Capítulo Treze:
“Não espere que o outro tome a iniciativa,
Se você foi o culpado.”
Olhei para dentro do labirinto com o medo estampado nos olhos. Eu já não me importava em escondê-lo. Não tinha mais vergonha que as pessoas soubessem. Não escondia nem de mim mesmo.
O corredor que servia como acesso ao labirinto era escuro e um denso nevoeiro parecia cobri-lo dificultando a visão do que havia dentro do próprio. Eu ainda não tinha certeza de que queria saber ou ver qualquer coisa que ficasse ali dentro.
Mas eu tinha que entrar. Não havia saída depois que se inscrevia no torneio, Dumbledore mesmo dissera isso. Eu me amaldiçoaria todos os dias por ter me inscrito nisso. Embora soubesse que se não o tivesse feito, Karkaroff o faria.
Dei um passo para dentro do labirinto e senti a parede de folhas atrás de mim se fechar. Virei-me a tempo de vê-la antes que a parede se fechasse totalmente. Hermione. Sentada na arquibancada encarando de mim para Potter com o olhar tomado pela preocupação.
A parede se fechou e eu quis gritar para que se abrisse. Queria sair daquele lugar agora e nunca mais voltar. Queria esquecer que ele existia.
Virei-me de frente para o corredor escuro. Não conseguia enxergar nada. A neblina me cegava e eu não tinha certeza se isso era uma boa coisa. Ela entrava pelas minhas narinas e descobri com um suspiro que era fria, congelando meu cérebro, impedindo-me de pensar. O que definitivamente não ajudava.
Meu corpo tremia e eu não sabia se era de frio ou de medo, ou quem sabe as duas coisas. Isso eu não sabia, e não saber me incomodava profundamente.
Os passos que eu dava eram incertos, a dúvida estava em cada gesto, em cada olhar. Em tudo.
Era como se eu não soubesse de nada e de nada tivesse consciência. E eu odiava saber disso. Não conseguia pensar sobre possibilidades, sobre o que fazer para encontrar a taça.
Sem resposta para perguntas, eu seguia por qualquer caminho sem ver para onde ia, sem procurar nada em especial, mas procurando tudo o que pudesse me tirar dali. Meus passos eram incertos e trôpegos, a névoa não ajudava. Penetrava meus pulmões e eu podia afirmar que tentava congela-los.
O desespero começava a me tomar. As paredes de folhas pareciam me impulsionar para baixo, como se quisessem me derrotar. E sabiam que estavam conseguido.
Meu subconsciente sabia que eu estava naquele lugar a menos de cinco minutos, mas para mim já era mais do que suficiente.
Cedi ao impulso de correr e deixei que minhas pernas se movessem em sintonia, me levando rapidamente pelos corredores.
Aqueles que não tinham saída me faziam recuar e procurar por outro e por outro, até que não fazia mais idéia do que estava acontecendo e onde eu estava.
Meus pulmões buscavam ar, mas só encontravam a névoa fria e cinzenta que tirava minha visão. Meus músculos buscavam descanso, mas eu não conseguia parar de correr, movido pelo impulso, mesmo não vendo aquilo que deveria me dar medo.
Meus olhos queriam ver a luz, mas só encontravam a escuridão.
Minhas pernas corriam desenfreadamente. Queria sair dali o mais rápido que pudesse, sabia o que fazer: puxar a varinha e conjurar faíscas vermelhas e eu voltaria, mas o desespero era tanto, que não conseguia impulsionar minha mão até ela.
Meus olhos ardiam e senti meus olhos marejarem. Fazia muito tempo que eu não chorava, havia até esquecido de como era a sensação. Mas podia senti-la de novo, em forma de lágrimas de medo, que escorriam agora pelo meu rosto.
Ao virar um corredor, me deparei com uma Fleur desesperada. Ela chorava, assim como eu, e parecia ainda mais desesperada. Seu estado era tão deplorável, que me fazia parecer corajoso.
Quando me viu, ela pareceu se aliviar.
- Victor! – chamou.
Minhas mãos começaram a tremer do nada e senti todo meu corpo acompanhá-las.
Uma sensação de mil fagulhas de vidro se adentrando no meu corpo foi tomando conta de mim. Pude sentir a névoa entrar pela minha garganta, literalmente, e parei de sentir meu corpo.
