Poderia dizer que dormiu? Não, era visível que não havia pregado o olho a noite inteira. Quando a festa acabou, ela não conseguiu adormecer como todos os outros. Resultado: Estava com olheiras estupidamente profundas, os movimentos cansados, um mau humor além do habitual. Além de, secretamente, uma ira e uma mágoa impressionante que nunca sequer pensou poder sentir. Principalmente por uma garota.
Mas ver sua ex beijando sua irmã doeu. Doeu como o diabo.
Estranhou a palavra em sua cabeça: “ex”.
Ela jamais namorou, jamais assumiu compromisso sério. O que importava que uma das tantas que esteve com ela viesse a estar, depois, com Astoria?
Essa dúvida doía quase tanto quanto a cena presenciada.
Não pensou muito bem, não queria pensar.
Saiu quarto afora, ainda com a roupa que estivera na festa e pegando, no caminho, uma chave.
Sua mão tremia enquanto ela tentava destrancar a porta. Na terceira tentativa a maldita escapou de seus dedos. Inspirou e expirou cinco vezes; tentou se acalmar. Encaixou com firmeza o objeto na fechadura e girou.
Irrompeu no lugar com brusquidão, não dando a mínima se acordaria quem estivesse lá. Encontrou, com a cabeça tranquilamente repousada no travesseiro, quem procurava. Sacudiu sem delicadeza os ombros magros da menina.
- Acorde. – Silvou. – Anda, Astoria!
A loira abriu os olhos alarmada, surpresa por ser despertada daquela maneira.
- Você vem comigo. – Ordenou.
- Me deixe dormir. – Dizendo isso, fechou os olhos novamente.
- Se você não quer vir, não me importo nem um pouco de te dizer aqui mesmo o motivo de nossa conversa. Suas coleguinhas vão adorar ter o que fofocar.
Algo no tom amargo de Daphne fez a outra se erguer.
- O que você quer? – Perguntou com cautela, seu sensor de perigo imediatamente acionado.
- Você vem comigo! – Repetiu impaciente, aumentando o tom de voz e ignorando os olhares curiosos das companheiras de quarto da irmã.
A loira, embora espantada, nada disse, levantou-se e colocou, por cima da camisola, um robe que estava ao lado de sua cama. Saíram.
A morena seguia com passos rápidos que a outra encontrava dificuldades em acompanhar. Parou em um corredor e tentou uma porta. Trancada. Tentou até encontrar uma aberta. O depósito pequeno de materiais de limpeza se revelou para as meninas, Daphne tateou até encontrar o interruptor. Entraram. Astoria a encarava nervosamente, esperando.
- Desde quando você decidiu que queria novas experiências? – Começou com um tom baixo e perigoso.
- Quê? – A pergunta parecia um disparate.
- Desde quando você decidiu que queria brincar com uma coisa mais séria do que você pode supor? – Letal era a única palavra que poderia descrever a maior naquele momento.
- Do que você está falando? – A loira começou a ligar os pontos, mas ainda assim pareciam absurdas as perguntas. Ela não teria como saber de nada do que aconteceu, teria?
- Desde quando lhe pareceu agradável brincar e viver suas novas experiências justamente com Hermione Granger? VOCÊ TEM ALGUMA COISA NA CABEÇA ALÉM DE MERDA? – A voz controlada da morena desapareceu completamente, sendo a última pergunta um grito furioso.
Astoria não demonstrou qualquer emoção, sabia muito bem lidar com a irmã.
- Então você sabe. – Disse apenas.
- COMO VOCÊ PODE SER TÃO CÍNICA? – Mais gritos.
- Aprendi com a melhor. – Retrucou com frieza.
- Você não consegue olhar pra nada além do próprio umbigo? POR QUE JUSTAMENTE COM ELA?
- Que diferença faz pra você eu ter ficado com a Hermione? Você não já esteve com milhares de outras garotas depois dela? Eu que olho apenas pro meu próprio umbigo? – Atacou.
- Mas ela, ela... você sabe muito bem o que eu sentia... o que eu sinto... eu... – A voz da garota vacilava.
- Você o quê? Você a ama? – A loira desdenhou. – Você a ama e por isso você a tratou como lixo, Daphne?
- Você não tinha o direito. VOCÊ SABE MUITO BEM COMO EU ME SINTO! – Repetiu. Sentiu-se idiota, mas coberta de razão.
- Nem você sabe como você se sente. – Foi ácida. – Quando começou a descobrir, caiu fora!
- Você não sabe o que diz. Não é assim tão fácil. – Controlou-se.
- Claro que não é.
- Por que justamente com ela? – Perguntou outra vez, o tom de voz agressivo. – Você pode se divertir com quem quiser, Astoria. POR QUE JUSTAMENTE COM ELA? – E lá se foi o controle.
