O estádio calou-se. Os jogadores pousaram e foram correndo na direção de Thomas. Alicia caminhava cambaleante, deixando-se esbarrar. Ainda apertava na mão o pomo. A cena de Thomas caindo da vassoura grudara em seus olhos. O professor Flyte pediu para que todos se afastassem, declarou vitória para a Grifinória e disse que levaria Thomas para a enfermaria. Alicia vira Susan correndo atrás do professor e do irmão. Sentou-se no gramado e tentou absorver todas as informações. A adrenalina ainda estava a mil. Alguém sacudia seus ombros levemente. Piscou algumas vezes até a pessoa entrar em foco.
- Aly? Aly! Você tá bem? – Chad olhava-a preocupado.
- Hã? – Ela piscou mais algumas vezes. – Bem? Tô. Acho. Não sei.
- Acho que você ficou um pouco chocada... É melhor entrarmos no vestiário. – Chad ajudou-a a levantar-se e, pegando as duas vassouras, guiou Alicia.
Susan corria, quase em pânico, atrás do professor. O irmão, desacordado, seguia flutuando magicamente à frente. Chegaram à enfermaria seguidos por dezenas de estudantes. Madame Pomfrey fez questão de expulsar todos, deixando apenas o professor e Susan. Marcus Flyte explicava o ocorrido.
- Esses esportes violentos... – Madame Pomfrey balançava negativamente a cabeça. – Vou ver o que posso fazer. Tenho de verificar se há ossos quebrados e coisas do gênero.
- Obrigada, professora. Vou tranqüilizar os outros alunos. – E o professor retirou-se, dando um suspiro.
- Você vai fazer meu irmão ficar bem, não vai? – Susan perguntava às lagrimas.
- Farei o possível, querida. Agora, acalme-se. – A enfermeira sorriu docemente.
- Merlin! Eu não sei se eu fico feliz ou triste! – Stephanie sentou-se no banco, acompanhada do resto do time.
- Feliz por nós e triste pelo Tom seria uma boa opção. – Disse Chad chegando com Alicia e colocando-a sentada.
- Aly! – Rafaela e Katerine entraram correndo no vestiário.
- Merlin! Como você tá? Eu posso imag... – Rafaela calou-se ao perceber onde estava. – Sinto muito... Quero dizer, ficamos preocupadas com a Aly... Ela podia ter se machucado...
- Sem problemas! – Edward sorriu. – Fiquem a vontade!
As duas agradeceram e foi a vez de Kate falar, dando um abraço na amiga.
- Oh, Aly... Achei que você fosse desmaiar ou coisa assim. Sua cara estava péssima!
- Eu... Eu tô bem. Acho. Obrigada... – Ficou em silêncio por alguns segundos. – E a Suse?
- Foi correndo atrás do Flyte e do Tom. – Rafa contou.
- Deve tá na enfermaria, agora. – Kate olhou ao redor. – Parabéns pra vocês, mesmo assim.
- Valeu. – Agradeceram em conjunto.
- Acho melhor vocês levarem a Aly... Ela ficou um tanto abalada...
- Vamos fazer isso, Chad. – Kate ajudou a amiga a se levantar.
- Até mais pra vocês. – Rafa despediu-se enquanto saía, carregando a vassoura da amiga.
- Aly, fala com a gente? – Katerine implorou.
- Era pra eu ter tomado aquele balaço!
- Se ele pediu pra você desviar e continuou não lugar, com certeza, ele não imaginava que o balaço fosse acertá-lo. Ele não é burro. – Rafaela simplificou.
- Eu sei, mas mesmo assim! Podia ser eu desacordada! E de pensar que eu estava com raiva dele pouco antes... – Confessou, sentada no salão principal com as amigas.
- Raiva?! – As duas exclamaram em uníssono.
- Eu vou explicar... – Alicia respirou fundo e narrou palavra por palavra da conversa que ouvira.
- Não acredito! – Kate parecia chocada.
- Não é possível... Ele não ia fazer isso! Estamos falando de Thomas Fletcher! O Clark Kent de Hogwarts!
- Bem, foi o que eu ouvi. Mas não importa, eles são namorados e o que fazem ou deixam de fazer não é da minha conta... – Levantou-se. - Vou até a enfermaria ver como ele e a Suse estão... Vocês vêm?
Alicia, Katerine e Rafaela entraram, silenciosamente, na enfermaria e caminharam até a cadeira em que a amiga estava sentada.
- Hey... – Alicia foi a primeira a falar. – Como ele tá?
- Não sei, ainda. Madame Pomfrey levou-o para dentro para fazer uns exames. Talvez ele não precise ir para o St. Mungus.
- E você? Mais calma? As meninas disseram que você saiu correndo...
