A noite estava escura e a lua encoberta. Por um beco sombrio esgueirava-se uma figura miúda, agarrada a seu sobretudo preto. A figura murmurava algo para si mesma e olhava para trás, vez por outra. Desde que saíra do Caldeirão Furado aquela voz serena e, ao mesmo tempo, firme ecoava em sua mente.
“A chance que você esperava está na sua frente, Peter. A decisão cabe a você.” – Fora a última coisa que Dumbledore lhe dissera.
Há meses Voldmort e seus Comensais passavam horas reunidos acertando os últimos detalhes do ataque em massa que fariam. Uns comandariam os dementadores, outros reuniam o exército bruxo. Cada um tinha sua função, cada um era peça fundamental para o sucesso do plano.
Peter Pettigrew era servo de Lord Voldemort há cerca de 18 anos e nunca falhara com seu Mestre. Traíra seus amigos por ele e, mesmo com os maus tratos, era relativamente bem recompensado. Não era Comensal, tampouco era um qualquer. Era o secretário do Lord das Trevas e muitos dariam a própria vida para estar no lugar dele. Peter precisara apenas dar algumas vidas.
Tentara, por anos, fugir do peso da morte dos Potter, da prisão de Black e de muitas outras atrocidades. Mas, era a lei do universo... As coisas sempre voltam. Sempre.
E bem ali, há pouco tempo do golpe final, do triunfo de Voldemort, tudo resolveu vir atrás dele.
- Creio que saiba exatamente o que fazer, Bellatrix.
- Sim, Mestre. Meu exército já está pronto. Eu, Lucius e todos os outros estamos apenas aguardando Sua ordem.
- Ela será dada em breve... Em breve, minha cara, o mundo será finalmente meu...
Todas as vozes das criaturas mascaradas que cercavam aquela figura ofídica uniram-se numa gargalhada cruel. Todas, exceto a voz de Peter Pettigrew.
- O que há de errado Rabicho? – Malfoy desdenhou. – Não acredita na vitória de nosso Mestre?
- Cale a sua boca suja, Malfoy! É claro que... é claro que acredito! Ou não estaria aqui.
- Uuuh! Desde quando você deixou de ser aquele rato medroso ein, Rabicho?
Quando o encurvado Peter abriu a boca para responder era tarde. Fora atingido por um feitiço que o fizera voar longe. Lucius não recebera menos. E a figura de Voldemort se ergueu de seu trono.
- O que pensam que estão fazendo brigando como dois alunos de quinto ano? Não está claro para vocês a situação em que estamos? Qualquer briga interna desestabilizará todo o plano! Agora vão! Deixem-me só que tenho o que fazer. E, quando voltarem, espero que tenham deixado a infantilidade do lado de fora desta casa! Andem! Não fiquem olhando! Vão embora agora! Você não, Pettigrew! Seu idiota!
Enquanto todos saíam, Peter levantava-se e lançava um olhar de ira à Malfoy.
- Agora pense duas vezes antes de se meter em discussões idiotas! E pode ir para seu quarto. Amanhã pela manhã teremos muito o que fazer.
Peter, em silêncio, fora para o cômodo sujo e apertado que chamava de quarto há cerca de três anos. Deitara nos farrapos que insistia em chamar de cama e tentara dormir, em vão. Sua mente fervilhava de pensamentos.
Pettigrew lembrava-se do seu primeiro ano em Hogwarts. Franzino, desajeitado... Todos faziam comentários quando passava no corredor. E foi num desses dias que as coisas começaram a mudar. Um sonserino de cabelos oleosos e nariz adunco vinha andando, irritado e apressado, do outro lado do corredor. Quando chocaram-se, pergaminhos e penas voaram para todos os lados. No fim do corredor três meninos olhavam a cena. Dois morriam de rir.
- Olhe pra frente da próxima vez, Ranhoso! – James Potter gritava do fim do corredor, fazendo Sirius Black explodir em gargalhadas e Remus Lupin fazer um esforço imenso para não rir.
- Seu idiota! – Severo Snape gritava com a figura encolhida de Pettigrew.
