Tarde de 31 de outubro, Carlton Oasis Hotel – Rotterdam, Holanda
Abriu a porta do quarto e deixou que a filha passasse à sua frente, levando consigo a caixa que acabaram de pegar na recepção. A garotinha colocou a caixa sobre a mesa e sentou-se à enorme cama de casal, voltando sua atenção para a mãe, que retirava as luvas e o sobretudo.
Estavam voltando de um passeio ao Euromast e ao Arboretum Trompenburg, o jardim botânico da cidade. Ela tinha a impressão de que poderiam ter visto muito mais coisas na cidade, mas estava cansada e com um leve desconforto, então resolveram voltar direto para o hotel ao invés de esticar o passeio.
- Eu vou tomar um banho e deitar para descansar, assim poderemos sair para jantar mais tarde. Continuamos nosso passeio amanhã. Levarei você ao Museu Boijmans Van Beuningen – disse à filha.
- Tudo bem – a pequena assentiu, um leve sorriso no canto dos lábios.
- Mas antes... vamos ver o que Amy tem para nós – disse, caminhando até a tal caixa que estava sobre a mesa.
- Deixa, eu pego. – A menina adiantou-se e pegou a caixa, voltando a sentar na cama, onde a mãe já se acomodara.
Abriram a caixa juntas, e a primeira coisa que viram foi um pequeno envelope branco com detalhes bem trabalhados em dourado. Um convite. Além dele, havia um livro. Não era muito grande, mas devia ter suas trezentas a quatrocentas páginas, e as folhas eram grossas, atribuindo-lhe maior volume.
- Veja, mamãe! É a sua biografia – a pequena apontou as letras douradas e em alto relevo que formavam o título do livro: “Hermione Granger: a história de uma mente brilhante”.
- Muito provavelmente há muito sobre mim que não está aí – Hermione suspirou. – Mas pode ler, se quiser. Então poderá me contar.
- Eu vou.
Hermione sorriu brevemente para a filha, que passou a folhear o livro rapidamente em busca do índice, e voltou sua atenção para a caixa. Percebeu a presença de algumas fotografias soltas, recortes de revistas, e um cartão. Reconheceu a letra de Amy com facilidade.
Ainda é difícil me acostumar com seu rosto estampado em todas as revistas e outdoors, mas é uma forma interessante de te ter presente. Você está linda, amiga. Saudade. A.
Não conseguiu conter um sorriso. Também sentia saudades, mas não era hora de revelar seus segredos ainda. Ela voltaria, mesmo que de passagem, e quando voltasse, seria para pôr um fim em todos eles.
O celular tocou e Chloe deixou de lado o livro para buscar a bolsa da mãe.
Ao receber a bolsa das mãos da filha, rapidamente encontrou o celular e checou quem ligava. Liah. Sorriu.
- Era para você ter esperado eu abrir o convite do batizado de minha afilhada para ligar – brincou.
- Ah, é claro. Porque agora eu sou adivinha, não é? – Liah resmungou com sarcasmo e Hermione quase pôde vê-la revirando os olhos do outro lado da linha. – Amy te enviou o convite, então?
- Sim, eu acabei de chegar ao hotel e pegar na recepção – Hermione assentiu, enquanto pegava o convite na caixa e o abria. – Dia 20 de novembro, às 16h, certo?
- É Liah? – Chloe indagou e Hermione assentiu brevemente.
- Certo.
- Pensei que batizados ocorressem aos domingos pela manhã.
- Eu não sigo tradições. Pensei que se lembrasse disso. De todo modo, não foi a isso que te liguei, embora o batizado de minha bebê seja muito importante, não é, princesa?
Dessa vez, Hermione teve certeza de que Liah estava sentada no quarto de Mel, em uma enorme poltrona, com a filha adormecida no colo.
- E a que ligou, então? Saudade? – Hermione brincou.
- Por que eu teria saudades, não é? Falo com você a cada dois dias... – Liah fez com pesada ironia. – Você sabe, três meses sem ver você ou minha afilhada definitivamente não são motivo para sentir saudade.
- Eu sei, estou em falta com vocês e com Amy. Mas irei ao batizado e iremos nos ver.
- Aí você vem, passa o fim de semana e vai embora novamente. Poderia vir uma semana antes, já que suas amigas fazem aniversário nos dias 11 e 13...
- Eu vou tentar chegar antes.
- Virá para o meu aniversário, então? Vê como esse ano é perfeito? Meu aniversário cai em uma sexta-feira treze! Eu já disse que amo sextas-feiras treze? Deveriam ser feriado!