- Eu vou ficar bem. Só fiquei um pouco assustada. Obrigada, vocês são uns amores. – Sorriu.
- Vamos comer alguma coisa, Suse. – Kate sorriu para a amiga.
- Vão vocês, eu estou sem fome, agora.
- Promete que depois vai? Se não serão dois adoentados! – Rafa sorriu, também.
- Prometo.
- Aly, você vem?
- Vou ficar aqui com ela... Mais tarde a gente se encontra. – Foi andando com as amigas até a porta, onde aproveitou pra murmurar. – E não contem pra Suse sobre o que eu ouvi, ok? – Com a confirmação das duas, arrastou uma cadeira e sentou-se ao lado de Susan, em silêncio.
- CHAD MULLER, VENHA JÁ AQUI! – Christine berrava na direção do garoto que almoçava com os outros membros do time.
O rapaz respirou fundo e levantou-se.
- Lá vou eu... – Comentou antes de ir ao encontro da garota.
- Onde está o Thomas que não foi me buscar para o almoço? – Ela perguntou autoritária.
- Onde estava VOCÊ que não viu o jogo?
- Eu... Eu... Eu vi o jogo sim, tá? – Recuperou a pose. – Mas você não me respondeu! Fiquei esperando-o por meia hora e nada!
- Christine, não sei a que jogo você assistiu e nem me interessa saber... Mas no jogo que a Grifinória ganhou há poucas horas atrás o Tom foi derrubado da vassoura por um balaço e está na ala hospitalar. E, da próxima vez, vá procurar se informar antes de sair me gritando por aí. O Tom já é bem grandinho e eu não sou babá dele. – Chad revirou os olhos, impaciente, e voltou para a mesa, deixando Christine espantada na porta do grande salão.
- Parabéns por hoje... – Susan sorriu. – Você estava ótima.
- Obrigada... Mas eu trocaria a vitória por ver seu irmão bem.
As duas amigas trocaram um sorriso que logo transformou-se em preocupação ao verem Madame Pomfrey saía de sua sala acompanhada de um Medibruxo. Conversaram aos cochichos durante alguns minutos, quando – enfim – o médico passara pelas meninas e saíra da Ala Hospitalar.
- E então? – Susan e Alicia perguntaram, aflitas, quando a enfermeira se aproximou.
- Ele vai ficar bem... Fizemos alguns exames e o desmaio foi devido a queda. Ele quebrou o braço esquerdo e teve uma luxação no joelho direito. Fora as escoriações e as dores de cabeça que, com certeza, durarão alguns dias não encontramos problemas mais graves. Mas temo que ele tenha de ficar aqui por mais uns dois ou três dias.
- Como se isso tudo fosse pouco... – Susan deixou-se cair na cadeira.
- Fizemos o melhor que pudemos, querida. Vou terminar de fazer os curativos e o trarei para uma das camas. Com licença.
- Ela tá brincando? – Alicia olhou Susan. – “Problemas mais graves”? Eu acho que ele já esta BEM ruim.
Susan riu.
- Você é uma figura, Aly. – Sorriram uma pra outra e tornaram a se sentar.
- O que vocês estão fazendo aqui? – Uma aguda com um tom arrogante perguntou, entrando na enfermaria.
- Talvez, só TALVEZ, eu esteja aqui porque ele é meu irmão e sofreu um acidente. Mas eu ainda não tenho certeza disso...
Alicia segurou-se para não rir enquanto a amiga falava.
Christine revirou os olhos.
- Que seja. Cadê o meu namorado? – Perguntou, autoritária, passando os olhos ao redor.
- O MEU IRMÃO está sendo medicado e logo será trazido pra cá. Se quiser, espere. Se não...
- Humpf. O Tomzinho vai saber a forma como você me tratou! – Olhou-as de cima a baixo. – Diga-lhe que estive aqui. Mais tarde eu volto.
- Tchau. – Responderam as duas enquanto Christine saía.
- Realmente eu estou muito preocupada com o que ela vai falar de mim pro Thomas... – Susan riu.
- Suse... – Alicia começou, pensativa. – Você viu a Christine no jogo?
- Eu não! A arquibancada da Sonserina é do outro lado... Por quê?
- Não a viu nem na entrada, nem no campo depois?
- Não, Aly... Por quê? Fala logo! Tô ficando curiosa! – Susan estava a ponto de sacudir a amiga.
- Porque eu também não a vi por lá...
- Você quer dizer que...
- ...a Christine não assistiu ao jogo. – Alicia fitou a amiga demoradamente.
- Você tá falando sério, Aly?
- Eu tenho certeza absoluta. Quando o Chad me levou pro vestiário não tinha nem sombra de Christine Chesty por lá. Achei, inclusive, que ela estivesse vindo pra cá com você.
