Harry Potter mais uma vez se encontrava com a cabeça encostada no frio vidro da janela do menor quarto, da casa número quatro, na rua dos Alfeneiros.
Mas desta vez ele estava acordado, estava ali pensando na única coisa que invadia seus sonhos, mesmo quando estava acordado desde o dia que embarcara no expresso de Hogwarts mais cedo do que o normal.
Ele desembarcara na plataforma 9 ¾ , lá cumprimentou a todos e aceitou a carona que o Sr. Weasley oferecera a ele, já que os Dursley não sabiam que o ano letivo acabara mais cedo.
Hermione havia discutido com os pais, porque queria acompanhar Harry. Os Granger, a princípio negaram, pensando que a amizade entre os dois havia passado disso. Mas quando Hermione explicou o verdadeiro motivo, eles quase armaram um escândalo no meio da estação trouxa.
Harry apartou a situação dizendo à amiga que não precisava seguí-lo para a casa de seus tios, mas ele garantiu a ela que não sairia de lá antes de completar seus dezessete anos.
Hermione foi relutante a princípio, mas contrafeita aceitou.
A caminho da casa dos tios de Harry, Rony manifestou o mesmo desejo, mas ao contrário dos Granger, seus pais permitiram desde que ele se comportasse, e o Sr. Weasley pediu que ele prestasse bastante atenção em como funcionavam todos os aparelhos trouxas.
A princípio Harry achou que não teria necessidade, mas depois achou que suportaria melhor a breve estadia em casa dos tios com a presença do amigo.
Ao tocar a campainha da casa Harry pôde ver a expressão de terror nos olhos do tio Válter, mas ele entrou sem dizer nada e se encaminhou ao seu quarto carregando o seu malão.
Rony o seguiu e pelos berros, os Weasley restantes entraram para conversar com os tios de Harry.
Harry desceu logo após deixar suas coisas e as de Rony em seu quarto e se encaminho para a sala.
Lá estavam sentados os Weasley e os Dursley, como se fossem amigos. A princípio Harry podia jurar que os Dursley estavam sob a Maldição Imperius, mas depois viu a expressão aterrorizada do rosto dos três Dursley e percebeu que estavam ali a contra gosto.
Depois de muitos berros de tio Válter e da surpreendente calma dos Weasley, Harry se despediu do Sr. e da Sra. Weasley, que o abraçou muito apertado, dizendo que o esperava assim que ele fizesse dezessete anos para o casamento de Gui e Fleur.
Harry apenas acenou um tchau para Gina que o retribuiu timidamente.
Agora estava ele ali, aliviando a enorme queimação da cicatriz, na janela fria de seu quarto.
Rony roncava no colchão velho, que antes era usado para Harry dormir no armário debaixo da escada.
Harry observava a rua com a varinha bem firme na mão, a neblina e o frio que gelava a sua janela, não era algo comum do tempo, eram causados pelos Dementadores que deviam estar por perto.
À meia noite e um do dia seguinte, Harry estaria livre para ir.
O encantamento que Dumbledore fez, que selou no dia em que deixou Harry no batente do número quatro, logo se acabaria e ele estaria livre para ir.
Só tinha que aturar mais um dia e esse ele sabia que seria o mais difícil.
Harry adormeceu com a cabeça no vidro e seu sono foi perturbado por objetos que ele não identificava, por lugares frios e perigosos e por fim uma gargalhada fria e um sibilar incompreensível.
Harry foi acordado por Rony que estava pálido, e Harry viu-se no espelho e percebeu que estava duas vezes mais pálido e muito suado.
Ele se levantou, tomou um banho e desceu para tomar o café, o amigo já estava sentado à mesa comendo seu pouco café da manhã.
Harry sentou-se ao lado do amigo, desejando bom dia que só foi respondido por ele e depois começou a comer seu café da manhã.
Parecia que tia Petúnia havia pegado o café da manhã que Harry comia normalmente e dividido entre ele e Rony para não ter que gastar mais do que já gastava e assim foi com o almoço e o jantar.
Harry passou o dia pensando em sua missão, descobrir quais eram e os respectivos paradeiros dos quatro horcruxes que ele ainda não tinha certeza do que era, mas ele sempre repetia mentalmente:
“O Medalhão, A Taça, algo de Gryffindor ou Ravenclaw e a Cobra... O medalhão, a Taça, algo de Gryffindor ou Ravenclaw e a Cobra...”, isso era o que atormentava seus sonhos.
Esse eram os objetos, e para dificultar ainda mais a missão de Harry ele tinha que descobrir quem era R.A.B. e se ele realmente havia destruído o medalhão e se sabia do paradeiro de mais algum pedaço da alma de Tom Riddle.
