NA: Desculpem demorar para atualizar, eu estou gripada sem a menor disposição para nada mas estou adaptando...
Aqui está o capítulo 5!
Comentem!!!
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CAPÍTULO 5: "O pub, o soco e Lady Gwen"
Rony não se opunha ao trabalho burocrático. Ele simplesmente o detestava. Mais do que isso, odiava-o. Mas três dias por semana, fizesse chuva ou sol, ele passava uma hora ou mais na escrivaninha do seu apartamento, a preparar os pedidos e a calcular as despesas, fazendo a folha de pagamento e conferindo os lucros. Era um alívio para ele verificar que havia lucro.
Jamais se preocupara muito com dinheiro antes de o Potter’s passar para as suas mãos. E muitas vezes questionava-se se não fora esse um dos motivos para que os pais lhe entregassem o pub. Divertira-se muito, vivendo da mão para a boca, durante as suas viagens. A sobreviver um pouco. Não guardou um único centavo. Nem sentiu a necessidade disso.
Responsabilidade não era o seu nome do meio. Afinal, cresceu em situação confortável. Trabalhara, é claro, durante a infância e a adolescência. Mas enxugar e varrer o chão, servir cerveja e cantar uma melodia era muito diferente de calcular quanta lager deveria encomendar, qual a percentagem de perda - muito obrigada, Gina minha irmã - que o pub poderia suportar, o malabarismo com os números nos registros e o cálculo dos impostos.
Essas tarefas deixavam-no com dor de cabeça, em todas as ocasiões, sem exceção. Não se sentia mais atraído por se sentar com os livros do que pela extração de um dente, mas aprendera. E enquanto aprendia, compreendia que o pub, por isso mesmo, se tornava cada vez mais importante para ele.
Não havia a menor dúvida, decidiu ele, de que os pais eram mesmo espertos. E conheciam o filho. Ele passou algum tempo ao telefone com os distribuidores, tentando negociar o melhor preço. Não se importava de fazer isso, já que era um pouco como negociar cavalos. E descobrira que era algo para o qual tinha aptidão. Agradava-lhe saber que músicos de Dublin, de Waterford, até mesmo de lugares tão distantes quanto Clare e Galway, não só estavam dispostos a apresentar-se no Potters, mas também se mostravam satisfeitos com a oportunidade.
Era um motivo de orgulho saber que, nos seus quatro anos no comando, ajudara a projetar a reputação ao pub como um lugar em que se ouvia boa música. E esperava que a temporada de Verão, quando os turistas apareciam, fosse a melhor que o pub já tivera. Mas isso não fazia com que somar e subtrair se tornasse uma tarefa menos maçante.
Pensou em comprar um computador, mas nesse caso teria de aprender a usá-lo. Admitia, sem qualquer vergonha, que a mera ideia o assustava, de uma maneira indescritível. Quando conversara a respeito disso com Gina, dizendo que talvez ela pudesse aprender a usar, a irmã rira-se tanto, que as lágrimas lhe escorreram pela face. E ele sabia que nem adiantava falar com Harry, que não pensaria em trocar uma lâmpada, se estivesse a ler no escuro.
Também não pensaria em contratar alguém de fora, já que o Potters conseguia ser auto-suficiente na sua administração desde que fora inaugurado. Portanto, tinha de continuar a usar lápis e máquina de calcular ou ganhar coragem para enfrentar a nova tecnologia.
Imaginava que Luna tivesse conhecimento de computadores. Não se importaria se ela lhe ensinasse alguma coisa. Até gostaria, pensou Rony, com um sorriso lento, e retribuiria o favor numa área completamente diferente. Queria acariciá-la. Já especulava sobre o que encontraria em gosto, em textura, naquela boca larga e adorável. Já tinha passado algum tempo desde que uma mulher havia deixado o seu sangue a ferver dessa maneira. E Rony estava a adorar a expectativa.