- Não sei se conseguirei chegar tão cedo. Tenho alguns exames e consultas marcados para a semana de seu aniversário e para a semana do batizado. Em Paris.
Liah nada disse e Hermione teve certeza de que ela não gostara da notícia. Não era mentira, entretanto. Ela realmente deveria realizar alguns exames e comparecer a consultas médicas. Adoraria estar na presença das amigas, mas havia um motivo maior por trás de toda aquela ausência. Havia coisas que ela podia esconder apenas à distância, e ela o estava fazendo até que fosse inevitável.
Ela poderia usar a desculpa costumeira de que Chloe não podia ser vista – e realmente não podia, pois cada dia que passava ficava ainda mais evidente a sua semelhança com Harry –, mas Chloe não era a única razão. Não mais.
- Liah, você vai entender quando eu chegar aí. Prometo que tenho uma explicação plausível para minha ausência.
- Tudo bem, H. Não se preocupe. Eu entendo – Liah disse. – Parece que foi melhor mesmo eu não ter conseguido marcar o batizado para o dia de meu aniversário. A ideia era comemorar ambos numa só festa, numa data que eu gosto... Não deu muito certo por conta da indisponibilidade dos cerimonialistas. Não terei a minha afilhada e a minha amiga e madrinha de minha filha em meu aniversário, mas terei a minha afilhada e a minha amiga e madrinha de minha filha no batizado dela ao menos.
- Eu sinto muito, Liah. Eu gostaria de poder ir antes e estar com você no dia de seu aniversário. Realmente gostaria.
- Eu sei, Mione. Eu sei – Liah procurou assegurar. – Eu não estou chateada. Você diz que há uma razão, então eu acredito. Agora me deixe falar com minha afilhada.
- Se você não pedisse, ela mesma roubaria o celular de minhas mãos – Hermione riu. – Nos falamos depois, então.
Dizendo isso, entregou o celular a Chloe e retirou-se para o banho.
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Desembarcou sem nada nas mãos – sua mala tinha vindo no dia anterior – numa sala cheia de pessoas que aguardavam a chegada de entes queridos para o feriado de do Dia das Bruxas. Nem precisou procurar muito para ver uma garotinha erguer os braços no colo da mãe com um sorriso enorme no rosto. Observou a mãe colocar a garotinha no chão e esta vir correndo ao seu encontro.
Pegou-a no colo e encheu seu rosto de beijos enquanto caminhava de encontro à mãe e ao irmão dela.
- Bem-vindo a Limerick, Christow – Tiffany disse, um sorriso brincando em seus lábios.
- Obrigado. Não poderia ter melhor comitê de boas-vindas – o loiro disse.
- Fez boa viagem? – a morena perguntou.
- Rápida e tranquila. Teria vindo de carro se não fosse chegar aqui muito tarde.
- Deveria ter vindo conosco ontem – Josh comentou.
Herod riu.
- Brianna teria dito exatamente a mesma coisa – disse.
Já saíra de casa pensando na irmã. Como seria bom se ela estivesse ali. Certamente o acompanharia.
Conseguia imaginá-la reclamando por não terem ido no dia anterior, e ele explicando que o pai deles somente chegaria na madrugada daquele dia depois de passar três semanas em Boston e ficaria chateado por não tê-la encontrado em casa.
Pensar isso o lembrou que teria de ir para Boston na sexta-feira próxima. O pai já estaria lá ao seu aguardo. A verdade é que ele deveria seguir viagem com o pai na noite do dia seguinte, mas conseguira adiar a viagem até o final da semana, de modo que pudesse dar continuidade aos planos anteriores: vir a Limerick com Tiffany e as crianças.
- Sente falta dela, não é? – Tiffany perguntou enquanto seguiam para o estacionamento do aeroporto.
- Sim, mas penso que ela virá para o Natal e me vejo menos contrariado – o loiro contou.
- E contando os dias – a morena fez, rindo.
- Você parece conhecer bem a sensação.
- É, digamos que eu também tenho uma irmãzinha em Beauxbatons. Mas penso que teremos longos sete anos para nos acostumarmos com isso. Faz só dois meses que elas foram para lá...
- Tem razão – Herod assentiu.
- Como se isso realmente melhorasse alguma coisa. Nem imagino como vai ser quando chegar a vez deles...
- Eu vou estar com você – o loiro disse, pegando a mão da morena e apertando-a com força.
- Sei disso – Tiffany disse antes de encostar a cabeça no ombro do rapaz e caminharem os quatro para fora do aeroporto rumo à casa da avó da morena desa maneira; Herod com Francine, que tinha os braços em torno de seu pescoço e a cabeça recostada em seu ombro, no colo e Tiffany segurando firmemente a mão de Josh.
