Era incrível como o destino não os queria juntos embora dessem a eles momentos dignos de serem aclamados. Era como se os deuses se compadecessem da beleza do amor recíproco de ambos e mudassem o que já estava escrito apenas para que eles pudessem provar da pureza que era vê-los juntos somente por algumas horas.
- Eu pensei que fosse dormir. – ele comentou afastando os largos cachos castanhos do pescoço da mulher e depositando ali um beijo terno e calmo.
Ela sorriu.
- Pensa mesmo que eu poderia dormir na última noite que tenho com você? Nem que eu fique aqui acordada apenas pra te observar dormir!
Foi a vez dele sorrir.
- Pensa mesmo que eu jogaria essa noite fora e iria dormir?
Ambos riram. Ele suspirou e ela se aninhou nele ainda observando a vasta paisagem verde coberta pela escuridão da noite através da janela.
- Como se sente, Hermione? – perguntou ele com carinho.
- Feliz e completa. – ela respondeu sem sequer precisar pensar. Tomou mais um gole de seu chá e fechou os olhos. – Sinto que eu não preciso de mais nada, só de ficar aqui.
Ele riu. Era como se realmente pudessem ficar ali para a vida toda. Ali Hermione não era casada com Rony, nem ele teria que sumir do mundo em breve. Tinham um ao outro e só isso bastava naquele momento para fazerem se esquecer de tudo que passaram e de tudo que o amor deles ainda passaria.
- Percebeu que depois que nos beijamos naquele lago e descobrimos que nos amávamos tudo entre nós passou a ser único e apenas o bastante? Quando procurávamos pelas Horcruxes nada mais me dava forças a não ser quando me olhava e mesmo que estivéssemos exaustos para sorrimos um para o outro apenas aquele seu olhar me bastava. Nós vivíamos toda aquela opressão da guerra e mesmo assim foi o tempo em que estivemos mais apaixonados.
- Foi a época que mais precisamos um do outro. – ela comentou sorrindo.
- Nada era mais do que um carinho, mais que um abraço, um olhar, ou apenas quando andávamos de mãos dadas. Era tão intenso, Hermione. Consegue se lembrar?
- Nenhum daqueles dias me foge da lembrança. Nenhum deles sequer! Éramos dois apaixonados em silêncio que aproveitava cada segundo que nos era dado para despejarmos toda a vontade que sentíamos um do outro numa troca de olhar.- ela riu e ele não teve como não acompanhá-la.
- E aquilo nos bastava. – ele completou. – Embora não fosse o suficiente, para nós só aquilo naquele momento nos bastava. Então Voldemort se foi, o mundo entrou em paz, mas nós dois não.
Hermione suspirou abrindo um sorriso triste.
- Quando a guerra acabou e nós nos encontramos com Gina, ela não se cabia de alegria, Harry. – Hermione começou. – Ela me disse na Toca que havia contado cada segundo para a queda de Voldemort na esperança do dia que você fosse voltar pra ela. Voltar, Harry! Aquela palavra me destruiu! Você já era dela antes da guerra começar e eu me senti roubando para mim algo que minha melhor amiga tanto queria! Gina era fascinada por você desde que te viu pela primeira vez e eu só fui me dar conta que te amava no sétimo ano, naquele lago! Não sei exatamente dizer quando comecei a te amar, pra mim parece que desde que nos vimos pela primeira vez ou quando me salvou daquele trasgo talvez, eu não sei, mas sei que só fui me dar conta disso muito tempo depois. Gina já estava na minha frente!
- Foi por isso que fugiu de mim quando eu fui te procurar aquela madrugada?
Ela sorriu.
- Eu estava me sentindo culpada por te amar. Me senti culpada por cada abraço apaixonado que havíamos dado depois daquele beijo, me senti culpada pelo beijo, me senti culpada por te querer. Foi por isso que aceitei o pedido de Rony e não te questionei quando foi obrigado a voltar com Gina.
- Não te questionei por ter aceitado o pedido de Rony porque eu sabia o quanto ele te queria. Ele não te tirava da cabeça e eu tinha que agüentar ele falar sobre você com uma paixão quase que desesperadora. Ele também não se cabia de alegria em se gabar por estar com você. Seria desprezível da minha parte ir acabar com toda a alegria dele.
Hermione deixou morrer a última linha do fino sorriso que tinha nos lábios.
- Três anos, Harry. Eu namorei Rony e você namorou Gina. Como conseguimos? Três anos! Nós entramos num jogo tão frio que toda aquela paixão que tínhamos quando Voldemort ainda era vivo parecia que havia sido irreal. Nós nos acomodamos tanto que eu cheguei a pensar que havia deixado de me amar e isso me levou a me casar com Rony! Casar, Harry! Nós nos esfriamos tanto para não magoarmos a felicidade de nossos amigos que agora somos obrigados a vivermos uma mentira. Eu em meu casamento e você na frente dos nossos amigos. – ela suspirou cansadamente – Ah, Harry... Me desculpe por te culpar no dia do meu casamento.
- Nós dois somos culpados de não estarmos juntos, Hermione. Somos nobres demais e teimosos demais. Nosso amor sempre foi paciente e calmo, e sempre esperou pelos nossos momentos sem que houvesse desespero ou desejo incontrolável. Talvez isso seja porque já está escrito que não vamos ficar juntos. Tornou tudo mais suportável. – ele disse e ela teve que concordar.
Hermione virou sua cabeça para poder encará-lo e ele levou para trás de sua orelha um cacho de sua madeixa. Olhou-a com amor e se inclinou selando seus lábios sem pressa nos dela.
- Eu te amo tanto. – ela sussurrou suspirando. – Estar com você aqui faz isso arder tão forte dentro de mim.
Eles se beijaram mais uma vez.
- Se está tentando me fazer desistir de ir embora saiba que não vou me render – ele disse e ela foi obrigada a rir. – Eu sei que vai ter um grau satisfatório de felicidade se o seu casamento continuar de pé. Rony não vai te deixar, Hermione. Mesmo que eu veja que ele não te ama ele tem um afeto muito grande por você que o limita. Você vai ficar bem. Confio em Rony para cuidar de você quando eu for.
- Eu não preciso que ninguém cuide de mim, Harry...
