Os pulmões comprimiam-se dolorosamente, sentia o corpo contorcer-se de forma agonizante, até que, com um estalo, o corpo de Draco Malfoy voltou ao normal, respirando novamente. Encontrava-se em frente ao portão de sua casa, de mãos dadas com ninguém menos que Luna Lovegood.
– Talvez devêssemos fazer parecer que você está me levando à força, não?–
A doce voz de Luna acordou-o de seus devaneios, fazendo-o perceber que, de fato, não se pareciam nada com um seqüestrador e sua vítima, mas com um casal. E Draco e Luna definitivamente não eram um casal.
– É... É, devemos. Você tinha que rolar na areia? Está toda suja. Droga, vem aqui, deixa que eu limpo. – Empunhou sua varinha, e, murmurando o feitiço, começou a aspirar as vestes e os cabelos da garota.
Enquanto Draco a limpava, Luna observava a enorme mansão, apreensiva. Era uma casa imponente e ornamentada. Era como se cada metro tivesse sido milimetricamente planejado. Era totalmente o oposto de Luna. Era como se a imponência da casa a sufocasse, levasse embora toda sua imaginação e alegria. Segurou as lágrimas ao pensar que passaria um tempo indeterminado naquele lugar tão diferente de seu lar, nem pudera se despedir de seu pai, mal tiveram tempo para conversar, tinham acabado de chegar em casa.
Draco acabara de aspirar suas roupas, e passou a fazer o mesmo em si. Luna observou o garoto. Ela poderia tê-lo socado e fugido na praia, Draco foi inconseqüente ao leva-la lá. Mas ainda assim, ela admitia, foi um gesto admirável, ele se arriscara para dar satisfações a uma garota que mal conhecia, que apenas sequestrara para proteger a família. Ela não poderia deixá-lo na mão agora. Engoliu o choro e tentou sorrir quando Draco parara de se aspirar, e gentilmente pegara seu braço, para fazer parecer que ela estava indo à força.
– Então, como vamos passar por esse portão? – O portão de ferro da casa dos Malfoy erguia-se maciço diante dos dois, impossível de se ultrapassar, segundo Luna, que não via uma porta ou qualquer tipo de entrada possível.
– Só finja que eu estou te segurando muito forte, que está doendo. Deixe que eu vou te conduzir, ok? – Luna concordou. Draco conduziu-a em direção ao portão de ferro, rapidamente, e não dava sinal de que pararia. Luna estava começando a achar que iriam dar de cara no portão quando Draco ergueu o braço esquerdo, fazendo ambos ultrapassar o limite como se o ferro fosse feito de fumaça. Ignorando o susto de Luna, o que deixava seus olhos ainda mais arregalados, Draco levou-a pelo jardim até a porta da frente de sua casa.
Lentamente, Draco abriu a porta. Não sabia dizer por que estava sendo tão vagaroso em seus movimentos, talvez tivesse medo do que iria encontrar adiante, ou talvez apenas quisesse voltar no tempo, quando as coisas eram mais simples.
Mas as coisas nunca mais seriam simples.
A porta escancarou-se, embora Draco ainda não a tivesse aberto completamente. Com os cabelos desgrenhados, os olhos com um brilho doentio, e um sorriso diabólico, Bellatriz abrira a porta, como se estivesse esperando ansiosamente por eles.
– Ora, ora, ora... Não é que você fez seu serviço direitinho, Draco? Se eu tivesse um biscoito, eu o daria para você como recompensa! Mas porque a demora? –
– Ahn... Ela resistiu um pouco na hora de aparatar. Mas eu a controlei antes que estrunchássemos. – O estômago de Draco se revirou. Bellatriz esperando por ele não era um bom sinal.