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Tarde de 18 de novembro, casa dos Potter – Chelsea, Londres
- Estou me sentindo uma inútil por estar aqui em pleno horário de expediente – Amy suspirou enquanto deixava-se cair no sofá ao lado de Aaron. – Mas estou me sentindo tão bem!
- Férias não fazem mal a ninguém, Amy. Eu sempre disse isso! – Harry brincou.
- Não são férias, e você sabe disso. Todo o departamento foi dispensado por duas semanas. Segunda-feira estou de volta ao trabalho – Amy replicou.
- Liah está de licença há dez meses, não poderá reclamar quando tiver de voltar ao trabalho – Scott disse.
- Acho muito importante ressaltar que seis desses dez meses foram de licença médica por conta da gestação de risco. Eu não sou uma inútil, ouviu bem, Olivier? – Liah fulminou o marido com os olhos, enquanto ajeitava a pequena Mel no colo. – E ainda tenho quatro semanas de licença maternidade. A melhor parte disso tudo é que volto, trabalho por uma semana, e então temos as festas de fim de ano. Fico de férias novamente só em julho.
- Nossa chefe vai arrancar de você cada gota de sangue e suor que puder antes que entre de férias novamente – Aaron disse, e, embora seu tom fosse sério, claramente estava brincando.
- Liah é mascote de Elizabeth Newbie, meu amor. Você está por fora! – Amy disse ao marido.
- Muito engraçada você, cunhadinha. Uma pena que esqueci de rir de sua piada!
- Aposto como ela sente saudades dos tempos que éramos colegas lá no Departamento de Execução das Leis em Magia, não, Liah? – foi Harry quem alfinetou dessa vez.
- Eu já trabalhava lá há seis meses quando você chegou, Potter. Fomos colegas por um ano. Antes de eu ir morar na Suécia. Quando eu voltei, você já era meu chefe. E mesmo assim não fiquei por muito tempo. Só um ano e oito meses. Você sabe, não é saudável trabalhar no mesmo ambiente que alguém com quem você se relaciona. E eu não suportaria trabalhar sob a supervisão de Scott. Jamais!
- Claro, muito melhor trabalhar para a Dama de Ferro no Departamento de Cooperação Internacional da Magia – Scott fez em tom pesado de ironia.
- Trabalho com ela desde 1996 e não tenho de que me queixar – Aaron disse.
- E eu desde 2003. Sei que ela sofre de um complexo de superioridade, mas é natural dos leoninos. Então eu busco irrelevar isso. Não por acaso você também é chefe de um departamento, não é, Potter? – Liah alfinetou.
- Eu discordo. Harry é bastante flexível – Scott se posicionou.
- É claro que você discorda, não é, Olivier? Ele é seu chefe e nós estamos na casa dele, na presença dele. Só diria o contrário se quisesse deixar sua filha e sua mulher morrerem de fome!
- Vejam que Harry é o que menos fala – Aaron brincou.
- Se a palavra é de prata, meu caro Aaron, o silêncio é de ouro. Prefiro me divertir ouvindo – Harry se colocou.
- Ele está é de ouvidos bem abertos para o que está rolando no andar de cima, isso, sim – Amy observou. – Pode deixar, Harry, vou dar uma olhada nas crianças.
E Amy se retirou, rumo ao andar superior, onde Gwen e Sean brincavam com Zoe.
- Daqui a pouco é Mel quem vai estar lá com as crianças – Harry comentou.
- Ah, não. Não creio muito nisso. A diferença de idade dela para as outras crianças é muito grande – Liah observou. – Provavelmente será com outra geração.
- Que bobagem! Tem crianças de todas as idades e elas se misturam, você sabe muito bem disso – Aaron pontuou.
A campainha tocou.
- Quem será? – Harry se perguntou.
- Você estava esperando alguém além de nós? – Liah perguntou.
- Não. E mesmo que estivesse, o convidado já teria perdido o almoço – o moreno de olhos verdes comentou.
- Sr. Potter? – a voz rouca de Betty chamou e todos viraram-se para ver quem se juntara a eles.
- Hermione? – fizeram Liah, Harry e Amy – ainda na escada – em uníssono.
- Chloe! – Gwen, Sean e Zoe – no colo de Amy – gritaram, animados.
- Com licença – Betty disse antes de se retirar.