- Sim, você precisa! – ele a interrompeu. – Tem muitas coisas sobre você mesma que não é capaz de admitir, Hermione! Você se mostra forte, mantém a postura em frente a todos quando algo de errado acontece, mas eu sei que na primeira oportunidade que tiver você vai se enfiar em um canto escuro e chorar. Você precisa de alguém ao seu lado para te impedir de encontrar um canto escuro, porque só assim você consegue vencer esse seu ponto fraco. Eu te observo desde que nos conhecemos e não me olhe com essa cara! Você teria estado em pânico se eu e Rony não estivéssemos com você o tempo em que estivemos atrás das Horcruxes! Não pense que me enganava quando eu via que estava prestes a explodir e então você ajeitava sua postura e procurava pacientemente uma solução inteligente apenas para não se mostrar fraca para mim ou Rony. Você sempre será forte com alguém por perto.
Ela revirou os olhos sorrindo e se soltou dos braços dele escorregando para fora da cama.
- Eu odeio quando você se gaba por me conhecer tão bem. – ela disse e tomou um gole de seu chá. – Pois não pense que eu também não te conheço! Vamos, me leve a biblioteca. Eu sei está se coçando para me mostrá-la!
Ele riu.
- E você está se coçando para conhecê-la. – disse ele se levantando e fazendo ela o acompanhar corredor a fora deixando antes suas canecas de chá sofre a cabeceira da cama.
Hermione apreciou com cuidado todo o caminho. O carpete que seus pés pisavam, o teto de madeira escura, o papel de parede, tudo parecia exatamente do jeito que ela sempre imaginara sua casa. Durante o percurso passou pela porta de dois quartos e em um deles havia uma imensa janela despida das cortinas pesadas que cobriam a maioria delas, essa se abria para um incrível penhasco ao qual estavam suspensos. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha e um sorriso de excitação correu pelos seus lábios e logo sumiu. Ela odiava altura, mas adorava aquele frio na barriga que esse medo lhe causava. Céus! Harry realmente encontrara a casa perfeita.
- Não creio que alguém seria capaz de vender uma casa como essa, Harry. Ela é perfeita. – comentou ela maravilhada.
Harry sorriu.
- Ela não era exatamente assim quando a comprei. – ele apressou-se a esclarecer. – Mandei que fizessem algumas mudanças, mas não foi muita coisa, acredite.
- É muito bonita.
- Que bom que gostou porque ela será sua. – ele disse a conduzindo para um corredor secundário ao principal. Hermione viu ao fundo uma bela porta dupla de madeira esculpida. Não demorou para que estivessem lá com Harry segurando as maçaneta douradas. – Faz parte do meu testamento que essa casa passe para o seu nome.
- Harry eu não...
- Pronta? – ele apontou com a cabeça para suas mãos sobre as maçanetas.
- Não. – ela apressou-se. – Eu não posso ficar com essa casa, Harry! Você vai embora e eu apenas viveria aqui se fosse com você! Nunca viveria aqui sozinha ou muito menos com Rony...
- Apenas a use como eu a usei desde que você se casou. – ele a cortou. – Venha e nunca fique por muito tempo. Apenas aprecie o sabor de onde seria o nosso futuro perfeito. – ele disse e a viu sorrir. – Pronta?
Ela assentiu apertando os próprios braços em torno da cintura. Ansiosa ela mordeu os lábios e ele riu. Abriu a pesada porta e deu espaço para que ela passasse. Os pés descalços da mulher passaram do carpete para um frio piso de tábua corrida. Ela teve que deixar morrer todas as suas expressões porque simplesmente não tinha uma sequer para usar.
Estavam num mezanino circular cercado de um lado por um parapeito de mogno lustroso e pelo outro de pesadas cortinas pérola, vinho e ouro que provaram esconder enormes janelas que davam vista a aquele emocionante penhasco que ela havia já visto quando Harry sacudiu a varinha para fazê-las se abrirem. Ela se aproximou com cuidado do parapeito e lá em baixo pode ver o tapete carmim que cobria todo o piso. Pode ver as inúmeras estantes vazias que seguiam por todo o perímetro da parede, os móveis de madeira e as almofadas que eram postas próximo a uma lareira de pedra polida cinza escuro. Como se ainda não fosse suficiente ela olhou para o teto e lá havia uma gigantesca e colossal clarabóia de vitrais desenhados em cores vibrantes. Seu queixo pesou e ela teve que se conter para não deixar se passar por idiota. Aquilo ela não havia imaginado e era bem mais do que esperava. Muito mais!
Ela abandonou o mezanino que dava para a extensa varanda de vista para o penhasco pela escada helicoidal que não estava muito longe de onde se encontrava. Desceu animada e deixou afundar seus pés no tapete incrivelmente macio que se estendia por toda a biblioteca. Ergueu os olhos mais uma vez para a clarabóia no teto e ela parecia ainda mais colossal agora distante. Correu os olhos pelas estantes e imaginou quantos livros não poderia ter com aquele espaço gigantesco. Olhou para a lareira e nela ainda queimava o fogo. Harry estava ali antes dela aparecer.
Isso foi provado facilmente quando ela se aproximou mais e viu uma pilha de livros abertos sobre uma mesinha de centro, pergaminhos espalhado por todos os lados, uma xícara de chá pela metade e um prato mexido cheio de torradas que esparramava farelos por todos os canto. Havia penas com a ponta quebrada e um tinteiro virado sobre o tapete. Ela estreitou os olhos. Harry nunca fora um exemplo de organização.
- Harry, comida não combina com biblioteca! – ela exclamou e se virou. Ele ainda descida com paciência os degraus da escada. – E esse tinteiro barato da Floreios e Borrões vai manchar o tapete!
Ele riu alto aproximando-se dela.
- Eu sabia que você só não iria gostar dessa parte! – ele passou os braços pela cintura da mulher e a puxou para si beijando-a rapidamente nos lábios. – Então quer dizer que minha bagunça estragou a beleza do lugar?
Ela desmontou e não conteve um sorriso bobo.
- Ah, Harry! É lindo! É incrível! Deve ter sido realmente caro encontrar bruxos que planejassem e conjurassem tudo isso tão perfeitamente. – ela ficou sobre a ponta dos pés e selou só mais uma vez seus lábios nos dele. – Eu me vejo em cada detalhe. – virou-se entre os braços dele e sua visão só pode cair novamente sobre a bagunça do outro. – Mas esse tinteiro virado vai manchar meu tapete. – ela soltou-se dos braços dele e correu para tentar reparar o estrago.
Harry revirou os olhos rindo e desmoronou sobre uma cadeira bem estofada.
- Esqueça isso, Hermione! – ele exclamou.