– Não diga! Bom, então eu acho que vamos ter que aumentar o castigo dela, não acha? – Bellatriz soltou uma risadinha infantil e maligna. – Você, venha comigo! – Num ato de extrema violência, Bellatriz puxou Luna pelos cabelos casa adentro. A garota gritava, agonizada. Draco seguiu-as de perto, tentando inutilmente convencer a tia a soltá-la. Bellatriz ria histericamente.
Bella arrastou a menina, que urrava de dor, até a sala principal da casa. Jogou-a no chão violentamente, onde ela foi amparada por Draco, que sussurrava pedidos de desculpa em seu ouvido, para que a tia não o ouvisse. Bella aproximou-se de Luna, fazendo com que ela tremesse de medo, e, de um jeito doentio, sussurrou para ela:
– Onde está Harry Potter? –
Luna encarou Bellatriz nos olhos. Já não chorava ou tremia mais. Respirou fundo antes de responder.
– Mesmo se soubesse, eu não te contaria. –
Bellatriz não se intimidou com a resposta mal-criada. Simplesmente empunhou a varinha e sussurrou: “Crucio”.
Para Luna, foi o inferno na terra. Ela gritava e se contorcia, e Draco tentava acalmá-la, queria fazer a dor dela passar, quase gritava com ela. Bellatriz ria de forma estridente, até que Draco conseguiu fazer-se ouvir apesar dos gritos de Luna e os relinchos de Bellatriz.
– PARE! ELA NÃO VAI AGUENTAR, PARE! – Bellatriz desfez o feitiço, e olhou para Draco, atordoada. Resolveu não dar importância ao sobrinho. Ao invés disso, concentrou-se em Luna.
– Você, pelo que sei, é bastante amiga de Potter, e também é amiga da namoradinha dele, não? Se você tiver alguma pista de onde ele esteja, eu não te mato. Que tal? É um bom acordo. – Inclinando-se sobre Luna, Bellatriz repetiu a pergunta. – Onde está Harry Potter?
– Não sei, sua bruxa velha, e mesmo se soubesse, eu nunca diria! – Dessa vez Bellatriz não pôde ignorar a resposta. Empunhou a varinha com um olhar homicida, mas antes que lançasse algum feitiço, Draco segurou seu braço, deixando Luna no chão.
– Tia, eu tenho veritaserum. Se ela não quiser falar, você não vai obrigá-la sob tortura. Mas sob veritaserum ela não terá escolha. Por favor. –
Bellatriz pareceu ponderar o pedido por algum tempo. Era óbvio que queria torturar Luna, mas não podia deixar passar a oportunidade de descobrir o paradeiro de Harry, o que com certeza faria o Lorde das Trevas confiar nela de novo. Por fim decidiu, relutante, pelo veritaserum.
Ao se virar para buscar a poção da verdade, Draco percebeu que seus pais e Rabicho estavam na porta da sala, acompanhando os acontecimentos. Lúcio parecia não estar ali inteiramente, os olhos estavam desfocados. Narcisa tinha lágrimas nos olhos, e uma expressão que mesclava orgulho e preocupação. Rabicho, no entanto, tinha os olhos focados em Luna, como se ela fosse uma guloseima particularmente apetitosa.
Draco ignorou os pais e Rabicho, correu até seu quarto, onde, em uma gaveta, havia um frasco com um líquido transparente como água, roubado do estoque particular de Snape no ano anterior. Correu de volta à sala principal. Bellatriz andava em círculos vagarosamente ao redor de Luna, que encolhia-se no chão. Narcisa, Lúcio e Rabicho haviam saído do recinto.
Entregou o frasco à tia, e voltou a amparar Luna. Bellatriz forçou o líquido garganta abaixo em Luna, e imediatamente começou a fazer perguntas. Draco temeu que ela perguntasse sobre o porquê da demora dos dois, mas isso não ocorreu. Suas perguntas giraram em torno da amizade de Luna com Harry, e se Gina Weasley havia revelado alguma informação à ela. Ainda bem, Gina não havia revelado nada à Luna, embora todos os segredos da Armada de Dumbledore tivessem sido entregues.
