Manhã de 24 de dezembro – Montparnasse, Paris
Hermione saíra de manhã cedo para fazer as compras para a ceia de Natal e deixar tudo na casa de Carl e Marcia, onde todos iriam comemorar a data, inclusive Harry e Zoe.
Eles já estavam em Paris, hospedados em seu apartamento, desde o dia anterior. Chloe, a muito custo, conseguira convencê-lo a ficar. Inicialmente, o plano do moreno era ficar hospedado no Hotel Concorde Montparnasse, próximo à casa de Hermione. É claro que o apartamento de Hermione não oferecia os luxos que um hotel ofereceria a Harry, mas ele estava devida e confortavelmente acomodado no quarto de visitas, enquanto Zoe preferira dormir no quarto de Chloe.
Ao sair de casa, deixara Alec já tomado banho e alimentado, de modo que teria uma ou duas horas até a próxima mamada dele. Harry, que já estava acordado, ficara cuidando do pequeno. Chloe e Zoe ainda dormiam, mas não deveriam demorar a levantar. Não se preocupou em orientá-lo, pois não demoraria e ele saberia como administrar as coisas até que ela estivesse de volta.
A convivência entre eles, Harry e Hermione, estava mais suportável. Ele já parecia mais confortável na presença dela e até se permitia conversar amenidades com ela.
No dia anterior, foram passear com as crianças e Daisy ao final da tarde. A qualquer um que os observasse, pareceria que formavam uma família unida e feliz.
Hermione suspirou. Era tudo o que ela mais queria, mas Harry ainda estava distante e ela já não sabia se algum dia ele desejaria o mesmo que ela novamente.
Ela acabara de entrar na rua onde situava-se o seu apartamento.
- Harry? – ela chamou assim que adentrou o apartamento. Foi recepcionada por Daisy e obrigou-se a afagar a cabeça da cadela, que abanava loucamente o rabo.
- Shhh... – o moreno fez, fechando a porta do quarto de Alec.
- Imagino que ele esteja dormindo... – Hermione disse.
- Acabou de dormir. Dei a ele aquela mamadeira pequena que deixou com seu leite, para o caso de você demorar mais do que o previsto – Harry disse.
- E as meninas?
- Acordaram pouco depois de você sair, tomaram café-da-manhã e agora estão no quarto de Chloe assistindo a um filme - o moreno respondeu. – As Crônicas de Nárnia.
- Ah, é claro! – Hermione assentiu.
- Parece interessante...
- São histórias infanto-juvenis bastante inteligentes, que facilmente prendem quem as lê ou assiste – a morena explicou enquanto dirigia-se para a árvore de Natal que estava montada na sala do apartamento. – Chloe, que pouco se interessa por coisas da própria idade, parece realmente gostar das histórias de C. S. Lewis.
- É, eu percebi – ele comentou. – E o que trouxe aí?
- Mais presentes – Hermione respondeu enquanto colocava os embrulhos que trazia ao pé da árvore. – Deixei uma parte deles na casa de Carl e Marcia, mas achei que devia trazer alguns para casa. Assim as meninas poderiam abri-los pela manhã, quando acordassem.
Harry assentiu com um aceno, pensativo. Sentou-se no sofá e Daisy se aproximou dele, exigindo atenção, que ele prontamente deu.
- Embry já está do tamanho de Daisy a essa altura, não é? – Hermione perguntou, tentando manter um diálogo.
- Sim, ele está enorme! – o moreno assentiu. – Ele não estava lá em casa no dia em que você esteve lá, por isso não deve tê-lo visto... uma vez a cada dois meses ele passa duas semanas em York com Giuly. Não gosto de deixá-lo preso em casa.
- Compreendo – foi tudo o que ela disse, sem conseguir pensar em algo melhor para falar. – E como estão Giuly e Caridwen?
- Estão bem. Ainda tenho esperanças de um dia vê-los casados – Harry riu.
Hermione sorriu e pôs-se de pé.
- Bem, eu vou ver se as meninas precisam de alguma coisa. Iremos almoçar na casa de meus pais, tudo bem?
- Sim, sem problemas – o moreno assentiu, ainda afagando a cabeça de Daisy.
Observou-a se afastar e adentrar o quarto de Chloe. Em seguida, retirou-se para o quarto que ocupava, deixando a porta entreaberta, de modo que pudesse ouvir caso Alec chorasse. Sabia que não era necessário quando se tinha Hermione em casa, mas preferiu fazer daquela maneira. Acomodou-se na cama e pôs-se a ler um livro.
