Ao despertar, a primeira sensação que teve foi a de frio. Muito frio. Instintivamente, levou a mão a barriga e deparou-se com o vazio. Foi o suficiente para que abrisse os olhos, alarmada. Fechou-os novamente quando a claridade os fez doer, desacostumados ao ambiente iluminado. Tornou a abri-los e piscou sucessivas vezes até que tivesse se acostumado à luz. Olhou a volta e foi como se tivesse voltado no tempo... Exatamente seis anos antes.
Acordou. Estava em seu quarto. Tentou se levantar e então notou o emaranhado de fios que estavam presos ao seu corpo.
- Argh, agulhas! – ela suspirou.
Não se lembrava de muitas coisas, apenas de uma mancha de sangue no edredom e depois tudo rodar. Olhou para o chão do quarto. Estava limpo. Talvez Chad tivesse limpado os resquícios de vidro.
Fechou os olhos e respirou fundo, abrindo-os novamente e encarando o teto. Olhou em volta novamente. Só então assimilou as coisas. O que acontecera com seu quarto? Ela também não estava deitada em sua cama, certo? E onde estavam as prateleiras cobertas de livros e seus pertences? Definitivamente, não estava em seu quarto.
Ouviu vozes do lado de fora e não precisou fazer esforços para absorver cada palavra do que diziam, embora estivessem um tanto distantes e confusas. Ela não tinha problemas quanto a isso como as outras pessoas, as normais.
Fechou os olhos, concentrando-se para fechar a mente.
- Ela acordou – uma voz aguda, que ela reconhecera ser de Chloe, anunciou do lado de fora.
A porta se abriu e sua tentativa falhou. Chad adentrou o quarto, os olhos vermelhos e inchados.
- Como você está, Mione? – ele acariciou seu rosto delicadamente.
- Você estava chorando? – ela indagou.
Chad apenas baixou os olhos, balançou a cabeça negativamente, engoliu em seco e a encarou novamente.
- Não faça esforços, você ainda está fraca – ele pediu.
- Chad, eu quero saber o que aconteceu – ela exigiu. – Onde eu estou? Por que todos esses fios?
- Nós estávamos deitados na cama com Chloe, lanchando hoje de manhã e quando você levantou para levar a bandeja para a cozinha... bem, você desmaiou – ele contou. – Eu fiquei tão preocupado, não sabia o que fazer! Chloe estava tão atônita quanto eu, ela chamava por você e eu, na minha confusão, acabei ligando para o meu pai e...
- Como você não me levou ao hospital, ele trouxe o hospital até mim – ela murmurou a contragosto. – É a segunda vez que você cuida de mim – deu um leve sorriso.
- Hermione? – uma voz mais grave se aproximou. – Como se sente?
- Estou bem – ela assegurou. – Obrigada, Dr. Hastings.
- Só fiz o meu trabalho, querida – ele sorriu, mas logo ficou sério.
Chad e ele se entreolharam, aparentemente preocupados.
Novamente Hermione ouviu vozes do lado de fora.
- Quem está aí? – indagou.
- Victoria, Caroline, Chloe e seus pais – Chad contou.
- Ok – ela fechou a cara. – Dá para vocês me contarem o que realmente aconteceu?
- Hermione, é algo delicado... – começou o grisalho Dr. Hastings.
- Não importa, eu tenho o direito de saber – ela cortou. – Eu vi sangue, eu me lembro. O que aconteceu comigo? – então ela associou. – O meu bebê! – sentiu os olhos arderem e marejarem. – O que aconteceu com o meu bebê? – indagou pausadamente, tomando ar a cada palavra.
- Houve alguma alteração hormonal em seu corpo, Hermione, e uma baixa na progesterona... – o médico continuou.
- Eu perdi o bebê, não é? – as lágrimas derramaram incontrolavelmente pelo seu rosto. – Eu... perdi... – ela levou as mãos ao rosto e soluçou.
Sentiu os braços de Chad envolta de si e a mão quente do doutor em seu ombro, afagando-o. Chad suspirou. Hermione sabia que ele chorava silenciosamente. Quanto ao sogro, sabia que só não chorava naquele momento porque convivia com a perda freqüentemente em seu trabalho.
- Eu vou deixar vocês a sós – e Sebastian Hastings deixou o aposento, fechando a porta às suas costas.
