_Você foi mais difícil do que eu imaginava – o loiro disse casualmente, a observava curioso – se soubesse que precisava ameaçar alguém já o teria feito.
Disse ele com a mesma casualidade. Hermione o encarava tentando esconder o temor que sentia, mas tudo parecia conspirar contra ela, a meia luz da sala em estilo vitoriano, o calor intenso produzido pela lareira que parecia anuviar seus sentidos, a calça e camisa negras que ele envergava, tudo parecia feito para lhe ameaçar.
_Malfoy – ele pareceu meio satisfeito ao ouvi-la pronunciar seu nome – por que me trouxe aqui?
Os olhos dele a miraram com descrente diversão.
_Oh, tenho certeza que sabe, me decepcionaria se não soubesse, sempre a considerei uma das pessoas mais inteligentes que já conheci.
As palavras lhe escapavam os lábios de forma arrastada, a picardia brilhava nos olhos enquanto ele se aproximava.
_Nem mais um passo – a morena o advertiu com frieza – não tem ideia do que seria capaz de fazer com você nesse momento.
_Nada de tão grave – ele riu quase divertido – nada tão grave quanto o que vai ter que fazer.
_Alguém já o disse o quanto é doente?
Ela segurou com força na beirada de uma cadeira ao seu lado esquerdo. O loiro perdeu o sorriso dos lábios, mas não pareceu desconcertado, ou nervoso, apenas frustrado.
_Por que insiste nisso? – ele perguntou se aproximando, o cenho franzido – Pelo bem de seu querido Harry, é melhor não levantar esse braço – ele a alertou com rancor quando ela mencionou ataca-lo, a morena refreou o instinto de seus braços – não torne as coisas difíceis, você já tem tanto a aprender, tentar se revoltar contra mim só vai tornar sua vida um inferno. Tenha certeza de que sou o único em que vai poder contar a partir de agora.
Hermione balançou a cabeça fortemente - ele era louco, completamente alucinado, que diabos queria dizer com aquilo?
_Seja direto Malfoy – ela o fitou intensa e diretamente nos olhos – não gosto de rodeios, está me ameaçando, é isso?
_Por agora, sim, mas tenho certeza que um dia não será necessário ameaça-la, como já disse, você é inteligente, vai perceber que eu sou a melhor coisa que poderia lhe acontecer.
_O que quer de mim?
Ela perguntou o encarando com firmeza, uma gota de suor começando a se formar em sua têmpora.
_Por enquanto ensiná-la, você tem um potencial que desconhece, ou talvez conheça, mas não aproveita, morena...
_Não me chame de morena!
Ela esbravejou com fúria.
_Eu a chamo como quiser – respondeu ele pungente, segurou-a pelo queixo a forçando a encará-lo – é melhor se acostumar...
_Acostume-se você à frustração!
Rebateu ela com ironia e antes que ele pudesse ver, ela o atingiu com uma cabeçada, Draco levou as mãos ao nariz rapidamente, mas Hermione não o deu tempo para se recuperar, acertou um soco no estômago dele que o fez se curvar e em seguida segurou a cabeça do loiro com as duas mãos puxando-a com força na direção de seu joelho flexionado. Draco caiu inconsciente no tapete estampado da sala, Hermione olhou para a porta imediatamente, esperando que seguranças a arrombassem num ímpeto furioso e a atacassem todos ao mesmo tempo, mas aquilo não aconteceu, a sala e o corredor do lado de fora permaneceram em silêncio. Cautelosa andou até a porta de madeira e colocou o ouvido sobre ela, tentando captar o menor ruído de movimento, mas nada ouviu. Respirou fundo e pôs a mão na maçaneta abrindo uma pequena greta, o bastante para olhar se havia alguém. Não viu ninguém. Sem pensar duas vezes saiu do cômodo silenciosamente e começou a andar pelos corredores. Não fazia ideia de quais eram as intenções daquelas pessoas, ou as de Draco, mas já ficara tempo o suficiente para ter certeza de que, quaisquer fossem, ela não terminaria nada bem.
