Capítulo 5 – Amigos com benefícios
Uma semana. Fazia uma semana que Rose havia se mudado para o apartamento de frente para o meu e a palavra “sossego” parecia ter sido extinta do meu vocabulário. Pense em alguém irritante para se ter como vizinha... Pois é, Rose Weasley conseguia ser, no mínimo, cinco vezes mais irritante. Como se não bastasse ter bloqueado a minha saída/entrada por pelo menos um dia inteiro espalhando suas caixas gigantes, móveis e malas pelo corredor, todos os dias alguém batia à minha porta com encomendas para a ruiva; isso sem falar na música alta que começava a tocar, coincidentemente, no horário em que eu chegava do trabalho.
Eu tentei manter a calma e não reclamar, afinal ela acabara de se mudar e eu gostaria de treinar a tal da política de boa vizinhança. Não que ela merecesse. É que eu já tinha problemas suficientes para arrumar mais confusão com a minha amiga recém chegada. Mas as coisas ficaram mais confusas do que de costume quando a semana número três chegou e o gato dela decidiu fugir, sumir por dois dias e reaparecer no meu apartamento. Na noite em que o gato fugiu, eu e Rose havíamos discutido no elevador e isso, na mente insana dela, era uma prova de que eu era o culpado pelo rapto do bichano.
- Ele estava na sua casa o tempo todo! Seu seqüestrador de araque! – ela esbravejou quando apareci em sua porta com o gato persa nos braços.
- Eu não seqüestrei o gato, sua maluca. Ele simplesmente apareceu debaixo do meu sofá esta tarde com um rato na boca. – tentei explicar, enquanto ela tomava o animal para si.
- Oh, Angus, o que esse moço mal lhe fez? – ela se dirigiu ao gato com uma voz extremamente irritante e infantilizada.
- Além de devolvê-lo a você? – disse, irônico.
- Não fez mais que sua obrigação, já que ele estava sob sua custódia o tempo todo.
- Mas que inferno, mulher! – esbravejei, jogando os braços para cima em uma tentativa de não enforcá-la.
Tentando manter o mínimo de autocontrole que ainda existia em mim, dei as costas a ela e fui para casa pisando firme. Rose Weasley era a mulher mais irritante e turrona do planeta, eu pensei antes de ouvir as batidas na porta que havia acabado de se fechar atrás de mim. Respirei fundo quando me deparei com uma ruiva cabisbaixa encostada ao batente.
- O que você quer? – perguntei, mal humorado.
- Me desculpar. – ela respondeu muito humilde pro meu gosto.
Eu sorri com sarcasmo e a encarei. O que quer que ela estivesse tentando fazer, não ia dar certo comigo.
- Qual é a pegadinha? – perguntei, arqueando uma das sobrancelhas, desconfiado.
- Não tem pegadinha. – ela parecia arrependida, mas não estava nada disposto a acreditar naquela carinha meiga ainda.
- Quer entrar? – convidei-a, decidido a entrar no jogo dela...e que vencesse o melhor.
Rose aceitou o convite e sentou-se no sofá, educadamente. Quando me sentei ao seu lado, ela desandou a falar:
- Desculpe acusar você pelo rapto de Angus. – ela disse, os olhos baixos. – Ele costuma fugir para caçar roedores quando fica entediado. Deve ter tentado voltar para casa, viu sua janela aberta e entrou.
- Se você já sabia disso, por que me acusou?- perguntei quase furioso.
- Estou me sentindo sozinha. – ela falou, olhando para os próprios pés.
- E o que isso tem a ver com o sumiço do gato?
- Podemos conversar? Angus não tem mais assunto comigo. – ela riu, talvez mais por desespero que por diversão. Ok, talvez esse truque desse certo comigo.
- Bem, acho que pode ser interessante conversar com uma mulher que saiba falar sobre qualquer coisa além de poções rejuvenescedoras para a pele. – eu disse, ironizando todas as outras mulheres com quem eu costumava ter uma breve troca de palavras antes de levá-las para a cama.
- Poxa vida, Scorpius, esse é meu assunto preferido! – ela disse, rindo em seguida. Uh, Rose estava de bom humor.
Eu sorri para ela, intrigado com aquele seu comportamento sociável, mas preferi não comentar a respeito temendo que seu humor irascível pudesse torná-la uma chata novamente.
- Não vai me oferecer nada para beber? – ela perguntou, insolente, quebrando o silêncio incômodo que se formara.
- Você quer beber alguma coisa? – perguntei desconfiado, quase de mau humor.
- Não, obrigada. – a ruiva respondeu sorrindo sínica enquanto jogava os cabelos para trás muito sedutoramente.
Encarei-a incrédulo. Ela estava mesmo tentando me fazer de palhaço? Tudo o que Rose fez foi rir de minha expressão ultrajada.
- Sua casa é muito arrumada. Quantas vezes por semana sua mãe vem aqui fazer a faxina pra você? – Rose perguntou, alfinetando.
- Por que diabos você acha que é minha mãe quem limpa minha casa? – perguntei, sem acreditar no que ouvia.
- E não é?
- Claro que não. Sou um homem adulto, Rose, meu pai não ficaria nada orgulhoso se eu precisasse da minha mãe até pra isso! E quando estudava medicina aprendi uns feitiços de limpeza realmente muito bons.