Luna o fazia pensar numa potra que ainda não se sentia muito segura nas suas pernas. Esquivava-se à aproximação de um homem, ao mesmo tempo que ansiava por uma carícia firme e gentil. Era uma combinação atraente, aquele comportamento hesitante somado à mente sagaz e à voz refinada. Esperava que ela aparecesse naquela noite, como ele lhe pedira.
E esperava também que ela usasse uma das suas roupas impecáveis, com os cabelos presos, a fim de poder imaginar o prazer de soltá-los e amarrotar o traje. Se Luna tivesse alguma noção do rumo dos pensamentos de Rony, nem teria coragem para deixar o chalé.
Mesmo sem essa complicação adicional, ela já mudara de ideia sobre a ida ao pub meia dúzia de vezes. Mas seria desagradável não aparecer, depois de ele a ter convidado. Daria a impressão de que ela esperava pelo seu tempo e atenção. E seria simplesmente uma maneira agradável de passar uma noite.
Não era o tipo de mulher que passava a noite em bares. A sua vacilação deixou-a de tal forma irritada, que decidiu ir, por uma questão de princípio, pelo menos por uma hora.
Ela vestiu umas calças de um tom cinzento-escuro, com um casaco combinado, e uma blusa rosa-claro e sapato cinza-claro com riscas vermelhas acastanhadas.
Era noite de sábado, afinal de contas, pensou ela, e acrescentou brincos de prata, que proporcionaram um toque mais alegre. Haveria música, lembrou-se a si mesma, enquanto pensava se não estaria enlouquecendo, ao acrescentar um par de pulseiras de prata.
Tinha uma paixão secreta e ardente por jóias. Ao ajeitar as pulseiras, pensou no anel que o homem no cemitério usava. O brilho da safira na prata lavada, uma joia deslocada no ambiente rural. Ele comportara-se de uma maneira muito estranha, pensava Luna agora.
Surgiu e desapareceu tão sorrateiramente, que era quase como se ela tivesse sonhado. Mas lembrava-se do rosto e da voz com absoluta nitidez, bem como do súbito fluxo da fragrância, a rajada de vento e as tonturas inesperadas. Apenas uma consequência do excesso de açúcar, decidiu Luna.
Todo aquele bolo entrara no seu organismo e depois se desvanecera, deixando-a momentaneamente tonta. Ela levantou os ombros, descartando o assunto. Inclinou-se para o espelho, a fim de verificar se não colocara muito rímel. Provavelmente tornaria a ver aquele homem, naquela mesma noite, no pub, ou na próxima vez em que levasse flores para Maude.
Com as pulseiras a tilintar alegremente e proporcionando-lhe uma agradável sensação de confiança, ela desceu. Desta vez lembrou-se de pegar nas chaves antes de seguir até ao carro, o que considerou um bom progresso. Assim como também achou um bom sinal o fato de não ter as palmas das mãos suadas ao avançar pela estrada, no escuro.
Satisfeita consigo mesma, antecipando uma noite sossegada e agradável, ela estacionou o carro pouco antes do Potter’s. Encaminhou-se para a porta, alisando os cabelos loiros. Respirou fundo antes de abri-la.
E foi quase lançada para trás pela explosão da música. Gaitas, violinos, vozes, depois o rugido da multidão no coro de “Whiskey in the Jar”. O ritmo era tão rápido, tão vertiginoso, que o som se tornava algo indistinto; e esse som agarrou-a, puxou-a para dentro d o pub, envolveu-a por completo.
Já não era o pub escuro e sossegado que ela esperava encontrar. Estava lotado, com pessoas a acomodarem-se de qualquer maneira às mesas baixas, espremidas ao longo do balcão, segurando copos cheios e copos vazios.
Os músicos - como podiam apenas três pessoas fazer um som assim? - estavam no compartimento da frente, ocupando todo o espaço com os seus trajes de operários e botas, enquanto tocavam como anjos demoníacos.
