Capítulo Seis:
“Não espere a queda,
Para lembrar-se do conselho.”
Depois de passado uma noite na ala hospitalar, finalmente fui liberado para continuar as aulas e, consequentemente, a vida. A próxima prova só seria depois das festas de Natal, o que seria um merecido descanso.
A vitória um tanto fácil da prova foi completamente rejuvenescedora e eu me senti especialmente revigorado. Afinal, depois de vencer um dragão do tamanho de um gigante, quem não estaria se sentindo feliz? Eu.
Exatamente, eu não me sentia assim, embora parecesse. Minha infelicidade aumentava a cada dia, embora não devesse. Meu coração batia cada vez mais descompassado por um certo alguém, embora eu não quisesse.
E eu voltei para a biblioteca na quarta feira, no meu horário livre. E eu sabia que queria ir, mas ainda tentava me convencer do contrário.
Mas uma coisa havia mudado: eu estava decidido a ignorá-la. Não valia a pena continuar investindo em alguém que não se importava comigo. Meu lado não orgulhoso defendia Hermione: ela só conversou comigo duas vezes, não posso exigir dela que se preocupe comigo e queira a mesma coisa que eu. Mas ainda assim, eu queria.
Meu lado orgulhoso ganhou e eu decidi que não voltaria a falar com ela. Já estava suficientemente magoado. Então por que eu estava indo até a biblioteca?
Para estudar, ora. O que mais se faz em uma biblioteca? Observar garotas bonitas, diferentes e misteriosas, o que as faz interessantes.
Foco, Victor. Lembrei a mim mesmo.
Entrei pela porta da biblioteca e sabia que meu rosto exibia uma expressão frustrada, mas não me importei.
E eu a vi. Sentada com um livro nas mãos, tão concentrada como eu quando via o pomo. Estava linda.
Não fale com ela, não fale com ela.
Minha vontade virou pó quando ela levantou os olhos castanhos do livro e, quando viu que era eu, ela sorriu. Era a primeira vez que ela sorria ao me ver e senti minha raiva derreter.
Sorri de volta. Não queria, mas sorri.
Ela só tinha quatorze anos, pelo amor de Deus! Como podia estar apaixonado por ela? Eu não podia, mas sabia que estava.
- Oi. – eu disse.
- Oi. – ela respondeu. – Nosso plano deu certo, não? – gostei particularmente da parte do nosso, afinal, ela planejou tudo sozinha.
- Nosso? – perguntei me sentando de frente para ela. – Até onde eu sei, a idéia foi sua.
Ela riu suavemente. Eu estava tão feliz de pelo menos ela estar falando comigo.
- É obvio. Você é a pratica e eu sou a teoria. – ela sugeriu.
- Acho que posso ver desse jeito. – concordei.
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Depois, passei a adorar todas as quartas. Era o único dia que nossos horários livres eram os mesmos, e eu sempre podia encontra-la na biblioteca, sempre disposta a bater um bom papo comigo ou me ajudar em tarefas.
Via-me, em meio a nossas conversas, contando a ela os pensamentos que estavam entalados na minha mente. Contava sobre como sentia falta do quadribol, da Bulgária.
Contava sobre como detestava Karkaroff e o modo como ele me manipulava.
- Ele só vai te manipular se você deixar. – ela costumava dizer.
Passávamos a maior parte do tempo discutindo sobre todos os tipos de assuntos relevantes. Eu adorava escuta-la falando sobre a opinião dela. E ela costumava ganhar todas as discussões por minha falta de recursos.
Eu evitava falar do torneio por conselho de Mikael e por que esse assunto desencadeava Harry Potter e ela falava muito dele, o que me incomodava. Mas ela o denominava como irmão, o que deveria melhorar minhas suspeitas. Deveria, pois eu não sabia o que ele pensava dela; se a via como irmã.
Hermione tentava me ajudar a desvendar o ovo, mas eu recusava, pois sabia que ela dava atenção ao Potter também. E eu ainda não havia rechaçado a teoria de que ela talvez passasse informações minhas para ele.
Mikael sempre dizia para eu parar de me abrir tanto com ela, mas eu não conseguia. Ela me passava segurança. O que não ajudava.