Ela parecia surpresa, mas não fez um comentário sequer. Era impressionante a imagem de garoto mimado que as pessoas podiam ter a meu respeito. Na verdade, era impressionante a imagem de garoto mimado e inútil que ela tinha a meu respeito.
- Escute, Rose, se vamos ser amigos, a senhorita precisa parar de me julgar. – disse, obviamente brincando, porque estava muito claro que nós não seríamos amigos.
- Então não seremos amigos. – ela disse, sorrindo arrogante, como se houvesse lido minha mente.
Eu me reservei o direito de ficar calado. Testar minha paciência definitivamente devia fazer parte daquele joguinho ridículo de Rose Weasley e eu não daria a ela o prazer de me ver irritado, por mais que eu estivesse começando a perder totalmente a calma.
- Ah, consegui minha transferência, Scorpius!– ela falou de repente, muito animada, quebrando o silêncio desconfortável mais uma vez. – Não voltarei para a Itália.
- Não sei se fico feliz por você ou triste por mim, já que isso significa que a terei como vizinha por muito tempo ainda. – resmunguei, encarando a ruiva que sorria satisfeita.
- Deixe de ser egoísta por um momento e fique feliz por mim! – ela brincou, dando um soco de leve no meu ombro.
Então a ruiva, aparentemente cansada de ficar sentada ao meu lado, levantou-se e caminhou pela sala – provavelmente procurando algo que não fosse de seu agrado para criticar - até parar de chofre quando avistou meu videogame. Ela pegou um dos controles, analisando com curiosidade, como se fosse algum objeto de outro mundo. O que era mesmo, no fim das contas. Lançou-me um olhar inquisidor, após constatar que realmente desconhecia o objeto, e me senti obrigado a explicar do que se tratava.
- Isto é um controle de videogame. – disse, impaciente. Ela continuava com aquele olhar questionador e confuso. – Videogame é um artefato trouxa que tem como objetivo principal entreter e divertir.
- Como funciona? – de repente ela parecia muito interessada em aprender sobre artefatos trouxas.
- Você escolhe um jogo e controla o personagem com isso aí em suas mãos. Simples. - respondi sem muita paciência.
- É como usar a maldição Imperius em alguém? – eu não consegui conter o riso, mas fui obrigado a concordar que a comparação era o melhor modo de fazê-la entender como aquilo funcionava.
- É mais ou menos parecido, Rose. Mas não é ilegal e você controla uma máquina, não uma pessoa. – expliquei um pouco mais paciente.
-Me ensina a jogar? – Impressionante o que a solidão pode fazer com alguém. A garota queria aprender a jogar videogame com o seu pseudo-inimigo de infância!
Respirei fundo e acenei positivamente com a cabeça. Escolhi um jogo razoavelmente fácil para uma primeira vez e me sentei ao lado da ruiva no sofá, arremessando o outro controle para ela. Tentar ensinar Rose a jogar videogame foi estressante e, ao mesmo tempo, engraçado. Isso porque ela era o tipo de pessoa que precisava fazer tudo certo o tempo inteiro e quando algo não saia como ela queria, ou seja, quando ela perdia uma partida, o show de impropérios estava garantido.
- De onde você tirou que isso é divertido? – ela perguntou, indignada, atirando o controle sobre o sofá após perder mais uma partida para mim.
- Bem, eu me diverti bastante ganhando de você! – provoquei, sorrindo sacana. Ela me encarou com um olhar assassino e cruzou os braços na frente do corpo, emburrada. – Ah, vamos, não foi tão ruim assim...
- Não vejo diversão em perder o tempo inteiro. – ela respondeu de má vontade. Ah, mulheres.
- Rosie, você só precisa praticar. – a quem eu queria enganar? Ela era realmente péssima, mas eu sempre tive muito amor a vida para dizer isso a ela.
- Não tenho tempo pra isso. – ela resmungou, ainda de cara amarrada.
- Não tenho tempo pra isso... mi mi mi blá blá blá – imitei-a com uma voz ridiculamente infantilizada, tentando irritá-la - ‘Tá dizendo isso porque sabe que vai continuar perdendo pro mestre, não é?
- Isso é um desafio, Malfoy? – ela perguntou, muito determinada, aproximando-se de mim.
- Pode apostar que sim, Weasley. – eu respondi, aceitando a provocação, já tão próximo a ela que podia sentir o calor de seu corpo em contato com o meu.
- Amanhã, aqui, nesse mesmo horário. Vou massacrar você! – ela disse, impetuosa. Empurrou-me para trás e saiu porta afora, me deixando muito confuso e um pouco frustrado.
Quando Rose apareceu em minha casa na noite seguinte com uma garrafa de uísque de fogo na mão e um sorriso desafiador estampado no rosto eu já devia saber o que aconteceria, mas, como de costume, preferi ignorar os sinais de que aquela noite poderia resultar em uma sucessão de complicações em nossas vidas e me deixei levar pelo álcool e pela diversão.
Abrimos a garrafa e começamos a jogar. Devo confessar que a deixei ganhar algumas vezes porque ela estava começando a se soltar e se parecer com a Weasley com quem eu costumava transar no colégio. A Rose adolescente – a versão dela que só eu conhecia e não a monitora nerd entojada que era odiada por dois terços de Hogwarts – era divertida, perspicaz, inteligente e... encantadora. Sim, encantadora. E ver a adulta responsável que ela havia se tornado se divertir daquele jeito me deu esperanças de que talvez a garota com quem eu fugia para o terceiro andar ainda estivesse em algum lugar dentro dela.