Pois bem, sairia dali, na marra se preciso o fosse, e iria direito à casa de Dewei pedir-lhe ajuda. Talvez Harry já estivesse num hospital e Hermione não o deixaria só, Dewei ficaria com seus pais, o restante, seria trabalho da polícia.
Mas num afã de se ver livre do lugar, Hermione não se lembrou de olhar a curva do corredor seguinte e se viu de frente a dois homens consideravelmente mais altos que ela. Observando com atenção percebeu quem um deles não lhe parecia estranho. – Oh, de certo que não – O Neandertal que lhe tentara raptar a quase uma semana fincava os olhos de desforra sobre a morena. – Merda.
_Onde você pensa que vai belezura?
_Pra qualquer lugar a não menos do que um quilômetro de você.
Ele não se deu ao trabalho de responder, apenas avançou sobre ela com o punho fechado, Hermione desviou, o golpe seguinte ia na barriga, mas o tamanho considerável do homem o deixada em demasiado lento e Hermione também desviou e o soco foi dado na parede levando o homem a se encolher segurando o punho com a outra mão. Não menos do que rapidamente o outro homem avançou sobre a jovem também com o punho fechado, mas por mais que não fosse tão lento quanto o outro, não era mais rápido do que a morena, Hermione desviou de dois golpes seguidos e o atingiu com um soco na boca, desnorteado ele não viu quando ela segurou a cabeça dele com firmeza e a bateu num baque assustador contra a parede, o Neandertal a olhava quase temeroso, quando Hermione ameaçou se aproximar ele deu um passo para trás tropeçando no corpo do outro homem e bateu a cabeça no chão, Hermione não teve dificuldade em segurar sua cabeça e girá-la com força, provocando uma torção no pescoço que o fez desmaiar.
Rapidamente a morena esquadrinhou os bolsos dos dois e encontrou uma chave de carro, sem perder tempo continuou caminhando pelos corredores, dessa vez mais cuidadosa, refazendo o caminho que memorizara até a garagem, ao chegar lá encontrou vários carros, dentre eles o Mercedes em que chegara ali. Apertou o botão do alarme que tinha no chaveiro e viu um Opel 2010 piscar os faróis e apitar. Caminhou rapidamente até o carro, sentou-se ao banco do motorista e o ligou acelerando sem medo. Não diminuiu um único quilômetro da velocidade quando se aproximou do portão de aparência antiga, o estrondo avisaria a todos que algo de errado havia ocorrido, mas ela não se importava, só precisava sair dali o mais rápido possível.
O sangue fluía fervendo nas veias da jovem, podia antever suas faces afogueadas pela adrenalina que se fazia presente em cada célula de seu corpo. Hermione só desacelerou o carro quando notou a entrada de Londres. Orientando-se percebeu que o esconderijo ficava há pouco mais de uma milha da entrada Norte da cidade que ficava a não mais do que três da casa de seu tio.
Dirigiu cuidadosa, observando o retrovisor a cada trinta segundos para ter certeza de que não era seguida. A casa do tio ficava num bairro pouco habitado, onde as casas eram grandes e tinham um grande espaço umas das outras, mas como num agouro sinistro o coração da morena pareceu gelar quando ela se aproximou dos arredores do bairro e viu uma fumaça sair de um lugar que parecia ainda estar em chamas, Hermione sabia, mas não queria acreditar – aquela não podia ser a casa de seu tio.
Quando parou o carro na frente do pequeno portão de madeira Hermione não conseguia piscar, os olhos estavam vidrados no telhado oriental completamente consumido pelas chamas, o jardim frontal, recoberto de cinzas e destroços de uma presumível explosão, perdera completamente o encanto e a fazia lembrar de um cenário de guerra profanando um solo sagrado. De uma das janelas ainda saía uma labareda alta que parecia zombar do sentimento de dor que se apossara da morena.
Ela saltou do carro e foi até a pequena portinhola a abrindo de forma automática, o cenário era trágico e Hermione não pôde evitar que os flashes de todos os momentos que passara ali lhe viessem à cabeça – foi ali que sentiu vontade de chorar.
