Tarde de 28 de novembro, casa dos Potter – Chelsea, Londres
Seis dias se passaram desde a manhã de domingo em que Hermione acordara após o complicado parto de Alec. “Após o parto de meu filho”, ele acrescentou a ideia ao pensamento, então corrigiu-se: “Nosso filho”.
Aquilo parecia uma brincadeira de mau gosto do que Hermione chamava de destino e ele dava nome de vida. Quase uma semana depois e ele não digerira o fato de ter mais dois filhos. Era estranho dormir só com um filho e acordar com três, ainda que soubesse que existia a possibilidade de Alec ser seu filho. Mas Chloe?
- Como isso é possível, Hermione? – ele questionara após absorver a informação.
- Quer mesmo que eu te explique? Você sabe... não foi uma cegonha quem deixou Chloe e Alec para que eu os criasse como meus filhos, e acredito que se lembre perfeitamente do processo que fez isso possível – Hermione disse. – Nós só não nos preocupamos muito com as consequências... Não no momento em que...
- Hermione! – Harry repreendeu, fitando Chloe.
- Não se preocupe, pa... – a pequena começou, mas interrompeu-se. – Não se preocupe comigo, Harry. Eu sei de onde vêm os bebês. E sei que não vêm de cegonhas – ela disse, completamente sem jeito.
Antes que Hermione pudesse continuar, Harry se levantou e aproximou-se de Chloe, estendendo a mão para ela, que, hesitante, segurou. Ele a puxou, aproximando-a de si, e fitou seus olhos verdes. Os mesmos olhos de sua mãe, de Zoe e seus... Ela era sua filha.
- Chloe, não precisa mais me chamar de Harry. Eu sou seu pai e é assim que deve me chamar sempre que tiver vontade – Harry disse. – Vai ser estranho no começo, até nos acostumarmos, mas é assim que deve ser. Deveria ter sido desde sempre.
Chloe via que ele estava sendo totalmente sincero e sentiu uma alegria enorme a invadir. Antes que pudesse perceber, estava chorando. E era maravilhoso poder chorar de felicidade.
- Tudo bem, pai – a pequena disse, sorrindo. – Vou deixar vocês conversarem.
Ela desviou o olhar do pai para a mãe, que sorriu e assentiu, e dirigiu-se para fora do aposento.
- Alec também tem os seus olhos – Hermione recomeçou quando a porta se fechou.
- Posso? – o moreno pediu e Hermione quase que automaticamente ajeitou o filho, de modo a entregá-lo ao pai para que este pudesse segurá-lo.
- Chloe nasceu de 36 semanas, no dia 2 de fevereiro de 1999. Não sei se lembra, mas segundo as minhas contas, ela foi concebida após uma reunião com a comissão de formatura, quando você teve um ataque severo de ciúmes e nós acabamos discutindo. Enfim, quando Chad me encontrou, eu já estava grávida de três semanas... – ela contou. – Quanto a Alec, bem... Foi na primeira noite após os onze anos. Eu não percebi, não associei todos os enjoos, dores de cabeça e no corpo, as mudanças nos hábitos, o atraso nas regras... Você sabe, sou muito ativa e somando-se isso ao fato de haver uma forte ligação entre Chloe e eu, pode-se dizer que o treinamento dela me afetava diretamente...
Ela interrompeu-se. Tinha a impressão de que ele não a ouvia.
Hermione observou Harry cuidar de Alec. Era impressionante o modo como ele era jeitoso com bebês, mesmo após tanto tempo desde o nascimento de Zoe. Ele parecia encantado, embora ainda não tivesse processado a sobrecarga de informações que Hermione havia acabado de despejar sobre ele.
Mas toda a magia daquele momento se desfez no momento em que, ainda controlado, Harry ergueu o olhar para a mulher à sua frente.
- Por que não me contou? – perguntou.
- Está convencido de que são seus filhos? – ela indagou.
- Sim, e mesmo que eles não fossem, eu os teria como filhos, uma vez que o meu maior desejo sempre foi ter a mãe deles como minha mulher. Eu já estava disposto a tomar Chloe como minha. E eu te disse. Lembra-se? Naquela última noite...
E um avalanche de lembranças daquela última noite que passaram juntos esmagou-os. Como não lembrar? Ali Hermione já sabia que era de Harry e que sempre seria, ainda que não admitisse a si mesma por conta do medo que sentia. Aquela noite fora memorável e esteve com Hermione em cada dia daqueles cinco meses que passara longe do moreno.
- Eu sei que deveria ter contado, mas quando eu descobri...