- Você e Rony são idênticos! Não conseguem ficar cinco minutos em um lugar sem arrumarem um jeito de bagunçá-lo! – ela resmungou e isso o divertia horrores. Não importava quantos anos se passassem, ela sempre seria a mandona Hermione Granger. – O que estava fazendo aqui afinal?
- A principio eu estava tentando rever algumas matérias importantes que vão me ajudar durante o meu treinamento. – ele respondeu divertido. – Mas então eu comecei a me entreter com tudo da época de Hogwarts que estava jogado nessa caixa. – ele apontou para uma pequena caixa que estava debaixo da mesa de centro. Hermione a arrastou de volta a luz e sentou-se sobre os joelhos para analisar melhor o que passou a tirar com cuidado dali de dentro. – As reportagens que saíram sobre mim desde que fui a Hogwarts. É engraçado ver como eles tinham um certo tom de ironia ao se referir a mim quando era adolescente. – ele disse enquanto observava Hermione abrir uma antiga edição do Profeta Diário onde a figura do amigo estava estampada em um tamanho exagerado. – Eles nunca acreditaram realmente em mim até o dia que o matei. Nunca havia notado isso, mas relendo as principais notícias vi que no fundo havia aquele ar de que o mundo depender de mim era uma grande piada.
Hermione sorriu e ergueu os olhos do jornal para Harry sentando na cadeira.
- Eu havia percebido isso, mas quando Voldemort passou a tomar o poder do mundo bruxo quase que por completo, o desespero fez com que essa ironia morresse e você passasse a ser a única esperança deles. Não é a toa que hoje você é aclamado! – ela o fez rir.
Harry se inclinou para frente e pegou do chão uma folha rasgada da revista do semanário bruxo, estendeu para a castanha e ela pegou passando a analisar a foto, riu e revirou os olhos.
- Lembro de Rony me mostrando isso bufando e com as orelhas vermelhas. – riu Harry.
Era um artigo gigantesco sobre o inicio de namoro de Rony e Hermione maldosamente falando sobre a troca inesperada da mulher pelo melhor amigo do Eleito considerando-o pouco demais para ser merecedor da inteligência e da beleza daquela ao qual o salvador do mundo bruxo daria as mãos, os pés e os olhos.
- Eles ficaram realmente aborrecidos por não termos ficado juntos. – comentou Hermione.
- Eles sempre esperaram que fossemos ficar juntos. – Ele recebeu o papel de volta, - Rony ficou furioso.
Hermione riu novamente por se lembrar do surto que o marido tivera nessa época. Ela voltou a olhar o jornal ainda aberto em uma de suas mãos onde a figura de Harry olhava séria para o leitor. Ela voltou-se para o tapete ao seu redor e passou os olhos pelos jornais antigos do profeta, capas de revistas, artigos e colunas cujo os títulos envolviam o nome de Harry. Ela estendeu a mão para a mesa e puxou outro jornal onde dessa vez era uma foto de Harry sentado em um pub com Rony distraído em alguma conversa. Ela começou a passar os olhos rapidamente sobre as linhas da introdução e viu que dizia respeito a uma reportagem que contava resumidamente a história do Herói.
- Você é uma lenda, Harry. – Hermione disse mais para ela mesma do que para ele embora ele tivesse escutado. Ela desistiu de passar os olhos pelas linhas da redação e voltou-os para Harry novamente. – Você será uma grande perda para o mundo bruxo.
Harry suspirou e seu sorriso foi pesaroso.
- Pelo contrário.
Ela baixou os olhos sem questioná-lo e deixou tudo que segurava em suas mãos de lado. Voltou-se para a mesa e arrastou para o lado o jornal que antes lia. Não deixou de sorrir quando viu a foto dos dois abraçados sobre a copa de uma das árvores a beira do lago de Hogwarts num fim de tarde. Harry vestia sua capa de representante de Hogwarts no torneiro tribruxo e tinha sua vassoura em uma mão cercando a cintura de Hermione, que vestia um de seus comuns vestidos de fim de semana, com o braço livre.
- Somos nós. – ela comentou sorrindo bobamente. – Rita sempre esteve certa sobre nós. Veja. – ela puxou a folha de jornal que detinha a foto que observava e mostrou a Harry. – Como será que não percebíamos que nos amávamos tanto? Olhe isso! Parecemos tão apaixonados.
Harry sorriu e pegou o jornal da mão de Hermione.
- Estava olhando essa foto antes de você chegar. – ele voltou a analisá-la atentamente e suspirou. – Tive vontade de nunca ter descoberto o amor que tínhamos um pelo outro assim não seriamos obrigados a sofrermos tanto, continuaríamos apenas vivendo isso. – ele mostrou a foto a ela. – Nós amaríamos como nos amávamos essa época, sem saber. – Ele voltou a olhar a foto e então jogou-a para dentro da caixa. – Mas então você apareceu e fez com que eu me arrependesse desse pensamento. – ele disse marotamente e ela riu balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto suas bochechas coravam. Eles caíram num silêncio onde Harry se ocupou em achar lindo a forma como sua amiga se encabulara, era quase que raro vê-la assim. – Debaixo daquela montanha de pergaminhos tem um livro de DCAT. – ele apontou para um canto da mesinha. – Pegue-o para mim.
Hermione não entendeu o porque do pedido repentino, mas confusa e sem questionar ela estendeu a mão e puxou o livro pela ponta que estava visível debaixo do amontoado de pergaminhos. No mesmo segundo que ela trouxe o livro para si uma pequena caixinha de madeira veio junto escorregando pelo meio das páginas e quicando da perna de Hermione para o chão onde se abriu e mostrou a pequena argola de ouro incrustada de pequenos diamantes em uma ponta onde formavam um minúsculo monumento que reluziu com a luz vinda de toda parte da biblioteca. Ela finalmente entendeu o porque dele ter lhe pedido o livro e o deixou de lado levada pela beleza do anel em contraste com o tapete vermelho.
Com os dedos ela afastou com cuidado a tampa de madeira e pegou o anel erguendo-o a altura dos olhos analisando os cristais refletindo a luz em diversas posições. Abaixou os olhos e pegou a caixinha bem trabalhada, ela havia visto uma dessas no Beco Diagonal em uma loja de jóias caras, mas aquele anel... Aquele anel ela nunca havia visto em lugar algum. Pôs de volta o anel em pé entre as duas almofadas aveludadas e fechou a caixinha. Segurou-a na altura dos olhos e observou os desenhos esculpidos na madeira frágil e clara. Com cuidado e sem pressa ela a abriu novamente e seus olhos brilharam ao voltar a vislumbrar aquela peça não muita exagerada mas de uma beleza rara.
