Juliet não comparecera ao trabalho no sábado pela manhã. Não atendera ao telefone e sequer abrira os bilhetes que chegavam. Não queria falar com ninguém.
Assim que se recuperara do choque, Lisa e Arthur a levaram até o quarto. Arthur pediu licença e deixou as duas mulheres conversando.
- Juliet, querida. O que aconteceu? Não a vejo abalada assim desde que... - Fez uma pausa. - Desde que soubemos que Harry se foi.
- Oh Lisa... - Outra vez a mulher irrompeu em lágrimas. - Olha!
Lisa recebeu a mão esquerda de Juliet entre as suas e olhou-a com atenção.
- Oh Merlin! - Lisa assustou-se. - Mas como isso é possível?
- Eu não sei... Eu não sei!
- Acalme-se, querida. Descanse... Vamos descobrir o que está acontecendo, mas depois... Agora descanse...
Lisa ajudou Juliet a tirar os sapatos e deitar-se.
- Virei vê-la mais tarde. Procure descansar.
Juliet concordou com a cabeça. O olhar perdeu-se num ponto qualquer do teto. Em seguida os olhos azuis pousaram sobre a aliança.
Não é possível que o feitiço tenha terminado... - Pensou.
Mas qual seria a explicação, então?
O domingo chegou e Juliet permanecia no quarto. Comia pouco e não falava. Era a décima vez que Lisa tentava fazer algum contato.
- Querida, Selma ligou outra vez. E o senhor Chesty também; disse que está preocupado e pediu para lembrar-lhe que se precisar de algo pode contactá-lo.
Juliet apenas balançou a cabeça.
Na segunda-feira, Juliet não foi trabalhar. A cabeça continuava a mil, lotada de pensamentos e teorias. Por mais que não quisesse criar falsas esperanças, uma voz lá dentro dizia que era possível...
Por volta das oito horas, Juliet descera para jantar pela primeira vez nos últimos dias. Tomara uma sopa e estava sentada numa poltrona, de frente pra lareira apagada, com o olhar perdido.
A campainha tocou e não moreva sequer um músculo para atendê-la. Poucos segundos depois Lisa entrava na sala.
- Querida, o senhor Chesty está na porta. Parece bem preocupado e gostaria de notícias suas. O que devo dizer?
Juliet demorou um pouco para responder. Realmente precisava conversar com alguém. Fora Lisa, claro. Respirou fundo.
- Mande-o entrar, Lisa. Diga que quero falar com ele.
A mulher mais velha sorriu, docemente, e foi até a porta. Mias alguns segundos e Steve adentrava a sala.
- Juliet! - Steve abraçou-a. - Oh, Merlin! Fique tão preocupado! O que aconteceu?
Ela sentou-se e indicou o sofá para ele.
- Eu estou bem, Steve. Obrigada pela preocupação...
- Desde que você saiu correndo naquela chuva... Oh, Juliet... Eu sinto muito, não deveria ter te beijado. Nem sei o que me deu. Me desculpe...
- Olha, Steve, tá tudo bem. E sobre o beijo, eu entendo que foi um acidente, uma coisa de momento. Não foi por isso que eu sai daquele jeito. Foi... Foi um conjunto de coisas. Aquela mulher, imagens que vieram à minha cabeça... - Escondeu o rosto nas mãos.
- Juliet, fica calma! Por favor, me explica o que está havendo... - Ele falava baixo, quase num sussurro.
- Eu... Eu vou explicar. - Enxugou algumas lágrimas. - Aquela mulher... Eu sei quem ela é, sei da onde a conheço! Ela estava na Guerra! Eu sei que faz tempo e ela era nova, mas aquele olhar... Eu tenho certeza.
- Merlin... - Steve estava boquiaberto. - Uma seguidora... De Você-sabe-quem?
- Exato! E essa lembrança... Oh, Steve, realmente mexeu comigo.
- Eu te compreendo totalmente. Agora posso entender como você se sentiu. - Ele sorriu, solidário. - Mais alguma coisa que você queira me contar?
- Na verdade... - Juliet calou-se por alguns segundos, até que estendeu a mão esquerda para Steve.
- Sua aliança? O que tem isso? - Ele parecia confuso.
- Ela é enfeitiçada. Só aparece se o portador da outra aliança estiver pensando em mim. Ela estava invisível desde a noite da Guerra... Desde que meu marido morreu.
Fez-se silêncio. Juliet estava relativamente aliviada por desabafar com alguém. Steve parecia chocado.
- Nem sei o que dizer. Talvez o feitiço tenha acabado? - Ele sugeriu.
- Sim, é o que eu também acho. Mas... Mas não posso dizer que isso não mexeu comigo.
- Isso abalaria qualquer um. E muito me orgulha ser seu amigo, porque você é uma das mulheres mais fortes que já conheci.
Os dois sorriram. Steve levantou-se.
- Agora que sei que você está bem, posso deixar-lhe em paz.
- Não precisa sair correndo, Steve. Foi realmente importante ter desabafado isso tudo com você.
- Eu sei, minha linda. Mas realmente tenho uns assuntos para resolver. Só queria ver que estavas bem.
- Obrigada. Do fundo do meu coração. - Ela sorriu. - Vou te levar até a porta.
Despediram-se com um abraço demorado. Juliet estava mais leve, mas não pôde deixar de notar uma estranha sensação enquanto via Steve sair. Uma sensação ruim.
Fechou a porta e subiu pro quarto. Tirou a blusa e assustou-se quando viu o reflexo do colar com um pingente de floco de neve no espelho. Deu alguns passos para trás e caiu sentada na cama.
Talvez não fosse simplesmente o feitiço que tivesse acabado. |