Passos apressados ecoavam pelo corredor de pedra. O cheiro de morte pairava no ar, nauseando qualquer pessoa que tivesse estômago fraco. Mas Anthony não era assim. Já estava acostumado com isso... Há séculos. Ele se movimentava, agilmente, tentando chegar ao fim do corredor. Desviava dos corpos mortos e punhados de cinzas que estavam no chão. Estava certo de que os corpos pertenciam aos bruxos. Aqueles malditos bruxos, ele pensou.
Chegou até o final do corredor onde havia um quadro. Era o retrato de um homem que lembrava o próprio Anthony. Cabelos e olhos negros como a noite, o rosto fino e os traços delicados, entretanto, aparentava ser um pouco mais velho. Tirou do pescoço, uma corrente com uma chave pendurada. Retirou o quadro da parede, revelando uma porta, até então escondida por ele. Em seguida, enfiou a chave na fechadura e abriu-a.
Era uma pequena biblioteca particular, a qual poucos tinham acesso, e Anthony era um deles. Ele fizera muitas coisas para o clã no passado, ganhando o respeito de muitos. Fechou a porta atrás de si, com um suspiro de alivio. Era um milagre estar vivo até aquele momento. Poderia ter fugido, mas estava sem seu anel que o possibilitava sair à luz do sol. Perdera no começo da confusão, no começo do ataque. Malditos bruxos, pensou de novo. Mas não havia tempo para pensar nisso. Correu até a prateleira do meio e passou os dedos rapidamente pelos livros, procurando o título certo. Estava sem paciência de fazê-lo, mas sua vida dependia disso. Começou a jogar os livros no chão, desesperado.
Sentiu um alívio quando finalmente achou um livro de capa de couro vermelho com letras douradas. Correu até a escrivaninha, que ficava no canto esquerdo da sala, e colocou o livro lá. Abriu e começou a folhear, rapidamente. Quando achou a página que procurava, tirou uma faca do bolso de sua roupa do século XIX. Palavras em latim começaram a sair de sua boca. Cortou a palma de sua mão e, enquanto lia, começou a desenhar um circulo em volta do livro com o sangue. Terminado o cântico e fechado o circulo, sua mão começou a brilhar como diamante e em poucos segundos, seu corpo também brilhava. Voltou ao normal logo em seguida.
Terminou o feitiço, e saiu correndo da sala. Aquele era o momento certo para sair dali, mas precisava ir para o andar de cima, já que ele estava nas masmorras. Chegando perto da escada, pode ouvir sons de tiros e gritos. Hesitou em continuar, mas era a única saída. Subiu as escadas e abriu a porta. O hall do castelo estava caindo aos pedaços. Havia sangue e destroços de corpos humanos pelo chão e pela parede. E ainda estavam batalhando lá. Ele parou lá, rindo consigo mesmo, pensando que estava perdendo a brincadeira. Ele poderia morrer, mas certamente aquilo era mais divertido.
Saiu de seu devaneio quando um bruxo acabou explodindo na parede. Um vampiro havia jogado-o de encontro à parede. Se um ser humano pulasse de um penhasco, certamente estaria daquela forma agora. O corpo escorregou lentamente encontrando o chão. Anthony tirou um pedaço de intestino de seu cabelo. Olhou a parede ao lado e viu que havia um buraco ali. Deu um sorriso ao vampiro que havia feito isso.
- Aquilo ali é o baço dele? – Perguntou, apontando para um pedaço que estava grudado na parede.
- Acho que sim. – O outro respondeu, rindo.
Mas a risada do vampiro logo se desfez. Estava se contorcendo de dor no chão, sentia seu corpo queimando de dentro para fora. O cheiro de queimado invadindo suas narinas. Pediu ajuda para Anthony, mas era tarde de mais. Já havia virado pó em poucos segundos.
Do pó viemos, ao pó voltaremos.
Anthony balançou a cabeça afastando esses pensamentos, e olhou para a pessoa que fizera aquilo. Era um jovem de longos cabelos ruivos e olhos azuis. Seu olhar era calmo por traz dos óculos em forma de meia lua e ele encarava Anthony.