- É lindo... – ela sussurrou apenas enquanto olhava o anel ali, de pé entre as duas almofadas, do mesmo jeito que ela deixara. Ergueu os olhos para Harry e o pegou se deliciando com a cena que via. – Era para ser meu, não era? – perguntou e ele assentiu. Ela sorriu e mordeu os lábios voltando a passar seus olhos pelos cristais reluzentes a luz. – Há quanto tempo o tem?
- Há um bom tempo. – ele respondeu. – Rony queria te propor em casamento e ele me levou a loja junto com ele porque disse que eu conhecia melhor os seus gostos. Eu encontrei esse anel, mas Rony não quis pagar por ele então no outro dia eu voltei e o comprei.
- É certamente muito mais bonito do que o que Rony me deu. Você quem escolheu o que Rony me deu, não foi mesmo? – ela perguntou, ele assentiu e eles riram.
- Eu não tive muita opção. Ele não queria pagar pelos que eu escolhia. – Harry riu. – A vendedora ficou zangada e disse que eu quem deveria propor você em casamento. Acho que isso fez Rony se lembrar daquela reportagem sobre o inicio de namoro de vocês e então ele finalmente resolveu comprar um bom anel.
Hermione riu, mordeu os lábios e suspirou. A verdade é que ambos sabiam que não eram palavras que deveriam fazê-los sorrir. Hermione engoliu em seco e tornou a fecha a caixinha guardando-a entre as mãos.
- Não era pra eu estar com Rony, era pra eu estar com você. – ela fechou os olhos e sua garganta apertou. – Era pra eu estar com você!
- Nada nunca é perfeito, Hermione. E eu e você somos perfeitos demais um para o outro. – ele desviou o olhar. – Infelizmente.
O silêncio caiu entre eles. Hermione abaixou os olhos para a caixinha em suas mãos. A abriu, suspirou e a fechou novamente. Ela moveu seus dedos decidida e com cuidado tirou a aliança de ouro de seu dedo anelar deixando-a sobre a mesinha de centro juntamente com toda a bagunça de livros, pergaminhos, jornais e folhas de revistas.
- Harry. – ela o chamou. – Me peça em casamento. – pediu erguendo os olhos para ele.
Harry voltou-se quase que imediatamente para ela e seus olhos passaram a carregar um ar sombrio.
- Não! – ele exclamou certo de suas palavras. – Quer nos matar, Hermione?
- Você comprou esse anel com o que em mente?
- Eu comprei porque se eu pudesse lhe pedir em casamento eu lhe pediria com esse anel! Mas eu não posso!
- Por que eu sou casada?
- Sim! Porque você já é casada o que faz com que o meu pedido não seja real!
Ela balançou a cabeça de um lado para o outro.
- Eu não sou casada por essa noite, Harry! Essa noite é nossa. É a nossa única e a nossa última. Por favor! Eu quero viver isso com você, quero levar a lembrança de como seria carregar as palavras de um pedido seu em minha mente. Quero ver como elas soariam, quero sentir a sensação. – ela fechou os olhos e segurou o nó em sua garganta. – É você quem eu amo, Harry! – voltou a encará-lo. – Não diga que também não gostaria do mesmo?!
Ele foi obrigado a ponderar já que no fundo ele sabia que queria fazer aquilo. Abaixou os olhos e apertou os dentes respirando fundo. Era a noite deles e por mais que tentassem se esquecer das condições que os cercavam ela era realista demais para fugir da mente de ambos. Hermione era casada e ele iria embora para sempre. Seria doloroso demais pedi-la em casamento embora ele quisesse provar de como seria a sensação. Ele queria escutar ela dizer “sim” por mais que soubesse que nada seria real.
Harry se levantou e agachou frente a ela. Pegou a caixinha entre aos mãos dela e apreciou a sensação que era ter sua pele encostada na dela por aqueles breves segundos.
- Está certa de que quer isso, Hermione?
Ela assentiu.
- Faça parecer real e talvez não seja tão doloroso.
Ele negou.
- Nada que eu faça ou que façamos vai afastar a realidade de nós. Não somos mais dois adolescentes em um lago.
Ela suspirou e sorriu.
- Então faça apenas parecer real.
Harry sorriu. Ela estava mesmo decidida mesmo ele sabendo que o fim daquilo seria doloroso. Ele nunca havia pensado em como pedir Hermione em casamento. A verdade é que ele nunca se vira realmente se casando com ela. Ele apenas a queria, pra sempre, com casamento ou sem casamento ele só queria passar o resto de sua vida ao lado dela. Não tinha sequer uma palavra para começar a falar e ele ainda tinha que fazer tudo aquilo parecer real. O silêncio apenas prosseguia enquanto ele buscava algo, um discurso perfeito talvez. Ele não tinha nada, alias, ele tinha tudo, mas era muita coisa para se assimilar a um breve discurso. Ele não precisava convencê-la, ele já estava certo do sim dela.
- Pensando agora em como eu poderia começar a te propor em casamento lembrei de muitas coisas do passado e eu tenho certeza de que se eu pudesse voltar no tempo eu mudaria muitas dela. – ele sorriu tristemente. – Talvez se desde o nosso primeiro ano em Hogwarts nós tivéssemos acordado para o nosso amor tudo poderia ter sido diferente. Eu não sei como fomos nos acomodar tanto...
- Harry...
- Não, Hermione! – ele pediu para que ela esperasse fazendo um sinal de pare com a mão. - Eu não tenho como fazer um discurso bonito, algo que encha os seus olhos. Eu não preciso te convencer. Todos esses anos de silêncio dizem por si só nos olhares que trocamos o quanto eu quero ficar com você me casando ou não. – ele abriu a caixa, pegou o anel e colocou sobre a palma da mão dela. – Ele é seu. Sempre foi. – ele fez ela fechar a mão. – Mas antes eu só queria provar como é sentir o gosto dessa única pergunta porque ela pode ser feita vinda de mim somente para você. – ele segurou o rosto da mulher e olhou em seus olhos. – Você se casaria comigo?
Os olhos dela já estavam sufocados de lágrimas. No segundo seguinte ela já havia cercado o pescoço dele com seus braços finos colando seus lábios sobre os dele.
- Você sabe que eu me casaria! – ela exclamou e o abraçou forte escondendo seu rosto no pescoço do homem. Soluçou e sentiu Harry ficar de pé sobre os joelhos para poder abraçá-la melhor. Céus, o corpo deles pareciam ter sido feitos juntos e logo depois separados! Eles se encaixavam perfeitamente. – Por favor, Harry! Me deixe ir com você! – ela implorou afastando-se para olhar fundo em seus olhos. – Por favor! Eu deixo tudo para ir com você! Posso aceitar tudo, menos ficar longe de você...