- Eu gosto dela. – Falou com firmeza.
- Você não sabe o que é gostar de alguém. – Daphne retrucou com o mesmo desdém da outra.
- Eu gosto dela!
- Você quer é me desafiar! Ela te interessa porque ela foi minha! – Disse maldosamente.
- Não seja mais egocêntrica do que já é! Ela me interessa por ser ela, ter ficado com você foi só um detalhe, que, adivinhe, passou!
Os olhos da morena eram puro veneno.
- Ela ainda tem sentimentos por mim. Eu sei. Você acha que isso não vai corroê-la por dentro? Você acha que ela não vai te beijar nenhuma vez pensando em mim? Você acha que ela não vai se lembrar de mim quando estiver com você?
Silêncio.
Sim, Astoria achava. Sim, tinha, inclusive, pensado nisso.
- Eu sei que é um risco que eu corro. – Disse com seriedade. – Mas quando ela se apaixonar por mim, Daphne, diferente de você, eu não vou ser uma criança medrosa. Diferente de você, eu vou segurá-la. – Olhou diretamente nos olhos da irmã com atrevimento e firmeza.
O tapa ardeu forte em sua face direita, seguido de passos altos e a porta batendo atrás de si. Daphne se fora.
Fechou os olhos. O tapa, para ela, era menos do que merecia. Tinha a consciência de que poderia magoar a garota, e isso lhe doía, fazia seu interior se revoltar. Mas ela não mentiu quando disse que gostava de Hermione.
Desde que descobrira sua atração por garotas que observava a menina. De longe, a princípio, até porque ela era de um bloco escolar diferente. Atrevia-se a dizer que olhou para ela até mesmo antes da irmã. Mas nunca ousou se aproximar. Nunca. Até que, no ano letivo anterior, houve o escândalo. Ela já sabia que a garota por quem nutria sentimentos quase platônicos estava com Daphne. Mas tudo mudou muito rápido. Daph a dispensou por medo e Astoria descobriu-se no meio de um dilema. Nesse ano, estava decidida.
Respirou fundo antes de deixar o depósito e voltar para o quarto. Quando chegou, é claro que Marie e Hanna estavam esperando para fazerem o interrogatório. Revirou os olhos. Não se importava realmente.
Desde que havia tomado sua decisão soube que não poderia se importar com os outros mais. E isso não era fácil. Ela sempre manteve uma imagem perfeita, e a pose exigida por sua mãe. Daphne sempre foi a filha problema, cabia a ela, portanto, “dignificar o nome Greengrass”. Ia continuar exatamente como era, com aparência e contatos, mas não se esconderia para agradar, não mesmo. Queria demais Hermione para arriscar cometer o mesmo erro de sua irmã.
- Nossa, mas o que foi isso?
Astoria olhou para as duas meninas que a miravam ansiosas e praticamente pulando. Não pareciam muito preocupadas, apenas curiosas.
-Ah... Daphne, vocês sabem como ela é.
- Sim, o que ela queria? Parecia furiosa. – Hanna perguntou com a voz aguda.
- Coisas de família. – Disse com firmeza. – Nada de muito importante. – Acrescentou.
Vislumbrou a careta de descrença e decepção das garotas antes de tirar o robe e ir para dentro das cobertas.
- Vou voltar a dormir, vocês deveriam fazer o mesmo... a festa de ontem acabou comigo. – E fechou os olhos, mesmo tendo a consciência de que não adormeceria tão cedo.
Mas a verdade é que adormeceu. Tão logo se ajeitou melhor na cama, o sono veio pesado, livrando-a dos pensamentos torturantes.
E quando acordou, dessa vez por si mesma, tomou um rápido banho e se vestiu. Já era hora do almoço.
Domingo era o dia reservado para a visita das famílias. Algumas levavam os filhos do internato para passarem o dia fora. Astoria duvidava, contudo, que sua família viesse visitá-la. Os Greengrass apareciam, categoricamente, de dois em dois meses apenas. E usavam a visita muito bem, diga-se de passagem. Falavam horas e horas sobre a família, sobre o futuro brilhante que cada Greengrass tinha reservado e sobre a influência política. E depois de uma breve refeição juntos, deixavam as meninas com o motorista para que elas pudessem fazer compras, ir ao salão e o que mais precisasse. Afinal, elas sempre deveriam estar perfeitamente vestidas, apresentáveis e bem arrumadas.
Dirigiu-se sozinha ao refeitório. Ela tinha permissão para ir ao shopping local nas folgas, mas não tinha a mínima vontade de deixar a escola. Não quando ela estava tão vazia e pacata, diferente dos dias de semana, que o lugar parecia um protuberante formigueiro, explodindo de pessoas, mochilas, resmungos e preocupações irrelevantes por todo canto. Como supôs, havia um ou outro aluno deslocado e sentado, na sua maioria, em mesinhas individuais. As grandes mesas de grupo, aquelas que geralmente eram marcadas e exclusivas das panelinhas estudantis, jaziam abandonadas no meio do refeitório.