- Acho melhor termos essa conversa depois – Harry a interrompeu. Mas ela soube que estava tudo perdido naquele momento. A frieza em seus olhos e a dureza de suas palavras eram cortantes. – Vamos esperar que esteja totalmente recuperada e que saia do hospital, que estejamos realmente a sós. Não quero que nenhum de nossos filhos, ainda que eles não entendam o que se passa, esteja presente quando essa conversa acontecer. Eles não têm culpa e não merecem presenciar o que quer que vá ser discutido.
Assim que saiu do quarto em que Hermione estava, ele ligou para Hallie, perguntando se havia a possibilidade de Zoe passar o dia com ela. Ele nunca dispensara a companhia da filha, mas ele realmente precisava de um tempo para si.
Depois que deixara Zoe na casa de Hallie, vagueara de carro pela cidade sem destino. Ele pensara em procurar Amy ou Scott para conversar, mas sabia que, antes de procurar qualquer pessoa, o que ele mais precisava era de um tempo sozinho para colocar as ideias no lugar e absorver tudo aquilo. Excesso de informação sempre comprometia o funcionamento de uma máquina e era exatamente assim que ele se sentira. Como se seu cérebro fosse travar, parar de funcionar e entrar em curto.
Acabara voltando para casa, deixando ali o carro e aparatando em seguida.
Fora nas ruas de York que se vira caminhando no instante seguinte. Porque era o que ele sempre fazia quando precisava pensar... Caminhava. E não havia lugar melhor para espairecer que não York.
Mais tarde, já com os pensamentos mais organizados, ele fora visitar o primo, Giuly, e sua – eterna – noiva, Caridwen. Contara que era pai novamente, o que deixou-os surpresos e intrigados e felizes pela notícia. Por que ele não contara antes? Caridwen inclusive lhe dissera que sabia que havia algum envolvimento além da amizade entre ele e Hermione, que a tensão entre os dois era palpável desde sempre, ainda que insistissem em dizer que eram apenas amigos. Segundo Caridwen, era uma questão de tempo para Hermione ceder ao que eles haviam vivido no passado.
Então Harry contara sobre Chloe e ela dissera acreditar que o segredo podia ser uma das razões que os separava meses antes.
E a teoria dela fora comprovada dois dias depois, pela própria Hermione.
Ele havia acabado de chegar ao Ministério. Sua semana estava sendo mais produtiva que de costume. Enterrara-se no trabalho de modo a esquecer o quanto sua vida havia mudado no último fim de semana. Tudo agora tinha um novo sentido para ele, e ele precisava se adaptar a isso – e mesmo assim evitava. Aquele “tempo” que ele dissera a si mesmo precisar estava se estendendo indefinidamente e ele sabia que não podia permitir que isso acontecesse. Tinha que procurar Hermione e resolver a situação dos filhos deles.
- Pelo visto, resolver a nossa situação já está fora de suas prioridades – uma mulher de cabelos castanhos extremamente lisos e compridos, magra e de olhos azuis emoldurados por um par de óculos de grau adentrou o aposento, imediatamente dando as costas para ele. – Colloportus! Abafiatto!
No momento em que se voltou novamente para encará-lo, retirou os óculos e foi como se eles carregassem consigo todo um disfarce. Os cabelos castanhos deixaram de ser lisos, tornando-se levemente cacheados nas pontas; o corpo esguio ganhou as curvas por ele já conhecidas; e os olhos deixaram de ser azuis, assumindo sua costumeira tonalidade cor de mel.
- Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai até Maomé – ela disse.
- Hermione, eu não tenho tempo para isso agora. Preciso trabalhar.
- Sim, eu sei. Mas nós precisamos conversar e você não me procurou para que isso fosse feito – Hermione disse, séria, enquanto se aproximava e depositava a bolsa sobre a cadeira. – Sei que nada do que eu disser vai mudar o que você pensa, até porque... bem, você já decidiu, mas ainda te devo explicações e só vou embora depois que você ouvir tudo o que eu tenho a dizer.
- E isso inclui uma explicação para o fato de você ter me enganado durante sete meses?
- Eu não te enganei, Harry. Eu nunca mencionei o pai de Chloe, nós nunca conversamos sobre isso de fato. Você simplesmente assumiu que o homem que era pai do bebê que eu perdi e com quem vivi por três anos era também o pai dela.
- E você não negou isso em momento algum, negou?
- Não, eu não neguei, o que não necessariamente quer dizer que eu confirmei a sua suposição – ela disse com dignidade. – Ora, Harry, podemos discutir isso o quanto você quiser e eu terei mil modos de argumentar a meu favor. É uma questão de lógica! Pura lógica.