- Hermione! – ele a parou. – A vida que vou ter não vai poder ser vivida a dois.
Ela abriu a boca pra retrucar em seu desespero, mas soube que nada que dissesse seria mais certo do que o que ele iria retrucar. Murchou seus ombros e voltou a esconder seu rosto no pescoço do homem. Como poderia viver longe dele? Não conseguia sequer imaginar a dor. Apenas teria q vencer dia após dia.
- Todo o sofrimento que eu passei por não estar com você nem vai se comparar ao inferno que eu vou viver quando for embora. Sem te ver, sem poder sentir seu cheiro, sem poder te abraçar ou trocar apenas uma palavra sequer!
- Vai doer tanto em mim quanto em você. – ele fez com que a mulher tornasse a encará-lo. Segurou seu rosto com amor e beijou ternamente os seus lábios. – Mas não há nada que o tempo não cure.
- O tempo nunca vai me fazer deixar de amar você.
- Nunca duvidarei disso. Nem da minha parte nem da sua. Mas esteja certa de que o tempo vai nos ajudar a superar muita coisa longe um do outro. – ele disse e ela assentiu sendo obrigada a concordar. Ele não estava errado, estava absolutamente certo e de fato não poderia lutar contra isso.
Harry a beijou e eles se amaram novamente, porém dessa vez sobre o tapete macio e o calor da lareira. Ainda na biblioteca eles permaneceram por toda a madrugada revirando aquela antiga caixa que fez florescer antigas memórias. Quando a aurora foi pintando o céu eles já não trocavam palavras tão animadamente. Ambos já não podiam mais tentar esquecer o que vinha pela frente e isso começou a consumi-los mais intensamente do que antes fazia.
Passando a viver no silêncio compreendido um pelo outro eles tomaram banho juntos, abraçados e sem que palavra alguma escapasse de suas bocas. Logo ela preparou algo para que comessem como café da manhã e quando a hora bateu no relógio de Harry ela já estava sendo afogada pelas lágrimas que caiam silenciosas pelas suas bochechas rosadas.
Caminharam juntos até a porta e ele a abraçou, a beijou e disse que a amava. Ela disse que também o amava numa voz barganhada e quase não foi capaz de soltá-lo quando ele se afastou. Com o rosto e os olhos banhados em lágrimas ela também quase não foi capaz de vê-lo caminhar para longe da entrada, mas ele pode vê-la muito bem quando voltou-se para trás a fim de ter sua última imagem de Hermione recostada sem forças no vão da porta da casa onde deveriam estar vivendo felizes vestida apenas com uma de suas camisas. Ele estava a deixando. Para sempre. Fechou os olhos e sentiu como se alguém esmagasse seu coração. Sua garganta queimou e ele apenas respirou fundo voltando a encarar a figura de Hermione. Sua Hermione. Sua mulher. Prendeu o ar e aparatou.
Hermione ficou ali durante toda a manhã sentindo-se sem forças. Apenas chorou por ele tê-la deixado, por estar na casa onde deveriam estar vivendo felizes com seus filhos e por saber que nunca mais o veria. Não apareceu no trabalho e adiou três julgamentos no departamento de execução de leis mágicas. Quando voltou para casa não mentiu para Rony quando ele perguntou por onde ela esteve. Apenas disse que esteve com Harry durante toda a noite e que tentou convencê-lo de não ir a essa missão ao qual havia sido resignado porque sabia que algo de muito ruim aconteceria a ele. Rony tentou tranqüilizá-la dizendo que Harry era o melhor auror que o mundo bruxo já tivera, mas ela continuou a insistir que sentia que o amigo não ficaria bem. Trancou-se no quarto e permaneceu ali por três dias até que a notícia de que o herói Harry Potter havia sido morto ao sul da Inglaterra por um grupo de comensais sedentos de vingança. O mundo bruxo entrou em luto.
**
Como ele sentia falta de Londres. Tinha saudade dos pubs, das conversas, do Beco Diagonal... Mas tudo isso não se comparava a falta que lhe apertava todos os dias de comer uma bela sopa de cebola feita por ninguém menos que a Sra. Weasley, sentar sobre a lareira da Toca escutando as vozes daqueles que eram seus amigos rirem alto sobre qualquer bobeira ao qual era notícia, além disso, nada se comparava a falta que lhe doía a batia dentro de si por uma única mulher. A de sua vida. Sentia tanta falta de seu cheiro, de seu abraço quente, de suas palavras dóceis e de seu toque delicado que o fazia ser tão apaixonado, mas ainda sim sentia falta daquele sua postura inteligente e inquestionável que o fazia rir. Rir. Como ele também sentia falta de rir verdadeiramente.
Sabia que o que estava prestes a fazer era errado, mas não era a primeira vez. Sabia que sempre que fazia isso ele se tornava fraco e vulnerável para o tipo de serviço ao qual sua vida era destinada constantemente, mas ele não podia lutar contra sua vontade. Ela era sufocante e por vezes podia dizer que sentia fisicamente essa dor que o sufocava por ter abandonado sua família. Mas agora ele não podia voltar atrás.
Era tarde e ele observava um tanto quanto distante a única casa da rua que ainda detinha as luzes da sala bem acesas. Embora para a época aquele vento frio fosse errado ele estava em Londres e era bem vindo, ainda mais para Harry que sentia tanta falta dos ares do grande centro bruxo mundial.
Seus pés deixaram a calçada e voltaram a avançar pela rua de pedras justapostas e bem polidas. Chegou frente ao portão rasteiro que separava o jardim da calçada e empurrou o pequeno portãozinho de ferro. Para sua surpresa ele não rangeu anunciando sua presença, mas se sentiu satisfeito por ele ter aberto mostrando que ainda era bem vindo. Cuidou de pisar pedra por pedra ao atravessar o jardim incrivelmente bem cuidado até subir os degraus da varanda e chegar a porta da frente. Ergueu o punho a fim de bater na porta, mas se sentiu educado demais. Pegou a maçaneta e a girou. Não conseguiu conter o sorriso que se abriu em sua face. Ele era esperado.
Deparou-se com um hall que era iluminado apenas pela luz que vinha da sala ao lado. Uma escada se estendia logo a alguns passos dele, mas desviou-se dela e seguiu para a sala. Teve que se conter e parar quando a avistou. Sentiu todos os seus membros pegarem fogo e ao mesmo tempo um calafrio perpassou por sua espinha. Logo depois, a paz. Era incrível essa sensação.
