As gêmeas Patil, velhas vizinhas da Gina , estavam sentadas na rede do alpendre dianteiro de sua casa, a localização favorita de ambas, de onde podiam observar os movimentos e atividades de todos os vizinhos ao longo das quatro quadras da rua Elm. Nesse momento, ambas as solteironas observavam Gina que colocava sua valise no assento traseiro do Blazer.
— Bom dia, Gina — saudou Padma Patil, e Gina se voltou sobressaltada ao comprovar que as duas senhoras de cabelo branco já estavam levantadas às 6 da manhã.
— Bom dia, senhorita Padma — respondeu, encaminhando-se por volta delas para as saudar com maior respeito. — Bom dia, senhorita Parvati.
Apesar de terem mais de setenta anos, as senhoras seguiam sendo parecidas, um parecido que reforçava a hábito de toda uma vida de usar vestidos idênticos. Entretanto ali terminava a semelhança entre elas, porque Padma era gordinha, doce, dócil e alegre, enquanto sua irmã era magra, amargurada, dominante e intrometida.
— É uma bonita manhã — adicionou a senhorita Padma, se envolvendo em seu chalé para se proteger do ar frio de janeiro. — Estes dias mornos que se apresentam de vez em quando decididamente obtêm que o inverno pareça mais curto e mais passível, não é certo, Gina?
Mas antes de que Gina pudesse responder, Parvati Patil foi diretamente ao tema que lhe interessava.
— Vai de novo, Gina? Mas se quase não faz umas semanas que voltou!
— Só estarei ausente dois dias.
— Outra viagem de negócios, ou esta vez se trata de uma viagem de prazer? — Insistiu Parvati.
— Mais bem diria que é uma viagem de negócios.
Parvati levantou as sobrancelhas, exigindo informação adicional, e Gina decidiu ceder para não ser grosseira.
— Vou até Azkaban, onde tratarei de conseguir uma doação para meu programa de luta contra o analfabetismo.
Parvati assentiu, digerindo a informação.
— Soube que seu irmão tem problemas para terminar a casa do prefeito Fudge.
— Gui é o melhor construtor da zona. Justamente por isso o arquiteto do prefeito o contratou. Nessa casa tudo está feito a medida. E isso requer tempo e paciência. — Parvati abriu a boca para continuar com sua inquisição, mas Gina se adiantou. Olhou seu relógio e disse com rapidez: — Será melhor que eu vá. Tenho uma longa viagem por diante. Adeus, senhorita Padma. Senhorita Parvati.
— Tome cuidado — advertiu a senhorita Padma. — Dizem que vem um ar frio desde Azkaban, que chegará aqui amanhã ou depois. Lá neva muito. Suponho que não quererá ficar presa em uma tormenta de neve.
Gina dedicou um carinhoso sorriso à gêmea gordinha.
— Não se preocupe. Vou no Blazer do Gui. Além disso o prognóstico meteorológico anuncia só vinte por cento de probabilidades de que neve aqui.
As duas senhoras ficaram observando o Blazer que retrocedia pelo caminho de entrada. Logo a senhorita Padma lançou um suspiro.
— Gina vive uma vida tão aventureira! O verão passado viajou a Paris, França, com esse grupo de professoras, e no ano anterior foi conhecer o Grand Cannion. Decididamente não faz mais que viajar.
— Assim como os vagabundos — respondeu a senhorita Parvati com tom ácido. — Se me perguntar isso, te direi que acredito que deveria ficar em sua casa e casar-se com esse pastor assistente, enquanto ainda tenha possibilidades de fazê-lo.
Ao invés de submeter-se a uma inútil e desagradável confrontação com sua gêmea, Padma fez o que fazia sempre: simplesmente trocou de tema.
— O reverendo Weasley e sua senhora devem estar muito orgulhosos de todos os seus filhos.
— Não o estariam se soubessem que Rony passa a metade de suas noites com essa garota com quem anda agora. Irma Bauder comentou que faz duas noites, ouviu arrancar seu carro depois das quatro da madrugada.
A expressão de Padma se tornou sonhadora.
— Ah, mas Parvati! Considere que talvez tenham muito de que falar. Aposto que já estão apaixonados!
— Estão quentes! — Retrucou Parvati. — E você segue sendo uma tola romântica, igual a sua mãe. Papai sempre dizia.
— Você é filha de mamãe, Parvati — assinalou Padma com cautela.
— Mas eu me pareço com papai. Não tenho nenhum parecido com ela.
— Mamãe morreu quando éramos bebês, assim não pode estar tão segura.
— Estou segura porque papai sempre o dizia. Dizia que você foi uma tola, igual a mamãe, e que eu era forte, igual a ele. Se recordar, foi por esse motivo que me deixou o controle de sua fortuna... Porque não se pode confiar em que você saiba cuidar. Assim que eu tive que cuidar das duas.
Padma olhou as mãos gordinhas que tinha entrelaçadas sobre a saia. Não respondeu.