A sala cheirava a fumo, cerveja e a sabonete da noite de sábado. Por um momento, ela questionou-se se não teria entrado no bar errado. Mas depois avistou Gina, a nuvem gloriosa de cabelos ruivos presos com uma vistosa fita verde-esmeralda. Carregava uma bandeja com copos e garrafas vazios, cinzeiros a transbordar, enquanto fazia flerte com um rapaz cujo rosto era tão vermelho quanto a cor dos seus cabelos.
O rapaz exibia uma satisfação embaraçada, com uma admiração desesperada nos olhos. Quando avistou Luna, Gina piscou-lhe o olho. Bateu de leve no rosto do jovem apaixonado e depois abriu caminho pela multidão.
- O pub está bastante animado esta noite. O Rony me disse que você viria, e pediu-me para ficar de olho.
- Foi muito gentil da parte dele... e da sua. Eu não esperava... Tanta gente. - Os músicos são muito apreciados por aqui, e atraem uma boa multidão. - São maravilhosos.
- Tocam muito bem. - Gina estava mais interessada nos brincos de Luna. Gostaria de saber onde ela os comprara e qual teria sido o preço.
- Siga-me, e vou leva-la sã e a salvo até ao balcão.
Foi o que ela fez, esgueirando-se pelo meio da multidão, empurrando de vez em quando, rindo-se muito, fazendo comentários para diversas pessoas, que chamavam pelo apelido, Ginny.
Seguiu para a extremidade do balcão, largou a bandeja além dos corpos espremidos ali, onde era o ponto de pedidos.
- Boa noite, Sr. Riley. - Disse Gina para o velho sentado no último banco.
- Boa noite para você também, jovem Gina. - A voz era esganiçada.
Ele sorriu, com olhos que pareceram meio cegos para Luna, enquanto bebia um gole da Guinness escura e encorpada.
- Se casar comigo, querida, te farei uma rainha.
- Pois então casaremos no próximo sábado; mereço ser uma rainha. - Gina deu um beijo no rosto enrugado.
- Will Riley, deixa a ianque sentar-se ao lado do teu avô.
- Com todo o prazer. - O homem magro saiu do banco, oferecendo um sorriso radiante a Luna.
- Então é você a ianque. Sente-se aqui, ao lado do meu avô, e te pagarei uma cerveja.
- A dama prefere vinho. Rony, já com o copo na mão, entrou no campo de visão de Luna, estendendo-o.
- Tem razão. Obrigada.
- Ponha na conta de Will Riley, Rony, e beberemos a todos os nossos primos no outro lado do oceano.
- Assim farei, Will. - Ele ofereceu o seu sorriso insinuante a Luna. - Fique um pouco aqui, está bem? E, depois, afastou-se para trabalhar.
Luna ficou. Porque parecia polido, bebeu brindes a pessoas de quem nunca ouvira falar. E como era necessário pouco esforço da sua parte, manteve uma conversa com os Riley sobre os seus parentes nos Estados Unidos e as viagens que tinham feito até lá...
Embora os desapontasse ao admitir que nunca tinha estado no Wyoming e que não conhecia nenhum cowboy de verdade. Ouviu a música, porque era maravilhosa. As melodias eram ao mesmo tempo familiares e estranhas, o exaltamento e a melancolia a contagiar a multidão.
Luna cantarolava quando reconhecia a melodia. Sorria quando o velho Sr. Riley entoava as palavras, com a sua voz esganiçada.
- Eu tinha uma queda pela sua prima Maude. - Disse o Sr. Riley a Luna. - Mas ela só tinha olhos para John Magee, que a sua alma descanse em paz. - Ele soltou um suspiro profundo e bebeu um gole da Guinness, também profundo. - E um dia, quando fui bater à porta dela, com o chapéu na mão, ela disse-me que eu casaria com uma rapariga loura e de olhos acinzentados antes de o ano terminar.
O velho fez uma pausa, sorrindo para si mesmo, como se contemplasse o passado, pensou Luna. Ela inclinou-se para ouvi-lo acima do barulho da música.