Hermione estava adormecida sobre o calor da lareira no canto do sofá. Um livro estava aberto em seu colo e prestes a cair no chão se não fosse pela posição de sua mão, na sua outra uma taça de vinho tinha a base enlaçada entre os seus dedos. Ele se aproximou silenciosamente sentindo todo aquele seu lado profissional insuportável que havia desenvolvido repreendê-lo.
Ela estava mais linda do que nunca. Todos aqueles anos e ela ainda era incrivelmente linda! Sua pele alva, seus cachos castanhos largos e macios, seus lábios chamativos. Ali ela estava perfeita, sem expressão alguma, relaxada. Sua respiração era calma e ele sentia que podia ficar apenas ali a observando se ele também não sentisse falta daqueles olhos e daquela sua voz. Ele agachou frente a ela e a observou. Vendo-a agora ele ponderava em como havia conseguido ir embora nas poucas vezes que a havia visitado. Será que havia se tornado uma pessoa tão dura?
Ele estendeu a mão e pensou em tocar seu rosto, mas ao ver suas mãos tão brutas chegarem perto dela acabou por recuar. A tanto tempo que ele deixara de agir por ele mesmo que agora quando se cedia a isso sentia como se não soubesse o que fazer.
- Hermione? – ele a chamou baixo e sentiu receio de sua própria voz pelo tom grave. Ela não acordou, apenas mexeu a cabeça incomodada.
Harry estendeu a mão e dessa vez tocou a pele de seu rosto desenhando a linha de seu queixo. Ela se assustou abrindo os olhos ajeitando imediatamente sua postura. Ele teve que agir pelo seu reflexo desenvolvido passando a firmar a mão dela com a sua evitando que a taça caísse e quebrasse tendo que logo depois com a outra segurar o livro antes que ele batesse contra o chão. Isso sem sequer tirar seus olhos verdes do âmbar que ele tanto havia sentido falta.
Ela acalmou-se em silêncio apenas por ver seus olhos verdes. Ela o esperava embora não quisesse criar esperanças de que ele realmente viria. A verdade era que ela o esperava todos os dias. Percebeu que ainda segurava sua taça de vinho quando sentiu a mão grande dele relaxar sobre a sua que havia impedido de derrubá-la. Eles não desviavam os olhos um do outro embora ela conseguisse perceber que os dele além de estarem fixos nos dela pareciam alcançar qualquer ponto daquela sala.
- Você demorou dessa vez. – ela conseguiu dizer numa voz rouca.
- Quase não consegui vir e também não vou poder me demorar. – ele disse.
- Fazem quatro anos desde a última vez que apareceu. Você tinha que vir!
- Onde está Rony?
- Está no meio da temporada nacional de Quadribol, mas vai vir amanhã cedo para irmos a estação. – Hermione disse e percebeu que Harry pareceu se aliviar ao saber disso. – Você está bronzeado, por onde esteve?
- Andei em missões pelos trópicos. – ele respondeu e viu um sorriso se abrir nos lábios dela. Ele tirou fotos com seus olhos e guardou a versão atualizada daquele sorriso.
- O que estava fazendo lá?
Harry pela primeira vez abriu um sorriso esguio de lado.
- Salvando o mundo.
Ela riu. Seus olhos brilhavam de alegria por vê-lo finalmente. Ergueu sua mão livre e passou os dedos gelados pela pele quente do rosto do homem quase não acreditando que estava vendo Harry Potter. Ele havia adquirido um ar tão sombrio.
- Eu senti tanto a sua falta. – ela sussurrou. – Que bom que veio porque eu precisava te ver logo! Eu já estava acordando no meio da noite de tanto que o meu peito queimava de saudades de você, se demorasse mais talvez eu não fosse suportar.
- Eu sei que dói tanto que as vezes parece físico. – ele disse, respirou fundo e se levantou. - Você tem Rony pra te acalmar durante a noite quando a dor for muito grande. Você também tem James.
Ela se levantou atrás dele.
- Não terei mais tanto quanto antes.
Harry caminhou em direção a lareira e passou a observar os porta-retratos sobre ela. Rony e James. Hermione e James. Hermione, Rony e James. Todos da Toca. James. Harry, Rony e Hermione. Harry e Hermione.
Ele pegou a foto onde havia apenas James. Sentiu um punho esmagar seu coração. Como ele estava grande!
- É inegável que ele seja seu filho. – Hermione disse postando-se ao lado da lareira. – Ele é a sua cópia.
Harry foi obrigado a ceder mais uma vez ao sorriso.
- Ele deve ter todo o seu gênio.
- Adora livros e é todo mandão, mas é tão curioso quanto você. – Hermione sorriu. – E tem um dom especial pra se meter em confusão, igualzinho a você!
Harry riu e surpreendeu-se com o próprio som gutural que saia dele ao fazer isso de forma tão natural.
- Rony tem cuidado bem dele? – perguntou Harry devolvendo a foto ao lugar de onde ele pegara.
Hermione assentiu.
- Ele vê em James você, Harry. Deus sabe o quanto ele sente sua falta e ele parece suprir isso em James. Você sabe que ele não me culpou quando soube que eu estava grávida de um filho seu. A notícia de sua morte já havia se espalhado e ele estava devastado assim como eu e todos os outros. Todos sempre souberam que de alguma forma nos pertencíamos. E agora o mundo tem o filho de Harry Potter já que não o tem mais. – ela sorriu. Ele segurou o rosto da mulher olhando fundo em seus olhos.
- E quanto a você e Rony?
- Estamos bem. Não nos amamos, eu sei disso e Rony também sabe, mas ele nunca superou sua suposta morte. Nem eu mesmo superei isso de você ir embora. Eu preciso de Rony e ele precisa de mim. Nos mantemos fies em nosso casamento por um laço que nos leva a você e isso é o suficiente pra mim. Mesmo Rony sabendo o tanto que eu te amo. Mesmo até James sabendo que Rony não é o pai dele e que eu não amo o homem com quem sou casada! Você sabe que Rony ficou comovido quando eu contei a ele sobre tudo que havíamos passado. De alguma forma cada um de nós se esforça para sermos uma família. Precisamos um do outro. – ela disse satisfeita.
Ele deu um passo aproximando-se mais da mulher e ela envolveu com a sua mão a dele que se mantinha em seu rosto. Fechou os olhos e apreciou o toque daquela mão rude. Ele deu mais um passo e a abraçou.