Meus olhos pararam em Fleur.
Sem pensar, minha mão foi em direção à varinha. Mas não foi intenção. Eu não controlei!
Observei minha mão levantar a varinha em direção a Fleur. Mas eu não controlei o movimento. Estava agindo sem minha permissão.
Tentei faze-la voltar a colar no meu corpo, mas meu braço continuou levantado. Tentei fazer minha mão soltar a varinha, mas não aconteceu.
Meu corpo não respondia aos meu comandos! O desespero aumentando, tomando conta da minha garganta.
‘Fleur! Corra!’, eu queria dizer para ela, mas minha voz não saiu. Eu sabia o que ia acontecer antes de as palavras saltarem da minha boca.
Ela também pareceu notar, pois gritou alto.
- Estupefaça! – minha voz saiu sem permissão. Eu queria volta-las para dentro da minha garganta, para que nunca mais fossem ditas.
Mas já era tarde e eu não pude faze-lo.
Observei o corpo inerte de Fleur cair no chão com estrondo.
Minhas lágrimas voltaram a cair com o desespero cada vez mais forte. Meu corpo voltou a tremer e senti a névoa se mover no meu estomago, saindo de dentro de mim pela boca. O gosto era horrivelmente mais frio do que ela própria.
Recuperei-me a tempo de ver as paredes arrastando Fleur para dentro das próprias. Corroí-me de culpa. Mas já não podia fazer nada.
Minhas pernas fraquejaram e eu logo estava correndo. Meu corpo doía, minha mente rodava, meus olhos reviravam, meus passos eram inseguros.
Faíscas vermelhas, me lembrei, parando de supetão e pegando a varinha.
Ia aponta-la para cima e conjurar o feitiço, mas algo se moveu. Meu instinto falou mais alto do que a necessidade de sair dali.
A varinha foi apontada para onde eu vira o movimento, mas não conjurei feitiço algum, por não saber o que era, ou por simplesmente não saber que feitiço usar.
Com alívio, descobri que era Harry Potter. Antes que pudesse reagir, dizer algo, ou apenas abraça-lo de felicidade, algo aconteceu.
- Se abaixa! – escutei. Virei-me para ver quem era e vi Cedrico gritar: - Estupefaça! – não pude reagir, pois o feitiço penetrava minhas veias e a última coisa que vi, foi Harry Potter e Cedrico correndo em nenhuma direção.
....................................................................................................
Meus olhos se abriram devagar. Eu não queria que o tivessem feito. Estava cansado e queria dormir. Voltei a fechá-los.
Escutei o barulho a minha volta chegar do nada, onde tudo antes era silêncio. Lembrei-me que havia conjurado faíscas vermelhas e esperava que já estivesse de volta, pois se abrisse meus olhos e ainda estivesse naquele lugar, jogaria um Avada Kedavra em mim mesmo.
As lembranças que afloravam minha memória não eram aquelas das quais me lembrava. Eu não tinha executado aquilo. Não havia estuporado uma colega.
Mas eu sabia que tinha feito isso. Podia escutar o choro dela ao longe. E eu não abriria os olhos para não ter que ver. Ouvir já estava piorando minha situação.
Pediram para que eu abrisse os olhos, mas eu não queria. Pediram mais uma vez. E mais uma. Essa terceira voz eu conhecia muito bem: Hermione estava ali? Assim, abri meus olhos e encontrei os castanhos que tanto amava.
- Você esta bem? – ela perguntou para mim, os olhos brilhavam de alívio.
Antes que eu pudesse responder, ouvi Karkaroff dizer:
- Desculpe, senhorita Granger, mas não pode ficar aqui.
Observei Hermione dar um sorriso inteligente e levantar as sobrancelhas.
- Por ordem de quem? – perguntou. – Ele é meu amigo e eu estou preocupada. Quero ficar com ele. – eu nunca a havia escutado dizer isso, com todas as letras e algo se agitou dentro de mim ao ouvir.
- Por minha ordem. – ele respondeu cheio de autoridade.