- Mas eu não fiz nada! Você quem vinha... – Peter parou abruptamente com a varinha do sonserino no seu rosto.
- Epa! Epa! Epa! Alto lá Ranho... quero dizer, Severo! O garoto não tem nada a ver com você andar distraído pelos corredores! Eu como monitor não posso permitir esse tipo de ataque gratuito nos corredores!
Snape olhou do distintivo reluzente no uniforme ao rosto de Remus. Em seguida, recolheu sua varinha, o restante de seu material e seguiu seu caminho sob “vivas” de Potter e Black.
E foi a partir daquele momento que os Marotos se tornaram quatro.
A primeira namorada, as noites mais divertidas, as bagunças, a amizade, a Animagia... Peter só descobrira essas coisas com os Marotos.
Juntos, passaram a adolescência e – mesmo depois de Hogwarts – mantiveram a amizade, forte como sempre.
O casamento dos Potter, as namoradas de Sirius, as transformações de Lupin. Peter sempre estivera lá. Sempre foram amigos.
E, daí, o pequeno Harry nasceu. E o mundo bruxo não estava quieto. Voldemort tentava tomar o poder. Os Potter se esconderam. Peter protegia o segredo de seu esconderijo.
Mas foi aí que fora seduzido pelo lado das trevas...
Sirius, agora, só babava em seu pequeno afilhado. Enchia o peito e dizia que ele seria como o padrinho.
Remus estava preocupado demais com a tese de seu curso de Auror e o tempo vago que tinha, dividia entre sua namorada e o pequeno Harry.
James, então, era o pior de todos. Lilyzinha pra cá, Lilyzinha pra lá. Harryzinho querido, filhinho amado...
Na opinião de Peter, tudo blá blá blá. Não que os Marotos o estivessem esquecido. Jamais. Mas com tanta coisa nova, sentia-se um tanto preterido.
Sentimento infundado, claro. Mas que Peter não consegui reprimir. E que aumentava a cada fim de semana que James tinha que levar o filho pra passear.
Foi aí que Voldemort e seus seguidores o encontraram... E ofereceram-lhe poder, fama, dinheiro e amizade.
Bela amizade, pensava Peter agora.
E, mesmo assim, ele estava lá, do lado deles. Traíra aqueles que foram sua família e seus únicos amigos durante toda a vida.
Condenara os Potter a morte, enviara Black para Azkaban e deixara Remus desolado com tudo.
E, agora, o peso de tudo o que fizera atormentava-o.
Arrependimento? Peter não sabia explicar...
Acordara um tanto assustado. Sequer lembrava de ter dormido. Tateou à procura de um relógio. Estava atrasado.
Num pulo, levantou-se e arrumou a roupa amarrotada.
Todos já o estavam esperando quando chegou à sala de reuniões.
- Com quem pensa que está lidando, Pettigrew?
- Silêncio, Malfoy! Pettigrew, será punido por isso.
Peter só teve tempo de ouvir um Crucio e logo estava rolando de dor pelo chão. Mas não soltou um único grito.
- Ousado você, Rabicho. Ou será que está deixando de ser um rato e está virando homem?
Gargalhadas encheram a sala. Voldemort logo tratou de erguer-se e calar os Comensais.
- Dois dias. Dois dias me separam do poder extremo, do domínio do mundo. Dois dias e Dumbledore, Potter e todos os outros não passarão de corpos sem vida!
Peter só ouvia parcialmente a reunião. Seu cérebro trabalhava incansavelmente.
Cerca de duas ou três horas depois, quando cada um seguiu para suas tarefas, Peter saiu com a desculpa de acertar detalhes do ataque junto aos outros traidores do “lado bom” do mundo bruxo, pessoas como ele.
- Não tenha dúvidas, Peter. Você fez a melhor escolha da sua vida. Tenha certeza que você terá toda a proteção da nossa parte. Nada irá acontecer a você.
Pettigrew não tinha tanta certeza, mas a decisão estava tomada e não se arrependia.
- Pettigrew! PETTIGREW!
- Sim, Mi lorde? – Peter fizera uma exagerada reverência.