Sequer viu o tempo passar. Quando deu por si, Hermione já colocava Zoe no banho e encaminhava-se, com Chloe em seu encalço, para o quarto de Alec. Levantou-se e foi até o quarto do filho para ver se a morena precisava de ajuda. Antes que pudesse abrir a porta, ouviu o diálogo que ali se passava:
- ... e eu sei que a vovó foi quem comprou todos aqueles presentes – ele ouviu Chloe dizer.
- Quer dizer que a senhorita não acredita em Papai Noel? – foi Hermione quem falou. Parecia rir.
- Você sabe que não, mamãe – Chloe disse em meio a risos, mas logo seu tom tornou-se sério. – Mas se eu acreditasse em Papai Noel, pediria que você e o meu pai ficassem juntos.
Ele esperou por uma resposta de Hermione, mas esta não veio. Então Chloe continuou:
- Seria o melhor presente.
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Voltaram cedo da casa de Carl e Marcia. Fora uma reunião tranquila, cheia de risos provocados principalmente por Hilary e seu senso de humor incomparável. Se divertiram vendo as crianças abrirem os presentes, mostrando-os a todos com orgulho.
Alec passava de mãos em mãos, sendo mimado por todos, assim como Jessica, a filha mais nova de Hilary, que completaria um ano no dia 25. Os dois foram, sem dúvida, os que ganharam mais presentes e mimos.
A pequena Zoe dormira pouco depois das 22h, mas fora acordada por Chloe para abrir os presentes. Quando a loirinha foi vencida novamente pelo sono pouco tinha passado de 1h da manhã e, como Alec já dormia desde as 21h, Harry e Hermione decidiram que era hora de voltar para casa.
Assim que chegou em casa, Hermione pôs Alec no berço e seguiu para o quarto de Chloe para acomodar a filha e Zoe. Já pronta para dormir, vestida com sua comprida camisola de seda branca e com o roupão de mesmo tecido e com os longos cabelos presos a uma trança, rumou para a cozinha, encontrando Harry de pé na sala, servindo-se de um copo de whisky sem gelo.
- Tomei a liberdade... Espero que não se incomode – ele disse ao vê-la.
- Imagina! Sem problemas. Fique à vontade – Hermione disse. – As meninas já estão dormindo. Vou esquentar um pouco de leite para Alec. Não devo dormir agora, então, se precisar de algo, é só chamar.
- Tudo bem – Harry assentiu e Hermione se retirou para a cozinha.
Ao voltar, minutos mais tarde, não o encontrou na sala. O copo que ele usara estava sobre a bancada do bar, vazio. Imaginou, de pronto, que ele tivesse se recolhido, e levou o copo usado para a cozinha. Em seguida, dirigiu-se para o quarto do filho.
A porta do quarto estava entreaberta como deixara, porém mais encostada do que antes. Silenciosa e cuidadosamente, a abriu um pouco mais e observou as costas largas do moreno alto à beira do berço. Sorriu. Há muito tempo imaginava como seria ter o pai de seus filhos em casa, cuidando deles, velando seu sono tranquilo. Vê-lo ali, no quarto de Alec, debruçado sobre o berço era algo que a encantava.
Aguardou por mais um instante e, incapaz de esperar mais – o leite do bebê acabaria por esfriar –, adentrou o aposento. Tocou o ombro do moreno e sentiu-o retesar e dar um passo para trás, afastando-se do toque dela.
- Está na hora da mamadeira – explicou, mostrando a mamadeira cheia que tinha em mãos.
- Ele não costuma acordar durante a noite? – o moreno perguntou, observando-a pegar Alec do berço e aninhá-lo nos braços cuidadosamente.
- Não. Ele é muito tranquilo, dorme a noite toda. Chloe também era assim – Hermione respondeu enquanto acomodava-se na poltrona com o filho no colo. – Pode me dar a mamadeira, por favor?
Harry pegou a mamadeira que ela deixara sobre a cômoda e entregou-a a ela.
- Obrigada – agradeceu e ofereceu-a ao filho, que imediatamente pôs-se a sugar seu conteúdo. – Eles se parecem com você.
- Ouvi comentários como esse, embora ache que ele se parece com você – Harry replicou.
- E Chloe? Não a acha parecida com você?