- E, antes de passar um mês, eu conheci a minha Lizzie, de cabelos louros e olhos cinza. Casamos em Junho, e passamos quase cinqüenta anos juntos, até à sua morte.
- Isso é lindo.
- A Maude sabia das coisas. - Ele fitou Luna nos olhos. - A Boa Gente sussurrava muitas vezes no ouvido da Maude.
- É mesmo? - Murmurou Luna, divertida agora.
- Sim. E como você tem o mesmo sangue, é possível que também sussurrem no seu ouvido. Não deixe de escutar.
- Claro. Por algum tempo, eles beberam num silêncio cordial, prestando atenção à música.
Depois, os olhos de Luna encheram-se de lágrimas, quando Gina passou o braço pelos ombros ossudos do velho e acrescentou a voz gloriosa à dele, numa canção de amor eterno e perda irreparável.
Quando avistou Hermione a servir uísque e a abrir as torneiras de cerveja, por trás do balcão, Luna sorriu.
Ela não estava usando o boné, e os cachos castanho-claros derramavam-se brilhantes e à vontade.
- Não sabia que trabalhava aqui.
- Só trabalho de vez em quando, sempre que há necessidade. O que vai querer, Luna?
- Estou bebendo Chardonnay, mas acho que não deveria.
Mas ela falava para as costas de Hermione. Antes que pudesse acrescentar qualquer coisa, Hermione já tinha se virado de volta e enchido o seu copo.
- Os fins-de-semana costumam ser movimentados no Potter’s. - Comentou Hermione. - E também dou uma ajuda durante a temporada de Verão. A música está ótima, não acha?
- Maravilhosa.
- E como vão as coisas, meu caro Sr. Riley?
- Vai muito bem, linda Hermione Granger. Quando vai casar comigo e fazer com que o meu coração pare de sofrer?
- No alegre mês de Maio. - Ela trocou a caneca vazia por uma cheia. - Tenha cuidado com esse patife, Luna, ou ele vai brincar com os seus sentimentos.
Rony apareceu por trás de Hermione, dando um puxão leve nos seus cabelos castanhos.
- Pode atender no outro lado, Hermione? Eu gostaria de trabalhar aqui, para poder flertar com a Luna.
- Por falar em patifes, aqui temos outro. A casa está cheia deles.
- Ela é muito bonita. - Interveio o Sr. Riley.
Rony piscou o olho a Luna. - Qual delas, Sr. Riley?
- Todas! - O Sr. Riley soltou uma gargalhada.
Bateu com a mão fina no balcão. - Nunca vi, é claro, nenhum rosto de mulher que não fosse bastante bonito para um bom apertão. A ianque aqui tem olhos de feiticeira. Tome cuidado, Rony, ou ela lançará um encantamento em você.
- Talvez já tenha lançado. - Rony recolheu alguns copos, pôs no lava-louça debaixo do balcão, levou outros, limpos, para as torneiras de cerveja.
- Já saiu de casa à meia- noite, Luna Lovegood, colhendo flores-da-lua e sussurrando o meu nome?
- Até que poderia sair, se soubesse o que são flores-da-lua.
A resposta fez o Sr. Riley rir tanto, que Luna até receou que ele pudesse cair do banco. Rony limitou-se a sorrir, enquanto servia as canecas e pegava nas moedas. Depois inclinou-se para bem perto, e observou os olhos de Luna arregalarem-se, os lábios a entreabrirem-se em surpresa, tremendo um pouco.
- Eu te mostrarei as flores-da-lua, da próxima vez que for visita-la.
- Hmmm... Era no que dava oferecer respostas irônicas, pensou Luna, bebendo outro gole de vinho. Alguma coisa subiu à sua cabeça, ou o vinho, ou a intimidade do olhar de Rony.
Ela decidiu que deveria considerar as duas coisas com um pouco mais de cautela e respeito.
E quando Rony tornou a pegar na garrafa de vinho ela sacudiu a cabeça, e tapou o copo com a mão.
- Não, obrigada. Beberei apenas água, a partir de agora.
- Quer água tônica?