Hermione desvencilhou-se do namorado.
- O que deu errado? Eu estava fazendo todos os exames, me alimentando direito...
- Ninguém pode prever esse tipo de coisa, Mione – Chad replicou cautelosamente.
- Como não? Uma baixa de progesterona pode ser prevista, Chad – ela murmurou amargamente.
- Sua próxima consulta era só na próxima semana... Seu corpo estava em constantes modificações e em três semanas muita coisa muda, acredite – suas palavras não ajudaram muito e ele pôde ver isso na expressão dela. – Hermione, nós podemos ter outros bebês. Você ainda é jovem, tem uma vida inteira pela frente...
Quando a lembrança se foi, o pânico a inundou. Onde estava o seu filho? Teria perdido também este? Não, ela ouvira o choro dele, lembrava-se de tê-lo ouvido claramente, de tê-lo em seus braços, o rostinho ainda sujo... Os olhinhos verde-acinzentados, nebulosos, fitando-a com interesse no momento em que a reconhecera e parara de chorar.
Alec. Seu Alec. Ele estava bem, ela sabia, podia sentir. Relaxou.
Neste momento, a porta do quarto se abriu e Jane Granger entrou.
- Ah, Herms, querida, graças a Deus! – fez ao se aproximar, apressada. Afagou o cabelo e o rosto da filha, que sorriu e fechou os olhos.
- Estou bem, mamãe – respondeu à pergunta que sua mãe faria em seguida. – Sim, ele é lindo – murmurou, emocionada, ao ver a imagem de seu filho na mente da mãe. – Por quanto tempo eu dormi?
- Quase trinta horas – Jane respondeu prontamente. – Sabíamos que estava fora de perigo, mas você demorou muito a acordar, então Dr. Hastings e os assistentes faziam exames a cada duas horas, temendo que seu estado pudesse ter desestabilizado. – Houve uma pausa. – As enfermeiras queriam dar leite de outra moça que deu a luz a um garotinho algumas horas antes de você dar entrada no hospital, mas Liah não permitiu. Disse que se você não amamentasse o seu filho, que ninguém mais o faria a não ser ela.
- Ela não fez isso! – Hermione riu.
- Sim, ela fez – Jane assentiu. – Mas não foi necessário. Você está cheia de leite, então tiravam o seu leite a cada suas horas e davam ao nosso garotinho...
- Alec – Hermione interrompeu a mãe. – Alec James Vernet.
À menção do sobrenome de sua família, o ar descontraído de Jane deu lugar a um ar sério, suas feições tornando-se subitamente sombrias.
- Harry tem o direito de saber, Herms – disse. – Ele tem direito de saber que tem dois filhos, assim como Chloe e Alec têm o direito de saber quem é o seu pai. Não tanto Alec, que mal chegou ao mundo e para quem as únicas coisas que lhe importam é comer, dormir e ter alguém que troque suas fraldas, mas Chloe quer e precisa saber quem é o pai dela. Ela está crescendo, não é mais uma criança há muito tempo.
- Sei disso – Hermione disse. – Eu vou contar. Assim que tiver uma oportunidade de conversar com ele.
- E quanto a Chloe?
- Ela já sabe – a morena contou, mas não permitiu que a conversa seguisse. – Agora eu só quero saber como está o meu filho. Quando vou poder vê-lo?
- A enfermeira deve estar chegando para coletar o seu leite. Provavelmente ela chamará o Dr. Hastings e avisará que você acordou e ele livrará você de todos esses fios – a mãe comentou. – Você poderá ir vê-lo logo.
- Ela acaba de chegar... – Hermione disse, e no instante seguinte, a porta foi aberta por uma enfermeira chamada Betsy, como a morena pudera captar em seus pensamentos.
Hermione riu ao perceber que Jane se arrepiara com a confirmação do que dissera e parecia ficar aterrorizada a cada vez que Hermione fazia aquilo, como a própria mãe nomeava a capacidade de telepatia da filha.
- Bom dia – a enfermeira cumprimentara.
- Bom dia, Betsy – Hermione retribuiu o cumprimento.
- Ah, que bom que acordou! Como se sente? – Betsy perguntou enquanto retirava os fios que ligavam Hermione aos aparelhos e ao soro.