Pegou uma salada e uma porção de macarrão frio japonês. Sentou-se no canto e olhou para seu macarrão. “Muitos carboidratos! Não coma isso!” era o que sua mãe a diria se a visse com o prato. “Mas japoneses são tão magrinhos, mamãe...” era o que responderia. Com uma risadinha, o comeu antes de passar para a salada.
Quando terminou o almoço, andou até um pequeno jardim não muito freqüentado. Gostava de lá. Havia uma enorme árvore ancestral, cuja raiz matava qualquer outra planta que ousasse adentrar em seu domínio. Era por isso que os estudantes não apreciavam muito o lugar. Embora reservado e arejado, era pouco florido. E Astoria nunca entendeu porque os outros só se preocupavam com flores.
Sentou-se à sombra da árvore e acendeu um cigarro. Estava tão absorta, relembrando as palavras amargas de Daphne, que não reparou a aproximação de outra pessoa.
- Não fume. – Ouviu antes de sentir sua mão ser tocada por outra muito delicada, que, apesar disso, tirou com firmeza o cigarro de seus dedos.
- Hermione! – Não pode evitar a exclamação, e observou a menina acomodar-se preguiçosamente ao seu lado. Sorriu abertamente para ela, que lhe respondeu com um acenar de cabeça.
A morena mirou o cigarro por um instante antes de apagá-lo na grama.
- Não sei por que vocês gostam dessas coisas. – Disse, olhando vagamente para a pequena marquinha escurecida que se formou no chão. – Amarela os dentes, pode causar milhares de tipos de câncer.
- A sensação é boa. – Astoria deu de ombros.
- Têm muitas alternativas que propiciam uma sensação boa e não são prejudiciais à saúde. – Hermione respondeu com aquele tom sabe-tudo que fez a loira sorrir. Principalmente pela clara inocência da garota ao dizer aquilo.
Astoria mirou-a maliciosa e Hermione arregalou os olhos, rindo.
- Você é muito nova pra distorcer tudo dessa forma. – Deu um pequeno empurrão no ombro da outra.
- Não sou tão nova assim. – Resmungou.
A morena encarou a menina ao seu lado demoradamente. É. Talvez não fosse tão nova assim.
- Onde estão seus pais? – Mudou radicalmente de assunto, afastando-se do perigo.
- Ah... eles não aparecem tanto assim. – A loira respondeu, dando novamente de ombros. – E os seus?
- Estão em um novo curso para dentistas profissionais que surgiu na França. – Respondeu. – Parece que inventaram um tipo de aparelho que age mais rápido. E, claro, que dói mais. – Acrescentou com ironia.
- Problemas com aparelhos? – A loira perguntou de bom humor.
A outra riu de leve.
- Nenhum. Tirando o fato que fui chamada de boca de ferro dos seis aos catorze anos.
- Ah, eu não poderia dizer isso pelo seu sorriso. Tudo parece perfeitamente alinhado. – A mais nova disse, encarando-a intensamente.
Hermione corou de leve, mas recuperou-se rapidamente.
- Então devo supor que meus oito anos de apelidos sofridos compensaram. Agora me atrevo a dizer que você nunca usou nem óculos.
- É, acho que dei essa sorte. Mas sabe, minha audição é terrível. – Ela disse séria.
- Mesmo? – A morena perguntou surpresa.
- Não... só estava tentando fazer você se sentir melhor. – A loira abriu um sorriso de deboche e Hermione lhe beliscou na coxa, soltando uma pequena risada.
- Engraçadinha. Devia ser comediante. – Falou sarcástica.
- O que você pretende ser quando se formar? – Astoria perguntou com genuína curiosidade, preferindo não responder à provocação.
Hermione sorriu brevemente.
- Advogada. – Respondeu com convicção.
A pequena menina deu uma risadinha.
- Combina bastante com você. – Explicou, vendo o olhar intrigado da outra.
- E você?
- Ah... – Sentiu-se ruborizar e baixou a cabeça. – Ah... não sei.
- Sabe sim. – A morena insistiu. – Me diga.
- Eu queria... queria ser bióloga. – Subiu o olhar. – Mas minha família não vai aprovar. – Suspirou com resignação.
- Sabe o quê? – Hermione arrumou uma mecha de cabelo loiro que caía pelo rosto da garota. – Você vai ser uma ótima bióloga.
Então a morena levantou-se, ajeitando brevemente a roupa.
- Mas você deveria parar com o cigarro... Entende, biólogos não fumam. – Então sorriu e deu meia volta, indo em direção à escola.