- Água com gás? Ah, sim... prefiro.
Rony serviu a água com gás num copo pequeno, sem gelo.
Ela bebeu um gole. Ficou a observá-lo a pôr mais duas canecas em baixo das torneiras, e a iniciar o processo metódico de servir uma Guinness.
- É preciso muito tempo. - Murmurou ela, mais para si mesma do que para Rony.
Mas ele fitou-a, ainda manobrando as torneiras.
- Apenas o tempo necessário para fazer certo. Um dia, quando estiver com disposição, prepararei um copo para Você. E descobrirá então o que está perdendo ao tomar essa coisa francesa.
Gina voltou. Pôs a bandeja em cima do balcão.
- Uma caneca de Smithwick, outra de Guinness, dois copos de Jamesoris. E quando acabar aí, Rony, o Neville Longbottom já chegou ao seu limite.
- Pode deixar comigo. Que horas são, Luna?
- Que horas? - Luna parou de olhar para as mãos de Rony, eram ágeis e eficientes, e consultou o relógio.
- Ei, já passa das onze horas! Eu nem imaginava! - A hora que pensara em passar no pub prolongara-se por quase três. - Tenho que voltar.
Rony ofereceu-lhe um aceno de cabeça distraído, sem dispensar a atenção que ela esperava. Ele começou a despachar os pedidos que a irmã trouxera, enquanto Luna abria a bolsa para pegar no dinheiro e pagar o vinho.
- O meu neto paga. - O Sr. Riley pousou a mão frágil no ombro de Luna. - É um bom rapaz. Guarde o seu dinheiro, querida.
- Obrigada. - Luna estendeu a mão para um aperto. Ficou encantada quando o velho a levantou para os seus lábios. - Tive o maior prazer em conhecê-lo. - Ela saltou do banco. Sorriu para o Riley mais jovem. - Os dois.
Sem Gina para abrir o caminho, chegar à porta foi um pouco mais difícil do que alcançar o balcão. Quando finalmente conseguiu, Luna tinha o rosto afogueado pelo calor dos corpos, o sangue a correr mais rápido, ao ritmo vertiginoso do violino.
Fora uma das noites mais divertidas da sua vida. Ela saiu para o ar frio da noite.
E viu Rony baixar-se para escapar do soco violento de um homem que tinha muito alto.
- Calma, Nevill... - Ele falou num tom razoável, enquanto um gigante de cabelos castanho brilhantes erguia de novo os punhos enormes.
- Sabe muito bem que não quer me acertar.
- Claro que quero! Juro por Deus que desta vez te vou partir o raio desse nariz intrometido, Rony Potter. Quem é tu para me dizer que não posso tomar a merda de uma dose na merda de um p u b , quando estou com a merda da vontade?
- Está que nem um cacho de uvas, Nevill. Precisa ir para casa agora e dormir até passar.
- Vamos ver se consegue dormir com isto! O gigante atacou.
Enquanto Rony se preparava para girar, a fim de evitar com facilidade a investida do touro, Luna deixou escapar um pequeno grito de alarme.
Foi o suficiente para distrair Rony, permitindo que o soco acertasse no alvo.
- Essa não!
Rony mexeu os maxilares, expirando fundo, enquanto a carga impetuosa de Neville o levava a estatelar-se no passeio, de cara no chão.
- Está bem? - Apavorada, Luna adiantou-se, contornando o corpo estatelado, que era mais ou menos do tamanho de um transatlântico emborcado.
- A sua boca está sangrando! Dói muito? Isso é horrível!
Ela abriu a bolsa para pegar num lenço de papel, enquanto falava, gaguejando.
Rony sentia-se bastante irritado, com vontade de dizer que o sangue era tanto culpa dela, por ter gritado, quando Neville foi desferir o soco. Mas Luna parecia tão linda e consternada, já comprimindo o lenço de papel contra o lábio cortado, que ele mudou de ideia.
E Começou a sorrir. Como fazia a boca doer ainda mais, ele estremeceu.