- Me sinto bem, mais leve, porém mais inchada.
- É natural sentir-se assim após o parto – a enfermeira disse. – Muito bem, agora que está acordada, pode tirar o leite você mesma, se preferir.
- Sim, sem problemas. Mas pensei que eu poderia amamentar o meu filho.
- O Dr. Hastings deverá vir fazer novos exames em breve. Enquanto isso, o seu bebê deve continuar sob observação.
- Eu não entendo! Ele não precisa... – Hermione começou.
- Herms – Jane repreendeu, aproximando-se da cama e segurando a mão da filha.
Hermione então fechou os olhos e controlou a irritação. Respirou fundo e soltou o ar antes de abrir os olhos novamente, já mais calma. Ela sabia que o filho estava bem, sabia que ele era perfeito, embora tivesse nascido de sete meses. Ele não precisava ficar em observação, só precisava estar com ela.
- Quando teremos alta? – perguntou.
- Se tudo correr bem, amanhã pela tarde – foi Jane quem respondeu.
Mas Hermione mal prestara atenção. Assim que Betsy entregou a ela o sugador para que ela tirasse o leite para seu filho, buscou entrar em sua mente e a induziu a fazer a sua vontade. A fez perceber que tudo o que seu filho precisava era estar com a mãe, que podia acalmá-lo e cuidar de qualquer eventual problema que ele apresentasse. Mas não seria preciso, ela sabia.
- Quero ver meu filho – disse, imperativa.
- Irei trazê-lo – Betsy disse e sorriu, antes de dirigir-se à porta, levando consigo o sugador.
Foi quando Hermione voltou a encarar a mãe, que tinha o cenho franzido e uma leve indignação no olhar.
- Mamãe...
- Eu prefiro não saber o que você fez com a moça.
- Você já o viu, mamãe! E sabe que ele não precisa ficar em observação. Ele não é prematuro.
- Tecnicamente, Hermione, ele é. Nasceu de 34 semanas, embora seja maior que a maiorida dos bebês de 40 semanas e não tenha problemas respiratórios, o que seria comum, uma vez que não deveria ter completado a formação dos pulmõezinhos.
- Eu já expliquei, tem a ver com o que eu sou! Lembra-se que Chloe nasceu de 36 semanas?
Jane suspirou e Hermione revirou os olhos, então permaneceram em silêncio até que Betsy voltou, acompanhada do Dr. Sebastian Hastings e da Dra. Elloe Fenty, também médica e esposa de Chad. Elloe trazia um bebê no colo e tinha um sorriso no rosto.
- Pronto, bebê, agora você vai poder ficar com sua mamãe – Hermione a ouviu dizer antes de entregar Alec a ela.
- Como se sente, Hermione? – o Dr. Hastings indagou.
- Estou bem, doutor – a morena respondeu.
- Betsy foi nos informar que havia acordado, e disse que você havia pedido para ver o seu filho – Elloe disse.
- Sim, eu pedi – Hermione assentiu.
- Bem, Hermione, nós não poderiamos deixá-lo sair da incubadora em procedimentos normais, mas dado que o menino, apesar de suas 34 semanas, está em perfeita formação e já ficou sob observação durante trinta horas, eu liberei que ele fosse trazido para a amamentação – o médico explicou. – Depois, ele retornará ao berçário, onde tomará banho e então será trazido em definitivo para ficar com você aqui no quarto, sim? E amanhã pela manhã vocês receberão alta.
- Sim, senhor.
- Muito bem, vou deixar que Elloe a coloque a par de tudo – Dr. Hastings acrescentou e se retirou, acompanhado da enfermeira.
Elloe esperou que ele saísse para começar.
- Parabéns, mamãe! Seu filho é lindo – a médica disse. – E é perfeito. Achamos que, por conta do tamanho dele em relação ao tempo de gestação, ele seria diabético ou apresentaria algum problema de saúde, mas não. Ele é realmente perfeito e parece ter nascido no tempo certo – contou. – As complicações durante o parto foram devidas a um descolamento total de placenta, o que causou o sangramento que você teve e a posterior queda de pressão arterial. Teve sorte de Chloe tê-la encontrado a tempo e de o Sr. Potter estar em sua casa na hora, mas ainda assim quase perdemos os dois, você e o bebê.
