Poderia passar a vida ali, apenas a olhando. O melhor passatempo de Ronald Weasley era observar Hermione. Principalmente quando ela dormia. O jeito como os músculos do seu rosto se relaxavam, e seus cabelos caíam sobre o travesseiro. Hermione tinha os cabelos mais lindos do mundo. Eram tão cacheados, e castanhos... Era lindo, naquele mar de cabelos ruivos. Claro que também tinha Harry, e seus cabelos pretos, mas não era sobre Harry que ele estava falando. Era sobre Hermione Granger. Sua Hermione. Será que ela se sentiria mal, ouvindo-o falar daquela maneira? Porque, talvez ela não soubesse, mas era sua namorada. Pelo menos, para ele, ela era. As mãos delicadas, os olhos cor de amêndoa, os cabelos castanhos. Era tudo de Rony. E, coitado de quem tentasse provar o contrário. Afinal, quem era a única pessoa que a tirava do sério? Quem era o legume insensível? Quem mais possuía o emocional de uma pedra? Ninguém mais. Somente Ronald Weasley. Somente ele tinha a permissão para olhá-la dormindo, mesmo que aparatasse o mais rápido possível quando alguém se aproximava, ou quando ela ameaçava acordar. Só ele.
— Rony! — Gina abriu a porta, e ele não teve tempo para desaparatar. Ela sorriu. — O que estava fazendo?
— Nada. — Retorquiu, mais que depressa. — Estava só... procurando uma coisa.
— Sei... — Falou Gina, sorrindo sarcásticamente. — Mamãe está te procurando. Precisamos de ajuda na cozinha.
— Já estou indo. — Gina não se moveu, e isso deixava Rony muito, muito irritado. — Já pode ir, Gina!
Ela saiu, rindo, e Rony sentiu as orelhas vermelhas de raiva. Antes que pudesse se mexer, Hermione abriu os olhos, e Rony abriu um sorriso amarelo.
— Vim te chamar. Minha mãe precisa de ajuda na cozinha.
Não sabia o porque, mas sempre parecia um idiota perto de Hermione. Ela apenas sorriu, se levantando da cama e empurrando Rony para fora.
Passaram a tarde lavando louça à maneira dos trouxas. Hermione se divertia com as trapalhadas de Rony, com o jeito dele segurar os talheres e os pratos. Também, as mãos de Rony não eram tão delicadas quanto as de Hermione. Não tinha o mesmo cuidado quando o assunto era "arrumar a casa".
— Rony, não é assim! — Exclamou a garota, sorrindo, pegando o prato das mãos de Rony.
As coisas pareciam escorregar das mãos de Rony, que estavam ensaboadas. Talvez a vida à moda trouxa fosse bem mais divertida. Talvez seu pai tenha alguma razão. É claro que perderiam toda a semana, se resolvessem arrumar a casa toda como os trouxas, mas Rony trocaria a eternidade por um momento como esse, com Hermione.
Levou uma de suas grandes e desajeitadas mãos, passando o sabão desde a ponta do nariz de Hermione até as bochechas rosadas da menina. Ela, por sua vez, tentou se esquivar, sem muito sucesso. Seu movimento só ajudou Rony a fazer o que queria, que era passar a sua mão por todo o rosto de Hermione.
— Ronald! — Ela falou, fingindo estar zangada. Ela não tinha noção do quanto ficava bonita assim. — Estamos aqui pra ajudar a sua mãe, e não para...
O resto da frase ficou no ar. Rony apurou os ouvidos e arqueou as sobrancelhas, esperando que ela continuasse.
— Para...?
— ... namorar, Rony, namorar! — Sussurrou, tirando o resto de espuma de seu rosto. Hermione estava vermelha com um pimentão.
— Hermione Jean Granger, a senhorita aceita este humilde ruivo como seu namorado? — Perguntou Rony, fazendo uma reverência para Hermione, que lia, sentada em frente a lareira, na gelada manhã de inverno.
Ela levantou os olhos, como se não tivesse entendido o que ele falara. Rony, derrotado, se sentou ao lado dela.
— É o que? — Ela perguntou, fechando o livro.
— Você quebrou todo o clima, Hermione! —Resmungou Rony, emburrado.
— Quebrei o clima? — Sua expressão era atordoada, como se não entendesse uma só palavra de Rony.
— Pedi pra você namorar comigo, Mione. Pedi da maneira mais cordial e cavalheira que jamais imaginei falar na minha vida. Como os caras desses livros que você lê.
Rony estava sério, contrário de Hermione que exibia o maior e mais lindo sorriso do mundo.
— Você fez o que?? — Perguntou, indignada, apoiando as mãos no joelho de Rony.