- Aonde você se meteu? Não tem relógio? Por pouco você não perde o horário da minha alimentação! E é a segunda vez no dia que você se atrasa! Será punido por isso depois que me trouxer a comida.
- Sim senhor. Peço perdão pelas minhas falhas.
- Não me venha com sentimentalismos, seu rato! Vá AGORA!
Peter arrastou-se até a cozinha. Todos os dias a mesma infeliz rotina. Cerca de seis poções das mais variadas feitas especialmente para manter Voldemort forte e isento de certas maldições e feitiços. Se ele já era forte sem aquilo, com as poções a coisa ficava ainda pior.
Mas não dessa vez, murmurou consigo mesmo.
Colocou todas as poções numa taça de cristal e, antes de levá-la, tirou um frasco do bolso. Voldemort não era burro, e sabia disso. Mas sabia, também, que tinha a confiança do mestre. Pelo menos para aquilo.
Despejou, em grande quantidade, o conteúdo viscoso na taça. Por um momento o líquido mudou de cor; apenas por um momento. Em seguida, colocou a taça sobre uma bandeja de prata e levou-a até a sala.
- Mi lorde.
- Finalmente, Pettigrew! – Voldemort segurou o cristal nas mãos e olhou seu interior por um longo período. – Parece que, finalmente, você conseguiu deixá-la na cor que deveria. Como sou um Lorde muito generoso, esquecerei que merece ser castigado.
- O senhor é a pessoa mais generosa que conheço. – Uma reverência.
- Sem mais, Rabicho. Deixe-me aproveitar minha bebida.
Peter encolhia-se no canto da sala. Observava ansioso. Voldemort levou a taça aos lábios e deu um demorado gole. Silêncio. Virou o resto da taça. Silêncio. Peter estava apreensivo, nada podia dar errado. Uma tosse seca. O barulho do cristal se despedaçando. O baque surdo de um corpo chocando-se no chão. E o silêncio.
Peter pegou a pequena mala com seus pertences e saiu, apressado, da casa. Logo os Comensais chegariam. Antes de seguir seu destino conseguiu uma coruja; enviou uma carta pesada a Dumbledore e uma outra ao Profeta Diário. Logo todos saberiam.
Perto das cinco da manhã, Harry, Juliet, Hermione e Rony foram convocados ao escritório do diretor. Quando entraram, Dumbledore tinha nas mãos um jornal.
- Teremos mais tempo, senhores.
- Tempo? Do que está falando, diretor? – Harry perguntara ansioso.
Dumbledore apenas estendeu o jornal ao quarteto. Uma manchete em letras enormes ocupava toda a primeira página. “O inesperado fim do Lorde das Trevas”.
Os quatro ficaram boquiabertos e olharam Dumbledore sem entender muita coisa.
- Ele não está morto. Mas estará fora de combate até seus capangas encontrarem a contra-poção. O que deve demorar mais de um ano. Mas, infelizmente, eles não desistirão. Então, temos que continuar nos dedicando a tarefa de derrotá-lo. Poderão terminar a escola com tranqüilidade e depois fazerem seus treinamentos para as profissões que desejam. Enfim teremos um pouco de paz. Mas não se iludam, continuar lutando é necessário.
Os quatro, parte pelo sono e parte pelo choque, apenas concordaram com a cabeça.
- E, Harry, antes de ir, pediram que eu lhe entregasse isso.
- Pediram? Quem? – Harry não costumava receber cartas.
- Peter Pettigrew.
Ao terminar o despacho das cartas, Peter andou até seus pés não agüentarem mais. Deveria ter seguido as instruções de Dumbledore e ter ido ao esconderijo da Ordem. Mas sabia que, hora ou outra, seria pego. E teria de contar tudo. Preferiu não arriscar. Chegou ao lugar onde os Potter haviam morrido por sua causa. Onde tantas vezes os amigos se reuniram... Tirou a varinha do bolso e quebrou-a. Voldemort tinha razão, estava deixando – enfim – de ser um rato.
Tirou um pequeno frasco do bolso. Olhou ao redor e, lentamente, bebeu todo o conteúdo cintilante.
Sobre a ruína da casa dos Potter o corpo de Peter Pettigrew caiu. Estava morto.
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