– Bom, eu acho que você não vai me dar mais nada de útil. Draco, leve-a para baixo. Vou mandar uma coruja para Snape. –
Antes que a tia mudasse de idéia, Draco, rápida e delicadamente, ergueu Luna do chão, passando o braço da garota por seus ombros e passando o próprio braço pela cintura dela. Guiou-a até uma porta simples, que se abria em uma escada íngreme, que levava ao porão, ou, como estava sendo usado no momento, o calabouço. Rabicho encontrava-se parado às barras de ferro do porão, parecendo uma criança que esperava por seu presente de natal.
– Rabicho, eu vou prendê-la sozinho. Deixe-nos. – Draco precisava de alguns momentos a sós com Luna, sem a interferência incômoda de Rabicho.
– Mas senhor, a Srta. Black me deu ordens específicas para...
– DEIXE-NOS, RABICHO! – O sangue de Draco fervia. Ele seria capaz de matar o homem se ele não saísse, o que, felizmente, ele fez. Draco não se importava se ele falasse com sua mãe ou sua tia. Inventaria uma desculpa depois. Gentilmente, abriu as portas de ferro e levou Luna para dentro.
Estava escuro ali, Draco logo acendeu a luz. No canto do aposento mofado e empoeirado, estava um velho, enroscado em cobertas velhas comidas por traças. Olivaras. O homem levantou os olhos, mas nada disse. Parecia cansado demais até para falar. Antes que Draco pudesse falar qualquer coisa, foi empurrado ao chão, caindo com um estrondo. Luna olhava para ele com ódio. Não parecia ela, que sempre tinha os olhos tão sonhadores e calmos.
– Como pôde fazer isso?! – Sua voz também já não estava tão doce. Luna empurrara-o ao chão, e agora parecia prestes a matá-lo.
– Mas o que foi que eu fiz?! – Luna não lhe apresentava ameaça, mas Draco não pôde deixar de sentir-se ligeiramente assustado com sua fúria.
– Olhe para esse homem! Isso é desumano! Porque não fez nada por ele? –
Draco gaguejou, mas não soube responder. De fato, como preocupou-se tanto com Luna, mas não se importara com Olivaras?
– Você é mau, assim como todos eles! Arrogante, egoísta, covarde e mau!
– Ah, é? É assim que você pensa que eu sou?! – O sangue de Draco fervia novamente. Luna concordou, os olhos brilhando de fúria. – Você não sabe nada sobre mim! Eu te ajudo, e é isso que recebo em troca? Bom, acho que você não precisa mais de mim!
– Eu nunca precisei, Draco! Eu não sei se você percebeu, mas você era o seqüestrador e eu a vítima! Você não deveria nem ter conversado comigo! Assim, eu não teria tomado veritaserum, não teria revelado sobre a AD, e, principalmente, não teria passado tanto tempo com você!
– Então você preferia ter sido torturada?!
– Preferia morrer ao ter revelado os segredos dos meus amigos! – Ambos estavam histéricos. Luna queria enforcar Draco, enquanto ele queria explodir a casa inteira. O garoto respirou fundo, lutando para ficar calmo.
– Então vou te deixar por conta própria.
– Ótimo!
– Ótimo.
Virou-se e saiu do porão, bufando, sem olhar pra trás. Passou direto por Rabicho, que parecia assustado com a briga. O patético homenzinho fez uma desajeitada reverência quando o garoto passou, sendo completamente ignorado. Subiu para seu quarto e trancou-se. Não queria falar com ninguém. Não queria ser visto por ninguém.
Só queria descer e desculpar-se com a garota loira de olhos cinzentos, a culpa o corroia. Luna, por sua vez, derramava lágrimas de arrependimento, enquanto fazia o possível para ajudar Olivaras.
Ele não desceu. Ela parou de pensar nele.
O orgulho de ambos falou mais alto.