Oh céus – era como se seu coração estivesse grande de mais para seu peito, a dor era tão grande que a desesperava, não sabia que era possível sobreviver a uma dor assim. O primeiro soluço escapou de sua garganta quando sua mente não se fez mais capaz de formular um pensamento lógico e seus joelhos não suportaram mais seu peso, ela simplesmente se entregou às lágrimas.
Demorou pouco mais de cinco minutos para ela se levantar e limpar os olhos, ela precisava encontrar Dewei, ele tinha que estar vivo, não aceitaria assim, tão facilmente sua perda. Caminhou sobre os escombros com cuidado, olhando para todos os lados a procura do tio, mas foi quando ela chegou a parte de trás da casa, no jardim onde treinavam, que ela viu um corpo estirado no chão, com um alívio que encheu seus pulmões ela viu um movimento leve de respiração no corpo.
_Tio! – ela gritou quase descontrolada – tio, fala comigo, o que aconteceu?
Dewei abriu os olhos pequenos e encarou o rosto da sobrinha sem realmente vê-la, piscou algumas vezes e tossiu antes de responder.
_Gás... Explodiu...
E para o desespero de Hermione ela viu o tio voltar a tossir, só que dessa vez, sangue.
_Mestre, não, olha pra mim – ela chamou a atenção dele que parecia sonolento – vai ficar tudo bem, eu vou chamar a ambulância e você vai ficar bem, ok?
_Mione eu... – ele pareceu perder o foco por alguns segundos antes de dizer em meio a um esgar de dor – Sinto muito...
_Não, não tio, não!
Nunca se sentira tão impotente. Foi como um pesadelo cruel, ele simplesmente perdeu o foco, tossiu mais uma vez enquanto uma careta de pura dor lhe tomava as feições e ela nada pôde fazer para impedir, ela o viu expirar sem poder fazer mais nada do que manear a cabeça negativamente e repetidamente negar, negar tentando fazer aquelas palavras ganharem poder e curá-lo. Mas as súplicas foram em vão, os gritos também, assim como as lágrimas, os soluços e beijar a face dele enquanto o segurava no colo, nada disso fez os olhos negros brilhantes voltarem a se abrir para ela.
Ela não soube quanto tempo ficou ali, mas não fora muito, ainda estava completamente descontrolada quando ouviu passos sobre os escombros atrás de si, ela olhou para trás segurando o corpo do tio protetoramente contra o peito quando o viu, o nariz estava levemente vermelho e um galo era visto sob as mechas loiras que caiam sobre a testa, ele a fitava curioso, nos olhos via-se uma expressão de pura clemência. Os pulmões de Hermione pareceram travar, ela não conseguiu respirar. Olhou diretamente para ele como se temesse que ele fugisse – oh não, ele não iria fugir – e não se moveu, era como se o choro tivesse ficado travado junto com seus pulmões. No instante em que ela se deu conta de que aquilo, de que tudo aquilo, tinha sido feito por ele, ela sentiu uma descarga de adrenalina absurda nas veias e voltou a respirar, se levantou com fúria, a única coisa que queria fazer era mata-lo, arrancar a cabeça do loiro e coloca-la num pedestal.
_Eu vou matar você.
A voz dela foi como um brado gutural, Draco não pareceu nem minimamente intimidado, levou a mão ao bolso da jaqueta e tirou de lá um celular.
_Eu tenho certeza que não, você não quer que o gás da casa de seus pais exploda também, quer?
E foi aí que ela travou, eles se encararam por alguns segundos antes do loiro dar alguns passos na direção dela.
_Você deveria saber Hermione, que depois de tê-la, eu nunca mais a deixaria ir embora – para o ódio da morena ele exibiu feições complacentes – não era pra isso ter acontecido, nada disso, mas você fugiu... – ele franziu o cenho como se a simples lembrança lhe doesse – farei o que for preciso para tê-la comigo Hermione, o que for preciso, machucarei quem for preciso, matarei quem for preciso, eu não me importo, você deveria saber. Se você se importa, eu te aconselho, nunca mais tente fugir, pelo seu próprio bem, e pelo bem daqueles que ama.