Hermione observou a configuração da sala. Aaron estava sentado sozinho num sofá e Scott em outro, o qual Liah também ocupava instantes antes com Mel em seu colo. A morena estava agora de pé com a filha nos braços. Harry, que antes estava sentado no braço do sofá que Aaron ocupava, também estava de pé. Amy, que descia as escadas com Zoe no colo, colocava a pequena no chão. A loirinha estava correndo para se juntar a Gwen e Sean, que já estavam com Chloe ao seu lado.
Uma coisa todos tinham em comum: a expressão de um misto de confusão e surpresa em suas faces. Eles a fitavam como se ela fosse uma aberração.
Como que por instinto, ela levou uma mão à barriga, como que para protegê-la daqueles olhares e puxou Chloe mais para perto com a mão que já repousava no ombro da pequena, apertando-o de leve.
- Desculpem chegar assim, sem avisar, mas queria fazer uma surpresa – foi tudo o que disse.
- E conseguiu – Amy disse, agora já posicionada entre Harry e Hermione. – Herms, quando...?
- É uma longa história. Podemos conversar sobre isso depois? – Hermione adiantou-se, sabendo que não conseguiria evitar as perguntas por muito tempo.
- Ah, que saudade! – Liah exclamou e rapidamente veio ao encontro da amiga. – Olha quem está aqui, princesa! É a sua madrinha, está vendo?
- Ela está enorme, Liah. E linda! – Hermione disse, enquanto pegava a afilhada no colo. – Scott, você vai me desculpar, mas ela é a cara de Liah!
- É, eu sei – Scott comentou, rindo. – Bem-vinda de volta, Hermione.
- Obrigada – Hermione disse, entre brincadeiras e beijos para com Mel.
Houve ainda um período de desconforto, no qual Harry e Hermione trocaram apenas olhares. Amy também falara pouco, e optara por ficar mais próxima de Harry, tentando mantê-lo calmo e controlado e observando a ele e Hermione.
Qual não fora a surpresa de todos ao vê-la parada ao lado de Chloe, que mudara visivelmente e agora estava quase do tamanho da mãe, com uma barriga enorme que devia estar em seu sétimo ou oitavo mês de gestação?
Passado o primeiro momento, Harry, Scott (que cuidava de Mel) e Aaron conversavam à um sofá da sala de visitas, enquanto Hermione, Liah e Amy conversavam sobre os acontecimentos dos últimos meses noutra sala.
- Foi por isso que decidiu ir embora, então? – Amy perguntou.
- Sim. Só coincidiu de a visão ter ocorrido no mesmo dia em que Harry foi embora. O mesmo dia que eu passara a noite com ele e fora embora de manhã cedo sem me despedir por conta de Chloe, que tentava me contatar.
- Calma, deixa eu ver se eu entendi – Liah fez. – Vocês jantaram aqui, passaram a noite juntos, você foi embora de manhã cedo sem se despedir, ele pensou que você tinha se arrependido da noite que tinham passado juntos...
- Não temos como saber, Liah – Hermione comentou.
- Parece que foi exatamente isso o que aconteceu, Hermione. E nós três sabemos disso! – Amy retrucou.
- Que seja! Deixem-me continuar meu pensamento... Ele pensou que você tinha se arrependido por ter cedido e que por isso tinha ido embora sem se despedir, então decidiu que iria mais cedo para o Brasil, viagem que já estava programada há tempos e que ele não comentara com você...
- Ainda não comentara – Amy corrigiu.
- Ou isso – Liah revirou os olhos. – Ao mesmo tempo, você admitia para você mesma...
- E para minha mãe...
- ... que estava apaixonada novamente por ele, decidiu contar sobre Chloe e quando chegou aqui...
- Ele já tinha ido – Hermione completou. – Mais tarde, já de volta a Orléans, onde eu estava hospedada com Chloe na casa de minha prima, eu tive uma visão. Eu vi que estaria grávida no batizado de Mel.
- Então você sabia que tudo correria bem no parto de Mel? – Liah indagou.
- Na verdade, não – Hermione disse.
- O que quer dizer com “na verdade, não”? – foi a vez de Amy questionar.
- Se eu não tivesse interferido no parto de Mel, Liah teria sofrido uma hemorragia grave. Foi por isso que eu fui conversar com Keira antes do parto. Eu pedi para ela me examinar, ver como eu e meu bebê estávamos. Eu tinha que saber se eu estava saudável o suficiente para intervir.
- E isso gerou consequências para você, certo? – Amy fez.
- Sim – Hermione assentiu.
- Que consequências? – Liah perguntou, nervosa.
Hermione hesitou.
- Que tipo de consequências, Hermione? – Liah insistiu.