Depois que jogar videogame se tornou muito complicado para nossas mãos dormentes e nossas mentes alcoolizadas, desabamos no meu sofá da sala e dividimos o resto do uísque de fogo enquanto conversávamos sobre nenhum assunto realmente relevante. E lá estava Rose, me fazendo rir com histórias sobre suas missões na Itália e seus disfarces mirabolantes ao lado de seu parceiro Jake. Ah sim, o mesmo Jake de quem ela levou um pé na bunda épico. O mesmo cara que a fez estrunchar há muito pouco tempo. O mesmo imbecil por quem ela parecia ainda ter uma queda.
- É claro que eu não sinto falta do Jake, Scorpius, que pergunta mais absurda! – Rose respondeu, com uma expressão ultrajada, quando lhe perguntei se ainda sentia falta do ex-namorado traidor.
- Então por que fez aquela cara de Mini-Pufe que caiu no caldeirão quando falou nele?
- Eu fiz? – ela parecia surpresa. Podia até ter sido uma expressão involuntária, mas ainda assim eu achava que não valia a pena ela pensar nele.
- Fez! Foi um misto meigo de dor e sofrimento. Deu pena, Rosie, sério! – eu provoquei, tentando em seguida, desviar de uma almofadada na orelha.
A ruiva me encarou por uns instantes depois de me acertar e sua expressão ficou muito séria.
- Eu tenho...raiva, Scorpius. E esse é o melhor sentimento que eu consigo nutrir por ele no momento.
- Rose, o cara machucou você de todas as maneiras que poderia ter feito. Sentir raiva dele é, no mínimo, razoável. – até eu, que nem conheci a figura, tinha raiva dele. Quero dizer, o cara fez Rose sofrer muito mais do que ela era capaz de me contar e ainda foi o grande responsável pelo episódio do estrunchamento (o qual, diga-se de passagem, se ela não fosse a Rose, poderia ter sido muito mais grave).
- Acho que preciso ir. – ela disse, levantando-se de um ímpeto, como se quisesse fugir daquela conversa.
- E eu acho que você pode ficar. – segurei seu punho, impedindo que ela saísse correndo. E esse era o maldito álcool fazendo efeito em mim.
- Tenho um compromisso amanhã muito cedo, Malfoy, tenho que ir. – Rose teimou.
- Não, não tem. Você só está tentando fugir da conversa sobre o Jake. – ela me olhou espantada, como se eu tivesse o dom da adivinhação ou algo assim. - É, Weasley, eu praticamente inventei todas as táticas para se esquivar de assuntos desagradáveis.
Rose voltou-se para mim, o cenho franzido, e colocou a língua para fora, como uma daquelas crianças birrentas que vão ao St Mungus às vezes. Eu comecei a rir descontroladamente e puxei-a pelo braço, fazendo-a cair sentada ao meu lado outra vez rindo também. Após uns bons minutos de gargalhada, quando finalmente recobramos a seriedade, e o assunto “Jake” fora esquecido, uma certa tensão se formou: de repente, eu queria tocar aquela mulher e ela parecia compartilhar do mesmo desejo.
Lembrei-me de dois adolescentes com os hormônios à flor da pele, sentados lado a lado na biblioteca de Hogwarts, cumprindo uma detenção por brigarem durante a aula de poções. Éramos duas bombas-relógios prestes a explodir; qualquer movimento produzido seria o suficiente para mandar nossa sanidade pelos ares e fazer nossos corpos agirem sozinhos. Foi naquela noite, naquela biblioteca, que Rose e eu nos tornamos amigos com benefícios. E, estranhamente, as cenas de um passado longínquo pareciam se repetir na sala do meu apartamento.
- Por Merlin, sinto falta de sexo! – Rose explodiu, quando parecia não agüentar mais ficar ao meu lado sem dizer nada.
- Você o quê? – perguntei depois de quase engasgar com o ar que estava me concentrando para mandar aos pulmões.
- Bem, o Jake podia não ser lá grandes coisas nesse quesito, mas era minha garantia de uma transa toda vez que sentisse vontade. – ela disse, sem nem ao menos corar - É muito ridículo eu confessar que sinto falta de ter com quem transar onde e quando eu quiser?
Subitamente, o apelido pelo qual sua prima a chamava – Hoe – começara a fazer algum sentido para mim. Seria Rose Weasley uma ninfomaníaca?
- Eu ainda não consigo entender como aquele homem pôde dizer que você é sexualmente monótona...- comentei balançando a cabeça em reprovação – Mas, bem, compreendo sua necessidade. Desde que meu último amigo solteiro deixou de ser solteiro eu não tenho saído muito, e acho que todos os bruxos resolveram adoecer e aparecer no St Mungus nesse último mês me deixando totalmente sem tempo, de modo que sexo se tornou uma palavra pouco freqüente no meu vocabulário.
Admitir em voz alta que eu não fazia sexo há muito tempo – sim, um mês era tempo em demasia para mim- foi menos embaraçoso do que imaginara. A verdade é que não tinha muito mais tempo para sair e mesmo quando estava de folga, não tinha lá muito ânimo para procurar mulheres sem meu melhor amigo. Não que eu realmente precisasse de Alx pra transar, mas ele me levava para beber e me incentivava a fazer o que ele só podia com Roxie. Então, depois de ouvir minha confissão, Rose me encarou com um brilho cálido no olhar e lançou-me um sorriso impetuoso. Eu soube o que aquilo significava antes mesmo d’ela encontrar a maneira certa de dizer: ela havia encontrado a solução para nosso problema.