- Isso explica ela só ter aparecido agora... No mínimo estava com aquelas amigas insuportáveis...
Alicia segurou-se para não dizer o que realmente achava que Christine estava fazendo. As coisas já estavam bem ruins sem Susan saber das traições da cunhada.
- É... Não duvida nada. – Limitou-se a dizer.
Poucos minutos depois Thomas estava em um dos leitos. As duas foram – quase correndo – vê-lo.
- Peço para que evitem falar alto ou passar muitas informações pra ele ao mesmo tempo. Ainda vai estar com um pouco de dor quando acordar. – Disse Pomfrey, sorrindo, ao deixá-las a sós com o rapaz.
As amigas se entreolharam. Susan aproximou-se do irmão. Algumas lágrimas escorreram. Por um momento, enquanto o via despencar da vassoura, pensou que seria algo bem mais sério do que membros fraturados. Agradeceu a Merlin por ter se enganado.
Alguns minutos mais tarde o rapaz foi abrindo os olhos, devagar. As duas sorriram.
- Suse... – Ele falou, baixinho. – Ouch... Tudo dói... O que aconteceu? A última coisa que me lembro foi do balaço...
- Não teve nada mais que isso, Tom. Você ganhou um braço quebrado, uma luxação e alguns arranhões... Mas nada que você não agüente! – Sorriu.
- E você tá chorando porque eu tô bem? – Riu. – Ouch! Me lembre de não rir assim, porque dói.
- Bobão! Eu só fiquei assustada... Mas já deu pra perceber que você tá ótimo... As piadinhas não mudaram. – Foi a vez dela rir.
Ele olhou demoradamente o teto. Cada parte do corpo ainda latejava. A cabeça, principalmente. Voltou os olhos pra enfermaria e sorriu o máximo que a dor permitia.
- Alicia, oi! – Olhou-a. – Ainda de uniforme? Gostou mesmo dele...
- Oi Tom... Não deu tempo de me trocar, sabe? O capitão do meu time fez o favor de se acidentar. – Ela sorriu.
- E ainda tirei sua atenção do pomo...
- Ei, tá louco? Se não fosse você eu teria sido atingida em cheio! Aliás... – Aproximou-se e entregou a bolinha dourada pra ele. – Nós ganhamos.
- Minha amiga é uma ótima apanhadora. Nem um capitão berrando a atrapalha! – Susan riu.
- Acabei de perceber, Suse... Obrigada, Aly. E o resto do time?
- Preocupadíssimo com você. Estão todos esperando que eu leve notícias.
- Então pode dizer que não estão livres de mim. – Os três riram. – Ai! Isso dói mesmo!
- Acho melhor nós irmos, Tom. Você precisa descansar... – Susan beijou-lhe a testa.
- A Madame Pomfrey disse quanto tempo eu vou ficar aqui?
- Uns três dias. Não muito mais que isso.
- Que tédio... – Tom suspirou. – Mas eu agüento.
- Claro que agüenta, você é um Fletcher! Aliás, vou escrever para mamãe e papai avisando o que aconteceu.
- E pedindo uma vassoura nova pra mim, por favor.
- Vou pensar no seu caso!
- Pode deixar, eu cuido para que ela peça. – Alicia sorriu.
Ambas já acenavam para sair quando Thomas chamou-lhes a atenção novamente.
- Será que você pode avisar à Christie que eu já acordei, Suse?
- Avisar? – Susan olhou de Alicia para Thomas. – Tá, claro...
- Obrigado.
As duas cegavam no salão principal para comer quando avistaram Christine levantando-se para sair.
- Suse, acho que é melhor você ir sozinha. – Alicia, sob a concordância da amiga, sentou-se junto à mesa, recebendo vários cumprimentos pela atuação e respondendo que, sim, o Thomas estava relativamente bem.
Susan respirou fundo e foi andando na direção de Christine, que saía com as amigas.
- Christine...
- Cunhadinha! – Christine sorriu. – Como está o nosso Tomzinho?
Susan podia ter vomitado ali se o estômago não estivesse vazio.
- Só vim avisar que ele já acordou. Tá na enfermaria. Até mais. – Virou-se e rumou para a mesa da Grifinória.
- Ela não é um amor? – Christine comentou, rindo, com as amigas.
- Tomzinho? – Thomas, que olhava, distraído, o pomo em sua mão, sorriu ao ouvir a voz de Christine.
- Christie! Que bom que veio me ver!
- E eu deixaria de ver o meu namorado lindo? Claro que não! Ainda mais agora que ele tá dodóizinho... – Ela beijou-lhe a testa.
- Gostou do jogo?