- Eu tive um sangramento naquele mesmo dia, Liah. Eu absorvi a sua hemorragia. Tive que ser atendida e medicada emergencialmente por Keira logo após o seu parto. E minha gravidez também passou a ser delicada. E isso só confirmou a minha visão. Foi por isso que eu fui embora. Para proteger a mim mesma e a essa criança – Hermione contou. – Além disso, tinha Chloe, ficando cada vez mais parecida com Harry...
- É inegável a semelhança, Hermione. As pessoas vão comentar... – Liah observou. – E ele não é burro, sabe que esse filho pode ser dele também.
- Mas ele está em dúvida. Eu li os pensamentos dele. Ele acha que as chances de esse filho ser dele são as mesmas chances de ser filho de outro.
- Que outro? – Amy perguntou.
- Chad. O suposto pai de Chloe.
- Chad? Que história é essa? – Liah fez, estupefata.
- Você sabe que eu perdi um filho de Chad, Liah.
- Sim, eu sei! Mas Chad está com Elloe há dois anos – Liah argumentou.
- Ele só sabe que eu morei com um cara e que perdi um filho desse cara. Nada além disso.
- Isso é bom e ruim para você – Amy disse.
- Eu sei – Hermione assentiu. – De todo modo, com Chloe ficando tão parecida com Harry, eu teria que evitar sair com ela. Sem falar que a barriga cresceria e também chamaria atenção... Como eu explicaria a todos a semelhança de Chloe com Harry e esse segundo filho “sem pai”? Ou então... Como eu explicaria a Chloe a necessidade de ela ter de se transfigurar para sair de casa?
- Eu entendo... - Amy assentiu. – É, seria complicado para você estar aqui. E quando Harry soubesse que você estava grávida, largaria tudo no Brasil e voltaria na mesma hora para Londres.
- E como Chloe está lidando com essa gravidez? – Liah perguntou.
- Ela me perguntou quem era o pai – Hermione respondeu com simplicidade.
- E o que você disse?
- Que, no momento certo, ela saberia.
- E ela?
- Ela está feliz por ganhar um irmão ou uma irmã...
- Espera – Liah interrompeu. – Então você não sabe se é menino ou menina?
- Não, não sei. Assim como eu não sabia quando Chloe nasceu. Eu gosto da surpresa – Hermione contou. – Eu só sei que você será a madrinha, Ames.
- Eu? – Os olhos de Amy brilharam em expectativa. – Sério? – Hermione sorriu e assentiu. – Oh, Herms! Que honra ser madrinha de um bebê Potter! Ainda mais sendo filho ou filha de minha melhor amiga...
- Parece até que ela não sabia – Liah zombou e Amy revirou os olhos para a cunhada.
- Mas então, Chloe não questionou mais? – Amy retomou a conversa.
- Eu prometi a ela que contaria esse fim de semana, quando estivéssemos aqui, e que ela conheceria o pai do irmão ou da irmã dela.
- Que é o mesmo pai dela – pontuou a Sra. Olivier.
- É, ela só não sabe disso ainda. Mas eu já planejei tudo. Ia contar hoje, mas como vocês estão todos aqui... Decidi que deixaria para depois do batizado. Assim, se tudo der errado, o clima não ficará chato na festa de Mel – sentenciou. – Mas há outra coisa incomodando Chloe. Um dilema. Algo que ela anda se questionando desde antes de irmos morar em Paris.
- O quê? – indagaram Amy e Liah em única voz.
- Ela não quer que eu e o pai dela fiquemos juntos.
- Como é? – as outras duas fizeram, novamente em uníssono.
- É, e tem medo de o pai do bebê querer se casar comigo também. E sabem por quê? – Hermione fez uma pausa, divertindo-se com as caras das amigas de curiosidade e confusão. – Ela acredita que Harry é apaixonado por mim e quer que eu fique com ele, e acha que o pai dela ou o pai do bebê vão atrapalhar se aparecerem agora. Que tal?
Foi o suficiente para que as três caíssem no riso.
- Mamãe? – a voz de Chloe se fez presente e elas pararam de rir, voltando-se para fitar a garotinha, que adentrava o aposento com um pesado livro nas mãos.
- Sim, querida? – Hermione atendeu, prontamente.
- Olha o livro que o pai de Zoe me emprestou? – Ela mostrou enquanto se aproximava.
- Hum, eu conheço esse livro – a morena disse ao ver o título “Hogwarts: uma história” quase desaparecendo.
- Eu sei, foi você quem falou dele para mim, lembra?