- Então também tem mil modos de argumentar a seu favor sobre não ter me contado que Chloe era minha filha?
Hermione revirou os olhos e bufou.
- Harry, por favor, seja razoável... – ela pediu.
- Por que eu o seria?
- Porque nós temos dois filhos e quer você queira, quer não, teremos de conviver com isso! – Hermione disse com firmeza. Àquela altura, Harry já estava de pé atrás de sua mesa e ela mantinha a distância de um metro da impecável peça de madeira de lei. – Eu sei que eu deveria ter contado... Mas tudo aconteceu muito rápido, Harry! Num instante eu estava em sua casa e sequer sabia o que você um dia significara para mim e que papel desempenhara em minha vida; no outro, eu tinha sido invadida por um monte de lembranças... Todas aquelas que estavam perdidas, todas relacionadas a você.
- Presumo, então, que tenha descoberto quem era o pai de Chloe pouco antes de irmos parar em minha cama? Ou teria sido depois? – As palavras dele eram ácidas. Era como se o Harry amável e cavalheiro que ela conhecia tivesse simplesmente desaparecido e sido substituído por uma máscara de cinismo e pura maldade.
Ela engoliu em seco antes de responder:
- Sim, eu passei todos esses anos sem saber quem era o pai de Chloe e sendo questionada por ela sobre esse pai de quem eu não conseguia de maneira alguma me lembrar. Tem noção do quão doloroso foi para mim? E descobrir que o pai dela era você...
- Eu não estou questionando você sobre o tempo em que você não sabia quem era o pai de Chloe. Eu já entendi que foi um dos efeitos da profecia. Mas por que não me contou quando soube que eu era o pai dela? Por que deixou que eu passasse todo esse tempo achando que ela era filha de outro homem? E pensar que eu te pedi permissão para considerá-la uma das mulheres de minha vida...
- As circunstâncias em que eu descobri não permitiram que eu te contasse. Ou não se lembra que eu estava atrás do assassino? – ela indagou e seu tom era de súplica. Ela só queria que ele deixasse de lado aquela frieza por um instante e a ouvisse, tentasse compreender seus motivos. – Eu levei Zoe para a casa de minha tia, a deixei sob os cuidados de minha mãe e levei você comigo para a minha missão... Porque eu sabia que o tal bruxo havia assassinado a mãe de sua filha! Porque eu sabia que você era um dos responsáveis pela busca pelo bruxo assassino... Harry, como eu poderia ter te contado isso naqueles dias tão turbulentos? – Houve uma pausa em que ela estudou a postura dele. Ele a fitava com o maxilar trincado e não parecia realmente enxergá-la. – Tudo era novo demais para mim! Eu nem tive tempo de processar a minha descoberta e já tive que retornar para a missão em que estava... Como eu poderia ter te contado algo que nem eu havia digerido?
- E depois que tudo acabou? Hermione, você teve sete meses!
- Não, Harry, eu tive apenas três meses. Não esqueça que você foi para o Brasil...
- E você para a França – ele retrucou.
Hermione fechou os olhos e suspirou, contendo as lágrimas que se formavam, resultado da mistura de raiva e desapontamento.
- Eu tinha medo. Sempre foi o medo. Medo de te contar e ter a minha vida perfeita desestabilizada. Então nós conseguimos reaver nossa amizade e eu tive medo de perder isso. Eu tive medo de te perder – ela disse. – Sabe, perceber que você não havia me esquecido e que continuava me amando exatamente como me amara onze anos antes foi demais para mim. Porque eu havia te esquecido e não te amava mais. Não correspondia ao seu sentimento. Isso doía muito em mim. Eu queria corresponder ao seu amor, queria ser novamente aquela adolescente que te amava incondicionalmente, queria te fazer feliz... E não conseguia. Eu sabia que era muito fácil te machucar, te iludir... E eu não podia fazer isso com você. Mas estar com você me fazia bem. E quanto mais nos aproximávamos, mais perigosa se tornava a nossa relação. Eu tinha que ser cautelosa sempre... Por você, por mim, por Chloe.
- E mesmo assim preferiu manter segredo...
- Eu preferi manter segredo porque eu deveria ter contado antes. Porque eu sabia que meu medo era infundado. Você jamais tiraria a minha filha... – ela se interrompeu, corrigindo-se. – Você jamais afastaria a nossa filha de mim. Eu só... não consegui enxergar isso antes. Foi preciso que minha mãe me fizesse enxergar.
- Em algum momento pensou em me contar?