- Claro... Foi um jogo realmente empolgante... Só sinto pelo seu acidente... Mas me diz! Como você tá se sentindo? – Tratou de mudar de assunto.
- Com um pouco de dor, mas nada que eu não suporte. – Sorriu. – Prometo que ficarei bom logo para poder te encher de beijos.
- Mal posso esperar, gatinho...
- Tom! – Chad exclamou, da porta. – Como vai meu capitão?
- Oi pessoal. – Tom sorriu para o time. - Parabéns pela vitória!
- Ih, acho que é hora de eu ir... Esse papinho não é comigo! – Christine deu um selinho em Thomas. – Venho te ver depois, gatinho! – Saiu, após mais um selinho, sem falar com nenhum dos grifinórios.
- Qual foi o estrago? – Johnson perguntou.
- Um braço quebrado, uma luxação no joelho, várias escoriações e muita dor.
- Que inveja! – Stephanie riu.
- Eu acho que da próxima vez vou pedir pro Edward me acertar um balaço... – Mitchel falou, também rindo.
- Ei! Eu quem ia te pedir isso! – Edward fingiu-se indignado.
- Muito engraçadinhos! – Thomas riu, também. – Aquele balaço foi terrível... Se não fosse a vassoura ele teria acertado direto em mim. Daí, além da queda, teria com toda a certeza algumas costelas quebras.
- Dos males o menor! – Johnson concluiu.
- Desculpem, queridos. Sei que chegaram agora, mas terei de pedir licença... O rapazinho aqui precisa tomar os remédios e descansar um pouco.
Mesmo sob os protestos de Thomas, que alegava estar perfeitamente bem, o time teve de se despedir. O garoto suspirou, estava entediado naquele lugar. Obediente, tomou os remédios que lhe foram indicados e, pouco depois, acabou pegando no sono.
- E então, o que vamos fazer? Eu realmente preciso relaxar, o Tom me deu um susto! – Susan jogava-se no sofá do salão comunal.
- Eu vou tomar um banho e passar para vê-lo. – Alicia corou.
- Achei que você tivesse com raiva del... – Kate levou a mão à boca.
- Putz! – Rafa suspirou.
- O que?! Raiva? Do Tom? – Susan sentou-se e encarou as amigas. – Do que vocês tão falando?
- Desculpe... – Kate abaixou a cabeça.
- Tudo bem. – Alicia respirou fundo. – É que hoje pela manhã, Suse, eu escutei SEM QUERER uma conversa entre seu irmão e o Chad...
A menina explicou exatamente o que ouvira.
- Você tá brincando?
- Não, não estou.
- E você não ia me contar?
- Não queria que você ficasse chateada com isso, Suse... Quero dizer, eu sabia que você não ia gostar.
- E acertou em cheio. Eu não gostei nem um pouco. – Suspirou. – Mas, infelizmente, não há o que eu possa fazer.
As três a encararam, surpresas.
- Pois sim, eu me conformei. Por enquanto.
Alicia tomou um banho e, antes do jantar, passou na enfermaria para ver Thomas. O garoto dormia e Alicia ficou feliz por isso. Não queria ter de inventar uma desculpa para sua presença. Com a permissão de Madame Pomfrey, colocou uma cadeira perto da cama e sentou-se, quieta. Olhá-lo a fazia sentir-se feliz. Só Merlin sabia o que ela sentira ao vê-lo despencar. Por um momento pensou em tê-lo perdido. Perdido? Como você perde algo que nunca teve, Alicia? – Pensou consigo mesma. E estava ali perdida em pensamentos quando sentiu uma mão em seu ombro.
- Aly? O que está fazendo aqui? – Stephanie perguntou.
Alicia olhou-a surpresa, as bochechas coradas.
- Eu... Eu estava aqui... Hum... Esperando a Susan. Ela pediu para eu ficar de olho caso o Thomas acordasse... Só enquanto ela janta.
- Juro que não a vi no salão principal!
- Ah... Errr... Ela deve ter ido ao banheiro. – Amaldiçoou-se por ser tão ruim com mentiras.
- De qualquer forma, só vim aqui buscar um remédio para cólicas... – Olhou demoradamente a companheira de time. – Até mais, Aly.
- Até... – Alicia murmurou ao ver Stephanie indo na direção de Madame Pomfrey e saindo da enfermaria pouco depois.
Quando saiu para jantar, Thomas ainda dormia. Mas algo mais preocupava Alicia, agora. O jeito como Stephanie a olhara fora estranho. A garota parecia saber de alguma coisa, como se pudesse ler a alma de Alicia.
- Ótimo, era só o que faltava: alguém mais descobrir. – Resmungou consigo mesma antes de encontrar as amigas para jantar e narrar o acontecido. |