlar seu corpo e sua mente. O que comanda ele é o instinto de sobrevivência e irá atacar a primeira coisa que ele vê se movendo.
- Como o senhor sabe tanta coisa? Aliás, pensei que vampiros não existissem.
- Eu sou um estudioso. – Abriu um sorriso. – Bom... Teoricamente, vampiros não existem. Eles fazem de tudo para viver escondidos da sociedade. Já imaginou o pânico que causaria se as pessoas soubessem que vampiros estão a solta? É a mesma coisa do Sigilo da Magia. O Ministério sabe que existem vampiros. Existem leis de onde e quando eles podem caçar. Mas eles mesmos se escondem do povo. Acredito que a graça de caçar para eles é maior assim. Surpreender a presa. – Deu uma risada. – Eu também tenho um amigo vampiro.
- Sério?
- Sim! E ele é uma ótima pessoa. Demorou um certo tempo para ele se acostumar com a nova vida.
- E ele se alimenta como?
- De seres humanos, oras. – Sua voz tinha um tom de brincadeira. – Não quer dizer que o senhor vá se alimentar dos alunos daqui.
- Eu... Não vou ser expulso?
- Claro que não! Só falta pouco mais de meio pro senhor se formar, não é? Além do mais, suas notas são muito boas para serem jogadas fora por um evento como esse. Convenhamos que não será visto com bons olhos se começar a morder todo mundo, certo? – Myles concordou com a cabeça. Seus olhos brilhavam de felicidade por Dumbledore ajudá-lo. – Vou pedir para que Hagrid comprar e soltar alguns cervos na entrada da floresta, lá não devem ter muitas criaturas que irão caçá-los. Acho que um cervo por dia será suficiente. – Myles começou a agradecer freneticamente fazendo com que Dumbledore risse.
A enfermaria começava a se iluminar aos poucos. O sol estava nascendo e os raios atravessavam os vidros da janela iluminando as camas do local. Eles começaram a sentir um cheiro de queimado e Myles olhou para o próprio corpo que exalava fumaça. Tentou correr para algum lugar escuro escondendo o rosto nas mãos, mas não havia nenhum lugar. Foi para o canto a sala. Seu corpo ardia. Estava sendo queimado vivo. Gritou de dor até que a fumaça parou de sair de repente. O diretor havia fechado as cortinas com um aceno de mão.
- Estranho... – Dumbledore disse se aproximando do garoto e abaixou para ficar da altura dele. – Já vi muitos vampiros saírem no sol. – Examinou o garoto. Boa parte da sua pele estava queimada, mas ela começava a se regenerar lentamente. O jovem tremia no canto da sala.
- Até ontem, eu não acreditava em vampiros! – Vociferou com dificuldade. – Agora, olhe para mim! OLHE PARA MIM! Eu mal posso ter uma vida normal! Como você espera que os alunos não suspeitem de mim?! Aliás, você já viu o tamanho das minhas unhas?! – Mostrou as mãos que estavam com carne faltando, mostrando os ossos brancos dela. As unhas pareciam garras. – Olha o estado que eu estou! Parece que eu saí do grande incêndio de Londres no século XVII!
- Vampiros se regeneram, não se preocupe. Até a noite, você estará inteirinho. Entretanto, Papoula irá fazer alguns curativos em você para que, se alguém parecer aqui, não suspeite de você. Ficará algum tempo na enfermaria até que eu ache algum feitiço ou poção para que permita você a sair no sol. Terá liberdade para sair à noite para poder se alimentar. Os cervos já estarão lá esperando por você hoje à noite.
- Não posso comer comida normal?
- Já vi vampiros bebendo vinho ou outras bebidas. Mas nunca os vi comendo.
- Acho que dá pra disfarçar no Salão Principal... E os meus olhos?
- É como eu disse antes... Eles ficarão vermelhos quando você estiver com fome. Acho que a lua cheia também irá influenciar neles, assim como no seu reflexo. Vou ver se acho algum livro sobre vampiros na minha biblioteca particular para o senhor ler. Por enquanto é só. Descanse agora e a noite poderá sair para “caçar”. – Disse fazendo o sinal de aspas com os dedos. Levantou-se e se despediu do jovem com um sorriso. – Tenha um bom dia.