- Não houve um só momento em que eu não pensasse em contar, Harry. Tudo o que eu mais queria era que você soubesse toda a verdade. Eu só... Não sabia como contar – Hermione disse. – Depois de nossa última noite, aquela em que eu tive que voltar às pressas para Orléans, de onde Chloe tentava insistentemente me contatar e descobrir onde eu estava... Enfim, depois daquela noite, eu descobri que eu estava grávida de Alec – contou. – Quero dizer... Eu vi que estaria grávida no dia do batizado de Mel e eu sabia que esse filho era seu. Não podia ser de mais ninguém! Então eu procurei minha mãe e decidi que estava na hora de te contar tudo...
- Eu não estava mais aqui – ele concluiu.
- Exatamente! Depois de uma noite tão linda, tão perfeita...
Ela sentiu os olhos encherem de lágrimas e sua voz sumiu. Ela buscou não encará-lo, de modo a evitar que as lágrimas rolassem. Quando uma lágrima escapou, ela se deu por vencida e baixou o rosto, fechando os olhos e livrando-se da água que marejava seus olhos. Balbuciou sem pronunciar um som sequer. Foi difícil se recompor, mas ela conseguiu.
- Quando eu cheguei, você já tinha ido – disse, sua voz rouca. Pigarreou e continuou: – Eu sabia que sua viagem era a trabalho e que depois você ia seguir em uma viagem há muito planejada com Zoe. Meus pais estavam se mudando para Paris, então eu decidi que também iria e me convenci de que assim estaria protegendo a todos. A nós e aos nossos filhos. E quando eu voltasse, era certo que você saberia de tudo.
- Você tinha tudo planejado, não é mesmo? – o moreno fez, voltando a se sentar.
- Se eu continuasse aqui, Harry, todos iam perceber a semelhança de Chloe com você... Eu não era mais capaz de controlar a cor dos olhos dela, os traços... Os poderes dela foram desenvolvidos. Como eu explicaria a ela a necessidade de se transfigurar toda vez que saísse de casa? E quem mais poderia ser pai de Alec senão você? – Hermione argumentou. – Ainda que não soubessem de nossos deslizes...
- Deslizes... – Harry bufou em murmúrio quase inaudível.
- Todos sabiam que eu não tinha ninguém e que estávamos cada vez mais próximos!
- Hermione...
- Era uma questão de tempo até que todas as suposições chegassem até você...
- Hermione...
- Então você voltaria no mesmo instante! E a minha gravidez era de risco, não podia arriscar a vida de Alec. Qualquer estresse podia ser perigoso... Keira me alertou...
- Hermione, chega! – Harry ordenou, alteando a voz e pondo-se de pé.
Hermione sentiu diminuir sob o olhar gélido do moreno.
- Você já terminou o que tinha para me dizer? – ele perguntou.
Com dignidade, ela ergueu o queixo e endureceu as feições antes de responder:
- Sim, já disse tudo.
- Muito bem, queira então se retirar de minha sala – Harry disse. – Por favor.
Hermione fitou-o, os olhos estreitando-se. Ela queria fuzilá-lo com apenas um olhar – e ela sabia que era capaz disso, então precisou se controlar para que não o fizesse realmente. Ela se controlara durante toda a conversa, sabendo do perigo que oferecia para ele em caso de desatenção.
Sem mais, pegou os óculos que deixara ao lado da bolsa e recolocou-os, assumindo o disfarce anterior.
- Se quiser ver os nossos filhos, sabe onde encontrá-los. Como você mesmo disse quando deixou o hospital, eles não têm culpa e não merecem sofrer por conta de nossos erros.
Então pegou a bolsa e colocou-a sobre o ombro, lançando ao moreno um último olhar antes de desfazer os feitiços que colocara sobre a porta e o ambiente da sala do chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia e deixar o aposento.
Por mais que amasse Hermione, ele seu orgulho estava ferido pela decepção. Ainda que ela tivesse lhe dado todas as razões do mundo para ter escondido dele a verdade sobre Chloe, aquelas razões somente faziam sentido para ela própria.
Ela podia acreditar que o estava protegendo, mas a verdade é que ela estava protegendo a si mesma. Então ela tinha medo de contar a verdade para ele e que isso desestabilizasse a vida que ela construíra? Tinha medo de perdê-lo se contasse?
Ele percebeu a lógica das coisas – ou a falta de. Ela tinha medo de contar porque não o amava e isso desestabilizaria a vida que idealizara para ela ao lado dos filhos. Mas havia algo que ele não entendia... Por que o enorme abismo que estava se formando entre eles causaria uma desestabilização? Ele não pretendia tirar os filhos dela. Não, isso jamais! A única coisa que se efetivara, ao final das contas, fora ela tê-lo perdido.