- Lembro, sim, anjo.
- E foi você quem deu para o pai de Zoe também quando vocês ainda estudavam em Hogwarts, não é?
- Sim, fui eu.
- Ela pediu tanto que não tive como negar – Harry disse enquanto juntava-se a elas.
- Vou ver como Mel está e dar um descanso ao meu marido. Volto já – Liah disse antes de sair de fininho com Amy, deixando Hermione na companhia da filha e de Harry.
- E devo dizer que estranhei o fato de ela não ter esse livro – o moreno comentou.
- Ela já me prometeu comprar quando formos ao Beco Diagonal – Chloe contou.
- Vê? Não sei a quem puxou... – Hermione brincou, apertando as bochechas da filha. – Mas obrigada por emprestar, Harry. O meu está em York, então...
- Imaginei que não estivesse acessível – Harry comentou.
- Guarda para mim, mamãe. Vou voltar a brincar com Zoe, Gwen e Sean. – E dito isso, Chloe disparou corredor afora.
- Eu sabia que ela iria querer ir à sua biblioteca hoje. Ela sempre fala que sua biblioteca é enorme! – a morena contou.
- Já disse a ela que pode vir sempre que quiser.
- Obrigada pela paciência, de verdade.
- Não há o que agradecer, Hermione – Harry assegurou.
- Faço questão. – Hermione buscou a mão de Harry e a segurou com força. Ele estava sentado no braço do sofá, bem ao lado dela. – Harry, eu... Olha, existem muitas coisas mal explicadas e mal terminadas entre nós dois e eu acho que nós temos que conversar a respeito. Nós devemos isso a nós mesmos.
- Eu sei.
- Eu não queria ter ido embora daquele jeito naquele dia, sem me despedir. Mas Chloe e eu... Nós temos uma ligação muito forte, e ela estava se concentrando em mim logo pela manhã cedo e eu fui correndo, sem pensar. Eu...
- Eu pensei que tinha se arrependido.
- Como poderia ter me arrependido de uma noite linda como aquela que tivemos? – Hermione questionou. – Não, Harry. Eu não me arrependi. Eu voltei depois, horas mais tarde, e você já não estava mais aqui. Então procurei Amy e ela me disse que você tinha ido para o Brasil.
- E pensou que eu havia desistido de você.
- Pensei – admitiu.
- Eu voltei no dia 18 de setembro. Você sabe que dia é, não sabe?
- A véspera de meu aniversário – Hermione assentiu.
- Eu programei a volta exatamente para lhe fazer uma surpresa em seu aniversário. E qual não foi a minha surpresa quando vi seu rosto em todos os outdoors da cidade e nas capas de revistas? – Ele pegou cinco ou seis revistas e entregou a ela, todas com fotos das campanhas de joias e maquiagem que ela estrelara. – E quando encontrei Amy, recebi a notícia de que você tinha ido embora novamente.
- Você podia ter ido me encontrar. Sabe onde moram meus avós, meus tios, minha família...
- Eu achei que talvez fosse melhor eu dar um tempo. E como você não aparecia aqui nem para os aniversários, pelo que ouvi dizer...
- Eu estava trabalhando. Eu tinha que adiantar as coisas, deixar tudo em dia para o período em que passaria fora. Você nem imagina como foi terrível não ter vindo para os aniversários de minhas melhores amigas e não ter passado o meu aniversário com elas. Eu estava em São Petersburgo no dia de meu aniversário, viajando a trabalho. Nem mesmo com Chloe eu passei. E essas duas semanas... Eu estava fazendo exames e indo a consultas médicas. A última consulta foi ontem e eu estou entrando em licença médica a partir de hoje.
- Já está com nove meses?
- Sete. Mas preciso de repouso. Então a médica me concedeu licença médica de seis semanas antes do início da licença maternidade. Mas não acredita que eu vá precisar das seis semanas.
- Por quê?
- O bebê nasce antes disso – Hermione explicou. – É uma longa história, mas teremos tempo para eu te contar depois.
- Hermione, existe a possibilidade...
- Harry, vamos deixar qualquer conversa sobre nós para depois, ok? Conversamos depois do batizado de Mel. No sábado. Saímos para almoçar e conversamos. Combinado?
Harry encarou-a, o cenho franzido, tentando entender o que ela queria propôr com aquela conversa, mas assentiu:
- Combinado.
- Ótimo. Agora vamos nos reunir com o pessoal. Estou com saudades de todos – ela disse, antes de se pôr de pé e segurar no braço dele, de modo que caminhassem juntos de volta para a sala de visitas.
