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51. Capítulo LI


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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- Como... – Jason murmurou, bestificado. Sua voz morreu e ele balbuciou coisas incoerentes antes de sua voz tornar-se novamente inteligível e audível. – Mas ela é uma Safira!


- Mas não há incidências de Safiras desde o século XIX – Amy comentou, ainda assombrada com a revelação.


- Sim, elas são muito raras. Somente tivemos três casos de Safiras na história do mundo bruxo – Dumbledore assentiu. – Até agora.


- E todas foram mortas... assassinadas – Amy acrescentou.


- Uma Safira! Eu estou diante de uma Safira! – McCoy ainda murmurava coisas sem sentido, embora agora estivesse claramente fascinado com a perspectiva de ter treinado uma Safira e estar diante dela, embora amedrontado pelo fato de ela ser o que era.


- Foram assassinadas por representarem perigo para a sociedade. Pelo menos, era isso que acreditavam aqueles que dedicavam suas vidas ao estudo dessa espécie tão rara – Dumbledore explicou. – O fato de serem mulheres e poderosíssimas amedrontava a muitos. A mulher sempre foi tida como pagã por natureza e com tantos poderes atribuídos a seres do sexo feminino, era de se esperar que fossem cruelmente julgadas e atacadas.


Uma breve pausa.


- Duas das três safiras que foram reconhecidas como tal viveram na mesma época. Todos sabiam que não era fácil matar uma Safira e, portanto, elaboraram um plano tão perfeito e que foi executado com tanta precisão que ambas foram facilmente eliminadas.


- Fizeram com que elas se enfrentassem – Hermione concluiu. – Uma Safira só pode ser derrotada se suas forças estiverem esgotadas e nada melhor que um ser semelhante para desgastá-la até o seu limite.


- Exatamente. E não é preciso explicar a você a dimensão de seus poderes porque você já os conhece melhor do que a nós mesmos – Dumbledore acrescentou. – Sabe o quão perigoso pode ser para você se alguém souber o que você é, não sabe? E sabe que é perigoso para as pessoas estarem próximas a você...


Hermione não acreditou nas palavras que estava ouvindo, principalmente por virem de Dumbledore.


- Eu não seria capaz de machucar ninguém! – Ela se colocou de pé num salto, furiosa, e uma das peças de cristal que estava sobre um aparador explodiu, fazendo Fawkes bater as asas freneticamente e soltar um pio agudo. – Eu... – Respirou fundo antes de continuar, acalmando os ânimos. – Eu sei do que sou capaz, mas jamais faria mal a alguém, se essa não fosse a minha intenção.


- Herms, ele estava apenas falando de seu autocontrole. Ele está sendo apenas realista! Qualquer deslize pode determinar muita coisa. É necessário que você tenha muita força e total controle sobre seus instintos, seus sentimentos e poderes. Qualquer mudança súbita de humor pode causar o que acabou de acontecer... E você nunca saberá o que... ou quem vai atingir – Amy apaziguou. – Nós confiamos e acreditamos em você, sabemos que você consegue manter-se sobre controle.


Hermione encarou Amy e suas narinas se alargaram, enquanto ela mais uma vez respirava fundo e finalmente assumia o controle de si própria. Então assentiu para a amiga e virou-se para Dumbledore e McCoy.


- E Chloe... E minha filha, ela é uma Safira também? – indagou.


- Ao que tudo indica, sim – Amy assentiu.


- O que é muito incomum, porque não houve casos de Safiras que tiveram filhos semelhantes a elas nesse aspecto. Na verdade, somente uma das Safiras chegou a procriar, mas seus filhos, e foram seis, cinco garotas e um garoto, não demonstraram em momento algum serem como ela – McCoy respondeu.


- Se fosse algo genético, provavelmente as cinco garotinhas seriam Safiras – Amy pontuou.


- Mas Chloe, a minha filha... filha de uma Safira... também o é – Hermione fez. – Se não é genético, como isso seria possível? Quais as chances de eu ter uma filha como eu? Uma em um bilhão?


- Menos que isso, Hermione – McCoy garantiu. – Uma em um trilhão, e talvez menos até que isso.


- Na verdade... Eu penso que talvez fosse inevitável – Dumbledore falou, após um longo instante de silêncio.


- O que quer dizer com isso? – Hermione voltou-se novamente para ele, agora verdadeiramente assustada. – Todos os filhos que eu tiver...


- Não – Dumbledore imediatamente negou. – Chloe ainda é uma raridade. E ainda maior do que já era. É claro que se tiver mais filhos... filhas, mais precisamente... talvez elas sejam como você. Mas há algo mais. Suas suposições não estavam de todo erradas, Jason. Talvez o pai...