Fora exatamente isso que acontecera; ela contara e o perdera. Ponto final.
Mas sempre haveria aquele elo que os uniria... Sempre haveria os filhos deles. E Zoe. Sim, porque Zoe amava Hermione e ele sabia que a relação era recíproca.
Zoe. O nome da filha ecoou em sua cabeça. Ela, em sua inocência, permanecia alheia a tudo. Perguntou-se qual a melhor maneira de contar a ela que Chloe e Alec eram seus irmãos. Já conseguia imaginar a loirinha questionando-o sobre Hermione, perguntando se eles iriam se casar...
Talvez ele entendesse Hermione agora. Talvez entendesse que contar algo a alguém implicava em certas dificuldades que não se desvinculariam do problema nunca. Tratar um assunto como aquele com uma criança demandava muito cuidado. “Mas eu não sou mais criança”, ele pensou irredutível.
Decidiu que o melhor era deixar a morena longe do alcance de seus pensamentos. Lembrou-se que por conta de tudo aquilo não vira mais os filhos. Chegara a falar com Chloe duas vezes ao telefone e ela pedira para vê-lo nas duas vezes, mas ele não podia ver os filhos sem que tivesse de ir à casa de Hermione ou de encontrar com ela.
Cansado de batalhar internamente, ele pôs-se de pé e deixou o gabinete, rumando para o pavimento térreo da enorme mansão. Zoe não estava em casa, já que os avós dela estavam em Londres e foram buscá-la mais cedo para almoçar com eles. Provavelmente iriam estender o programa até o final da tarde, então Harry não precisava se preocupar com a possibilidade de eles a deixarem em casa antes de ele retornar.
Quando se deu conta, já estava no carro rumando para Notting Hill.
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Noite de 29 de novembro, A Toca – Ottery St. Catchpole
A maior alegria de Molly Weasley era ter a casa cheia. Aquela era uma data especial, e em datas como aquela sempre tinha todos os filhos e netos em casa.
Era aniversário de seu filho mais velho, Gui, que completava 39 anos. Como de costume, a família se reunia para jantar e ali estavam todos. O próprio Gui com Fleur e os filhos, Sophie e Thierry; Carlinhos com Deborah e os filhos, Jared, o mais velho, e as gêmeas de um mês e meio, Emily e Louise; Percy com Penelope e os filhos, Evan, Kyle e Jenna; Fred com Angelina e os gêmeos Mark e Ryan; Jorge com Katie e os filhos, Alexis, a mais velha, e os trigêmeos de um mês, Noah, Dylan e Ava; Rony com Lilá e os filhos, Reese e Phillip; e Gina com Draco e Sarah.
Fleur se destacava entre todas as mulheres com sua barriga de oito meses recém-completos. Com o nascimento de Dominique Noelle Weasley dali a cerca de um mês, contariam dezoito netos.
- Gina tem tanto jeito com criança... – Deborah comentou ao se aproximar da sogra para ajudá-la.
Katie e Angelina, que também estavam por ali, concordaram.
- E nós não podemos reclamar! É um par de braços a mais para ajudar... Outubro veio e trouxe cinco bebês para a família, então qualquer ajuda é válida – Katie disse, desviando o olhar para Noah, que dormia tranquilamente em seu carrinho.
- Ele é tão tranquilo... – Deborah disse, também fitando o garotinho.
- Bem diferente de Dylan e Ava – Katie suspirou.
- Ava puxou a Gina, certamente – Molly disse, rindo. Então ela carregou uma das travessas para a sala, deixando as noras sozinhas na cozinha.
- Ela é totalmente o oposto de Alexis – Angelina comentou.
- Tímida que só ela! – Katie riu.
- Carlinhos e Deborah que deram sorte com a prole – Angelina pontuou.
- Deborah tirou a sorte grande quando escolheu o marido, isso é um fato! – Gina disse, se aproximando com Ava no colo.
- Sim, sua puxa-saco! – Deborah alfinetou em tom de brincadeira.
Não era novidade para ninguém que Gina era muito ligada a Carlinhos. Desde sempre ele fora o irmão com quem mais se identificava, aquele que era o seu protetor, o seu ídolo. Mais nova, chegava a ficar dias trancada em seu quarto quando ele ia embora para a Romênia cuidar de seus dragões.
- Ah, vamos, Deborah! Vai dizer que ele não é um cara incrível? – Gina insistiu. – Olha lá, ele está com Emily no colo, mas não tira o olho de Louise, que está dormindo no colo de Sophie...