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- Chloe! – ela ouviu a voz da mãe, imperativa, vindo do quarto defronte chamar seu nome.
- Eu sei, mamãe, já estou indo – respondeu de imediato.
- Já está tarde, mocinha – Hermione insistiu.
- Eu não vou para a escola amanhã, posso ficar acordada até mais tarde hoje – Chloe argumentou.
Hermione pareceu ponderar por um instante, as mãos pousadas na cintura. Chloe lançou-lhe um olhar inocente. “Só mais meia hora, vai!”, a pequena pediu via pensamento. Hermione então sorriu.
- Tudo bem. Mas só meia hora, ok? Já passa das 23h e eu já estou indo dormir. Preciso de repouso. O dia foi puxado hoje e seu irmão está bem inquieto e pesado.
- Por que você sempre fala “irmão” e não “irmã”?
- Porque “irmão” soa mais neutro – a mãe explicou enquanto acariciava a barriga. – Agora deixa mamãe e seu irmãozinho irem dormir. – Ela então abaixou-se e beijou a bochecha da filha. – Boa noite, anjo.
- Boa noite, mãe – Chloe disse e observou a mãe se dirigir ao próprio quarto antes de voltar as atenções para o livro que pegara emprestado na biblioteca do pai de Zoe.
Já havia lido dois capítulos, mas, olhando o índice, interessou-se por um capítulo mais avançado. Decidiu dar uma olhada nele antes de seguir a leitura natural do livro. Mordendo o lábio inferior, ergueu o pesado livro alguns centímetros do colo para poder manuseá-lo. Abriu-o pouco após a metade e depois passou a folheá-lo com atenção, buscanco pela página que dava início ao capítulo procurado. Parou, porém, antes de alcançar a página desejada, sua atenção foi tomada inteiramente por seis fotos que ali estavam presentes.
O pai de Zoe, Harry, aparecia na primeira delas – e muito bem acompanhado. Foi preciso que Chloe olhasse a foto com mais atenção após o choque inicial para perceber... Sua mãe. Era ela quem acompanhava o pai de Zoe na foto. E eles pareciam... bem íntimos, ela notou. Pareciam... namorados.
Harry e Hermione apareciam juntos na imagem. Ambos vestiam-se socialmente e de branco, o que fez Chloe imaginar que era uma comemoração. Ano novo? Ele a abraçava pela cintura e beijava o ombro bronzeado de sua mãe. Ela sorria abertamente e o olhava de esguelha.
Noutra foto, aparecia toda a sua família – os tios de sua mãe, Carl e Marcia; as filhas deles e primas de Hermione, Hilary e Ashley; e seu avô Stan e sua avó Jane –, além dos dois, Harry e Hermione.
Uma terceira trazia Harry e Hermione, em outra ocasião, ela notou por conta das roupas, estas também sociais e ainda mais formais que as da primeira foto. Seria um casamento? Uma formatura? Pouco importava a Chloe. Observou os detalhes da foto... Hermione tinha as mãos entrelaçadas atrás do pescoço dele, e ele a abraçava pela cintura, puxando-a para si. Ele tinha a cabeça levemente inclinada e, a julgar pelos rostos colados e pela pouca diferença de tamanho, sua mãe usava um salto bem alto. Eles sorriam para a foto e pareciam felizes. Chloe não deixou de notar, também, nos dedos anelares das mãos direitas de cada um deles, que mal apareciam na foto, mas não era difícil identificar que a aliança de ouro branco que sua mãe sempre usara naquele mesmo dedo tinha uma cópia, e esta pertencia ao pai de Zoe.
A quarta foto pertencia à mesma festa da foto anterior e parecia ter sido tirada antes da mesma. Aqui eles pareciam totalmente alheios à quem tirava a foto, visto que trocavam um beijo no momento em que fora tirada.
Chloe ficou observando aquela imagem por vários minutos. Não que precisasse entender alguma coisa além do que já estava claro: sua mãe já namorara o pai de Zoe no passado. Havia, entretanto, uma porção de dúvidas girando em sua cabeça: por que eles não estavam mais juntos? Por que sua mãe nunca lhe contara que namorara com Harry Potter? Ela, inclusive, parecia odiá-lo meses antes. Mas depois que vieram morar em Londres e eles se reencontraram, ela já não parecia mais ter aquela raiva de antes. O que havia acontecido entre eles no passado que os levara a se afastar? O que acontecera para fazer sua mãe quase o odiar? E... Como ela parecia ter superado aquela aversão?
