Harry acordou na cama de armar do quarto de Rony, um pouco de luz entrava pela janela. O amigo estava deitado em sua cama de costas para ele. Harry não dormiu a noite toda, ele sentia que provavelmente ninguém na casa havia realmente pegado no sono, hora ou outra ouvia um choro ao longe, mas era difícil dizer de qual dos Weasley ele vinha. Seu corpo estava mais leve, parecia que tinha se livrado de uma tonelada, mas mesmo que soubesse que as mortes de seus amigos, não eram sua culpa, não conseguia deixar de sentir dentro de si essa culpa. Esse seria um dia muito difícil, o funeral de alguém de quem se gosta nunca é fácil e para ele parecia quase que uma rotina perder pessoas queridas, mas ele sabia que de hoje em diante ninguém mais morreria, pelo menos não naquelas circunstâncias. E aquilo era realmente bom de pensar, que Voldemort se fora e dessa vez pra sempre.
Ainda era muito cedo e ele sabia disso, mas escutou alguns passos na cozinha, levantou-se da cama tentando não fazer barulho, mas a cama era velha e rangia com qualquer movimento. Rony virou para o lado de Harry e olhou para o amigo sem dizer nada, seus olhos estavam inchados e os cabelos bagunçados.
- Tudo bem? Disse Harry
Rony acenou com a cabeça dizendo que sim e sentou-se em sua cama, esticou o braço onde alcançou uma camiseta e vestiu e então os dois desceram para o café da manhã. Harry viu que o Sr. e a Sra. Weasley, assim como Hermione e Gina estavam em volta da mesa da cozinha, todos em silêncio e Hermione era a única que tinha nas mãos uma xicara de café, em cima da mesa Harry pode ver um exemplar do Profeta diário com uma foto sua, na primeira página, mas não deu muita importância para aquilo, mas leu as letras que estavam maiores “O menino que sobreviveu, derrota Voldemort” e ocupando mais de meia página uma foto sua com o cabelo bagunçado e sujo, Kingsley se tornara o ministro da magia, ele pode ver no fim da primeira página junto com uma foto do agora ministro e dessa vez ele sabia que a relação com o ministério seria finalmente agradável. Carlinhos descia as escadas e se juntou aos outros na mesa, Rony aceitou o café que Hermione rapidamente o serviu, ficaram em silêncio durante uns bons minutos e era muito estranho para Harry ver a família acostumada a ser tão barulhenta nas refeições, naquele silêncio.
- E o George? Disse Hermione
- Está deitado, mas está acordado. Respondeu Carlinhos
- Acho que ele ficou acordado a noite toda.
- Que horas são os funerais? Perguntou Rony
- Às 10 horas da manhã. Respondeu o Sr. Weasley.
- E Tonks e Lupin? Disse Harry.
- Todos no mesmo horário.
O silêncio reinava e ninguém tinha coragem de falar nada, Harry olhou para Gina e viu que uma lágrima deslizava silenciosamente pelo seu rosto, enquanto sua mão repousava nos ombros da Sra. Weasley. Harry esticou sua mão e segurou a mão livre de Gina, que não olhou para ver quem era, ela sabia que era ele, sabia que aquele toque só podia ser dele e de mais ninguém, ela apertou suavemente a mão de Harry como se quisesse dizer que estava tudo bem. Hermione quebrou o silêncio após longos minutos ou até algumas horas, acho que todos tinham perdido a noção do tempo.
-Vamos está quase na hora. Disse ela indo em direção a lareira puxando Rony pela mão.
Todos assentiram com a cabeça e caminharam para a lareira sem dizer nada, só se ouviam os estalos do pó de flu e as palavras “Cemitério dos Alfeneiros”.