- Por que não me contou, mamãe? – Hermione perguntou, dirigindo-se à mãe.
- Não havia por que te preocupar, querida. E uma hora você saberia. É melhor saber por um médico, que pode te informar com precisão do que por uma leiga.
- Você é dentista, mamãe. Tem uma noção mínima, não é leiga! Saberia explicar...
- De todo modo, Hermione, o sangramento foi contido pelo seu próprio organismo. As complicações voltaram apenas com o parto, onde você teve um princípio de hemorragia, mas inexplicavelmente o seu corpo deu conta mais uma vez. Em verdade, temíamos pelo bebê.
- Alec. Esse é o nome dele – Hermione disse, enquanto observava o filho mamar.
Elloe sorriu e assentiu brevemente antes de continuar:
- O que importa agora é que os dois estão bem. Você deverá permanecer em repouso pelas próximas semanas para que a cicatrização ocorra perfeitamente e o restante você já sabe.
- Obrigada, Elloe – a morena agradeceu.
- Por nada, querida. A propósito, há algumas pessoas aí fora que estão esperando para te ver – Elloe disse.
- Pode deixar que qualquer coisa peço para mamãe chamar eles – Hermione garantiu.
- Sem problemas, então. Bem, eu já vou. Qualquer coisa, sabe que pode chamar.
- Eu também vou sair, sim, filha? Assim você curte um pouco o seu filhote – Jane disse e esperou que Hermione assentisse, então acompanhou a médica.
Hermione as observou sair, então voltou sua atenção total para o seu filho.
Ele quase não tinha cabelo e sua pele era rosada. A boquinha tinha o formato de um coração, e o nariz era exatamente igual ao de Harry, bem como o queixo, notou. Ainda não dava para notar muitas semelhanças, mas ela tinha certeza que ele se pareceria com o pai, assim como Chloe. Enquanto o observava, ele abriu rapidamente os olhos e fechou-os novamente, sonolento. Então, após alguns segundos, ele tornou a abrir os olhos e pareceu fitar a mãe. Ela sorriu. Os olhos dele eram incrivelmente verdes, tais como duas esmeraldas, o que ela sabia não ser comum. Crianças não nasciam com olhos verdes, somente azuis ou castanhos. “Isso, é claro, se não forem filhas de Harry Potter”, pensou.
Foi bruscamente tirada de suas divagações por batidas à porta. Ela sorriu. Já imaginava quem seriam.
- Podem entrar, suas desajustadas! – fez e Liah e Amy adentraram o quarto, sorrindo.
- Não vale! – Liah resmungou. – Nunca vou conseguir fazer uma surpresa para você desse jeito.
Amy revirou os olhos.
- Como se sente, Herms? – perguntou, se aproximando da cama.
- Maravilhosamente bem. E completa – Hermione respondeu.
- Ele é tão lindo, Mione... – Liah comentou. – Já conseguiu ver a cor dos olhos? Ninguém pôde ver com ele sob observação...
- Verdes. Incrivelmente verdes – a morena respondeu.
- Era de se imaginar. Só os filhos do Potter nascem de olhos verdes, é impressionante! – Amy observou.
Hermione riu.
- Eu estava pensando exatamente isso quando vocês chegaram. É como se Lilian quisesse se fazer presente... Vocês sabem, era o traço mais marcante dela. A cor dos olhos.
- Os amendoados olhos verdes de Lilian Evans-Potter – Liah anunciou.
- Não que seja um motivo para reclamar. São lindos... – Amy disse.
- São, sim – Hermione concordou.
- Ah, a propósito, várias pessoas ligaram para vir te ver, mas preferiram deixar para visitá-la em casa, uma vez que você esteve dormindo a maior parte do tempo e seu garotinho em observação – Liah contou.
- Harry está preocupado. Fez plantão aqui o sábado todo, foi para casa só nos horários das refeições para tomar banho e comer alguma coisa. Ontem à noite sua mãe mandou que ele fosse para casa e ela ligaria quando você acordasse. Bem, ele já esteve aqui hoje com Zoe, até entraram para ver você, depois eles voltaram para casa com Chloe – Amy acrescentou. – Eles foram pouco antes de você acordar.
- É, eu vi que ela estava com ele...