- É uma boa mistura – ele disse e Hermione arqueou as sobrancelhas. – Eu a acho parecida com a minha mãe, o que me leva a acreditar que pareço mais com ela do que imaginava. Mas Chloe tem o seu sorriso, as mesmas sardas no nariz e as mesmas sobrancelhas. Ah, e as covinhas nas bochechas – citou. – E o jeito dela... Me lembra muito você.
- Espero que de uma maneira boa – Hermione sorriu.
- Da melhor maneira possível – garantiu o moreno.
Silêncio. Ouviu-se então a sucção exercida por Alec na mamadeira, indicando que seu conteúdo chegara ao fim. Hermione tomou a mamadeira e estendeu-a a Harry. Levantou-se e deu a volta no berço. Antes de colocar o filho novamente no leito, brincou com sua mãozinha e afagou-lhe a cabeça, depositando ali um beijo. Sentiu a mão de Harry em sua cintura e viu-o também afagar a mãozinha do filho e tocar seu queixinho. Encarou-o e viu-o sorrir, admirando Alec. No instante seguinte, fitou-a e ambos trocaram um sorriso.
Sem mais, Hermione colocou Alec no berço e tomou a mamadeira da mão de Harry, colocando-a sobre a cômoda. Ele continuava parado velando o sono do filho quando ela abraçou a sua cintura, os seios em contato com as costas largas dele.
- Eu gosto de ver você admirando o sono das crianças – comentou, roçando o nariz no pescoço dele.
- E eu, de ver você cuidando delas, colocando-as para dormir, para almoçar, tomar banho...
- E como você brinca com elas... Parece ter a idade delas e ter toda a paciência do mundo. É fascinante!
- Não mais do que o amor incondicional que vejo em seus olhos. É tão sincero quanto o que vejo nos olhares inocentes de Chloe e Zoe.
- Amo Zoe como se fosse minha, e você sabe disso – ela disse, soltando-o e virando-o, de modo que ele pudesse a encarar. – Amo-a tanto quando amo os meus filhos. Os nossos filhos. Tanto quanto amo o pai dela e de meus filhos.
Harry fora pego de surpresa pela declaração. Aquela fora a primeira vez que ela dizia que o amava após aqueles onze anos e meio de separação. Não foi capaz de reagir.
Hermione, por sua vez, beijou seu rosto com delicadeza. Sem encontrar resistência, investiu contra a boca do moreno. Ao sentir a mão dele sobre sua cintura e a outra em seu rosto, deslizando para o seu pescoço enquanto afastava seus cabelos dourados e a puxava mais para si, teve certeza de que vencera.
Não demoraram a se afastar.
- Eu te amo – ela sussurrou contra a boca dele, os olhos ainda fechados.
Beijou-o novamente e aparatou, levando-o consigo para o seu quarto. Ele, que apenas ouvira o estalido surdo, abriu os olhos ainda em meio ao beijo para ver aonde fora levado. Sentiu as mãos dela nos botões de sua camisa, eficientes em desfazer-se dela. Não era preciso ser muito inteligente para saber aonde e como aquilo terminaria, e ele não estava mais disposto a lutar contra o que sentia por ela.
Ela se afastou dele quando terminou de desabotoar a camisa e a tirou, encontrando uma camiseta regata branca sob a anterior. Mas pouco importava. Ela já encontrara o que queria. Levou as mãos ao pescoço dele e o enlaçou. Em seguida, tinha o cordão de ouro branco que ele usava em mãos. Cuidadosamente, tirou dele a aliança e, segurando-a na palma, recolocou o cordão no moreno. Então pegou a mão direita de Harry e colocou-a em seu dedo anelar.
Ergueu os olhos para encará-lo e observou um misto de confusão e de realização em sua expressão.
- Sei que vai soar egoísta o que eu vou dizer, mas essa aliança nunca deveria ter saído daqui – disse. – Por outro lado, se todo o tempo ela tivesse permanecido aqui, hoje não teríamos Zoe em nossas vidas.
- O que importa é que ela voltou ao lugar a que pertence – Harry disse antes de tomá-la nos braços novamente e beijá-la avidamente.
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Quando despertou, o dia ainda não amanhecera. Antes que pudesse perguntar-se se tudo fora um sonho, o perfume do moreno invadiu suas narinas e ela fechou os olhos e inspirou profundamente, de modo que pudesse sentir aquele maravilhoso cheiro tomar conta de cada célula de seu corpo, embriagando-a. Aquele cheiro por ela tão conhecido, do qual tanto sentira saudade...