O cemitério tinha grandes árvores, elas pareciam muito velhas e as lápides eram tantas que não se podia contar, o chão tinha uma gramado muito verde e bem aparado e algumas lápides tinham flores em frente, no centro do cemitério havia uma pequena tenda onde se via um microfone e um pequeno altar, na tenda tinham cerca de 20 pessoas, todas muito bem vestidas, era provável que fossem autoridades e pessoas do ministério Harry pensou, ele não quis contar os caixões, mas haviam alguns deles e estavam lado a lado com espaço para os familiares ficarem próximos. Parecia que tinha acordado de um pesadelo e entrado em outro, ver a família que ele tanto amava e que o acolheu por tanto tempo como um filho, triste e arrasada, não era uma cena que ele gostaria de se lembrar por muito tempo. A Sra. Weasley, estava sentada em uma cadeira e o senhor Wesley e os filhos estavam todos em volta da mãe, exceto George que olhava para o irmão morto, deitado em um caixão, conversava e passava as mãos pelos cabelos de Fred como se o irmão gêmeo estivesse apenas dormindo, Rony abraçado a Gina chorava, suas lágrimas molhavam os cabelos da irmã. Hermione estava ao seu lado o consolando e Harry apenas olhava a dor da família, sem saber o que fazer. Oque poderia ser pior? Então ele olhou outros dois caixões ao lado do de George e em pé em meio a eles, uma senhora, que ele já conhecia, a Sra. Tonks, nos seus braços um bebê cujos cabelos estavam azulados, ele sentiu seu estomago revirar e lembrou de seus pais e que do mesmo jeito que o pequeno Ted perdeu os pais, ele também perdera e imaginou todos os anos que a criança teria e a falta que os pais lhe fariam, prometeu pra si mesmo que ajudaria com a criação do menino, afinal ele era o padrinho e devia isso a Lupin e Tonks.
Enquanto o agora ministro fazia um pequeno discurso, Harry desejou que aquilo acabasse logo, por que era como se tivessem lançado a maldição Cruciatus em seu corpo, tanta era a dor que ele sentia, pensou nas palavras que Dumbledore escrevera em suas cartas a Grindelwald em que ele defendia que algumas coisas deveriam acontecer para o bem maior, mas para o “bem maior” não era justificativa para uma criança crescer sem os pais ao lado e ele sabia melhor do qualquer um ali, como era aquilo e nada que alguém fizesse poderia mudar esse fato. Escutou algumas palavras de Kingsley.
- Não existem guerras sem perdas, perdemos pessoas que deram suas vidas, pelas nossas vidas, o mal se foi, mas levou com ele um pouco de nós mesmos. Devemos honrá-los, nunca esquecendo o motivo pelo qual lutaram e que suas mortes não foram em vão.
Então a família se aproximou de George e cada um deles deixou uma flor, Harry se aproximou e também deixou flores, primeiro para Tonks e depois para Lupin. Abraçou a Sra. Tonks num impulso e deu um beijo na bochecha do pequeno bebê, que estava agora com o cabelo ligeiramente vermelho. Depois se aproximou da Sra. Weasley e a abraçou também e para sua surpresa, ela o apertou tanto que ele pensou que fosse perder a respiração, quando ela o soltou, ele abraçou os outros integrantes da família e quando foi abraçar o amigo Rony, uma lágrima escorreu dos seus olhos, depois abraçou Gina e como era boa a sensação de poder abraça-la e no seu abraço ele se sentia melhor, sentia o cheiro dos cabelos dela e aquele cheiro o acalmava, não queria mais soltá-la, se pudesse ficaria assim por horas, fez uma carícia nos cabelos vermelhos da moça e lhe deu um beijo no rosto antes de soltá-la com um cutucão de Hermione, provavelmente tentando avisar que aquele não era um bom momento. Harry se aproximou então de George e ao vê-lo, o rapaz não se conteve e o abraçou caindo no choro, chorou e soluçou, como se naquele momento, ao ver Harry, ele tivesse caído na real.
Harry quis aparatar para qualquer lugar longe dali, não suportaria olhar para George e dizer qualquer coisa que fosse, pelo menos não agora, não ainda. Então pensou que não poderia voltar para Rua dos Alfeneiros, era um alívio, mas até lá parecia um bom lugar, melhor do que ali e então pensou no Largo Grimmauld, número12, a casa que Sirius lhe deixou, agora seria seu lar, talvez pudesse fazer alguma mudança ali e a casa parece menos triste do que agora estaria, mas não tinha forças pra pensar nisso naquele instante, esperou que George o soltasse, e aparatou até a casa do padrinho, subiu para o quarto que era de Sirius e ali deitou e nem ao menos tentou resistir ao sono, o cansaço e a exaustão tomaram conta e finalmente depois de um tempo longo sem dormir, tirando apenas cochilos, Harry fechou os olhos e adormeceu.