- É, disso eu não posso discordar. Ele é maravilhoso!
- E agora, quer um babador? – Gina brincou.
- Cuidado para não babar na comida – Angelina aderiu ao coro.
Katie ria. Deborah revirou os olhos, sem conseguir conter o riso.
- Posso saber o que tanto tricotam as mulheres dessa família? – Jorge se aproximou, trazendo Dylan no colo. – Ele dormiu, loira.
- Põe ele no carrinho – a loira instruiu. – E não estamos tricotando, Sr. Weasley. Estamos apenas conversando sobre nossos maridos e filhos.
- É claro que você disse que eu sou um marido exemplar, não é? – Jorge fez, abrindo o seu melhor sorriso e piscando para a esposa.
Katie revirou os olhos e riu.
- Vamos voltar para a sala antes que Molly venha nos expulsar da cozinha dela! – ela disse enquanto empurrava o marido e o carrinho onde dormiam Noah e Dylan.
- E vocês, Gina, não pretendem encomendar mais um herdeiro? – Deborah perguntou.
- Quem sabe daqui a uns três ou quatro anos... – a ruiva comentou. – Eu tenho sobrinhos o bastante para mimar até lá!
- É a única Weasley que parou no primeiro filho! – Molly disse, intrometendo-se na conversa ao se aproximar. – Mas Sarah e Draco estão fazendo um bom trabalho em convencê-la a aumentar a família, tenho certeza.
- Pode apostar que estão – Gina concordou. – Mas enquanto eles não conseguem, Draco e eu seguimos praticando – acrescentou com malícia, arrancando risos das cunhadas e um olhar assustado da mãe, que não resistiu e acabou rindo também.
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Manhã de 2 de dezembro – Notting Hill
Ele chegara ali logo cedo, antes mesmo que as malas pudessem estar fechadas, antes que tivessem terminado de tomar café-da-manhã. Viera sozinho, o que era natural, uma vez que estava a caminho do trabalho, mas em todas as visitas que fizera aos filhos, em seus mais variados horários, não trouxera Zoe. Era inevitável que se perguntasse se a pequena já saberia sobre os irmãos. Mais do que isso, perguntava-se se Harry a estaria afastando dela.
Ela agora o observava conversar com Chloe no sofá da sala. Pareciam bem à vontade na presença um do outro. Chloe tinha os olhos brilhando de fascínio sempre que o fitava, e ele era sempre o mais atencioso quanto possível com ela.
Suspirou e deu as costas para a sala, voltando para a cozinha, onde Jane estava.
- Você não esperava que a relação de vocês fosse ficar tão difícil, não é, filha? – Jane perguntou e seu tom era preocupado.
- Eu sabia que isso podia acontecer – Hermione disse. – Na verdade, foi por isso que adiei tanto.
- Eu sei, querida – a mãe disse, se aproximando dela. – Vai parecer clichê o que vou te dizer, mas acredito que o melhor seja mesmo esperar. Ele é um homem bom e conhece você há quase vinte anos! Ele sabe que você nunca faria algo desse tipo por mal. No fundo ele sabe.
- Eu queria poder acreditar nisso também, mamãe – a morena fez, balançando a cabeça negativamente. – Você viu no que nossa relação se transformou. O mínimo de cordialidade que poderia existir se perdeu. Ele mal olha em meus olhos! Mal dirige a palavra a mim...
Jane sabia exatamente o que a filha estava falando. Ela presenciara os encontros que entre Harry e Hermione nos últimos cinco dias e vira a frieza com a qual ele a tratava. Nem mesmo se tratava de uma relação formal. Mais pareciam dois desconhecidos. E era impossível não perceber o quão machucada Hermione estava.
A verdade, Jane sabia, é que ambos estavam machucados, magoados um com o outro, mas aquilo passaria. Se não por vontade de ambos, por maturidade, afinal, eles tinham dois filhos e a convivência seria inevitável, principalmente no início.
Eles se amavam, era inegável, e isso fora o agravante. Se amassem menos um ao outro, se esperassem menos um do outro e se nunca tivesse havido uma relação tão forte de amizade e cumplicidade entre eles, a revelação tardia da existência de um filho talvez os tivesse abalado menos.
- Talvez – Hermione concordou com os pensamentos da mãe. – Eu sei que ele me ama, mas posso ver que ele não está disposto a esquecer tudo isso. Ele quer estar presente, quer estar com os filhos, vê-los crescer e não perder um segundo sequer a mais... Mas a minha presença o incomoda.