Harry e Rony passavam os dias trancados no quarto, fazendo anotações de como seguiriam em busca das horcruxes.
No topo da lista estava A Toca, o primeiro lugar onde iriam passar assim que saíssem dali, pois teriam que se despedir dos Weasley e também tinha o casamento de Gui e Fleur.
Depois iriam ao Ministério fazer o exame de aparatação e em seguida o lugar que Harry intimamente sempre quis ir, mas nunca tivera coragem, Godric’s Hollow, o lugar onde viveu o único ano de sua vida em companhia de seus pais e talvez, se ainda lhe restasse coragem, visitar seus túmulos no cemitério do vilarejo.
Depois, como várias vezes Dumbledore lhe disse, que a melhor maneira de recomeçar é seguir os passos desde o início. Passaria no orfanato onde Tom Riddle fora criado e depois iria a Hogwarts procurar algum indício dele, e em seguida o seu primeiro emprego.
Harry queria também visitar a casa do Tom Riddle pai, já que Tom Riddle filho esteve lá durante uma breve temporada, e a casa de Hepzibá Smith, uma senhora muito rica, que provavelmente era descendente de Helga Hufflepuff, e que era dona, até antes de Tom Riddle matá-la e roubá-la, de dois dos possíveis horcruxes.
Harry vira a casa dessa senhora em uma lembrança que Dumbledore lhe mostrara, que pertencera a Hóquei, uma elfo-doméstica que pertencera a essa senhora. Seria difícil encontrar essa casa, mas tinha que ir lá. Ele sabia que tinha.
Harry e Rony desceram para o almoço e quando retornaram, quatro corujas entraram pela janela. Harry não se deu ao trabalho de recolher as mensagens que trazia. Então Rony o fez, assim como andava fazendo todos os dias desde que chegaram ali.
Ele pegava as correspondências e lia, Harry perguntava se alguém havia morrido e ele respondia que não, então Harry voltava ao que estava fazendo e Rony contava o que diziam as cartas.
Desta vez uma carta de Hagrid, que dizia estar sentindo falta deles, mas que logo se encontrariam. Uma de Hermione, que era praticamente a mesma coisa e uma da Sra. Weasley, que também era a mesma coisa e a última era do Ministério, marcando a data do teste de aparatação para duas semanas depois do aniversário de Harry.
Harry passava dia e noite pensando onde estariam as horcruxes e quais seriam os tipos de defesa que as guardariam.
No meio daquela tarde ele foi tirado de seus pensamentos pelos berros de tio Válter no saguão.
Aparentemente alguém da laia dele havia ligado para ele. Harry foi correndo atender ao telefone sem dar ouvidos aos resmungos de “Pensei que gente da sua laia usava aqueles pássaros” que tio Válter dava.
- Alô? — Harry, fora o telefonema catastrófico de Rony jamais recebera outro.
- Alô! Harry? Aqui é a Hermione. — Falou a voz do outro lado do bocal.
- Oi Mione como você está?
- Eu estou bem e vocês ai como estão? —Perguntou a voz do outro lado da linha.
- Bem.
- Como é que ele está?
- Como é que ela está? — Harry ouviu essa pergunta duas vezes, uma ao seu lado que foi feita por Rony e outra do outro lado da linha que ele nem imaginou quem era.
- Eu estou aqui n’A Toca e estou ligando para avisar que exatamente a meia-noite e um, buscarão vocês para virem para cá.
- Certo Mione, eu estarei aguardando. A propósito, qual é o meu patrono?
- Um cervo, todo mundo sabe disso.
- O seu?
- Uma lontra. Muitas pessoas já viram.
- E o do Rony? Esse eu sei que poucos viram, pra falar a verdade só eu, você e ele.
- Um lindo cachorrinho, muito fofo.
- Então eu estarei aguardando. Até mais.
- Até mais. — Respondeu a voz do outro lado da linha antes de desligar.
- Então, como que ela tá? — Perguntou Rony que já não se agüentava mais de curiosidade.
- Ela está bem, só ligou para avisar que eles virão buscar a gente hoje, ou melhor, na madrugada de hoje para amanhã, à meia-noite e um. E também disse que seu cachorrinho é muito bonitinho e fofinho. — Após dizer isso e antes de começar a subir as escadas Harry ficou tempo o suficiente para ver as orelhas de Rony pelarem de tão vermelhas.
Harry e Rony arrumaram todos os seus pertences e Harry desceu para avisar aos Dursley que iria embora, ao chegar à sala, pigarreou para avisar que estava ali. O resmungo de tio Válter avisou que estava ouvindo então ele disse:
- Hoje à noite virão me buscar, e nunca mais nos veremos, melhor pra vocês e pra mim, mas eu não queria parecer ingrato. Apesar da minha estadia aqui não ter sido boa, eu gostaria de agradecer pelo que fizeram por mim. — Ao terminar de dizer Harry se virou para voltar para seu quarto quando ouviu.