- Que homem violento! Precisamos chamar a polícia.
- Para quê?
- Para o prenderem. Ele te agrediu.
Rony fitou-a, aturdido, com um choque sincero.
- Porque eu de iria querer que um dos meus amigos mais antigos fosse preso por deixar o meu lábio sangrando?
- Amigo?
- Isso mesmo. Ele estava apenas bêbado de uísque, um coração partido, o que é uma tolice, embora seja bastante natural. A miúda que ele pensava que amava foi-se embora com um dublinense. Fez duas semanas na última quarta-feira. O Neville tem bebido para esquecer nos últimos dias, causando as maiores confusões. Mas não tinha a intenção de fazer mal a ninguém.
- Ele te deu um soco no rosto. - Talvez se ela falasse devagar, de uma maneira incisiva, o significado do fato fosse absorvido. - Ele disse que ia partir o seu nariz.
- Só disse isso porque tentou fazê-lo antes e não conseguiu. Vai arrepender-se de me ter acertado pela manhã, quase tanto quanto da ressaca. Sentirá a cabeça a estourar e vai torcer para que ela caia dos ombros, a fim de deixá-lo em paz. Rony sorriu agora, mas cauteloso. - Ficou preocupada comigo, querida?
- Aparentemente, não deveria. - Luna respondeu num tom severo, comprimindo o lenço de papel numa bola. - Já que parece gostar de lutar na rua com os seus amigos.
- Houve um tempo em que eu gostava de lutar na rua com estranhos, mas a maturidade levou-me a preferir os amigos. - Ele estendeu a mão, como tinha vindo a querer fazer a algum tempo, e passou os dedos pelas extremidades dos cabelos de Luna. - E obrigado por se ter preocupado comigo.
Rony deu um passo em frente. Luna recuou. Ele suspirou. - Um dia não terá tanto espaço para recuar. E eu não terei de lidar com o pobre bêbado do Neville, caído a meus pés. Com uma expressão resignada, ele baixou-se. Para espanto de Luna, levantou o homem enorme, semiconsciente, e apoiou-o no seu ombro.
- É você, Rony?
- Eu mesmo, Nevill.
- Parti o seu nariz?
- Não, não partiu. Mas deixou o meu lábio um bocado ensangüentado.
-A porra da sorte dos Potter.
- Há uma dama presente, seu cabeça oca.
- Peço perdão.
- Vocês os dois são ridículos!
Luna virou-se e seguiu para o seu carro.
- Luna, minha querida... - Rony sorriu, suspirando quando o lábio doeu. – Irei vê-la amanhã, ao meio-dia e meia.
Ele apenas riu quando Luna continuou a andar, sem dizer nada, os saltos a ressoar no passeio.
Ela virou-se ao alcançar o carro, lançando lhe um olhar fulminante.
- Ela já foi embora? - Perguntou Neville.
- Sim, foi, mas não irá muito longe. - Murmurou Rony, enquanto Luna se afastava no carro, guiando com todo o cuidado. - Com toda a certeza, não irá muito longe.
Os homens eram verdadeiros babuínos. Obviamente. Luna balançou a cabeça, tamborilando com um dedo no volante, em desaprovação, enquanto seguia para casa.
Briga de bêbados na rua não era um passatempo divertido; e quem pensava que era, estava a precisar de uma terapia. E Rony fizera com que ela se sentisse uma idiota. Parado ali, sorrindo, enquanto ela lhe limpava o sangue. Um sorriso indulgente, pensou Luna agora, do macho enorme e forte para a fêmea pequena e frágil. Pior ainda, além de tola, também se mostrara impressionada.
Quando Rony levantou aquele homem enorme para os seus ombros, como se fosse um saco de penas, sentira uma contração incontestável no estômago. Se não se tivesse controlado nesse instante, afastando-se, poderia ter soltado um murmúrio de admiração. Mortificante. E ele ficara um pouco embaraçado por alguém ter esmurrado a sua cara na presença de uma mulher? Não, nem um pouco. Corara um pouco ao apresentar o idiota bêbado a seus pés como um velho amigo? Não, nem um pouco.