Observei Mikael abraçar os ombros dela e puxá-la para fora do meu campo de vista, dizendo algo como:
- Volte para a arquibancada, Hermione. Vou ficar e aqui para ver o que vai acontecer, e já volto lá para te contar. – ele assegurou. Não gostei. Proximidade demais.
Ela me lançou outro olhar, mas se virou e saiu do meu campo de visão.
Karkaroff não podia controla-la como fazia comigo. Ela tinha suas próprias idéias e não recebia ordens. Eu gostaria de ter a determinação que ela tinha.
Mikael se sentou ao lado do que parecia ser uma maca, onde eu descansava. Lançou-me um olhar de compaixão e logo começou a me fazer perguntas do tipo: ‘você esta bem?’, ‘dói em algum lugar?’, ‘precisa de alguma coisa?’.
Tudo acontecia absurdamente rápido. Rápido demais. Penso ser porque não estava em condições de reparar em tempo, ou de fazer descrições demoradas sobre a situação. Não conseguia descrever a situação, por não querer estar vivendo-a. Não conseguia descrever o tempo, por querer que ele passasse rápido. Não conseguia me demorar, fazendo registros dos meus pensamentos, por não querer pensar.
Tudo acontecia rápido demais para mim. Até que era bom: eu não saberia o que fazer se demorasse muito para acabar.
Mikael desapareceu de minha vista e Karkaroff voltou.
- Levante-se. – eu o fiz com dificuldade, mas ele não me ajudou.
- O que foi? – perguntei rude.
Ele me mediu com os olhos, como se estudasse minhas condições físicas. Não me importei. Eu queria dormir.
- Por que abandonou a prova? – ele perguntou.
- Por que já não aguentava mais. Você não tem noção de como é dentro daquele lugar. – me justifiquei.
- Não deveria ter saído. – foi tudo o que disse. Karkaroff se virou e saiu andando em meio à multidão de alunos. Ele que se danasse.
Procurei a maca para que pudesse me deitar de novo, mas já não a encontrei. Meus olhos estavam semicerrados. Eu tinha sono. Minha percepção estava péssima. Tudo acontecia com uma rapidez surpreendente, ou assim me parecia.
Vi quando Harry Potter apareceu abraçado com Cedrico. Os tambores começaram a tocar. Pessoas comemoravam.
Minha visão estava embaçada. Minha cabeça girava e agradeci mentalmente por não ter comido nada, ou estaria vomitando.
Sentia meu corpo ficar mole e o frio da neblina parecia ainda estar ali, pois eu o sentia, mais forte que nunca. Febre. Eu tinha febre.
Ouvi Fleur gritar, assombrada com algo que eu não pude discernir.
Potter continuava a se agarrar a Cedrico, que permanecia estranhamente imóvel. Eu queria poder ficar assim também. Cho Chang chorava, pessoas gritavam. Vi Potter ser retirado às pressas por Moody de lá.
Dumbledore consolava o pai de Cedrico por algo que eu não sabia o que era.
Meus olhos estavam começando a se fechar, mas eu já não queria dormir, ou teria pesadelos. Já não me aguentando em cima de minhas pernas, senti-as dobrar, me derrubando no chão.
Os olhos castanhos de Hermione logo entraram no meu campo de visão e essa foi a última coisa vi.
....................................................................................................
N/A: dedico este capítulo à minha prima Christiane, que passou a páscoa inteira me cobrando para que eu cedesse meus textos para ela ler e criticou, melhorou, elogiou, fez comentários.
Queria que este capítulo fosse emocionante, mas não sei se consegui o resultado desejado.
P.S: Mademoiselle Delacour, pensei seriamente em fazer a Mione perder a virgindade com Victor aos quatorze anos, mas me decidi por não faze-lo. Afinal, eu escrevo sobre o que eu sei e não tenho nada de experiente no assunto sexo (exceto o que já li). Por isso deixei assim mesmo, ou sairia um desastre. Mas isso me fez pensar sobre outra short fic que esta fresquinha de tão nova (acabei de escrever) e fala sobre o assunto. Se você quiser visitar, o nome é “Dois Adolescentes E Uma Moto” (título meio clichê, mas foi a única coisa que consegui: se quiser me dar algum outro título para essa ou outra fic, pode me dizer, pois estou sempre à disposição).
Comentem!