- Ah, Hermione... – ele a apertou mais em seus braços. – Não há um dia em que você não me saia da cabeça!
Ela afundou-se nos abraço do homem. Sentia tanta falta daquele calor, daquele cheiro, daquele carinho. Só o carinho dele a fazia tremer, fazia seu coração pular. E mesmo depois de tantos anos ela ainda sentia que estava tão apaixonada por ele quanto antes esteve.
- Por favor, não vá embora dessa vez! Diga a Rony que está vivo. Diga a verdade ao mundo e então nós finalmente vamos ficar juntos, Harry! Eu, você e James, como sempre deveria ter sido! - ela implorou grudando-se nele.
Como ele queria. Sonhava e agora sabia que ela também sonhava o mesmo. Mas era apenas um sonho. Ele já havia vivido muito perigo e se exposto demais em seu trabalho para tornar a ser um comum civil. Colocaria em risco tudo que o cercava e um risco muito maior do que eles antes corriam com Voldemort, porque agora Harry Potter tinha incontáveis inimigos.
- Não posso voltar atrás, Hermione. Apenas entenda como sempre antes fez. Não questione porque não iria conseguir dimensionar o perigo que correria se eu tornasse a ser um civil, não se compararia ao que corria quando Voldemort ainda era vivo. – ele tornou a encarar o belo rosto de Hermione quando ela se afastou para poder ver o dele. – Temo que se soubesse das coisas horríveis que já fiz para salvar o mundo durante todos esses anos não conseguiria me amar mais. – ele suspirou ainda encantado com o quanto ela continuava linda. – O mundo é um lugar muito perigoso, Hermione. Você não imagina o quanto. Eu estou me saindo bem em acabar com muitos deles.
Ela segurou o rosto do homem entre suas mãos olhando com amor. Ele viu ali no fundo o sentido maternal que ela havia ganhado. Era a única diferença que havia notado em seu comportamento das vezes que havia a visitado. Agora mais do que antes ele parecia tão desenvolvido quanto das outras vezes.
- Você está se tornando um homem diferente, Harry. – ela começou baixo. – Tenho notado isso nas vezes em que apareceu. Está cada vez mais frio e sabe reprimir bem suas emoções como se elas não valessem de nada e só fossem te fazer mal.
Ele desviou o olhar do dela cuidando para que sua respiração não denunciasse que as palavras que ela havia acabado de soltar era uma realidade incomoda para ele.
- Minha vida tem sido um tanto quanto infeliz e calculada demais. – foi apenas o que ele comentou sobre o assunto. Tornou focar-se nos olhos da mulher. – Quero ver James.
Ela sorriu.
- Ele vai ficar tão feliz em te ver. – ela se animou. Soltou-se dele e o puxou pela mão de volta ao hall. – Ah, Harry! Se vivesse conosco e visse o quanto James é fascinado por você ficaria abismado! – ela riu e ele limitou-se a sorrir embora sentisse que fosse explodir por dentro.
Hermione o conduziu por um corredor escuro pelo horário do andar de cima. Ele não pode observar os detalhes, aliás, não queria reparar na casa nova de Hermione, que era nova apenas para ele, apenas queria ver seu filho.
Chegaram a uma porta meia fechada antes do fim do corredor. Hermione a empurrou e entrou com cuidado. Harry espiou por detrás das mulher e ainda sem atravessar o vão da porta viu o garoto que estava deitado em sua cama se sentar com urgência.
- Ele veio? – perguntou o garoto acendendo o abajur e pulando para fora do colchão. Travou assim que viu a sombra do homem de capa preta atrás de sua mãe que detinha um sorriso radiante.
- Sim. – ela apenas respondeu dando espaço para que Harry pudesse passar por ela.
Ele assim o fez. James estava vestido com seu pijama do time ao qual Rony jogava e olhava fixo e fascinado para o pai que se aproximou e se agachou frente a ele. Por mais que o garoto fosse grande para sua idade, a altura de Harry permitiu que ele deixasse seus olhos na linha dos de James. Verdes com verdes. O de ambos brilhavam de excitação.
- Esses olhos verdes são de minha mãe. Receba-os como um presente. – Harry disse ao filho que abriu um sorriso nervoso. Sem dúvida, era inegável que James era a cópia de Harry. – Não vai me dar um abraço?
Ele pareceu querer recuar, mas não bastou dois tempos e ele já havia se jogado para cima do homem apertando-o com força. James havia esperado pelo segundo abraço que poderia dar no pai por quatro anos, havia contado dia pós dia desde que o pai fora embora de sua última visita e da primeira que ele havia recebido. Harry passou os braços em torno do filho e fechou os olhos. Seu filho.
- Você vai embora como fez da última vez? – perguntou o garoto quando voltaram a se encarar.
- Eu sempre tenho que ir embora. – respondeu Harry e James assentiu compreensivo.
- Quero ser um herói como você. – disse o garoto ao pai. – Salvar o mundo do mal assim como você faz todos os dias.
Harry não deixou de rir.
- Você será. – incentivou o pai. – Será tão corajoso, tão falado e tão famoso quanto eu!
Viu os olhos do filho brilhares e gravou aquela imagem em sua cabeça.
- Você é meu herói, pai. – James simplesmente disse e Harry sentiu seu coração que havia virado um pedra se esfarelar e virar pó. – Nunca serei como você, mas vou sempre tentar!
Harry não sabia o que expressar, apenas sabia que parecia um bobo. Segurou o rosto do filho e beijou sua testa.
- Eu te amo, meu filho. – disse Harry e escutou Hermione fungar as suas costas. – Sempre te amei, desde os poucos segundo que te olhei pela primeira vez naquele berço no dia em que nasceu! Não pense que quando vou embora abandono vocês. Estou sempre vigiando o seus passos e o de sua mãe para deixá-los sempre seguros. Nunca se esqueça disso e também nunca deixe ninguém saber disso.
James assentiu e abraçou mais uma vez o pai.
- Tenho guardado bem seu segredo. – apressou-se James a contar. – Mamãe sempre me diz o quanto é importante guardar do mundo que você está vivo, ela disse que você sempre diz isso a ela quando vem nos ver e que não é para te desapontarmos. Mas não demore tanto para vir nos ver assim como faz!
Harry sorriu.
- Salvar o mundo é um trabalho que me custa muito, estou sempre tentando voltar a vocês, mas não é algo que eu consigo todo fim de semana. – disse ele. – Eu não deveria estar aqui, mas vim porque o destino conspirou que eu poderia te ver antes de ir para Hogwarts.