— Quer que eu peça de novo?
Não era o que Rony queria fazer. Mas faria, por Hermione. Mas, talvez, não saísse do mesmo jeito.
— Faz, por favor!! — Respondeu Hermione, a ponto de um ataque de riso. Rony não sabia se estava debochando, mas tentou novamente.
— Ok, vou tentar. — Rony se levantou, e fez novamente a reverência. — Hermione Jean Granger, aceita este humilde ruivo como seu namorado?
Um segundo foi o tempo necessário para reinar o silêncio. Em seguida, Hermione caiu na risada, deixando Rony irritado e frustrado. Ele ficava ainda mais idiota tentando ser romântico? Será que Hermione não via que ele tentava impressioná-la a cada segundo? Para ela, tudo o que ele fazia era sempre brincadeira. E isso não é nem um pouco encorajador.
— Rony, isso foi... — Ela falou, tentando parar de rir e talvez encontrar palavras. — Isso foi... a coisa mais fofa que já vi! — Ela voltou a rir, se levantando.
Apesar de tudo, era bom vê-la rindo daquele jeito. Fazia um tempo que não via Hermione rir, mesmo porque passara os últimos três meses com seus pais, em sua casa trouxa.
E ter Hermione em sua casa novamente, era mais que perfeito.
Ronald passou os últimos meses pensando se seria o certo a se fazer. Pedir, formalmente, e depois ir conversar com seu pai. Rony não sabia como eram os pais trouxas. Tinha certo... medo deles. Enfim, quando decidiu que era o certo a se fazer, passou a ensaiar no espelho. Chegou até a pedir a ajuda de Gina, e se arrependeu no momento em que o fez.
— E então, Hermione? Pode ter sido idiota, mas meu pedido foi real, tá legal? — Falou, sentindo suas orelhas ficarem vermelhas.
— Senhor Ronald Bilius Weasley... — Começou, num tom cordial. Como Hermione fazia isso tão bem, enquanto Rony parecia um tremendo idiota? — É claro que eu aceito, seu bobo!
Hermione fez algo inesperado. Inesperado até mesmo para Rony. Voou em seu pescoço, enroscando os dedos no seu cabelo. Por pouco tempo, é claro. Rony sempre soube que ter uma família grande o atrapalharia, um dia.
— Finalmente! — Exaltou Jorge, com um copo com cerveja amanteigada em mãos. — Pensei que nunca fosse pedir, Rony. Se demorasse mais um pouco, ia pegá-la pra mim...
Rony lançou ao irmão um olhar fatal, enquanto Hermione ficava vermelha.
— Cala a boca, Jorge! — Praguejou, tirando um sorriso do irmão.
— Estou brincando, Roniquinho. — Falou Jorge, sentando-se no sofá, ajeitando o cachecol. — Também, era de se esperar essa demora. Foram quatro anos para descobrir que estava apaixonado e sete para beijá-la pela primeira vez. Quando será o casamento? Daqui há uns vinte anos?
— Cala já essa boca, Jorge! — Rony se sentia mais vermelho do que nunca, e estava a ponto de voar no pescoço de Jorge.
— Jorge, sempre brincalhão... — Ralhou com um toque de humor, Hermione, segurando a mão de Rony e puxando-o para fora da casa, onde a neve caía pesadamente.
Não sabia ao certo onde Hermione ia, mas a seguia fielmente. Começaram a se afastar da casa, deixando visível somente seus rastros na neve.
— Há um ano, exatamente... — Começou Hermione, quando finalmente parou de andar. — Eu estava com Harry, planejando nossa visita a Godric's Hollow. E você não estava lá...
Ronald abaixou a cabeça. Se sentia fraco por tê-la deixado daquela maneira. Ele era quem a protegeria até o fim da vida, se fosse preciso. E ele, Rony, não estava lá. Sabia que Hermione não o culpava mais, mas ainda havia aquele tom de tristeza em sua voz quando ela se lembrava. E Rony nunca iria se perdoar por aquilo.
— Tudo era tão frio... — Ela continuou. — Harry e eu já não sabíamos mais o que fazer, tanto que ir a Godric's Hollow foi uma ideia quase absurda! Mas eu não conseguia raciocinar direito. Porque você não estava lá, Rony.
Silêncio novamente. Agora Rony erguera a cabeça, e logo se arrependeu, pois o olhar penetrante de Hermione era quase acusador.
— O que eu quero dizer é... Nunca mais me deixe sozinha, Ronald Weasley! — Ela o abraçou, e Rony afundou seu rosto nos cabelos de Hermione, que eram tão seus quanto todo o resto da garota. — Porque eu... Eu te amo!