- Para onde você vai? — Era tia Petúnia que questionava.
- Vou cumprir uma missão que sei que Dumbledore explicou a você em uma carta. —Respondeu secamente.
- Eu quis saber onde você ira morar? Onde você vai passar o resto da sua vida?
- Eu herdei duas casas: uma dos meus pais, que eu pretendo visitar em Godric’s Hollow e outra do meu padrinho no Largo Grimmauld, onde será minha futura moradia.
- E você tem algum dinheiro? — Harry estava achando aquela preocupação toda muito estranha.
- O suficiente para cumprir a minha missão e ainda viver alguns anos, mas antes disso eu já devo ter conseguido o meu emprego.
- Você será Auror como seu pai?
Harry se assustou com a pergunta e com o fato de sua tia saber qual era o emprego de seu pai.
- Como a senhora sabia que meu pai foi Auror?
- Bem, eu não sabia o emprego da sua mãe, pois ela trabalhava em algo que não podia dizer, ela era uma Inominável, mas seu pai eu sabia em que trabalhava, ele já esteve aqui uma vez para nos proteger.
Harry e tio Válter se espantaram coma revelação de tia Petúnia, mas ela esclareceu antes que alguém perguntasse.
- Dias antes de você ser deixado no batente da nossa porta, nossa casa foi atacada, eles queriam saber o paradeiro do seu pai e de sua mãe, Válter teve a memória alterada quando o seu pessoal chegou, inclusive seu pai, que nos defendeu.
“A minha memória não foi alterada porque eu tinha um parente direto bruxo, Duda não foi preciso já que era muito pequeno”.
“No dia anterior a você chegar Válter me perguntou sobre você e minha irmã, eu pensei que ele tivesse se lembrado de algo, mas depois de sua chegada ele me falou que tinha ouvido pessoas de aspecto estranho tocar no nome dos Potter”.
- Por que nunca você me falou isso?
- Na carta de do Sr. Dumbledore, ele me falou do seu destino e eu não quis me apegar a você e também não queria que você descobrisse o que te aguardava. Não queria que esse dia chegasse, mas pelo visto não se pode evitar o que já foi escrito.
“Escute Harry, eu te peço desculpas pelos maus-tratos e gostaria de te pedir para sobreviver e depois vir nos visitar. Eu gostei muito da celebração do casamento de sua mãe e gostaria de ver a sua, se for tão bonita quanto”.
- Eu prometo que voltarei, mas não posso dizer quando, até lá espero que vocês fiquem seguros e longe dessa guerra. — Falou Harry antes de dar as costas e preparar para sair, mas à porta, sua tia o chamou mais uma vez.
- Harry, o Sr. Dumbledore me pediu que te dissesse quando esse dia chegasse que o feitiço que o mantêm a salvo aqui e que também nos protege não se quebrará, ficará mais forte se você só sair daqui depois dos seus dezessete anos.
“O sangue da sua mãe que corre em minhas veias lhe deu proteção e o poder do sangue de seus pais que corre em suas veias eram a sua proteção. Mas agora, o poder deles se juntará ao seu, o tornando mais forte e como o sangue de sua mãe ainda corre em minhas veias,você sempre terá proteção aqui e nós estaremos sempre protegidos também. Por isso e por ter me apegado a você não pude deixar que você fosse embora no dia que Duda foi atacado pelos dementadores e agora eu sei que eles estão rondando por aí. Prontos para atacar”.
“Por favor, tome cuidado Harry”.
Harry assentiu com a cabeça e subiu atordoado com as revelações e mais um motivo o fez querer mais derrotar Voldemort, os Dursley podiam ser os piores trouxas que Harry conhecia, mas não podiam pagar por algo que eles ignoravam tão bem.
Quando Harry voltou ao quarto contou toda a conversa que tivera com a tia. Rony como ele, ficou boquiaberto, mas ficou mais impressionado com a parte de Harry ganhar os poderes dos pais assim que fizesse dezessete anos.
Ele disse que isso era o amor dos pais dele, um fortíssimo contra-feitiço antigo, que a pessoa passa todo o seu poder para outra a quem deve amar muito, passava não só os poderes, como a força vital e a alma. Talvez, por isso, Harry não morreu. Talvez, por isso, seu patrono fosse um cervo. Talvez, seus pais não morreram, simplesmente viviam nele.
Lupin lhe dissera uma vez, que uma pessoa podia viver sem alma. Talvez, Voldemort havia matado os corpos de seus pais, mas Harry sabia agora, que de alguma forma suas almas viviam dentro dele. E com esse pensamento adormeceu com a cabeça na janela mais uma vez.
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