Era bem provável que estivesse atrás do balcão de novo, divertindo os amigos com a história, arrancando gargalhadas com o relato do seu grito assustado e as suas mãos trêmulas. Desgraçado!
Luna fungou uma vez, e sentiu-se melhor por isso. Ao entrar no caminho para o chalé, já se convencera de que se comportara com absoluta distinção, assumira uma atitude sensata. Rony Potter é que fora o idiota. Flores-da-lua! Ela bateu a porta do carro com bastante força, para que o som ressoasse pelo vale.
Depois de respirar fundo, mais uma vez, e alisar os cabelos, encaminhou-se para o portão. E, quando levantou o rosto, avistou a mulher na janela. - Oh, Deus! O sangue deixou o seu rosto. Sentiu cada gota desaparecer. O luar tremeluzia nos cabelos muito claros, as faces pálidas, contra os olhos de um azul profundo. Ela sorria, um lindo sorriso, mas angustiante, que dilacerou o coração de Luna e a deixou desesperada.
Ganhando coragem, Luna abriu o portão e correu para a porta. Quando a abriu, ocorreu-lhe que se esquecera de trancá-la. Alguém entrara durante a sua permanência no pub, ela disse a si mesma. Era só isso.
Os joelhos tremiam quando ela subiu as escadas a correr. O quarto estava vazio, assim como todas as outras divisões da casa, que ela verificou, uma a uma. Restava apenas a tênue fragrância da mulher.
Apreensiva, Luna trancou as portas. E, quando se recolheu ao quarto, trancou-o também por dentro. Depois de ter trocado de roupa e se ter ajeitado na cama, deixou a luz acesa. Muito tempo passou, antes que conseguisse adormecer.
E sonhou com jóias, pedras preciosas que se projetavam do sol, caíam pelo céu, e eram recolhidas num saco prateado por um homem, montando um cavalo alado, branco como a neve. Desfilavam pelo céu, por cima dos campos e montanhas, lagos e rios, os pântanos e charnecas que constituíam a Irlanda. Sobrevoavam as ameias de castelos e os telhados de colmo dos chalés mais humildes, com as asas brancas do cavalo a zunir contra o vento.
Pararam de repente, num clarão ofuscante, os cascos a riscar a terra, na frente do chalé na colina, com as suas paredes brancas, persianas verdes e flores espalhadas na porta. A mulher saiu ao seu encontro, os cabelos do dourado mais claro a caírem-lhe pelos ombros, os olhos azul como o céu.
O homem, cujos cabelos eram pretos intensos como a noite escura, tinha a pele clara, usava um anel de prata com uma pedra no centro, não menos brilhante do que os seus olhos. Saltou do cavalo. Adiantou-se e deixou cair as pedras aos pés da mulher. Os diamantes cintilavam na relva.
- Estas pedras representam a minha paixão por ti - declarou ele. -As aceita e aceita também a mim, pois eu te darei tudo o que tenho e mais.
- A paixão não é suficiente, nem os diamantes. - A voz era suave, contida. As mãos permaneciam cruzadas na cintura. - Estou prometida a outro.
-Te darei tudo. Darei até a eternidade. Vem comigo, Gwen, e terás cem vidas que te darei.
- Não são pedras preciosas e vidas o que eu quero. - Uma única lágrima deslizou pelo rosto, tão brilhante quanto os diamantes na relva. - Não posso deixar a minha casa. Não trocarei o meu mundo pelo teu. Nem por todos os teus diamantes, todas as tuas vidas.
Sem dizer mais nada, ele virou-se e voltou a montar o cavalo alado. E, enquanto se elevavam pelo céu, Gwen voltou para dentro do chalé, deixando os diamantes no chão, como se fossem apenas flores. E tornaram-se flores, cobrindo o chão com a sua fragrância, humilde e suave.
(Fim do capítulo) |
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