Ele disse as últimas palavras como se lhe custasse muito e continuou a fitá-la por algum tempo. Hermione se concentrava, reunia toda sua força de vontade para se controlar e não atingi-lo, não, de fato, arrancar-lhe a cabeça. Mas as lembranças de Harry jogado na rua segurando a perna e a consciência de que seu tio estava morto, alguns passos atrás de si, a embriagavam e tanto ódio deflagrou num arroubo de socos emotivos, completamente desconexos e distribuídos pelo torso do loiro sem tanta força quanto ela desejava, o desespero voltando a tomá-la deixando-a fraca e descontrolada.
_Acalme-se – disse ele tentando contê-la em vão – eu disse, acalme-se!
Voltou a falar dessa vez resoluto, segurava ambos os braços da morena com força e a compelia a olhar para si, Hermione sentiu um peso incrível naquelas palavras, como uma droga a forçando a obedecer, ele tinha uma eloquência inexplicável e a morena passou a fita-lo com a respiração acelerada, mas sem tentar ataca-lo.
_Você é uma joia rara Hermione – ele disse a fitando diretamente nos olhos – tudo o que precisa é ser lapidada, precisa aprender a redirecionar tanta energia e sabedoria para algo útil e que vá lhe dar lucro – nesse momento ele respirou fundo e a observou com atenção, soltou um dos braços da morena levando a mão até o rosto dela, Hermione estremeceu com o toque, mas não se afastou – seria um desperdício permitir que fosse para uma universidade, ser uma advogada comum, diabos, você não vê? – ele puxou o rosto dela para próximo de si a observando intensamente e se demorando nos lábios cheios – O que eu te ofereço é muito mais do que isso, morena, o que eu te ofereço é poder.
Hermione estava temerosa demais para querer saber que tipo de poder ele oferecia a ela. Estava muda, chocada e arrasada. A consciência de que sua vida estaria entrelaçada à de um psicopata, até que ele deixasse de ser uma ameaça, a infestando. Não podia ser verdade – ela não suportaria – Draco ameaçara Harry e matara seu tio, tudo isso, para tê-la. Não era um desejo normal, comum – não – Draco a queria por razões que ela desconhecia, mas que eram fortes o bastante para fazê-lo passar por cima de mais do que uma vida para tê-la, e além de tudo ele tinha todos os poderes necessários para força-la a fazer o que quisesse.
Quando ele passou, inconscientemente, os dedos sob os olhos da jovem limpando uma lágrima remanescente ela viu, nos olhos cinza, o desejo, a obsessão. Um calafrio percorreu sua espinha sem que pudesse impedir.
_Sr. Malfoy, a polícia chegará aqui em cinco minutos.
Draco desviou os olhos do rosto da morena e olhou para seu empregado, vestido num terno preto, confirmando com a cabeça e se voltando para Hermione, a morena nem piscara.
_Temos que ir. – Hermione não fez menção de se mover, Draco a olhou com a sobrancelha arqueada e retirou o celular do bolso – Temos que ir Hermione.
Disse dessa vez firmemente e segurando o celular de forma sugestiva. Hermione passou os olhos do celular para o rosto do loiro compreendendo a ameaça, deu um passo para frente, estava desequilibrada, deu outro passo tentando respirar fundo recobrar o equilíbrio, Draco colocou o braço direito no ombro da morena tentando ajuda-la a andar, estava fraca demais para demonstrar a repulsa que sentiu com o ato.
Caminharam até o Mercedes em que ela havia entrado ainda aquela noite, o Opel, que ela havia deixado na frente da casa, já tinha o funcionário de Draco no volante, ele abriu a porta do passageiro para Hermione entrar e ela o fez, obediente, robótica, dando a volta o loiro assumiu o volante do Mercedes arrancando o carro dos olhos dos vizinhos que começavam a se aproximar, não se preocupou, trocaria a placa do carro antes que aquilo pudesse lhe trazer um problema.
Hermione encostou a cabeça no banco de couro e observou o caminho de volta sem nada realmente ver. As casas lhe pareciam um borrão cinza, a vegetação, ao saírem de Londres e entrarem na rodovia, lhe parecia negra, morta, sem a vida que ganhava com a luz do dia. Não sentia vontade de chorar, no entanto, acreditava que era por que lhe faltava forças, ou talvez, lágrimas.