- Na noite de sexta, ela ficou aqui com Harry e Zoe até terem certeza de que você estava bem, então ele foi para casa e a levou com ele. Pela manhã, a trouxe para cá e eu a levei lá para casa quando passei aqui para ver como você e o bebê estavam. Ela, curiosamente, esteve tranquila o tempo todo – Liah respondeu.
- A ligação que tem com você é realmente muito forte... – foi a vez de Amy comentar. – Bem, hoje pela manhã Liah a trouxe para ver você e ela pediu para ir com Harry. Eu não tive como negar. Me pareceu uma boa ideia deixar que ela fosse.
- Fez bem. Acho que não posso mais privá-la de ficar com o pai. Sinto como se ela tivesse de recuperar esse tempo todo que esteve longe do pai, mesmo que Chad tenha estado sempre por perto – Hermione disse.
- Por falar nele, ele esteve aqui ontem pela manhã e ao final da tarde, e disse que voltaria hoje pela manhã. Se duvidar, ele já está aqui – Liah informou.
Então batidas breves à porta e alguém a abriu.
- Sim, mamãe?
- A enfermeira veio buscar Alec e está na hora de seu banho também, querida.
- Acho que isso significa que é a hora de irmos – Amy fez para Liah. – Parabéns, Herms.
- Nós viremos amanhã antes de receber alta, sim? – Liah disse e beijou o alto da cabeça da amiga. – E parabéns, H.
- Obrigada, meninas. Por tudo – Hermione agradeceu.
Assim que elas deixaram o quarto, as enfermeiras adentraram o aposento. Uma delas levou Alec, a outra ajudou-a a se aprontar para o banho. Jane auxiliava no processo.
Assim que terminou de tomar banho, Hermione voltou para a cama de hospital e deitou-se, exausta. Estava novamente sozinha com a mãe.
- Mamãe, quando Harry chegar... por favor, pede para ele entrar?
- Peço, sim, querida. Agora descanse um pouco. As enfermeiras devem trazer Alec logo – Jane aconselhou, enquanto afagava a mão e os cabelos da filha.
- Tudo bem – Hermione disse e fechou os olhos, pronta para seguir o conselho da mãe.
Ouviu-a deixar o quarto em seguida.
Ela estava quase dormindo quando a porta do quarto foi aberta. Abriu os olhos automaticamente, de modo a encarar sua nova companhia. Não sabia dizer quanto tempo se passara desde que sua mãe deixara o quarto, mas parecia não ter sido mais do que cinco minutos.
- Oi – disse timidamente e com a voz rouca, ainda por conta do sono.
- Oi – o moreno de olhos verdes fez, visivelmente desconfortável. – Eu... – ele começou, mas interrompeu-se e pigarreou antes de continuar. – Eu pensei que estava acordada e... hum... – mais um pigarro. – Eu volto depois. – Então ele se virou para deixar o aposento, mas antes que pudesse abrir a porta, Hermione o chamou.
- Não, tudo bem. Imagino que minha mãe tenha lhe dito que eu queria falar com você.
Harry tornou a fitá-la e deu um passo em direção à cama.
- Sim, ela disse – ele confirmou.
- Obrigada por me trazer aqui – Hermione disse após um instante de silêncio constrangedor.
- De nada.
Mais uma vez o silêncio constrangedor.
- Eu não pensei que você fosse voltar. Não tão cedo.
- Na verdade, eu fiquei aqui até sua mãe chegar, então levei Zoe em casa e voltei logo em seguida. Fiquei aqui ontem o dia todo. Esperei você acordar – ele contou. – Eu estava preocupado com você e com o bebê. – Houve uma breve pausa. – Você está bem? Como está se sentindo?
- Sim, agora estou bem.
- Ah, que bom – Harry fez, mais uma vez sentindo-se desconfortável. – A propósito, parabéns.
Naquele instante, a porta se abriu e a enfermeira entrou, trazendo Alec nos braços.
- Parece que estava adivinhando! – Hermione disse e um sorriso iluminou seu rosto enquanto ela recostava-se melhor nos travesseiros para receber e amamentar o filho. – Vocês dois. Harry e Alec, que resolveu mamar agora.
- Eu pensei que ele não pudesse sair da incubadora. Não nasceu de sete meses?