- O incomoda porque você ainda o afeta e ele sabe que não pode remediar isso – Jane disse, séria. – Herms, querida, vocês são uma família! E é doloroso para ele, tanto quanto para você, que não possam viver como tal.
- Ele é orgulhoso demais...
- Sim, ele é. E talvez você deva simplesmente respeitar o tempo dele.
Hermione simplesmente concordou com um aceno e balançou a cabeça tristemente. De repente seu olhar se tornou atento e ela pareceu prestar atenção ao mínimo ruído.
- Alec vai acordar – ela disse antes de disparar para o andar superior, passando pela sala quase que como um vulto.
Alec estava deitado na cama de casal de seu quarto com vários travesseiros ao seu redor, de modo que ele não caísse caso rolasse na cama enquanto dormia. Não estava chorando. Ao contrário, dormia tranquilamente. Assim que Hermione se aproximou da cama, entretanto, ele se mexeu e abriu os olhos.
Ela sorriu e o pegou no colo, sentando-se na cama.
- Está na hora de mamar, não é, bebê? – ela fez baixinho, brincando com o queixinho do filho, que a fitava com os olhinhos verdes ainda sonolentos. Então ajeitou-se, erguendo a blusa de modo a deixar o seio livre para que o filho se alimentasse.
Alec imediatamente abocanhou o seio da mãe e sugou. Não voltou a fechar os olhos. Permaneceu atento, encarando Hermione até que estivesse satisfeito. Ela então se recompôs e o ergueu, aninhando-o verticalmente no colo. Alternando leves tapinhas e um massagear suave em suas costas, aguardou até que não houvesse mais possibilidade de o pequeno regurgitar e o levou consigo para o andar térreo.
Assim que percebeu que ela trazia Alec, Harry colocou-se de pé e um sorriso se formou em seus lábios.
- Olha quem está aqui, filho! – Hermione disse em meio a um beijo e outro no alto da cabeça de Alec. – É o papai! Ele veio ver você e sua irmã.
Harry se aproximou da morena, que lhe estendia Alec. Mãe e filho pareciam conectados pelo olhar, que só foi quebrado quando o pequeno buscou encarar o dono do par de braços fortes e seguros que o aninhavam.
Hermione viu que Harry trocava algumas palavras com o filho, mas não prestou atenção a elas. Ela admirava, encantada, o moreno cuidar de Alec enquanto Chloe estava ao seu lado, nas pontas dos pés, brincando com a mãozinha do irmão.
Sequer percebeu a mãe se aproximar e se postar ao seu lado.
- Herms, querida, é melhor aproveitarmos que Harry está com as crianças e terminarmos de fechar as malas. Seu pai deve estar chegando para nos buscar em menos de uma hora.
- Tudo bem – Hermione assentiu, sem tirar os olhos do pai de seus filhos.
- Herms? – Jane insistiu, finalmente conseguindo fazer com que a filha fosse com ela para o andar superior.
Vinte minutos mais tarde, Chloe viera avisar à mãe que Harry já estava indo embora. Já passava das 9h e ele tinha uma reunião às 10h, mas ainda precisava organizar algumas coisas, segundo a pequena dissera. Ao ir ao encontro do moreno, percebeu que ele somente a chamara para deixar Alec com ela. Fora seco ao se despedir, mas Hermione não demonstrou abalos. Tomou o filho no colo e observou Chloe levar Harry à porta. Emocionou-se ao vê-lo abraçar a filha e beijar-lhe o topo da cabeça, depois sorrir para ela e dizer que se veriam em breve. Apesar de tudo, seus filhos tinham um pai maravilhoso e que os amaria incondicionalmente.
Nem precisou mandar que Chloe fosse tomar banho. A pequena, que tinha um enorme sorriso no rosto, imediatamente subiu as escadas rumo ao banheiro. Jane já estava pronta e já havia organizado tudo para o banho de Alec.
Após dar banho no filho e tomar o próprio banho, foi uma questão de minutos até que Stan Granger chegasse.
Enquanto voltava para Paris, sentada no banco de trás do carro de seu pai – um Volvo XC90, um modelo de 2005 – com Alec no colo e Chloe concentrada olhando a paisagem pela janela ao seu lado, pensava em tudo o que acontecera naquelas duas semanas que estivera em Londres. Mais parecia que havia se passado meses!
Ela sabia que depois de tantos acontecimentos, só estaria em paz total de espírito novamente quando Harry a perdoasse, mas ela tinha em seus pais o próprio porto seguro e sabia que tinha duas pessoinhas que sentiam o mesmo com relação a ela.