Quando chegaram à construção antiga e o portão automático abriu, Hermione viu a eficiência do local ao notar que o portão já estava concertado. Mas não se impressionou, nada a impressionaria, não quando se sentia morta.
Chegaram à garagem subterrânea e Draco deixou o carro rapidamente, abriu a porta do passageiro e esperou pacientemente que Hermione se levantasse. Quando ela o fez ele a guiou pelos corredores, dessa vez por um caminho novo, mas Hermione não se importou, apenas se deixou guiar, complacente. Quando chegaram por fim num novo corredor, Draco desacelerou e parou em frente a uma porta de madeira maciça, retirando uma chave do bolso e destrancando a porta, guiou Hermione até o meio do quarto de tamanho médio e disse com a voz límpida:
_Este será seu quarto pelos próximos dias, não definitivamente, mas por enquanto – ele pausou para observá-la imóvel – tem um banheiro e roupas limpas no armário, todas do seu tamanho – os olhos cinza passearam inadvertidamente sobre o corpo da morena – se precisar de alguma coisa é só discar o número um no telefone – e apontou para um telefone localizado sobre uma mesinha ao lado da cama de forro branco – pode se banhar e se trocar...
Mas ele não terminou a frase, Hermione se moveu lentamente em direção à cama e se deitou, ainda com o vestido de baile e a sandália, de costas para a porta e para o loiro, puxou a coberta para cima e se encolheu sem dar atenção ao que acontecia ao seu redor, apenas fechou os olhos tentando apagar tudo aquilo de sua mente, tornar tudo nada mais do que um pesadelo.
Draco observou seus movimentos automáticos sem mais nada dizer, apenas a olhou se deitar sem dar a menor importância ao que dizia, não se enraiveceu, no entanto, apenas ficou curioso. Quando ela se encolheu sem tencionar falar qualquer coisa ou se mover novamente, ele se retirou do quarto e apagou as luzes. A última coisa que Hermione ouviu antes de se entregar ao cansaço foi o barulho da porta sendo trancada.
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Ela sentiu a consciência tomar sua mente lentamente, acordava de uma noite sem sonhos, se moveu desconfortável e sentiu algo estranho, algo amarrado a seu pé, algo que não deveria estar ali, numa velocidade impressionante as memórias da noite anterior foram tomando suas lembranças, a festa, ela dançando com Harry, o colar, a decisão, carro, perseguição, batida e discussão, Harry no chão sangrando e um Mercedes, um maldito Mercedes preto, Draco Malfoy e luta, duas lutas, uma fuga e a casa de Dewei pegando fogo, seu tio morrendo em seus braços e dor, muita, muita dor, depois ódio e depois nada, absolutamente nada.
Ela abriu os olhos rapidamente e confirmou seu desespero, o quarto, fracamente iluminado por um abajur não muito longe da cama, não era o seu, tampouco o de Harry. Aquilo que estava amarrado a seus pés eram suas sandálias de festa, seu vestido a apertava na região da cintura e alguns grampos machucavam sua cabeça. Hermione não pôde conter, um soluço desesperado escapou de sua garganta e ela começou a chorar, chorava alto, com desespero, percebendo que tudo aquilo fora real.
Demorou mais de meia hora para conseguir se controlar, o travesseiro estava encharcado e ela se sentia cansada, como se não houvesse dormido. Sentou-se na cama lentamente, olhou para o chão e para os pés, retirou as sandálias sem se importar em jogá-las num canto, retirou o vestido e abriu o pequeno guarda roupa encontrando certa diversidade de roupas, pegou uma calça e uma camiseta sem ao menos olhá-las duas vezes. Foi ao banheiro e ligou o chuveiro quente, muito quente. Com as mãos apoiadas na parede ela deixou a água cair em suas costas, a cabeça baixa, o rosto livre de expressões. Precisava saber o que Malfoy pretendia, relembrando suas palavras, Hermione percebeu uma série de coisas que possuíam um significado muito mais profundo do que ela fora capaz de entender no momento, ele dissera que ela ainda tinha muito a aprender, que tinha um potencial inexplorado, dissera que ela era uma joia rara que precisava ser lapidada, que seria um desperdício ir para a universidade. Os planos dele para ela iam muito mais além do desejo doentio que ela já percebera.