- Scorpius...- a ruiva disse, hesitante – você sente falta dos velhos tempos, de quando nada importava para nós além de...sexo por sexo?
- Eu seria um hipócrita se negasse. – respondi tentando segurar um sorriso ansioso que insistia em se formar em meus lábios.
- E se nós...bem, sabe, tentássemos de novo? – ela pareceu preocupada quando a encarei incrédulo. Eu me enganara. Aquelas cenas não estavam se repetindo, estavam acontecendo de uma forma muito, muito, melhor! – Quero dizer, já somos adultos, temos nossos empregos, pagamos nossas contas e não estamos emocionalmente disponíveis no momento, porque eu não quero um relacionamento agora e você não quer um relacionamento nunca, de modo que não haveria possibilidades de um envolvimento maior e... sei lá, seria confortável transar com alguém por quem eu não tenho sentimentos além daqueles por dentro da calcinha.
Ao final do discurso desajeitado, Rose tentava não olhar diretamente para mim, desviando sua atenção para suas interessantíssimas unhas das mãos coloridas de azul.
- Uau!- exclamei, chamando sua atenção de volta para mim - Essa foi a proposta mais indecente que você já me fez. Quer começar agora?
Ao me ouvir, a ruiva arregalou os olhos cheios de surpresa, como se esperasse que eu pudesse dizer não e sorriu contida.
- Então você topa? – eu acenei positivamente com a cabeça - Bem, sendo assim, precisamos impor algumas regras, como da outra vez. Primeira: ninguém pode saber sobre nós.
- Muito justo. Segunda: Não seremos exclusivos. Podemos transar com quem mais a gente quiser. – a regra era antiga, mas não podia correr o risco de que fosse esquecida por um de nós. Não que eu achasse que Rose fosse transar com outros caras, mas precisava garantir o meu lado.
- Ótimo. Terceira: estaremos sempre disponíveis, menos quando eu estiver naqueles dias. Ou com outro cara. Ou muito cansada. – Ok, talvez ela estivesse disposta a procurar outros parceiros. “Posso viver com isso” foi meu pensamento naquela hora, mal sabia que me arrependeria dele em pouco tempo.
- “Ou muito cansada”? Sério? E como eu vou saber que você não está só fingindo?
- Vai ter que confiar em mim. – ela piscou para mim, sínica.
Eu revirei os olhos, contrariado. Confiar, essa era uma das coisas que eu não conseguia fazer quando se tratava de mulher. Quando se tratava principalmente de mulher. Eu só havia confiado uma única vez em alguém e não estava lá muito disposto a passar pela experiência novamente. Assim como eu não estava disposto a me envolver emocionalmente ou a me apaixonar. Então me lembrei de que, apesar de ser um dos motivos pelos quais estávamos fazendo aquilo, seria sempre bom reforçar isso para a ruiva.
- Nada de se apaixonar por mim, hein Rosie. – eu disse mais para provocar. Ela me lançou um olhar do tipo “nem se eu estivesse sob o efeito da maldição Imperius isso aconteceria” e me tranqüilizei.
- O mesmo se aplica a você. E se hipoteticamente, porque eu sei que você é incapaz de se apaixonar, um dos dois perceber que sentimentos estão surgindo, a gente se afasta.
- Só isso?
- É só do que consigo me lembrar agora. Perdi a concentração no momento em que você perguntou se já podíamos começar.
Rose me encarou com aqueles olhos súplices e brindou-me com um sorriso libertino. E foi o suficiente para acender em mim um desejo mais que urgente de modo que, sem hesitar, tomei a ruiva em meus braços. Logo fui envolvido por seus lábios quentes e macios e sabia que em breve só seus beijos não bastariam. Quando ela retirou minha camisa e arranhou minha pele com suas unhas eu soube que beijar não seria o bastante para Rose também.
Assim que abri os olhos na manhã seguinte e me deparei com Rose Weasley deitada ao meu lado, mais nua impossível, soube que nosso acordo bêbado não fora um delírio. Fiquei observando-a dormir por um tempo, tão tranquila, tão bonita, tão... sexy. Merlin, eu precisei me levantar e enfiar a cabeça debaixo da água gelada para afastar aqueles pensamentos impuros àquela hora da manhã. Já estava atrasado quando sai para o hospital, deixando um bilhete no travesseiro ao lado da ruiva que ainda dormia feito uma pedra.
Fiquei um pouco confuso quando ela apareceu no St Mungus lá pelo meio dia. Por um momento pensei que ela quisesse desfazer nosso acordo devasso, mas a ruiva me garantiu que fora lá para visitar uma amiga. No fim das contas almoçamos – um sanduíche de peru com gosto de Natal que Rose comprou no salão de chá do hospital - juntos nas escadas de incêndio do prédio, porque eu não tempo para ir a outros lugares. Depois de uma longa conversa sobre não deixar aquilo ficar estranho e não nos tornarmos obcecados por sexo, acabamos transando em uma sala de cirurgia desativada no primeiro andar.
Estranhamente, no dia seguinte, encontrei a ruiva perambulando pelo corredor do quarto andar com a varinha em punho e uma expressão alerta. Quase fui estuporado quando me aproximei para cumprimentá-la e descobri, passado o susto, que não era o único em serviço naquele momento. Rose estava fazendo a guarda do quarto de um garoto que fora atingido por uma azaração das Pernas-Bambas mal executada e fora levado ao hospital após nenhum contra-feitiço surtir efeito.