Sua mão acariciava o peito nu do moreno, sobre o qual estava deitada, aninhada no calor dos braços dele. Um sorriso brincava em seus lábios. Ela sentia-se completa ao lado dele. Beijou-o demoradamente na altura da jugular e roçou ali a ponta do nariz, mais uma vez inspirando o perfume dele.
Harry imediatamente puxou-a mais para si e beijou-lhe a testa. Foi o suficiente para que ela esticasse o pescoço, erguendo o rosto para beijá-lo nos lábios. Ao se afastarem, ele levou uma mão ao queixo dela, enquanto a outra repousava em sua cintura nua. Ele fitava com curiosidade os lábios dela e tocou-os com a ponta do polegar, arrancando um sorriso dela. Ela então baixou os olhos também para os lábios dele e o viu sorrir antes de beijá-lo com intensidade.
- Eu amo você, Potter – ela murmurou entre um beijo e outro.
- Eu também amo você, Granger – Harry disse antes de mais uma vez aprofundar o beijo.
Hermione se afastou, sorrindo.
- Sabe que dia é hoje? – indagou.
- Acho que é meio óbvio, dado aos presentes e à decoração natalina...
- Não me refiro a isso, seu bobo – ela riu. – Há treze anos, exatamente no dia 25 de dezembro, nós começávamos a namorar.
- E então? Aceita ser minha namorada, Mione? – ele perguntou.
- Mas que pergunta, Harry! – ele a olhou, preocupado. – Lógico que sim!
Harry a pegou pela cintura enquanto ela enlaçava o seu pescoço. Os dois se beijaram apaixonadamente.
- Eu nunca me esqueceria desse dia – ele disse. – Nem de todos os outros em que tive você ao meu lado.
- Prometo que não vou deixar você mais um dia sequer sem saber que tem a mim – Hermione disse. – Mesmo que eu não esteja presente, que eu esteja viajando a trabalho... Eu só quero que saiba que sou sua. E só sua.
- Sabe há quanto tempo eu imagino escutar isso? – Harry indagou.
- Desculpe se não pude dizer antes. Tudo o que eu mais quero é te ver e te fazer feliz.
- Você já me fez muito feliz, e mesmo durante todo esse tempo em que estivemos separados, eu era feliz por ter vivido com você tudo o que vivi – o moreno fez, sincero. – E essa noite você me fez feliz mais uma vez e pode continuar me fazendo hoje, amanhã, daqui a dez anos e para toda a minha vida.
Hermione sorriu.
- Isso me lembra algo que você me disse uma vez... Anos atrás – disse e fechou os olhos, colocando as mãos nas têmporas de Harry, que também fechou os olhos. Então ele viu...
- O que importa é que estamos juntos agora, nada mais – disse enquanto afagava os cabelos de Hermione.
- Queria poder parar o tempo – ela murmurou sonhadora. – Uma pena saber que as pessoas se vão...
- Eu, não – ele disse sorrindo ternamente. – Eu estou aqui e agora te amando como nunca amei ninguém.
- Eu também – ela fez, interrompendo-o com um sussurro quase inaudível.
- Não é preciso parar o tempo para que isso não se acabe – ele continuou. – Porque eu vou te amar hoje, amanhã, daqui a dez anos e para toda a minha vida – completou.
- Repete – ela pediu sorrindo.
- O quê? – ele riu.
- Que você me ama. Repete.
Harry riu.
- O que seria de mim sem você, princesa? – ele se perguntou, sorrindo.
Quando a lembrança desapareceu, ambos abriram os olhos e compartilharam um sorriso.
- Eu te amo, eu te amo, eu te amo... – ele disse repetidas vezes antes de beijá-la longa e profundamente. – Sabe, acho que está na hora de darmos o presente de nossa filha – ele disse em tom maroto. – Afinal, Papai Noel não existe para atendê-lo, mas o Papai Potter faz questão de atender ao pedido dela. Como ele poderia negar quando é o maior desejo dele também?
- Do que está falando, Harry? – Hermione perguntou, confusa.
- Eu falo de fazer de você a Sra. Potter – Harry disse.
Hermione estacou, surpresa. Não soube como reagir. A proposta simplesmente a pegou desprevenida. Ela não esperava por aquilo. Sequer imaginara que Harry pudesse ter ouvido a conversa que tivera com Chloe antes de saírem para almoçar no dia anterior.