- Mas Harry é filho de uma Mangid! – Amy comentou, interrompendo-o.


Dumbledore fitou Amy por alguns segundos antes de continuar:


- Mais do que isso, Amy... Me pergunto se Lílian também não era uma Safira.


---


Ela saiu do Ministério às pressas rumo ao estacionamento. Iria parar num restaurante qualquer para almoçar e seguiria para uma visita a trabalho. As crianças estavam de férias e em casa, provavelmente se divertindo com os mimos de Cissa, então ela poderia seguir livremente com seus planos e, com sorte, retornaria mais cedo para casa.


A chave do carro ia segura à sua mão, bem como a pasta preta que sempre a acompanhava.


Ao virar a esquina, notou uma figura recostada em seu carro, um sorriso torto brincando em seus lábios. Ela sorriu e baixou a cabeça, balançando-a, descrente. Tornou a levantar os olhos, e acenou brevemente para a sua nova companhia.


Ela estava a poucos passos do carro quando ele, enfim, desencostou-se do carro e deu dois passos em sua direção. Ela parou a cerca de um metro e meio de distância.


- Está me seguindo? – ela perguntou.


- Na verdade... – Ele começou enquanto coçava um ponto no pescoço, como que pensasse. – Não, eu não estou. Tecnicamente, eu deveria estar acompanhando você desde a sua sala para estar a seguindo, e eu somente a encontrei aqui fora.


- Hã, sei. – Então ela sorriu. – E qual seria o motivo da sua ilustríssima visita, Christow?


- Estou falando sério, Haase. Eu estava passando por aqui e... você sabe, acabei de chegar de viagem, então vi seu carro e, sabendo que teria de sair para almoçar, resolvi esperar e fazer o convite para que viesse comigo – ele explicou. – Afinal, bons amigos também almoçam juntos.


Tiffany olhou-o desconfiada, mas não conseguiu evitar e sorriu.


- Chegou numa má hora, amigo. Eu realmente não estou disponível hoje – disse. – Quero dizer, estarei ocupada numa visita a um cliente do Ministério em Fulham, então... Meu almoço será algo como um sanduíche natural e suco de clorofila, comprados num drive thru de uma dessas lanchonetes ‘naturebas’ – acrescentou. – Fica para a próxima.


- Pelo menos não foi um não – Herod brincou. – Ah, vamos lá! Prometo que não tomarei muito do seu tempo. Podemos almoçar rapidamente no Quo Vadis e depois eu trago você aqui para pegar seu carro. Acho que você pode me dar uma hora, não?


- Por que você é tão insistente? – Tiffany perguntou, revirando os olhos.


Herod não respondeu, apenas alargou seu sorriso e arqueou as sobrancelhas.


- Tudo bem. Uma hora – ela concordou e checou o relógio. – São exatamente 12h18. Às 13h18 eu tenho que estar de volta, entendeu bem?


- Perfeitamente, capitã! – Herod bateu continência, arrancando mais um sorriso de Tiffany. Ao passar por ela, a caminho do carro, beijou-lhe a bochecha, ao que ela revirou os olhos e balançou a cabeça negativamente. – Por favor... – Ele abriu a porta de sua Mercedes ML 500 para que ela se acomodasse e fechou a porta, encaminhando-se para o assento do motorista.


Enquanto ambos colocavam os cintos de segurança, ela o encarou, com falso ar de seriedade.


- Você é a criatura mais petulante que eu conheço – disse, ao que Herod soltou uma sonora gargalhada antes de colocar os óculos escuros e arrancar com o carro.


---


- É possível que eu tenha ficado mais redonda durante a noite? Eu não estava tão grande assim ontem. Eu posso jurar – Liah resmungou.


Scott apenas riu e sua mão abandonou a marcha do carro, pousando em seguida sobre a barriga de quase nove meses da mulher. Acariciou-a, tirando brevemente a sua atenção da rodovia e desviando-a para a mulher e a criança que ela carregava em seu ventre.


- Eu gostaria, realmente gostaria, que o parto fosse feito esta tarde. Eu perderia pelo menos metade dos doze quilos que adquiri com a gravidez – Liah continuou seu discurso, ignorando o silêncio do marido. – Além disso, eu poderia ver o rostinho amassado da garotinha que tem me feito engordar mais e mais a cada dia. E amá-la cada vez mais ainda assim – a morena completou, com ternura, enquanto uma mão pousava sobre a mão de Scott e a outra acariciava com carinho a própria barriga.