Pensou em voltar para o seu dormitório. Poderia dar uma olhada nos livros de química e separar alguns para estudar antes de almoçar.
- HERMIONE!! HERMIONE! HERMI...
- JÁ TE OUVI RONY! – Ela gritou em resposta a um garoto que vinha correndo em sua direção.
O ruivo parou e apoiou as mãos no joelho, curvando-se ligeiramente e ofegando.
- Porra! Te procurei por todo o canto! – Ele disse, respirando fundo.
- Que houve? – Perguntou preocupada.
- É que estamos de saída pro almoço, vamos passar o dia em casa. Não quer ir com a gente? Você comentou que seus pais não vinham esse fim de semana...
- Ah Ron... eu nem arrumei minhas coisas... – Ela desconversou.
- Qual é, a Ginny te empresta. Vem! – Ele a puxou pela mão. Hermione revirou os olhos, mas sorriu.
Caminharam poucos minutos até o estacionamento do colégio interno. E lá estava o popular, contudo grande (e pesado) carro dos Weasley. Harry escorava-se levemente na lateral e batia um papo com Ginny, que, a morena percebeu, parecia entediada.
- Hermione! – O Sr.Weasley acenou para cumprimentá-la e abriu um sorriso. – Bem, agora que estamos todos aqui, acomodem-se crianças!
- Hey, Mione. – Harry sorriu para ela. Ginny nada disse, apenas lançou-a um olhar cúmplice que foi imediatamente captado. De tarde teriam uma conversa.
O casal e ela se acomodaram no banco traseiro enquanto Rony ia à frente com o pai. Pegaram um grande engarrafamento no centro de Londres e demoraram cerca de meia hora pra chegar até a casa dos Weasley. Era uma casa pequena em comprimento, mas tinha cerca de três andares e parecia ser um milagre da arquitetura a forma com que ela se sustentava. Tal qual a Torre de Pisa, a casa era inclinada para o lado devido à uma má formação na construção.
Entraram na apertada – porém aconchegante – cozinha, sentindo um delicioso cheiro de gordura de carne sendo fritada.
- Bifes! – Rony exclamou com uma felicidade genuína que fez Hermione soltar uma risadinha, e Ginny soltar um muxoxo de impaciência.
O almoço foi, como sempre era naquela família, divertido e definitivamente calórico. A casa parecia extremamente vazia agora que Percy tinha se mudado juntamente com os gêmeos. Todos eles estavam morando próximos ao trabalho.
Depois de ajudar rapidamente a Sra.Weasley com a louça, Hermione e Ginny foram até o quarto.
- Gin... Vou precisar de roupas emprestadas.
- Não tem problema. Você é de casa, tem até uma escova de dentes no banheiro. – Ela respondeu descontraída, subindo os últimos degraus e abrindo uma porta.
- Então, qual é o lance com a outra Greengrass? – Ela perguntou direta enquanto deitava na cama e se espreguiçava.
Por “a outra Greengrass” Hermione sabia bem que ela estava se referindo à Astoria.
- O Harry te contou? – A morena perguntou, movendo-se incomodadamente e sentando-se na beirada da cama.
- É, ele foi mais rápido que você, já que é claro que você ia me contar. – A ruiva estreitou os olhos.
- Claro, claro. – Hermione apressou-se em dizer. – Gin... nem eu sei o que está rolando.
- A Daph não vai gostar nada disso. – Ela disse e parecia realmente preocupada.
- Me diga você qual é o lance com essa Greengrass. – Perguntou com certa irritação.
A garota deu de ombros e colocou as mãos por baixo da cabeça em cima do travesseiro.
- Ela é minha amiga.
- Eu também sou sua amiga.
- Ultimamente não tem sido tanto, Herms.
- Você não está se referindo ao Malfoy, está? – Perguntou agora com muita irritação. – Você sabe que isso tá uma merda!
Ginny a encarou por um instante antes de suspirar.
- Eu sei... mas eu não consigo resistir quando ele me procura... é tão estranho. – Ela fechou os olhos e apertou as pálpebras, como quem tenta espantar uma lembrança. – Mas não posso terminar com o Harry, eu o amo demais.
- Mas você está apaixonada por ele? – Hermione perguntou sabiamente.
A ruiva desfocou os olhos.
- Não sei.
A morena suspirou e deitou ao lado da amiga.
- Estamos fodidas, cara. – Ginny disse, e Hermione, embora nada dissesse, concordou plenamente.
Oi meninas (os) :D
Como estão os dias de vocês?
Estou passando aqui para postar o cap 2, já que em breve mal terei tempo de entrar na internet x_x
enfim, deixem um comentário, quero MUITO saber o que estão achando da história!
Beijo,
Mila.