Não importa o castigo
Preço dessa confissão
Se você não me esquecer
Era um castigo. Conseqüência das constantes brigas nos últimos dias. Estávamos presos em uma sala escura, frente a frente, separados por uma mesa com uma vela ao centro. Minha única visão era o rosto de Malfoy, tão raivoso quanto o meu.
Deveríamos ficar ali até que a pequena vela se dissipasse. Optei pelo silêncio. O som da voz dele me irritava profundamente. A opção dele também foi essa e assim ficamos durante algum tempo até que percebi que a vela continuava intacta, apesar da fagulha de fogo arder em seu pavio, ela não derretia. Olhei-a intrigada.
- Você percebeu? – Ele me peguntou rispidamente.
- Sim e imagino o que isso significa...
- ... significa que teremos uma longa noite pela frente. – Completou enquanto se levantava. – Odeio detenções! Odeio isso tudo! - Desabafou
- Não pense que estou feliz por estar aqui. – Respondi com indelicadeza.
- Você não entende Granger! – Ele bateu a mão sobre a mesa, me assustei. – Não é esse castigo. É tudo! Meu lugar nunca será aqui.
Ele sentou-se e passou as mãos pelos cabelos. Seu rosto revelava uma profunda cólera. Parecia sofrimento. Sempre o achei tão falso, artificial, que duvidava um pouco da sua capacidade de sentir algo. Me surpreendi e não era a primeira vez que me surpreendia com Draco...
Interrompi meu pensamento. Não me permitia ficar pensando nele por muito tempo... Percebi que ele me encarava, o encarei também. Seus olhos eram um mistério para mim, não me diziam nada, me deixavam entorpecida, confusa, eu sempre os evitava, mas, ali, naquela sala escura, era o único ponto iluminado pela teimosa vela.
Para controlar o meus pensamentos, no mínimo estranhos, não sustentei o meu olhar e abaixei os meus olhos fingindo estar distraída com o desenho pintado na mesa.
Porém, ele continuou a me olhar e o seu olhar me deixava cada vez mais nervosa, constrangida. Não resisti, os meus olhos se perderam nos dele, era difícil admitir, mas Draco tornara-se muito bonito, sua beleza não era comum, aliás, nada nele era comum...
-Gosto da cor dos seus olhos. – Ele disse distraidamente, como se me fazer um elogio fosse algo banal. – Eles mudam a tonalidade conforme o seu estado de espírito. – Afirmou sorrindo.
Era verdade, o castanho dos meus olhos, mudava de cor, como os de minha mãe. Quanto mais nervosa, mais escuros eles ficavam, se estava bem, feliz, eles variavam entre o castanho claro e um tom esverdeado. Mas como ele havia percebido algo tão íntimo? Nem Ron ou Harry haviam comentado algo do tipo.
-Seus olhos... – Me arrependi de ter começado a frase. Foi impulso. – Seus olhos também são bo... diferentes...
Ele sorriu e dessa vez percebi o sarcasmo em seus lábios. Este sorriso eu conhecia muito bem, aliás, conhecia todas as variações daquele sorriso.
-Minha mãe disse que herdei o tom azul acinzentado do meu avô. - Particularmente eu não gosto da cor do meus olhos.
Como ele poderia pensar dessa forma? Seus olhos eram lindos, penetrantes, envolventes... não estava conseguindo controlar os meus pensamentos. Odiava quando isso acontecia.
-Minha tia diz que tenho que me orgulhar, pois, como os do meu avô, são, por natureza ameaçadores.
-Só a sua tia para achar o termo ‘ameaçador’ uma qualidade. – Respondi mais uma vez no impulso. Pensei que ele fosse dar uma resposta grosseira, mas, para me deixar ainda mais confusa, ele sorriu e este sorriso eu não conhecia. Era muito espontâneo. Bonito.
-Você os acha ameaçadores? – Ele perguntou.
Não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. Íntima demais na minha opinião.
Lembro-me da primeira vez que vi Draco, éramos tão crianças. Achei os olhos dele parecidos com as descrições de semi-deuses dos livros de mitologia que eu tanto gostava: prateados como a lua. Mas isso foi antes dele se tornar o meu pior pesadelo, a principal causa de minhas noites sem dormir.
-Sim. – Respondi. – São ameaçadores.
Draco ficou mais pálido do que o normal.
-Ameaçador por natureza. Quem em sã consciência desejaria ter um olhar assim? – Me perguntou.
Ele aproximou-se de mim a ponto de eu poder sentir a sua respiração em meu rosto.
-Olhe para mim. – Ele pediu em tom áspero. – Você vê algo além da ameaça? Qualquer coisa, me diga!
Estremeci. Essa capacidade que ele tinha de me surpreender com suas atitudes que, ora pareciam friamente calculadas e ora pareciam inconsequentes, me enlouquecia, odiava perder o controle da situação e claramente ele havia assumido essa posição naquela estranha conversa.
Respirei fundo, talvez ser sincera fosse o melhor jeito de tirá-lo de tão perto de mim.
-Vejo tristeza. – Respondi quase sem ar.
Ele afastou-se.
-Sim. Tristeza é uma ótima palavra.
Um silêncio pertubador instaurou-se entre nós. Olhei para a vela. Finalmente ela começava a derreter.
- A razão dessa tristeza Granger é você...
Ele dirigiu o seu olhar em minha direção. Estremeci mais uma vez. Estava prestes a descobrir algo verdadeiro a respeito de Malfoy, algo que poderia mudar a minha vida para sempre...
Continua...