- Vai me levar a estação? – perguntou o garoto esperançoso.
- Gostaria, mas espero que entenda que o mundo não pode esperar eu te levar a King’s Cross. Acredite, ele já esta esperando demais só por esse momento que estou falando aqui com você. Se eu me demorar pode ser tarde demais para muita coisa. – Harry disse e o filho assentiu. – Eu trouxe um presente para você. – Harry disse puxando de dentro de sua capa de couro outra de seda lustrosa. – Agora que vai para Hogwarts ela será muito útil. – disse ele piscando para filho que a pegou com curiosidade. – Era do meu pai e agora é sua.
O garoto sorriu animado assim que percebeu do que se tratava.
- É uma capa da invisibilidade! – exclamou ele surpreso e fascinado. – Mas... Você não vai precisar mais dela?
Harry sorriu.
- Na divisão onde eu trabalho tem muita dessas, mas essa que você segura agora é especial e quero que ela seja sua.
O garoto correu para frente do espelho e a vestiu animado. Sumiu e tornou a aparecer frente a ele e repetiu o processo por mais quatro vezes. Harry se levantou e sentiu as mãos frias de Hermione cobrirem a sua enquanto ela recostava a cabeça em seu braço encarando o filho se divertir com o novo presente.
- Ele cresceu. – Harry cochichou para ela quase que em transe.
Ela sorriu.
- Você não tem idéia do quanto. – ela completou.
Pela primeira vez Harry pode notar no quarto de James. Não era muito grande, mas muito bem arrumado graças a Hermione. O malão de Hogwarts estava ao pé de sua cama que era encostado na parede onde havia uma grande janela. Sobre o malão estava uma gaiola onde presa havia uma coruja branca que se parecia muito com a que Harry havia tido. Pelas paredes haviam escudos da grifinória e do time ao qual Rony jogava. Na cabeceira da cama do garoto Harry viu uma foto que ele muito conhecia. Era ele e Hermione adolescentes em Hogwarts abraçados sobre a copa de uma das árvores da beira do lago. Ele com a vassoura em uma mão e cercando a cintura de Hermione com o outro braço vestido em seu uniforme do torneio tribruxo e ela afundada em seu abraço com aquele vestido de fim de semana. Do lado da foto havia outra onde Rony, Hermione e James sorriam e acenavam alegremente. Acima da cabeceira havia um quadro enorme onde estavam outras milhares de fotos.
- Debaixo da cama dele há um mundo de coisas sobre você. – Hermione contou. – E sobre nós dois. – ela acrescentou rindo de si mesma. – Ele já leu todos os livros, todas as reportagens, sabe de toda a sua história e de toda a nossa história. – ela suspirou. – Ele te adora.
Ele sorriu, soltou a mão dela e cercou os ombros da mulher com seu braço, ela por sua vez passou os dela pelo tronco do homem e o abraço recostando-se sobre o peito dele. Ambos não deixavam de admirar o filho descobrir novas maneiras de se esconder sobre a capa.
James pareceu nesse momento acordar de volta a realidade deixando o fascínio de sua capa de lado e passando a encarar os pais abraçados as suas costas pelo espelho. Harry pode ver nos olhos do filho o mesmo que ele fazia quando havia encontrado em Hogwarts aquele espelho que mostrava o que mais se desejava. A capa deslizou pela sua mão e foi parar no chão.
- Queria que fossemos uma família. – comentou James virando-se para os pais.
Hermione suspirou e Harry foi obrigado a desviar o olhar do filho.
- Eu queria ter tido uma família como a que você tem. – Harry disse e tornou a encarar o menino.
- No fundo nós somos uma família sim, James. – Hermione partiu a falar. – Mesmo não estando juntos nós pertencemos um ao outro.
James correu até eles e os abraçou.
- Pai, vai me visitar em Hogwarts? – perguntou o filho.
- Saiba que tentarei todos os dias. – respondeu Harry.
- Vai se desapontar comigo se eu não for para a Grifinória? – perguntou novamente o garoto.
- Você vai para casa que assim desejar, acredite em mim. – tornou a responder o homem.
- Pai. – chamou o garoto dessa vez se afastando. Harry olhou bem em seus olhos enquanto via James sorrir admirado para ele. – Eu sempre soube que não estava morto!
Harry sorriu. Soltou-se de Hermione e abaixou novamente abraçando forte o filho e guardando seu cheiro. Sentiu seu coração ser apertado. Estava na hora.
- Divirta-se em Hogwarts. Vai carregar lembranças daquele lugar para o resto de sua vida, acredite! – disse Harry soltando-se do filho.
O garoto assentiu e Harry levantou-se encarando Hermione. Ah, como ele a amava! Segurou o rosto da mulher entre suas mãos e olhou fundo naqueles olhos cor de âmbar.
- Eu ainda amo você.
Ela sorriu tristemente.
- E eu ainda mais.
Ela ficou sobre a ponta dos pés e ele a beijou. Simples. Apenas sentiram os lábios um do outro por alguns segundos e ali mataram a saudade que para eles eram uma fênix que renasceria assim que ele fosse embora novamente.
- Não vá! – ela quase chorou quando ele afastou-se da boca da mulher.
- Eu não quero ir. – foi apenas o ele disse.
Soltaram-se e ele afastou-se de ambos. Harry olhou uma última vez para o filho e outra vez para Hermione. O garoto passou um dos braços pelo quadril da mãe e descansou a cabeça em sua cintura. Hermione pousou sua mão sobre o ombro do filho e os três se despediram em silêncio.
Sua família. Harry deu as costas e aparatou.
O silêncio se estendeu pelo quarto de James enquanto mãe e filho encaravam fixos o lugar onde antes esteve Harry. Uma única lágrima escapou de Hermione e escorreu pela sua bochecha. Ela já não chorava mais tanto. Sorriu. Ele voltaria.
A fênix da saudade renasceu no coração dos três novamente.
- Acha que ele vai demorar para nos visitar novamente, mãe?
Hermione suspirou.
- Não sei, filho. Eu estarei esperando.
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N.A : Parabéns a você que leu até o fim essa coisa enorme que eu chamei de capítulo único! Deixe seu comentário crítico e faça uma autora feliz! Obrigada por aguentar esse drama todo! HAHA =) Só pra frizar mais uma vez: COMENTEM! COMENTEM! COMENTEM! COMENTEM! Por favor, não leiam simplesmente e pronto! Leiam e comentem no final! POR FAVOR! Agradecida!