- Quer dizer que você foi trazida de volta à Londres pra ficar de babá de adolescentes inconseqüentes que brigam em bares? – perguntei um tempo depois, enquanto nos deliciávamos com sanduíches na escada de incêndio outra vez.
- É mais ou menos isso. – ela respondeu vagamente. Eu a encarei, ainda mais curioso- Ele é testemunha de um esquema que estamos investigando e alguém precisava ficar de olho no moleque.
- Aí mandaram a Weasley, que é ótima vigiando adolescentes. – pisquei para ela, em seguida, brincando com o fato de Rose ter sido a monitora-chefe mais perversa que Hogwarts provavelmente já conheceu.
- Ah, sim, mas ela só é boa nisso quando não está ocupada quebrando todas as regras com o mau elemento da Sonserina, é claro.
E mais uma vez, o nosso almoço terminou em cima de uma maca largada em algum lugar abandonado do St. Mungus. Não sei ao certo como, mas nossos almoços na escadaria de incêndio se tornaram um hábito. E a sobremesa em locais inabitados do hospital também. Depois, é claro, passamos a nos encontrar também em casa, após meus plantões, de madrugada em bares que o protegido de Rose freqüentava e em qualquer lugar a qualquer hora desde que um chamasse o outro.
Confesso que cuidar de pessoas doentes durante o mês que se seguiu foi incrivelmente mais prazeroso pós Rose Weasley. Nós não éramos, definitivamente, os melhores amigos do mundo, mas com todo aquele sexo que andávamos fazendo não tinha como negar que nossa relação se tornara muito mais agradável.
Talvez, eu pensei enquanto desaparatava ao voltar para casa certo dia, sob uma chuva torrencial, talvez eu tenha começado a gostar da ideia de ter a mulher dragão morando perto de mim. Entrei tão distraído no elevador do meu prédio, momentos depois, molhado e exausto, que quase morri de susto quando percebi que Astoria Greegrass-Malfoy, a senhora minha mãe, me fazia companhia.
- M-mãe? O que a senhora faz aqui? – eu perguntei enquanto tirava o casaco ensopado para poder abraçá-la.
- Verificando se meu filho continua vivo. Estava de saída quando você entrou. - minha mãe disse, reclamando sutilmente do fato de eu quase nunca visitá-los na mansão. Então ela me abraçou mesmo molhado como estava e se afastou para olhar meu rosto. - Quando você ia me contar que está namorando?
Eu a encarei, tentando compreender o que acabara de ouvir. Como assim eu estava namorando? Minha mãe me olhava com um sorriso divertido nos lábios e parecia incrivelmente orgulhosa por eu estar supostamente amarrado a alguém. Infelizmente me senti obrigado a desmanchar aquele belo sorriso e acabar com qualquer esperança de que um dia eu pudesse, sei lá, lhe dar uma penca de netinhos e uma nora.
- De onde diabos a senhora tirou essa ideia absurda? – eu quis saber, ainda confuso.
- Bem, se aquela ruiva linda e simpática que me informou que você estava no trabalho não for sua namorada, então o que ela é?
- Rose? Minha vizinha. E só. – e minha amiga colorida, mas ela não precisava/podia saber sobre essa parte.
- Sua “vizinha e só” saiu do seu apartamento segurando uma peça de roupa íntima, que tentou esconder no bolso da calça quando me viu, sabia exatamente o horário que você voltaria e ainda me convidou para tomar chá quando disse que o esperaria. Ela insistiu para que eu não ficasse sozinha. Se já não for sua namorada, deveria ser. – minha mãe permanecia com aquele sorriso irritante nos lábios e eu sabia que viria mais alguma informação complicada de digerir quando ela continuou – A Srta. Weasley é realmente encantadora, Scorpius. Acredito que até mesmo seu pai iria aprová-la.
- Mãe, a Srta. Weasley é apenas minha vizinha, que anda muito solitária e viu na senhora uma companhia, por isso o convite para o chá. – disse, tentando inutilmente disfarçar que eu e Rose tínhamos qualquer coisa. E que ela provavelmente esquecera a calcinha no meu quarto. – Vamos, a gente conversa em casa, mãe.
Saímos em silêncio do elevador e pude notar o sorriso carregado de sarcasmo estampado no rosto de Astória. Minha mãe estava se divertindo aos montes com a ideia – absurda, diga-se de passagem – de seu filho ser namorado de uma Weasley. Provavelmente estava prevendo um surto psicótico de meu avô, um ataque de nervos da minha avó, um acesso de raiva do meu pai; e ela, como nunca se importou com os antigos desafetos dos Malfoy, ia sentar e rir daquela situação toda.
- Então, como está meu pai? – perguntei enquanto fazia um chá para nós, depois de trocar a roupa molhada da chuva, em uma tentativa de mudar o foco da conversa.
- Chateado porque você não aparece. – ela me encarou com aquele olhar reprovador como quando tinha oito anos e fazia alguma arte. – E obcecado com aquela estufa que está construindo.
- Draco está construindo uma estufa? – perguntei, incrédulo.
- Sim, querido. Uma estufa. – minha mãe soltou uma risada debochada. – Depois que se aposentou seu pai anda fazendo coisas que até Merlin duvida. Está com uma ideia fixa de viajar pelo mundo também, você acredita?