Você será o próximo e você sabe disso Anthony. Fuja. FUJA! Mexa essas malditas pernas, seu idiota.
Era tarde demais. Bruxos o cercavam, apontando as varinhas. Um senhor abriu caminho entre eles e ficou de frente para Antony. Era tão alto quanto Antony, possuía feições delicadas como as dele, seu cabelo era curto e loiro escuro e suas olheiras realçavam os olhos castanhos, quase amarelos. Tinha uma aparência cansada, seus olhos fundos davam a impressão de que estava doente. Havia algumas cicatrizes em seu rosto. Coçou seu queixo com um ar distraído.
- Há quanto tempo, Anthony. – Ele disse com um sorriso simpático.
- Vincent. – Ele respondeu com desdém. – É uma pena estar trabalhando para eles. Deveria se sentir orgulhoso de sua raça.
- Somos diferentes. – Vincent se aproximou. – Sabe... Vocês matam as pessoas, eu as protejo de criaturas mágicas como você.
- Como nós. – Anthony corrigiu. – É um vampiro também, apesar de não desfrutar de sangue humano como nós. – Continuou, sorrindo. – Irônico, não? Você foi transformado na criatura que mais odiava. É uma pena não sermos do mesmo clã. Deve estar se perguntando como descobri, não? Sabe, tenho meus contatos. Queria estar lá para ver você destroçar sua filhinha. – A risada ficava cada vez mais alta. – É um belo castigo, Vincent.
- Deveria tomar cuidado com as palavras que fala, Anthony. – Tirou uma pistola da cintura e apontou para ele. O homem a sua frente estava sério agora. O ódio faiscava em seus olhos. – Deveria ter tomado conta de seu irmão. Dizimar uma vila de trouxas em uma noite? Seu irmão foi burro o bastante para desobedecer as leis da Sociedade da Magia. Em parte, a culpa é sua, Anthony. E agora... Agora seu clã vai ser dizimado por causa disso. Por causa de uma burrada sua. – Ia continuar a falar, mas foi interrompido por uma explosão que vinha do outro lado do hall.
- Precisamos de reforços! – Alguém veio gritando. – São muitos! Estão acabando com a gente!
Sobraram dois bruxos junto com Vincent. Anthony sorriu.
- Foi bem inteligente atacarem de manhã e enfeitiçarem todas as janelas e portas para impedir que a gente saísse. Mas... Alguém sempre sobrevive! – Pulou em cima dos dois bruxos, fazendo com que batessem a cabeça no chão. Ele havia afundado os corpos no chão de pedra e uma poça de sangue começou a se formar. – Até outra hora, Vincent. – Ele disse, gargalhando, e deu um soco na parede abrindo passagem.
BANG
Anthony cambaleou, mas continuou correndo assim mesmo.
Droga, banharam a bala em água benta.
- Ele está fugindo!
- Deixem ele ir. Nós o pegaremos depois. – Vincent respondeu. Apesar de ter dito muito baixo, Anthony conseguiu ouvir com precisão. – Temos coisas mais importantes para resolver agora.
Levou a mão até o ferimento e começou a cutucar, procurando a bala alojada em seu peito. A dor era aguda, mas suportável. Não ia parar de correr por causa disso. Fechou os olhos e contou até três. Uma dor mais forte. Seus dedos seguravam a pequena bala de prata. Uma coisinha tão pequena fez um estrago tão grande. Ficaria com uma cicatriz em seu peito para sempre, mas não ligou para isso. Era apenas mais um ferimento de batalha e ele poderia se orgulhar disso, porque ele havia sobrevivido. Jogou a bala prateada no chão e lambeu seus dedos cheios de sangue.
A lua iluminava o céu escuro. Pequenos galhos estalavam debaixo de seus pés. Anthony corria rapidamente, estava exausto e precisava de um lugar para descansar. Achou uma pequena caverna perto de um riacho. Já estava a quilômetros de distancia da sua ex-casa. Ser vampiro tinha suas vantagens, ele pensou. Sua velocidade era fora do comum, assim como seus outros sentidos. Entrou na pequena caverna, sentou no chão, se encostou na parede fria e fechou os olhos.