Os olhos estavam arregalados de medo. A boca entreaberta arfava em pequenos jorros de ar. O rosto pálido demonstrava fraqueza. As mãos frias tremiam involuntariamente, mas parecia ser um gesto preciso, o que me confundia.
O medo estava estampado em cada molécula que compunha o corpo bem definido da jovem à minha frente. As olheiras profundas mostravam que ela havia tido dificuldade para dormir essa noite, apavorada com a idéia de Comensais invadindo sua casa para matá-la. Nossa presença só servia para mostrar que ela estava certa em ter receio.
Lágrimas leves e contraditórias caíam pela face da garota, sem dar trégua. Soluços baixos escapavam por entre seus dentes.
Podia ouvir as palavras que ela não pronunciava, pedindo piedade, tentando encontrar um pingo de solidariedade em nós, mesmo sabendo que podia não existir. Podia sentir a esperança dela, crescendo conforme demorávamos a matá-la. A garota sentia esperança de que nossa piedade existisse, que fosse apenas invisível, mas que estava ali. Eu gostaria de dizer que ela estava certa. Gostaria de dizer que não precisávamos matá-la.
Mas se eu o fizesse, estaria mentindo para nossa presa, dando a ela falsas informações e eu não tinha o direito de fazer isso. Se fosse para matar, que ela morresse sabendo o motivo de sua morte, embora eu soubesse que não o entenderia.
Puxei a varinha de dentro de minhas vestes, deixando bem visível para que a vitima soubesse o que aconteceria com antecedência. Mas não a apontei imediatamente. Esperei para ver o pânico tomar conta das feições da garota, distorcendo-as em uma careta de terror, prevendo o que aconteceria. O fluxo de lágrimas aumentava cada vez mais, e ela passou a procurar com mais ansiedade a piedade nos meus olhos. E eu gostaria de dizer que ela encontrara, mas não foi isso o que aconteceu.
Meu trabalho era irredutível e não deixaria de sê-lo por causa de um sangue-ruim que tentou encontrar a piedade em mim. Ela não era encontrada, por que ela não existia. Piedade não existia no mundo, muito menos em Comensais da morte. Nós éramos o mundo e o mundo passou a aceitar isso sem questionar.
Mas algo me perturbava. Percebi que a garota mantinha os olhos abertos, mas a coragem não estava estampada em sua face. Ela queria não ser morta. Queria apenas isso, nada mais. Lembrei-me que ela não havia gritado por seus irmãos. Nem por seus pais. Começara a chorar somente quando descobriu que ela tomaria o mesmo rumo deles.
Aquela atitude só conseguira me endurecer mais e agora eu faria questão de matá-la eu mesmo. Ela não merecia compaixão de ninguém, nem mesmo dos próprios familiares. E sabia disso, mas ignorava o fato.
A garota observou a morte dos próprios pais com os olhos secos, de quem não faz questão de deixar lágrimas caírem por nada. Pude sentir isso. Mas ao entender que era a vez dela, que ela tomaria o mesmo rumo deles, seus olhos conseguiram marejar. Aquilo era doentio.
Seus olhos observaram a ponta de minha varinha se levantar em sua direção. Ela respirava com cada vez mais vontade, como se fosse sentir o ar uma última vez antes de prender a respiração para sempre. As lágrimas caiam em uma sincronia perfeita, uma atrás da outra, como se fosse a ultima vez que pudesse chorar. As mãos tremiam com mais e mais vontade, como se fosse o único motivo pelo qual valesse a pena tremer.
- Por favor... – ela sussurrava. – Piedade. – ela pedia. – Socorro. – ela exigia. – Não faça isso. – tentava ordenar.
Mas nenhuma das palavras e exigências ela merecia. Não sussurrou nada disso pelos pais, nenhuma vez. Como se achasse que eles merecessem o destino que lhes foi dado, como se pensasse que a culpa era deles.
Minha piedade fora toda atribuída à meus pais e não sobrara nem um pingo dela para essa garota. E mesmo que sobrasse, eu não daria a ela. Não me lembrava d sangue-ruim ter se incomodado em dar um pouco da sua em lágrimas para os próprios pais ou irmãos.
Os Comensais me observavam com certo interesse, esperando que eu fizesse o que me fora mandado. Acredite, eu não demoraria muito mais.
- Por favor, por favor, por favor... – ela ainda me pedia.
- Avada Kedrava! – foi um feitiço rápido e sem emoção, minha voz estava completamente indiferente, carregada de escárnio e satisfação ao tirar uma criatura desleal e sem direitos da face da terra e da sociedade bruxa. Menos um sangue-ruim.
Os sussurros que pediam nossa piedade foram cortados para sempre e pararam como se morressem na garganta de quem os pronunciava, ou como se a pessoa esquece o motivo pelo qual os pronunciava e não seria nós que iríamos lembrá-lo.
Não houve sangue, não houve tortura, embora eu pensasse que o medo que ela passou de morrer valesse por ambos. Nunca derramaríamos o sangue dela, por que se o fizéssemos, o mundo bruxo ficaria ainda mais sujo. Sangues-ruins sempre foram algo dispensável e que não fazia falta.
Eu sabia que eles, e muito menos eu, esconderíamos o corpo dela e da família, com medo de que os aurores os encontrassem. Nós não escondíamos o fazíamos a pessoas que mereciam a morte e mais nada. Os corpos ficariam ali para apodrecer, ou alguém os encontraria para dar um enterro não merecido.
Observei o corpo da garota cair inerte no chão de modo a ficar em uma posição impossível e contorcida, a face virada para mim, o olhar vidrado encarava nada em especial, dos olhos ainda caia uma lágrima solitária e única que marcaria a morte dela como uma coisa pela qual ela derramaria uma lágrima.
Draco Malfoy, Relatos de um Comensal da Morte (30/04/2011). Inglaterra, Londres.
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N/A: a short era para ter terminado em um único capítulo, mas minha imaginação ganhou açgumas asas hoje, então decidi comloca-las no papel (ou na FeB).
Aí esta o resultado deste momento de inspiração.
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