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Naquela tarde de sexta feira, estávamos eu, Mikael e Angelina, que havia se tornado uma presença constante, na mesa do salão principal. Eu observava Hermione que estava acompanhada, como sempre, por Potter e pelo ruivo, Ronald.
Este recebera um pacote e agora segurava um traje a rigor horrível. Harry Potter e Hermione riam, acompanhados dos gêmeos Weasley. Segurei uma risada. Coitada da acompanhante dele no baile.
Um medo repentino me invadiu. E se ele convidasse Hermione? Ela aceitaria? Ela queria que eu a convidasse? Ela esperava isso?
Eu não costumava ter medo dessas coisas, mas dessa vez era diferente e eu odiava a diferença. Principalmente se ela me afetasse desse modo.
Guardei o pensamento para mim. Não por muito tempo, é claro. Havia muito que eu não guardava um pensamento e não havia nenhum que Hermione não tivesse conhecimento.
Nossa última aula do dia foi cancelada, pois McGonnagal queria falar conosco sobre algo importante.
Assim, nos levantamos para ir em direção à sala dela. Ao chegarmos, percebi que havia algo errado.
Ou entramos na sala errada. Mas todos erraram de sala? Impossível. Havia algo diferente na sala, muito diferente, mas ainda me parecia à mesma sala. Olhei em volta para me assegurar.
Filtch e McGonnagal já se encontravam lá, mas no lugar das cadeiras havia bancos compridos que só pude assemelhar à arquibancadas e no centro da sala havia um enorme rádio, ou vitrola, ou sei lá o que era aquilo.
Logo, todos os alunos se acomodaram nos bancos, meninas de um lado, meninos do outro, como Filtch nos ordenou. E McGonnagal começou a falar:
- Teremos um baile de inverno em Hogwarts esse ano. É uma tradição do torneio. – houve vários urros de indignação vindos dos garotos e várias vaias.
Olhei para as garotas. Hermione permanecia quieta, olhando para o armário, como se desejasse não ter deixado seus livros lá.
- Ora, vamos. – exclamou McGonnagal. – Grifinória é uma casa honrada desde quando foi criada e eu não vou deixar que vocês quebrem essa honra se comportando como babuínos bobocas balbuciando em bando. – eu ri com essa afirmação.
E ela continuou a falar:
- De cada garota, há um cisne pronto para desabrochar. – ela apontou para as garotas. – De cada garoto, um leão pomposo pronto para se exibir.
Pude perceber que Hermione riu com essas palavras. Procurei o olhar dela e revirei meus olhos, para mostrar a ela que desprezava o comentário. Ela riu com mais vontade.
- Alguma coisa vai desabrochar da Emília, e não é um cisne. – comentou Ronald e pude ouvir que todos riram. (N/A: não me lembro do nome da garota, por isso improvisei.).
Isso não passou despercebido á McGonnagal.
- Sr. Weasley. – ela disse.
- Sim? – ele olhou para ela apavorado.
- Dance comigo. – ela ordenou.
Ah, vingança. Tecnicamente, ele não me fez nada. Que ele saiba.
Com as orelhas vermelhas, Ronald se levantou e andou até McGonnagal, que sorria e parecia terrivelmente satisfeita.
- Coloque sua mão na minha cintura. – ela pediu.
Ele olhou para ela, horrorizado.
- Onde? – perguntou.
- Na minha cintura. – ela não esperou que ele fizesse o movimento: agarrou sua mão e especificou o lugar onde era para ele segurar.
Os gêmeos assoviaram e eu ri. Hermione ria para si mesma suavemente. Filtch soltou a música.
- E um, dois, três, um, dois, três, um, dois, três... – McGonnagal entoava e um Weasley de mal gosto a conduzia pela sala.
Encontrei o olhar de Hermione e nós rimos juntos.
Observei a cena com um olhar divertido e percebi que Ronald não dançava inteiramente mal, o que não fazia a mínima diferença.
Mikael trocava olhares cumplices com Angelina e eu soube que eles haviam dado um amasso mais cedo, ou fariam isso mais tarde. Eu não podia dizer o mesmo.
- Muito bem. – ouvi McGonnagal elogiar Ronald e voltei minha atenção para eles. – Garotas. – ela fez um gesto para que se levantassem. A maioria delas fez. Hermione mantinha o olhar na prateleira, desejando, eu imaginei, mais do que nunca um livro. – Rapazes. – ela voltou a chamar, mas o único a se levantar foi Neville Longbotton, que eu conhecia apenas de vista.