Demorou no banho tempo suficiente para colocar os pensamentos em ordem e pensar com frieza, ao sair vestiu a roupa que pegara e penteou os cabelos de frente ao espelho depois de o desembaçar com a mão. Conteve a expressão surpresa ao sair do banheiro e dar de cara com Draco sentado na cama.
_Vejo que levantou – ele a olhava curioso, e quase descrente, disse – e parece bem. – sorriu – Eu sabia que se recuperaria, que tal um café da manhã? Me acompanha?
Ele dizia tudo com tanta naturalidade que Hermione teve que conter as ganas de tombar sobre seu pescoço, contrariando seus impulsos, maneou positivamente a cabeça saindo do banheiro e procurando um sapato qualquer no guarda roupa.
Seguiu-o pelos corredores memorizando o caminho, Draco entrou num cômodo amplo, ladeado por estantes ornadas e repletas de jogos de prata, no centro uma mesa não muito grande estava posta, uma variedade enorme de frutas, pães, bolos, e outros acompanhamentos, como ovos, bacon e mel, estavam sobre ela, Hermione sentiu seu estômago se contorcer, mas sua garganta estava simplesmente travada, não tinha certeza nem mesmo se seria capaz de falar, quem dirá de comer.
_Sente-se, e sirva-se à vontade.
A morena se sentou, mas não moveu um músculo para se servir, Draco não pareceu se importar, já que comia o desjejum avidamente e quase animadamente. Antes que um ódio ainda maior tomasse conta de si, e levasse a morena a jogar o café fervendo sobre o loiro Hermione respirou fundo e perguntou:
_O que quer de mim Malfoy? O que eu posso lhe oferecer que valha tanto esforço?
Sua voz saiu rouca e baixa, Draco parou de mastigar o pedaço da panqueca que havia posto na boca e a olhou surpreso, com lentidão terminou de mastigar a panqueca sem desfazer do contato visual com a morena, por fim, bebeu um gole do suco de que se servira e respirou fundo.
_Não consegue nem supor morena?
Hermione teve que conter o forte impulso que teve, de jogar o prato a sua frente sobre o homem, com um piscar de olhos e respirando fundo.
_Não, não consigo.
_Eu achei que desconfiasse sobre os negócios de minha família...
_Mas... – ela se sentiu confusa, negócios? – O que quer dizer com isso?
_Pense morena, pense.
Dessa vez ela não se importou com o modo como ele a chamou, não quando ela começou a entender a relação de joia rara com o que ele havia dito. Os negócios da família Malfoy eram escusos – para dizer o mínimo – e disso, todos sabiam, mas até aquele momento Hermione não havia parado para analisar exatamente quais eram estes negócios. Foi quando ela se lembrou de ter visto o Neandertal nos corredores do esconderijo, ele havia tentado raptá-la, e trabalhava ali, para Draco, para a família Malfoy, os outros homens que a haviam raptado no dia anterior a levaram até ali e eles falaram de um chefe que, portanto, era Draco. Eles eram mercenários, a família Malfoy seria uma espécie de máfia e Draco estava, de fato, interessado nela, mas não somente na pessoa, Hermione, mas também nas habilidades que possuía, ele queria que ela trabalhasse para o clã Malfoy.
_Você está louco se pensa que vou trabalhar para você, nunca me rebaixarei ao nível de um mercenário!
Ela disse, os olhos banhados por fúria, Draco, no entanto, pareceu surpreso.