Eu ri com minha mãe. Quando me contavam histórias sobre como o jovem Draco Malfoy era, eu não conseguia pensar no meu pai. Porque o Draco que eu conheci, o homem que me criou e me ensinou a maioria das coisas que sei nunca foi o cara mal que as pessoas descreviam. No entanto, imaginá-lo construindo uma estufa era praticamente impossível.
- Acho que as pessoas mudam quando ficam mais velhas, afinal. – eu comentei quando Astória disse que meu pai já não era o mesmo e nem ela.
- Eu espero que você não demore tanto para mudar algumas de suas ideias radicais, querido. – ela disse, muito séria. - Você devia parar de dormir com qualquer uma, filho, e encontrar uma namorada. Ninguém é feliz sozinho para sempre, Scorpius.
- Mãe, eu gosto muito da minha vida como ela é. Sou feliz assim. – eu disse, afagando sua mão sobre a minha.
Então, nossa conversa embaraçosa e enfadonha foi interrompida por uma batida na porta. Eu rezei para não ser Rose, mas talvez precisasse rezar com mais fé, porque quando abri a porta, ela sorria para mim segurando uma xícara de chá vazia.
- Atrapalho? – ela perguntou com uma voz sexy. Merda. Ela queria transar e Astória estava sentada no meu sofá da sala.
- Minha mãe está aqui. – expliquei, como se fosse um código para “não posso te levar à loucura agora. Volte mais tarde.”.
- Ah sim, eu sei. Nós conversamos bastante, até tomamos chá juntas. – ela me empurrou para o lado, acenando para Astória. – Bem, só queria saber se você tem uma xícara de açúcar porque estou no meio de um bolo e descobri que faltam ingredientes na minha casa.
Dá pra acreditar? Ela estava mesmo usando o velho truque do açúcar comigo? Eu queria muito rir e mandar Rose parar de arrumar desculpas ridículas como aquela, mas minha mãe estava ouvindo tudo, então só deixei-a entrar e pegar o açúcar. Astória foi muito simpática com a ruiva e quando a mulher se despediu dizendo que precisava voltar para a cozinha, minha mãe fez algo que se não tivesse me deixado atônito, provavelmente teria me deixado muito puto.
- Rose, querida, você não gostaria de jantar em minha casa no sábado? Quem sabe assim Scorpius também se sente à vontade para visitar os próprios pais. – senti a alfinetada penetrando meus nervos.
- Ah, fico muito grata pelo convite, Astória, mas sábado é aniversário do meu irmão e vamos fazer uma festa surpresa para ele n’A Toca. – ela respondeu de um modo que quase me convenceu que se não fosse pela “festa surpresa” ela aceitaria mesmo o convite de minha mãe.
- Bem, quem sabe em uma outra ocasião, então? – minha mãe continuou, dando de ombros.
- Eu adoraria. – então ela se despediu de minha mãe e voltou-se para a saída. – Ah, Astória, me avise se Scorpius não aparecer no sábado.
Maldita Weasley. Eu precisaria ter uma conversa muito séria com ela quando minha mãe fosse embora. Fazia parte do nosso acordo que ninguém soubesse sobre nós e, no entanto, lá estava ela fazendo amizade com a minha família. A visita de minha mãe ainda perdurou por mais uma hora e meia. É incrível como as mães conseguem tanto assunto para colocar em dia com seus filhos. Quando Astória foi embora, me fazendo jurar que iria para casa no sábado, eu caminhei até o apartamento da frente decidido a enforcar Rose.
Infelizmente o desejo homicida foi substituído por algo mais, digamos, interessante, quando ela atendeu a porta usando nada mais que uma camiseta preta d’As Esquisitonas – que era grande demais para ser uma camisa e curta demais para um vestido- colocada estrategicamente para me fazer perder toda a vontade de brigar.
- Entre. – ela ordenou, me olhando de um modo muito misterioso. – A que devo a honra de sua visita ilustre?
- Você não pode esquecer roupas íntimas na minha casa. – essa definitivamente não era a frase que eu havia planejado dizer, mas Rose tornou-se uma grande distração com seu nariz sujo de farinha e aquelas pernas de fora.
- Ok. Anotado. – ela disse com ironia, caminhando pela sala ampla de seu apartamento excentricamente decorado. – Mais alguma coisa?
- Seu nariz ‘tá sujo. – eu disse, estendendo a mão para limpar o pó branco do rosto da ruiva, que me olhava divertida enquanto meu polegar passeava por sua pele macia. – Pronto.
- Então você veio somente me proibir de esquecer artigos pessoais na sua casa e limpar meu rosto? – ela perguntou, provocando.
- Claro que não...
Então, eu puxei o corpo da ruiva para o meu e a beijei. Bem, definitivamente não fora lá para isso, mas eu tinha certeza que era exatamente o que ela queria quando interrompeu minha conversa com Astória para pedir uma xícara de açúcar. E, honestamente, era o que eu queria desde antes do meu plantão no hospital terminar.
- Quarto? – Rose perguntou quando nos separamos brevemente.
- Quarto. – eu assenti com cada parte do meu corpo, já sedento por ela.