Rony não sabia se ria ou se chorava. Se sentia um covarde por não encontrar palavras para respondê-la a altura, por não encontrar palavras para expressar o que ele sentia por ela. Porque ia além de palavras. Além de um simples "eu te amo, Hermione."
— Eu te amo também, Hermione. — Apesar de não expressar tudo aquilo que ele sentia, era melhor do que não dizer nada.
O silêncio era completo a não ser pelos soluços de Hermione, abafados no pescoço de Rony. A noite estava caindo e o frio fosse mais que devastador. Mas dentro de Rony tudo estava quente. Parecia que todos os seus primeiros onze anos foram inúteis. Ele estava sendo criado para encontrar Hermione, e só isso. Tudo o mais que eles fizeram não era nada comparado ao que viria pela frente.
— Jorge, pare de importunar seu irmão! Parecem duas crianças... — Gritou Molly, carregando uma travessa até a mesa.
— Estou com saudades de brincar com o Roniquinho, mãe. — Disse Jorge, correndo para beijar a bochecha da mãe. — Afinal, hoje é noite de Natal. Temos que comemorar, felizes.
Rony fez uma careta para Jorge e saiu, para perto de Harry. Nos últimos meses, Rony havia se acostumado melhor com o fato de Harry e Gina namorarem. Ele entendia muito bem o que era gostar de alguém, como Harry gostava de Gina. E como ele agora morava com os Weasley, tudo ficara mais fácil. Rony gostava muito de Harry para ficar com raiva dele.
— Quem diria, hein, cara... — Falou, parando ao lado de Harry, que olhava o céu pela porta. — Digo, Natal passado foi um martírio pra todos nós.
— Nem me lembre... Fui atacado por uma cobra, Natal passado.
— É.
Ficaram um tempo, parados, observando as estrelas. Apesar de todo o frio, o céu estava limpo, cheio de pontinhos brilhantes.
— Seria diferente se... Se Fred estivesse aqui? — Perguntou Rony, sussurrando. Era a primeira vez que pronunciava o nome do irmão. Pelo menos, acordado.
— Talvez. Não seria uma, mas sim duas pessoas de importunando, Roniquinho. — Brincou Harry, tirando um sorriso torto de Rony.
Foi até melhor Harry ter brincado com a resposta. Talvez ainda fosse cedo para falar em Fred. Porque ninguém falava. Algumas vezes pegara sua mãe chamando Jorge de Fred, mas ela logo reparava o erro, e dizia algo como "Sempre me confundindo...". Era ruim porque, Rony queria falar sobre ele agora! E parece que ninguém, nem mesmo Hermione, queria falar nisso.
— Feliz Natal, Harry! — Falou, ainda sem olhar o amigo. Harry deu um abraço desajeitado em Rony.
— Feliz Natal, Rony... — Rony também o abraçou, logo sendo interrompido por Gina.
— Como estou? — Perguntou, girando para que todos vissem seu vestido azul.
— Está linda. — Responder Harry, e o clima ficou pesado demais, de repente, para Rony.
Foi até a cozinha procurar por Hermione, mas ela não estava lá. Passou os olhos rapidamente pela sala, mas foi quando olhou para a escada que seus olhos se iluminaram. Hermione estava linda. Mais do que sempre fora. Parecia mais feliz, radiante. Os cabelos caíam em cachos sobre os ombros. Tinha no rosto um sorriso brilhante, como a esperança que brotava dentro de todos eles.
— Feliz Natal, Ron! — Disse, me dando um abraço rápido, e já me soltando para cumprimentar os recém-chegados. Gui e Fleur chegavam com a pequena Victoire nos braços, e a casa toda começou a falar ao mesmo tempo.
— Feliz Natal, Mione... — Sussurrou para o nada, sorrindo feito um bobo, admirando sua grande e feliz família.
Porque era isso que realmente importava, não? Era sua família. Um pouco diferente, com alguns membros a mais e um único espaço - que talvez nunca fosse ser ocupado -, porém era a mesma família Weasley de sempre. O amor deles, o vínculo profundo e eterno nunca acabaria. Talvez aumentasse, se fortificasse. Mas jamais teria um fim.
— Rony, anda logo, vamos bater uma foto! — Gritou seu pai, já ajeitando todos a sua volta.
Sorridente, Hermione passou os braços em seu pescoço, e olhou para a frente, onde Carlinhos segurava a câmera.
— Você está feliz? — Ela sussurrou em seu ouvido, fazendo alguns pelos da nuca de Rony se levantarem.
— Muito! — Ele respondeu, com sinceridade. Mas nem teve muito tempo para perguntar de volta, pois o flas da câmera o cegou por alguns segundos.