_Oh, não, jamais desperdiçaria tamanha habilidade juntando-a aos mercenários, não Hermione, você é muito mais do que uma simples ladra ou sequestradora, você merece muito mais... – suas palavras soavam desejosas, como se pudessem saborear todo o potencial da morena – Nossos negócios vão muito além de simples roubos e sequestros, fico surpreso de que não tenha imaginado isso, nós somos... – ele pareceu ponderar um instante – Uma firma de aluguel, você se impressionaria com o quanto algumas pessoas pagam para ter aquilo que querem, sem se importar com o modo como foi conquistado, e muitas vezes o que as pessoas querem não são objetos... – Hermione não conseguia acompanhar o raciocínio do loiro, mas ele se explicou – Você é muito bela, muito habilidosa, quase teatral, para ser desperdiçada num roubo ou num sequestro, há algo lírico em você Hermione, meus clientes valorizam isso, certos trabalhos pedem algo mais... Dramatizado, coisa que só uma personagem poética como você poderia fazer. – Draco fez uma pequena pausa para observar o rosto de Hermione, ela prendeu o ar – Você será meu artigo de elite Hermione, meu diamante dentre todas as outras pedras, minha assassina de aluguel.
N/A:
Pois é, para os confusos, estão aí os esclarecimentos, o que a família do Draco faz, e o interesse, além do óbvio, específico que ele tem pela Hermione. O objetivo final.
E pra quem ainda tinha dúvidas, sim, o Draco é mau. Mau e mau, muito, muito mau. Não sei como vão se sentir em relação a ele agora, mas imagino que no mínimo com raiva. Guardem os xingamentos, no entanto, ainda tem muito mais por vir...
Não sei quando sai o próximo cap, estamos há três semanas do ENEM e estou bem ocupada, acho que depois da prova ele sai, então sejam pacientes, sim? XD
Respostas aos comentários:
Mariana: Que bom que está amando até agora, fico muito feliz que tenha gostado, espero que não se decepcione com este cap e nem com os próximos que estão por vir XD sinta-se à vontade para comentar e me dizer o que espera da fic. Beijos!
Tonks Fênix: Leitora nova dessa fic, mas já tinha visto seu comentário lá em MP ^^ Fico muitíssimo feliz que tenha gostado dela, mesmo que H/Hr não seja seu shipper favorito, e que agora tenha decidido ler Pesadelo Pessoal, seja muito bem-vinda! Quanto ao shipper, vai sim, ter muuuuito D/Hr, só não sei como vai ser o fim, mas isso depende de tanta coisa! Do rumo da história, dos comentários... Enfim vamos ver o que acontece né? Você é muito boa em palpites, hahahaha pois é, a família do Draco é sim tipo máfia italiana, mas com seus próprios negócios... Espero que tenha gostado dessas revelações e sinta-se livre para comentar sempre! Juro que não vou reclamar! ;) beijos!
Caderninho azul: Pois é, mega comentário, mega resposta! ;) Que bom que você está gostando! Isso é tudo o que um autor deseja ler nos comentários, incentivos e elogios! *---* Eu confesso que até eu tinha ficado curiosa sobre a noite dos dois, mas como você bem ressaltou, a Mione ainda vai ter que sofrer muito, enfim, nada de historinhas felizes, não mais... E sim, o sofrimento já começou, e se me permite dizer, só vai piorar. :X
Quanto a suas teorias, eu realmente acho que o Draco é sim um psicopata, ao menos é a única explicação que eu encontro pra ele agir assim, tanta maldade não pode ser tão gratuita! Mas espero que ainda consiga te surpreender com o rumo da história..
Ahh, sim, o Harry foi acertado na perna, o fêmur é o osso da coxa, o maior osso do corpo humano X)
Eu imagino que se você já estava com raiva do Draco, você deve ter dado pulos de ódio ao ler este capítulo. Espero que esteja preparada pra mais, muito mais, pois como disse, ele é mau, muito, muito mau.
Fico feliz com o elogio sobre o vilão ser muito ruim a fic ser muito boa... Enfim, brigada! Também fico muito agoniada com estes vilões, me dão nos nervos, cria-los então...
Brigada pelo apoio sobre o vestibular!!! Realmente escrever se tornou uma válvula de escape para mim ;)
Quanto ao fato de a Hermione ser certinha, foi bem proposital, pra criar um contraste com o que está por vir...
Brigada pelo comentário! Beijos!
Obrigada a todos e sintam-se à vontade para comentar, é tudo o que nós autores poderíamos querer de vocês, leitores!
Beijos, Poly_Malfoy