Claro que os quatro amigos não tinham mais sono. Ainda de pijamas sentaram-se à mesa da Grifinória. Ninguém acordaria, ao menos, nas próximas duas horas. Era sábado, então tinham o tempo que queriam ali.
- Isso é...
- Inacreditável. Eu sei. – Harry completou a frase da namorada. – Acho que ninguém esperava isso.
- Eu tenho certeza que não.
- E eu concordo com a Mione. Certeza absoluta que ninguém sequer imaginara que isso seria possível.
- E justo o traidor... Justo Pettigrew...
Juliet mordia, distraidamente, uma torrada. Ronald e Hermione ocupavam-se em ler o Profeta e Harry, quase que hipnotizado, devorava a carta.
“Olá Harry Potter,
tenho a certeza de que você está estranhando imensamente esta carta. Mas espero que, mesmo tendo sido escrita por mim, ela sirva para lhe esclarecer pequenas coisas.
Não ousarei pedir seu perdão. Tudo o que fiz não tem desculpas. O que tento, agora, é diminuir todo o estrago futuro.
Pontas, Almofadinhas, Aluado e Rabicho. Talvez esses quatro codinomes não lhe pareçam tão estranhos; ainda mais porque você é o atual dono do Mapa do Maroto e, esses quatro, são os Marotos.
Ou melhor, nós o somos. Seu pai, Sirius Black, Remus Lupin e eu fomos amigos inseparáveis um dia, e isso já é de seu conhecimento. Estudávamos, saíamos e nos divertíamos sempre juntos. Não passava um aniversário em branco. Um fim de semana sem festa. Talvez você entenda o que esse tipo de amizade queira dizer.
Mas eu, Harry, só achava que sabia.
Nós crescemos e mesmo com cada um tendo sua vida, os três melhores amigos que eu já tive jamais esqueceram de mim. Continuávamos nos vendo sempre.
Logo seus pais casaram-se. A festa foi ótima, realmente queria que eles fossem felizes. Mereciam isso.
E, então, nasceu você... Era Harryzinho para cá, Harryzinho para lá. Todos passaram a viver em sua função. Todos queriam te ver e, claro, te proteger do Lorde das Trevas que queria o mundo pra ele.
Fui tomado por um sentimento único de rejeição. Não sei explicar o por quê, mas sei que – quando reparei – estava me encontrando com bruxos das Trevas. E eles se tornaram meus novos amigos.
O Lorde logo me convenceu a lutar a seu lado. Me ludibriou. Me fez acreditar que eu não era querido. E lá estava eu contando à ele onde ficava o esconderijo de seus pais.
Ele foi até lá e os matou. Seus pais o protegeram até a morte e isso você sabe bem.
O resto todo da história – como Sirius Black foi incriminado e mandado para Azkaban – você também já conhece.
Depois de tais fatos, estava mais do que nunca ligado a Você-sabe-quem. Lutava com tudo o que podia para reerguê-lo. E assim o fiz.
Não pretendo me estender muito nos detalhes dos meus atos – já o fiz mais do que devia-, você conhece a conseqüência de todos eles.
O que quero dizer é que, acredite você ou não, eu me arrependo profunda e sinceramente de tudo o que fiz. De todo o mal que causei. E é por isso que acabei de tomar uma decisão.
Agora, enquanto você lê, o Lorde das Trevas deve estar sendo colocado numa confortável cama, cercado de seus Comensais preferidos.
Você conhece a profecia, Harry. Sabe que eu não podia matá-lo, mas fiz o que pude para que você tenha tempo para aprender tudo o que precisa para acabar com esse mal.
E, falando em dar fim ao mal, despeço-me agora e para sempre.
Que você seja feliz como seus pais foram, e muito mais.
Peter Pettigrew.”
Harry tinha um nó na garganta.
Não conseguia explicar, mas a carta de Pettigrew mexera com ele. Era possível, enfim, que houvesse alguma chance de derrotar Voldemort.
Ainda pensativo, passou a carta para os amigos que leram atentamente.
- Posso dizer que esse homem teve o que merecia, Harry!
- O Rony tá certo. Eu lembro da vez que Remus e Sirius estiveram a um passo de acabar com ele...
- Eu sei. Eu sei de tudo isso. Mas mesmo assim... Ah! Não sei explicar.
- O que importa, agora, é que teremos mais tempo para descansar e treinar, certo? – Juliet segurava a mão do namorado.
- É. Teremos tempo.
Juliet saíra do meio de suas lembranças. Estava de volta em seu solitário quarto.
Alicia deveria estar arrumando suas coisas. Ou jantando? Que horas deveriam ser? Quanto tempo passara ali?
Levantou-se, ainda cambaleante, e guardou a penseira. Procurou, então, um relógio. Era o meio da madrugada. No dia seguinte Alicia partiria para Hogwarts. Lá ela estaria a salvo do passado.
Mas e quanto a si própria? Quanto tempo mais teria de fugir? |