Rose me guiou até o cômodo em meio a beijos e empurrões doloridos contra as paredes pelo caminho – acho até que derrubamos alguns quadros no corredor – e quando finalmente chegamos ao quarto muito arrumado da ruiva e fui arremessado contra a cama, uma raposa prateada surgiu de repente trazendo um recado que eu não entendi (porque aquela língua estranha ou era um código secreto de aurores ou era Italiano), mas devia fazer algum sentido para a ruiva porque seu rosto assumiu uma tonalidade branco-cera e eu entendi que a brincadeira terminara antes mesmo de começar.
- Rosie, está tudo bem? – perguntei enquanto a mulher vestia a calça jeans que antes estivera pendurada no encosto de uma cadeira giratória.
- Eu...eu preciso trabalhar. Emergência. – ela respondeu depois de parecer surpresa por eu ainda estar ali. – Tenho que estar em Verona em menos de vinte minutos se não quiser a polícia trouxa envolvida.
- Você me explica em que a polícia trouxa não pode se envolver quando voltar?
- Se eu voltar. – algo no tom que ela usou para aquela frase me causou um certo desconforto na boca do estômago. Como assim se ela voltasse? Ela tinha que voltar. Estava me devendo uma transa.
- E o que eu faço se você não voltar? – murmurei timidamente , arrependendo-me em seguida.
Rose parou subitamente de amarrar os cabelos e me encarou. Merda. Aquela pergunta devia ter soado ainda pior em voz alta, porque ela ficou um tempo procurando as palavras certas para responder e então disse:
- Se eu não aparecer em três dias, é porque morri. – ela sorriu ao ver minha expressão espantada e me puxou para um abraço. – Não se preocupe, eu vou voltar. E aí podemos acabar esse nosso assunto...
Ao final de sua fala, Rose me beijou delicadamente os lábios, se afastou e disse antes de aparatar:
- Você tem cinco minutos para sair se não quiser ficar preso aqui até eu voltar.
- Tem cerveja aqui?
Ela negou com um sorriso sacana nos lábios e aparatou. Certa vez Rose dissera que aurores eram extremamente paranóicos com relação à segurança de suas casas – e dos vizinhos, soube mais tarde - e ela não fugiu à regra quando lançou inúmeros feitiços de proteção em seu apartamento, de modo que, deduzi, seria realmente mais seguro obedecer e ir embora – já que não teria mesmo nenhuma diversão enquanto ela estivesse fora. Sai de lá o mais rápido que pude e durante os quatro dias que se seguiram a única coisa na qual conseguia pensar era no paradeiro de Rose Weasley.
Eu não havia reparado de fato no quanto nos aproximamos desde que ela invadira minha vida novamente, mas aqueles quatro dias de completa abstinência de Rose Weasley me fizeram perceber que talvez eu me importasse mais com ela do que imaginava. Primeiro pensei que fosse pelo sexo, mas então comecei a sentir falta de sua companhia, de ouvi-la reclamar da minha barba, da cor do meu cabelo, do modo como eu respiro... De repente, ser privado das inconstâncias diárias de Rose me fez sentir solitário, como jamais havia sentido, e então entendi que talvez minha mãe pudesse estar certa sobre aquela coisa de ninguém ser feliz sozinho para sempre.
Foram três longos dias de pura auto-tortura psicológica em que me peguei pensando diversas vezes no momento em que receberia a notícia de que Rose Weasley morrera em ação. Seria doloroso e aterrador me reacostumar com a vida sem a ruiva do 13B. Eu não queria ficar sem suas reclamações, sem suas piadas sem graça, sem suas paranóias, sem a visão de suas belas pernas, sem seus beijos... Não, eu não queria mais pensar em perder minha amiga colorida. E então eu pensava em tudo outra vez.
No quarto dia, porém, não me sobrou muito tempo para pensar em ninguém além de meus doentes na ala emergencial do St. Mungus. Havia bastante trabalho a ser feito e dois de meus melhores curandeiros pegaram uma virose e não apareceram no hospital, de modo que o número de pacientes assistidos por mim subiu consideravelmente. Ao final do dia, eu estava exausto e preocupado com uma certa bruxa desaparecida. Imagine agora, qual não foi minha surpresa ao entrar em meu cubículo ao final do corredor, pronto para tirar um cochilo merecido, e me deparar com a ruiva descabelada sentada sobre uma papelada sem importância no tampo da mesa de madeira maciça.
Antes mesmo que eu enunciasse um palavrão qualquer, a mulher lançou-me um singelo sorriso de lado e minha reação foi simplesmente correr até a mesa e abraçá-la como se ela pudesse desaparecer a qualquer momento. Eu mal conseguia respirar decentemente sentido seu corpo junto ao meu. Rose retribuiu meu abraço calorosamente, como se também tivesse sentido minha falta, falta do meu toque. Permanecemos envolvidos por aquela estranha sensação de felicidade absoluta mais alguns instantes e então ela pareceu recobrar o juízo e me afastou.
- Você não morreu. – resmunguei, mal humorado por estar longe dela novamente, encarando aqueles olhos azuis.
- Prometi voltar, não foi? – ela disse, muito calma, ignorando meu tom de voz ranzinza.- Acho que temos um assunto inacabado.
- Já mencionei que você apresenta sérios sintomas de ninfomania? – disse em um tom mais baixo, reaproximando-me dela.
- E eu já mencionei que você é um doutor muito sexy? – Rose prendeu as mãos na lapela do meu jaleco branco e respeitável de medibruxo e puxou-me para exageradamente perto de si. Eu sentia sua respiração quente em meu rosto. – Podemos parar de falar agora e continuar de onde paramos há quatro dias, por favor?