- Sim, mas ele é tão grande, tão saudável e tão perfeito quanto um bebê nascido há duas semanas no tempo certo – a enfermeira disse enquanto o entregava à mãe.
- Mamãe disse que ele é o maior do berçário – Hermione riu. – 52cm e 3,680kg. Um meninão! – Houve um momento de silêncio. Hermione então fitou a enfermeira. – Betsy, você poderia, por favor, nos deixar a sós por um instante? Eu estou bem. Chamo você se precisar.
- Tudo bem. Voltarei para pegar Alec. – E a enfermeira deixou o aposento.
- Aquele seu amigo, Hastings, está aí fora – Harry comentou quando a porta finalmente fora fechada.
- Agora está convencido que ele é só meu amigo? – Hermione alfinetou, erguendo os olhos para o moreno.
- Sim, e isso somente me rendeu novas perguntas.
- Que tipo de perguntas? – Hermione indagou e Harry hesitou. – Venha aqui, Harry – pediu.
O moreno, ainda hesitante, se aproximou, puxando uma cadeira, onde acomodou-se.
- Você nunca me perguntou quem era o pai de Chloe e eu nunca mencionei algo a respeito. Apenas te contei que havia engravidado novamente e perdido o bebê. O pai desse bebê seria esse meu amigo, Chad, com quem tive um relacionamento de quase três anos – a morena contou. – Chad é e sempre será alguém muito especial para mim. Eu devo minha vida a ele e ao pai dele. Mas ele não é o pai de Chloe, embora o tenha representado pelos últimos dez anos.
Hermione interrompeu-se e voltou sua atenção para o filho, que parecia não estar conseguindo mamar e estava inquieto. Ajeitou-o e esperou que ele aquietasse, então voltou a falar, ainda observando-o.
- Sei que há muito sobre mim que você não sabe e que gostaria de saber e foi por isso que te chamei aqui. Porque muita coisa aconteceu e você tem o direito de saber de tudo – ela disse e voltou a encarar o moreno, séria. – Mesmo que isso implique em te perder.
- Eu realmente não consigo ver aonde você quer chegar. E por que me perderia? Eu amo você, Hermione. Sempre amei, mesmo quando você não estava aqui, mesmo quand...
- Não diga isso, Harry. Não até ouvir tudo o que eu tenho a dizer. É mais do que vou puder suportar se você me der as costas ao final – Hermione disse, em tom de súplica.
Harry suspirou, resignado e voltou a aquietar-se, esperando que ela começasse.
- A verdade é que eu não sei o que aconteceu comigo após você ter derrotado Voldemort. Existe um grande vazio em minha memória desde o momento em que o ajudei a vencer a batalha e o momento em que acordei no St. Mungus, sob os cuidados do Dr. Sebastian Hastings.
- O pai de Chad Hastings – Harry comentou.
- Sim – Hermione assentiu. – Cheguei ao hospital muito debilitada, com princípio de infecção e foi ele quem cuidou de mim. Tudo o que sei é que fui encontrada por Chad na porta de seu apartamento dias após a batalha de Hogwarts. Ele me levou às pressas para que o pai me examinasse, tudo isso sem ao menos me conhecer – ela contou. – Somente acordei dois dias após chegar ao hospital e me identifiquei, de modo que eles pudessem contatar meus pais.
- Por que eles, seus pais, não entraram em contato para avisar que você havia sido localizada e estava bem? – Harry perguntou.
- Eles o fizeram. Avisaram Dumbledore. Mas, aparentemente, todo tipo de informação a meu respeito jamais chegaria a você. A profecia impedia a todos de citarem nossos nomes em uma mesma sentença se isso fosse alterar de alguma maneira o destino.
- Francamente, Hermione, desde quando você acredita em destino? – o moreno indagou, verdadeiramente indignado.
- Desde o momento em que tomei conhecimento da existência, de fato, de profecias. Principalmente a que nos envolve – Hermione disse, em tom calmo, ignorando a latente irritação de Harry. Sentiu Alec aquietar-se e passar a sugar seu seio com calma e pausas e baixou os olhos para fitá-lo. Adormecera. – O fato é que eu não me lembrava de nada que me relacionasse a você, Harry – ela disse, levantando os olhos para encará-lo.