Lembrava-se de sua mãe ter dito que Harry fora seu melhor amigo e, aparentemente, retomara o posto desde que se reencontraram. Eles pareciam se dar bem, e Harry amar sua mãe. Ou melhor, parecia ainda amar sua mãe até hoje. E alguma coisa dizia a ela que sua mãe também gostava dele. Se não gostasse da mesma maneira que ele gostava dela, algo de especial ainda sentia por ele.
Buscou a foto seguinte, a penúltima. Nela, sua mãe aparecia rodeada de amigos – e Harry estava entre eles. Ainda trajavam as mesmas roupas das duas fotos anteriores. Observou-a com atenção e percebeu que fora tirada no mesmo dia da formatura de sua mãe em Hogwarts. Sim, ela já vira outras fotos daquele mesmo dia, onde sua mãe aparecia com seus avós e com aquele mesmo vestido. Isso significava que... Chloe interrompeu seus pensamentos, sentindo uma apreensão imensa a envolver. Ela sempre ouvira sua avó dizer que Hermione já estava grávida na formatura.
- Vê essa foto, querida? É da formatura de sua mãe.
- Ela está tão bonita, não é, vovó? – Chloe comentara.
- Sim, querida, está. E sabia que você já estava na barriga dela aqui? – Jane contou, apontando a foto.
- E por que eu não estou vendo?
- Porque ela ainda não sabia, mas você já estava guardadinha na barriga dela, crescendo.
Aquela lembrança tinha anos. Cinco. Talvez seis. Ela ainda era pequena, mas recordava-se com exatidão. E outras tantas vezes aquele diálogo se repetira, com algumas alterações, mas sempre com a mesma essência.
Chloe teria se levantado naquele exato momento para questionar a mãe sobre a sua nova descoberta. Queria saber se estava certa ou não, mas conteve-se. Havia uma foto para olhar. Depois ela poderia falar com a mãe.
Então, a última foto. Ao vê-la, franziu o cenho. Por que Harry estava com outra mulher naquela foto? Uma mulher ruiva, olhos verdes e grandes, com um sorriso lindo. E grávida.
- Mas a mãe de Zoe não era loira? – ela pensou em voz alta.
Com mais atenção, buscou os detalhes da foto. Harry abraçava a mulher ruiva por trás, exatamente como fazia com sua mãe na primeira foto, mas os dois tinham as mãos sobre a barriga dela – que devia estar em seu quinto ou sexto mês de gestação – e olhavam diretamente para a câmera. Foi então que notou algo que mudava tudo: os olhos de Harry não estavam verdes. Estavam castanhos.
Comparou a foto com a primeira, onde Harry aparecia com sua mãe. Ele estava diferente. Além disso, a fotografia onde ele aparecia com a ruiva parecia ser mais antiga do que aquela na qual estava com sua mãe. O que era impossível.
Olhou o verso da foto e encontrou sua resposta:
Lily,
Esse é o nosso Harry crescendo.
É o nosso amor florescendo e dando frutos.
Com amor,
James.
22 de Abril de 1980
Então aqueles eram os pais de Harry? Aqueles eram... Ela engasgou-se com a própria saliva, os olhos enchendo-se de lágrimas. Mordeu o lábio inferior e piscou os olhos com força, espantando as lágrimas. Suas mãos tremiam. Fechou os olhos e respirou fundo, buscando controlar-se.
Voltou à foto, concentrando-se nos olhos da mulher ruiva. Aqueles olhos verdes... Apressada, buscou a foto em que sua mãe e Harry estavam na formatura. Os olhos dele... Então, sem mais, buscou a própria foto sobre criado-mudo. Seus olhos... Eram os mesmos olhos.
Recordou-se, então, de algo que Amy lhe dissera, cerca de sete meses antes:
- O formato do rosto é de sua mãe, embora mais cheio. Os lábios são exatamente iguais aos dela, também. Já as sobrancelhas e as covinhas nas bochechas são de sua avó, Jane. Sabe, ela e sua mãe são muito parecidas, e você também, mas as sobrancelhas e as covinhas sua mãe não tem – Amy dissera enquanto torneava-os delicadamente com o dedo. Ela tinha um sorriso brando brincando em seus lábios. – Seus olhos e seu queixo são idênticos aos de seu pai, seu nariz e seu sorriso são de sua outra avó, de quem seu pai herdou os olhos que você também tem.
Sem mais, largou as fotos sobre o livro e fitando um ponto qualquer da parede do quarto sem nada enxergar, murmurou:
- M-meu pai... Meu pai... E-eu... Eu sou... Eu sou irmã de Zoe – fez. – Eu sou filha de Harry Potter.