Ela estava com seus filhos e com seus pais, sua família, e era isso que importava. Era bom estar voltando para casa, no fim das contas.
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Noite de 17 de dezembro, casa dos Potter – Chelsea, Londres
- Devia ir a Paris no próximo fim de semana, ou até mesmo no Natal...
- Amy – ele fez em tom repreensivo.
- O quê? – a morena de olhos azuis fez. – Não estou sugerindo nada de absurdo! São seus filhos, e aposto como Chloe vai adorar ver você.
- Eu não posso simplesmente aparecer na casa de Hermione...
- Harry James Potter – Amy revirou os olhos. – Francamente! Não foi exatamente isso o que você fez enquanto ela estava aqui?
- É diferente agora...
- Diferente por quê? A única coisa que mudou foi o lugar. Ao invés de simplesmente ir até Notting Hill, que é a dez minutos Chelsea, na própria Londres... Bem, agora você tem que ir até Montparnasse, em Paris, que é a quase seis horas de Londres – Amy disse. – Isso se você for de carro, obviamente.
- Você não entende...
- O que eu não entendo, Harry? Que você ama Hermione e mesmo assim não consegue engolir esse orgulho bobo e ficar de uma vez por todas com ela e com seus filhos?
Harry suspirou. De novo aquela conversa...
- De novo essa conversa, sim! – Amy fez, pondo-se de pé. – Você sabe que a sua maior vontade era poder simplesmente sair daqui agora, ir atrás dela e dizer que a ama, que quer ficar com ela, que ela seja sua mulher... E você pode fazer isso. Você só tem que parar de negar isso a si mesmo! Pare de fazer isso com você mesmo. Com vocês dois!
- Eu não vou fazer isso, Amy.
Amy revirou os olhos e suspirou, contendo a irritação.
- Tudo bem, não faça! Continue bancando a criança malcriada – disse. – Só não esqueça que não é só ela quem sofre... Quem sofre é você!
Harry sabia disso. Mas ele sabia que tinha razão.
Amy quase bufou de irritação ao ver o que ele estava pensando. E quase riu também. Afnal, desde quando o amor seguia alguma linha de racionalidade?
Harry definitivamente deveria ter muito trabalho para racionalizar tantas coisas onde a razão não se encaixava – e mesmo que se encaixasse, a posição da peça sempre influenciaria para que ela entrasse no quebra-cabeças. Ele teria que se colocar no lugar dela, vivendo as mesmas circunstâncias para conseguir entender o porquê de Hermione ter feito as coisas daquela maneira.
Ela sabia que para ele era difícil aceitar que Hermione tivesse escondido por tanto tempo que Chloe era filha dele e não havia nada que pudesse dizer para tentar fazê-lo mudar sua posição – e Amy já dissera tudo o que podia. Ele seguia irredutível.
- Harry, pela última vez... São seus filhos! Eles merecem que você tenha ao menos uma relação saudável com a mãe deles, ainda que vocês estejam separados – ela insistiu. “Por conta de uma infantilidade de sua parte”, acrescentou em pensamento.
Silêncio.
Ela suspirou.
- Bom, eu já vou. Pelo menos pense em tudo o que já conversamos nessas últimas quatro semanas. Alguma coisa deve ter entrado nessa sua cabeça-dura – ela disse e se aproximou dele. – Sei que seu coração não é de pedra, maninho, e sei que você sabe exatamente o que deve fazer.
Então ela deu um beijo no rosto do moreno e rumou para a porta da frente da enorme mansão, deixando um Harry pensativo para trás.
“Talvez Amy tenha razão”, ele pensou. Então buscou o telefone e discou o número que já sabia de cor, tantas foram as vezes que já o havia discado.
- Alô? – aquela voz conhecida atendeu, fazendo seu coração disparar.
- Hermione? – ele fez, após conter a ansiedade.
- Ah, oi, Harry – ela cumprimentou. – Só um instante, vou chamar Chloe.
- Não, Hermione, eu... Hermione? – Mas era tarde, ela já não estava mais na linha.
- Pai? – Chloe se fez presente e era quase possível para ele visualizar o sorriso alegre da filha.
- Sim, sou eu – ele disse, sentindo amolecer por dentro. – Estou ligando para te contar uma novidade.
- É coisa boa? – Chloe perguntou, mas o seu grito de excitação veio em seguida: – Ah, não acredito! Você vem mesmo passar o Natal em Paris com a gente?
- Eu devia imaginar que não dá para fazer surpresas para você – ele riu. – Sim, eu e Zoe vamos passar o Natal com vocês em Paris.