- Nem que fomos amigos? Ou, pelo menos... que havíamos estudado juntos? – Hermione negou com um aceno, para decepção do moreno. – Nada?
- Não, Harry. Nada – ela repetiu. – Você se tornou um completo estranho para mim. Não passava de alguém com muita influência no Ministério da Magia britânico – explicou, antes de dar continuidade à sua história. – Bem, quando saí do St. Mungus, soube da existência de uma conta em meu nome que meus pais mantiveram por anos, até que eu concluísse os estudos e pudesse movimentá-la eu mesma. Com o dinheiro, dei entrada em um apartamento pequeno, de um quarto, aqui em Londres, próximo ao Ministério e comecei a trabalhar com Elizabeth Newbie, em um emprego que Chad havia conseguido para mim.
- Com Elizabeth Newbie? Mas isso significa... Departamento de Cooperação Internacional em Magia, e você queria ser auror! – Harry replicou.
- Sim, eu sei. E eu consegui anos mais tarde, pouco antes de me mudar para a Noruega. Chloe ainda era pequena, então eu não pude começar a trabalhar efetivamente como auror. Desse modo, me tornei instrutora da Academia Internacional de Aurores e dou aulas nas Escolas de Aurores desde então, e assim que minha licença expirar, serei efetiva na Escola de Aurores da França – a morena disse, rindo em seguida. – Vê? O destino jamais permitiria que eu fosse sua subordinada sem que você tivesse conhecimento disso.
- Que seja! Hoje eu poderia facilmente colocar você em nosso QG, Hermione. Você só precisava me pedir... – o chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia disse.
- Eu agradeço, Harry, mas hoje sou domiciliada na França e, de qualquer modo, isso já não é mais prioridade – Hermione disse e sorriu enquanto voltava seu olhar para o filho adormecido em seu colo.
Naquele instante, Chloe adentrou o aposento, tímida, por não querer interromper.
- Chamou, mamãe? – perguntou, mesmo tendo ouvido claramente a mãe chamar por ela via telepatia.
- Não se preocupe, querida. Não está interrompendo – a mãe adiantou-se em acalmar a filha. – E, sim, chamei. Vem aqui – pediu e a filha prontamente fechou a porta e se aproximou da cama onde a mãe estava com o irmão. – Eles são a minha prioridade, Harry. Sempre foram. E é por isso que estamos aqui e agora, para que tudo o que há por ser esclarecido entre nós, o seja.
- Eu sei, Hermione.
- Muito bem – Hermione assentiu e deu continuidade: – Como sabe, fiquei privada de voltar à Grã-Bretanha por anos e quando voltei, vim como Helena J. Gauer, de modo que não pudesse ser localizada e identificada como Hermione J. Granger, uma nascida trouxa. – Uma pausa. – Cheguei a Londres ao fim de outubro de 2008 e sequer imaginava que, meses depois, a minha vida e a vida de minha filha iriam mudar completamente. – Ela estudou a expressão no rosto do moreno, que claramente era confusa, antes de retomar: – Quando cheguei aqui, Harry, só sabia de uma coisa: você era o responsável por eu ter passado tanto tempo impossibilitada de voltar para perto de meus amigos e familiares, para a minha casa, e por minha filha ter crescido longe do lugar onde nascera. Se não era diretamente culpado, também não fizera nada para beneficiar os nascidos trouxas como eu. Era isso o que eu pensava de você, e Chloe não me deixa mentir. Ela, sensata, buscava entender o porquê de tudo isso acontecer e até argumentava a seu favor...
- É claro! Como alguém iria ser responsável por algo que prejudicaria a si mesmo? Afinal, a minha... – ela interrompeu-se ao perceber o olhar repreensivo da mãe. – Quero dizer, a sua mãe também era nascida trouxa, certo? – fez Chloe, ao que Harry assentiu, concordando. – E, se formos além, todos deveriam ser punidos, pois o primeiro bruxo teve que nascer de alguma maneira, não é? Teve de vir de algum lugar... Desse modo, todos os bruxos são, necessariamente, descendentes de trouxas. Uns diretamente, como é o caso dos nascidos trouxas, isto é, a minha mãe e a sua mãe; alguns, como você e eu, são filhos desses nascidos trouxas; e outros os têm por parentes distantes, talvez dezenas de gerações anteriores à própria.