- Harry...
- E então... Hermione Jane Granger, aceita ser a minha mulher? – ele fez, colocando uma mecha de cabelos castanhos que insistia em cair sobre o belo rosto da morena atrás da orelha dela.
Hermione não respondeu, mas o brilho em seus olhos cor de mel e o sorriso que estampou seu rosto antes que ela voltasse a beijar o moreno fora suficiente para ele.
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Tarde de 31 de dezembro – Limerick, Irlanda
Mais um ano chegava ao fim e a sensação que Tiffany tinha era de estar finalmente estar se libertando de vários fantasmas de seu passado. Talvez ela nunca voltasse a ser uma simples garotinha que vivia em Limerick e que era feliz com seus pais e com os grandes amigos de sua infância, Nolan e Caridwen. Talvez aquela garotinha, aquela Tiffany não existisse mais, mas ela aprendera a se orgulhar da mulher em que se transformara.
Ela observava os filhos de longe. Josh, a cópia fiel de sua personalidade, e Francine, a imagem da pureza e da inocência. Eles eram as razões de sua vida e ela os amava profunda e incondicionalmente.
Ela esfregou os braços, que estavam cobertos por camadas e camadas de tecido, tão encasacada estava.
Fazia frio em Limerick, mas isso não parecia incomodar ninguém. A tempestade de neve dera uma trégua após uma madrugada intensa que deixara a camada anterior de neve pelo menos trinta centímetros soterrada. Desse modo, várias crianças estavam nas ruas, brincando, fazendo bonecos de neve e travando verdadeiras batalhas em que bolas de neve voavam em todas as direções.
Herod parecia ser uma dessas crianças, ela observou sorrindo. Àquela altura, o loiro e os pequenos deveriam estar encharcados e ela sabia que quando o sangue esfriasse, estariam desejosos por um banho quente e por passar o restante do dia sob cobertas quentinhas, assistindo a um filme bem pertinho da lareira.
Ela não podia evitar pensar em como era bom ter o loiro ali, sempre por perto. Ele fora o responsável por afugentar a maior parte de seus fantasmas, por tornar os seus dias e os dias de seus filhos mais alegres e ela era imensamente agradecida a ele por isso.
Agora já não havia um só dia em que ele não fizesse pelo menos uma refeição com ela e que não fosse visitar Josh e Francine na casa dos Haase. Eles também eram dele, carregavam o seu nome. E isso fortalecera ainda mais os laços que foram estabelecidos entre ele e Tiffany.
Ela viu que ele se aproximava com Josh em seu encalço. Trazia Francine no colo e caminhava com cuidado sobre a neve, evitando locais onde ela pudesse estar fofa e afundasse.
- Essa sapequinha está cada dia mais pesada – ele disse a Tiffany, colocando Francine no chão e fazendo cócegas na barriga da pequena. – O que está dando para ela comer?
- Ela só está crescendo, Christow – Tiffany riu.
- Mãe, tem chocolate quente? – Francine perguntou.
- Tem, sim, meu amor. Eu deixei prontinho lá no fogão para que vocês bebessem quando terminassem de brincar – a morena disse. – Corre para tomar seu banho antes que esfrie!
Então Francine e Josh correram para dentro da casa.
- Josh, cuidado para não escorregar! Tirem as botas antes de entrar! – orientou, alteando a voz.
- Pode deixar, Tif! – Josh gritou de volta, já tendo alcançado a porta da casa.
- Ele tem o mesmo senso de responsabilidade que você – Herod disse antes de passar o braço por detrás dos ombros dela enquanto caminhavam lado a lado.
- Christow, você está molhado! – ela protestou.
- E daí?
- E está me molhando!
- Ah, aposto que nem está sentindo molhar... Não com tantos casacos! – ele observou.
- Ainda assim, está me molhando – Tiffany insistiu.
- Se está te incomodando tanto, por que não se afasta, então? – Herod perguntou.
- Porque se eu me afastar, você dará um jeito de me provocar de outra maneira – ela disse.
- Pode apostar! – Herod riu.
Tiffany revirou os olhos e entrelaçou os dedos nos dele, na mão que estava sobre seu ombro, e o abraçou pela cintura.
- Você é uma criança, Christow – ela resmungou.
- E você me ama do mesmo jeito – o loiro brincou, beijando a testa dela em meio a uma risada, antes de adentrarem a casa, ainda abraçados, lado a lado.