Sem nem ao menos pensar em recusar um pedido daqueles, beijei Rose como se toda a minha vida dependesse daquilo. Ela correspondeu como se necessitasse mais do meu beijo do que de água ou ar. Seus dedos compridos seguravam meus cabelos de um modo estranhamente possessivo e alucinante. Minha mão percorria cada centímetro de sua pele macia e alva por dentro daquela blusa que ela ainda vestia. Eu retirei a peça incômoda de roupa que me impedia de tocá-la com outras partes do meu corpo que não fossem as mãos e enquanto ela bagunçava meu cabelo, desci meus beijos por seu pescoço até o colo.
- Senti sua falta, Weasley. - sussurrei em seu ouvido, cedendo impulsivamente ao estranho desejo que se apossou de mim.
- Scorpius, a graça da nossa relação é não precisar mentir assim. – Rose respondeu, impiedosa. Aquele comentário quase me ofendeu, porque pela primeira vez em muito tempo eu estava sendo 100% sincero em relação aos meus sentimentos.
- Ouch! Isso machuca, Rose, sério! – eu disse, parando de beijá-la para fingir ressentimento. - Senti mesmo sua falta.
Rose me encarou com a expressão intrigada; aqueles olhos azuis penetrantes explorando cada centímetro do meu rosto em busca de algum sinal que denunciasse a mentira que eu incrivelmente não contara.
- Eu...eu encontrei o Jake. – ela murmurou cabisbaixa, de repente, quando percebeu que eu falava sério.
A simples menção do nome daquele imbecil me enfurecia de um modo absurdo, mas naquele momento, se ele surgisse à minha frente, eu o teria matado sem hesitar. Será que ela nunca ia esquecer aquele otário? Pela primeira vez, talvez em toda a minha vida, eu havia dito algo realmente verdadeiro e a maldita da mulher estava lá me falando sobre o babaca do ex-namorado. Foi então que me lembrei o motivo de não ser sincero com as mulheres: elas não se importavam.
Por alguns instantes aquelas palavras ecoaram em meus ouvidos como se Rose não parasse de repeti-las cada vez mais alto e eu precisei me afastar da ruiva. Ela me encarava um tanto assustada, como se esperasse qualquer reação menos aquela.
- E o que aconteceu entre vocês? – perguntei entredentes. Eu estava furioso e cheio de uma curiosidade masoquista.
- Ele disse que sente minha falta. – ela murmurou. A raiva cresceu dentro de mim e tive ainda mais vontade de ir até a Itália socar a cara daquele imbecil. Será que ela não percebia que aquele era o truque mais velho e sujo para transar com uma mulher pela última vez?
- E você, obviamente, respondeu que também sente falta dele, o que resultou em uma longa conversa que acabou na cama de um motel barato no qual ele nunca levaria a futura esposa. – eu disse fingindo descaso. No momento eu não ligava nem um pouco se aquela suposição pudesse ferir os sentimentos de Rose, eu até queria magoá-la. Mas não fazia a menor ideia do por quê.
- Está com ciúmes ou disse isso pelo simples prazer de me ofender? – ela perguntou, a voz trêmula e o olhar ferido.
- Ciúmes? Por favor, Rose, a graça da nossa relação é não sentir nada parecido com isso. – respondi com ironia.
O silêncio que invadiu minha sala foi mórbido e carregado de significado. Eu estava com raiva, Rose estava magoada. E então ela reuniu coragem o bastante para romper o sossego.
- Acho que precisamos nos afastar, Scorpius.- Rose disse muito séria.
- Eu não estou com ciúmes, Weasley. – repeti mais para me convencer do que a ela.
- Sei disso. – Rose respondeu, vestindo a blusa e saltando da mesa. – Só pra constar: não fui pra cama com o Jake. Não cheguei nem perto disso. – ela continuou, eu pude sentir a ira em sua voz.
- Ótimo. Para você, é claro. Ele é um imbecil.– limitei-me a comentar.
Rose caminhou lentamente até a porta, provavelmente esperando que eu a tomasse em meus braços novamente e a impedisse de partir, mas eu estava realmente furioso e não daria o braço a torcer. Embora eu quase tenha feito isso mesmo. Quando ela finalmente chegou até a porta e a abriu, parou por um instante e disse:
- Não foi do Jake que senti falta, Malfoy. Uma única vez sequer.
Então ela aparatou ali mesmo, deixando-me sozinho outra vez com aquele turbilhão de novas sensações sobre as quais eu nada sabia. Eu quis ir atrás de Rose e me desculpar por ser um imbecil, mas era tarde demais. E eu tinha orgulho demais. Ela era apenas mais uma mulher saindo da minha vida. Saindo de novo da minha vida.
***
N/A: Olá Olá!
Pois é, pois é, pois é...desculpem pelo capítulo liiiiiiiixo. Eu juro que tentei dar um presentinho de final de ano supimpa pra vocês, mas não rolou porque a maldita da inspiração me largou... Enfim...Espero não ser apedrejada por ter feito vcs perderem preciosos momentos das suas vidas lendo esse capítulo ruim e prometo recompensá-los nos próximos. Por favor, xinguem nos comentários se for preciso, mas não guardem só p vcs! xD E pra quem já comenta( tipo a Luhna, q sempre me deixa mega feliz aqui), meu muito obrigada!
Hasta luego, chicos e Feliz Ano Novo!