Harry ficou impressionado com os argumentos de Chloe. Perguntou-se se teriam sido pensados por ela ou apenas reproduzidos. Hermione já havia ouvido discurso similar anos antes, feito por Hallie Priestly, quando fora fundada a Wendelin Phoenix, mas sabia que não fora necessário Chloe ouvir uma opinião externa para formar o seu próprio ponto de vista acerca daquele assunto. Sorriu, orgulhosa.
- Ficará surpreso em saber que Chloe não é uma simples criança, Harry.
- Imagino, então, que isso tem a ver com a mudança na vida de vocês, certo? – ele fez.
- Certo – Hermione assentiu. – Mas não é só isso. Ocorre que, quando conheci Zoe, Harry, não imaginava que ela era sua filha. E foi na noite em que... bem, em que nos encontramos em sua casa e... você sabe... ela apareceu e eu descobri que era sua filha. Mas descobri muito mais que isso!
- E o que mais descobriu?
- Eu me lembrei de você, Harry. De tudo o que nós vivemos enquanto amigos, enquanto amantes... Mas não sentia mais o mesmo que você, embora a atração fosse inegável. E com tantos segredos que eu guardava, eu não podia permitir que me apaixonasse por você novamente. Não até que tudo estivesse esclarecido, mas... Aconteceu. Com a convivência, com sua insistência... Simplesmente aconteceu.
Harry não sabia o que dizer. Estava confuso. De que segredos ela falava? Calou sua curiosidade, sabendo que ela contaria tudo, sem pressa. Mas pelo tom dela, o que quer que fosse, a fazia temer a reação dele. Perguntou-se se seria tão grave o que ela tinha para lhe dizer.
- Em paralelo a tudo isso, Chloe iniciou um treinamento que exploraria todas as suas capacidades. Acreditava-se que ela era uma Mangid, a única a ser filha e neta de outras duas Mangids. Dessa maneira, ela era rara e, portanto, poderia ser ainda mais poderosa e guardar habilidades incomuns – Hermione contou, e tamanha era a quantidade de informações que recebera na última hora que Harry sequer absorvia os detalhes, atendo-se às coisas de maior importância. – O que foi comprovado. Ocorre que todas as habilidades dela eram comuns às minhas próprias e diferentes das de Amy e Dumbledore, dois Mangids.
- Não poderiam... E o que diabos vocês seriam, se não Mangids?
- Somos uma espécie rara. Ainda mais rara, e dada como perigosa para a sociedade, Harry. Antes de nós, a última de nossa espécie... bem, pelo menos a última de que se tem ciência, viveu no século XIX. Antes dela, somente foram reconhecidas outras duas, que viveram na mesma época e ambas foram mortas no século XVII – contou. – O que não quer dizer, obviamente, que antes disso não existiram outras como nós – acrescentou. – Como você pôde notar, até então, não havia histórico de hereditariedade.
- O que torna Chloe ainda mais rara, pois não há precedentes de casos como o dela dentro de sua espécie – Harry disse, e não era uma pergunta, mas uma afirmação.
- Exatamente.
- E o que, exatamente, isso quer dizer? – Harry perguntou. – O que vocês são?
- Somos Safiras, Harry. Safiras são, necessariamente, do sexo feminino, mas, ainda assim, só foi possível Chloe ser uma porque sua mãe também era uma Safira, e não uma Mangid, como se acreditava. Isso quer dizer que qualquer filha que tivermos o será – Hermione revelou. – Portanto, Alec não faz parte disso.
- O que quer dizer com isso, Hermione? – o moreno perguntou, o cenho franzido, em sinal de clara confusão. Ele queria ter certeza de que entendera bem o que ouvira.
- Lilian Evans-Potter, sua mãe, também era uma Safira, tal como eu o sou. E esses genes, combinados, fizeram possível que Chloe pertencesse à nossa espécie – a morena explicou, antes de uma pausa, onde buscou o olhar da filha, que apertou sua mão e a encorajou. Então respirou fundo e revelou o seu maior segredo, aquele que deveria ter contado desde o momento em que acordara na cama de Harry pela primeira vez depois de todos aqueles anos: – Você é pai de Chloe, Harry. É pai de Chloe e de Alec. É isso que quero dizer.