Com muita, mais muita insistência, McGonnagal fez todos os rapazes se levantarem, inclusive eu. O que não foi nem um pouco agradável. Hermione mantinha o olhar na prateleira.
Neville tirou Gina, a garota ruiva, para dançar. Mas foi o único em quem eu prestei atenção. Meus olhos encontraram a pessoa com quem eu dançaria. Mesmo que fosse apenas para treinar, era a oportunidade.
Fui até ela.
- Me daria a honra? – perguntei, no meu modo mais encantador.
Ela riu.
- Não. – respondeu. – Eu não sei dançar. – ela afirmou, dando-me alívio pelo não recebido.
- Livros não ensinam isso?
Ela balançou a cabeça negativamente.
Estendi a mão para ela.
- Posso te ensinar, se quiser. – ao dizer isso, me perguntei se não haveria segundas intenções na minha voz. Mas, novamente, ela apenas sorriu.
Para meu total e completo alívio, ela encontrou minha mão. Seu toque era exatamente como eu me lembrava. Puxei-a gentilmente para meus braços, acomodando minha mão na cintura dela e segurando a mão dela na minha.
Desajeitadamente linda, ela colocou a mão restante no meu ombro e eu comecei a conduzi-la. Ela acompanhou bem os passos, mas seus olhos estavam nos meus pés, observando cada movimento para fazer igual. Ela deu um sorrisinho mínimo ao constatar que fazia um bom trabalho.
- Olhe para mim. – pedi, já não me aguentando. E ela o fez, mas errou os passos e riu.
- Percebe? Não consigo. – ela voltou a encarar meus pés e acertou os passos. Riu de novo.
Tive uma idéia. Era sem-vergonha, mas ainda assim necessária.
- É por que tem que chegar mais perto. – eu encostei meu corpo ao dela, barrando a visão dela dos meus pés. Pude sentir as tais curvas dela se moldando ao meu corpo.
Foco, Victor. Foco.
Hermione finalmente encarou meus olhos, mas acertou todos os passos.
- Percebe? – perguntei. Ela assentiu.
E eu continuei a conduzi-la até o final da música, quando McGonnagal finalmente desligou aquele rádio, ou vitrola, ou sei lá o que era aquilo, mas já não me importava. O circuito todo havia sido a melhor combinação de sensações que não deviam combinar, mas lá estavam elas formando um par perfeito. O jogador de quadribol e a estudante.
- Obrigado. – ela disse e se soltou de mim. Quando fez isso, um vazio se fez dentro de mim, como se faltasse algo.
Observei o movimento elegante que ela fez ao se virar e seguir para as prateleiras.
Ah, que se dane!
- Hermione! – fui atrás dela, que se virou ao ouvir o nome sendo pronunciado.
- Sim? – perguntou, os olhos castanhos me encarando.
- Quer ir ao baile comigo? – perguntei de supetão, mas ela pareceu entender. E arregalou os olhos, como se fosse impossível que eu estivesse lhe perguntando isso.
- O que? – perguntou confusa.
Ah, por favor, não me peça para repetir.
- Quer ir ao baile comigo? – repeti mesmo assim.
- Bem... Eu. Hã, o que? Por quê?
Estava ficando complicado. Ela nunca havia sido chamada para sair? Eu achava meio impossível
- Não sei. – admiti. – Mas gosto muito da sua companhia e gostaria que fosse meu par. – expliquei.
E parece que acertei. Seus olhos passaram da confusão para a alegria.
- Sim. – ela disse. – Eu vou.
Minha vez de ficar feliz. Senti uma vontade quase incontrolável de gritar, mas meu lado decente me avisou que ficar calado seria a melhor opção.
- Certo. – e não me aguentei: dei um abraço rápido nela que retribuiu acariciando de leve minha nuca. – Até mais. – e segui atrás de Mikael que me esperava na porta da sala com um sorriso enorme no rosto.
Embora eu soubesse que o meu estava maior.
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N/A: dedico este capítulo especialmente para minha amiga Bianca que introduziu o universo dos fics na minha vida.
E mais uma vez: comentem!