- Falta muito pouco agora – Scott a acalmou.


- Eu não sei se vou aguentar mais uma semana, Scott – Liah disse, o cenho franzido em aflição. – Não sei se Mel vai querer ficar aqui por mais uma semana.


- Deixe que Keira diga o que é melhor para vocês duas – o moreno disse, sério, ao estacionar o carro e puxar bruscamente o freio de mão. Ele encarou Liah, mas antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ela levou o dedo aos lábios dele, calando-o.


- Scott, você sabe que o melhor para nós pode simplesmente não existir, porque certamente nada será fácil nos dias que se seguirão. Não quero que se apegue a essa segurança de que tudo vai dar certo. Eu estou bem consciente de que as coisas não são tão simples e quero que você também esteja.


- Eu estou.


- Não, você não está. Você se apegou à esperança de que todos deixaremos o hospital juntos, felizes e que nada poderá abalar essa nossa felicidade – Liah insistiu. – Quando decidimos ter essa criança, quando decidimos que estava, enfim, na hora de tentar novamente, acreditávamos – e você muito mais do que eu, porque eu estive relutante todo o tempo – que as coisas poderiam ser diferentes e mais uma vez o destino nos pregou uma peça. Ao aceitar essa gravidez, logo após a confirmação e os resultados dos primeiros exames pré-natais, nós estávamos cientes do risco que ela representava.


- Liah, amor...


- Eu não quero que você pense que eu estou crucificando nossa filha antes mesmo de ela nascer. Ela não tem culpa de nada. E você sabe que eu a amo mais do que tudo, e que seria capaz de dar a minha vida por ela, para que ela nasça com saúde. E eu aceitei o desafio. Eu posso partir, desde que ela esteja bem. Sei que você será o melhor pai do mundo, Scott...


- Não diga isso, Liah. Não podemos saber o que vai acontecer. Além disso, você sabe que eu estarei ao seu lado até o último minuto, independentemente do que aconteça. – Scott ergueu a mão e afagou a bochecha da esposa. – Não sou eu que estou me apegando à idéia de que tudo vai dar certo. É você quem está se apegando à ideia de que para você este é o fim.


Liah suspirou e baixou os olhos. Ela fitou a barriga e acariciou-a, fazendo movimentos circulares com as mãos. Sorriu tristemente.


- Eu não conseguia mais me imaginar grávida, não depois do que aconteceu da outra vez. Deus sabe como é difícil para uma mulher abortar um filho, mas aconteceu. Então eu prometi a mim mesma que eu jamais passaria por aquilo outra vez. E, por medo, não mais quis engravidar, temendo o risco de mais uma perda. Os anos passaram, e depois de muitas conversas e discussões, resolvi que não havia por que não me dar outra chance... outra chance a nós dois – ela murmurou, sem encarar Scott. – Por isso não foi nenhuma surpresa para mim quando o exame de gravidez deu positivo. Eu já sabia que estava grávida. Eu planejara isso, e fizera tudo exatamente no momento certo, para que não houvesse chances de simplesmente não acontecer. Lembra como ficamos felizes?


- É claro. Lembro como se fosse hoje. Fomos imediatamente comprar os primeiros sapatinhos.


- A primeira roupinha... – Liah disse, sonhadoramente. – Então os meses se passaram, e foi detectado o mesmo problema pelo qual eu passara na primeira vez. Placenta baixa. – Uma pausa. – Para mim, essas palavras soam assustadoras. Sinto-me arrepiar a cada vez que a ouço ou a pronuncio. Para mim, elas têm igual significado à palavra pânico, e até mesmo à morte.


- Pelo amor que você tem a mim e à sua filha, à sua família e a Deus, Liah, não repita isso.


Liah não respondeu. Seu rosto estava completamente inexpressivo. Ela parecia estar imersa num transe profundo quando continuou:


- Lembro-me que você entrou em pânico quando Keira anunciou que eu teria problemas de placenta baixa mais uma vez. Não nos falamos até que chegamos em casa e a primeira coisa que você sugeriu foi que eu esquecesse a sua insistência, e que interrompesse a gravidez antes que ela pusesse a minha vida em risco. E eu, que temera tanto isso, já não podia mais fazê-lo, porque eu simplesmente queria esta criança mais que tudo. Eu já a amava. Ela já se tornara o centro do meu universo. Então eu disse que a teria, assumi os riscos e você, mesmo preocupado, esteve ao meu lado o tempo todo. E chegamos até aqui. Trinta e oito semanas. Mel está saudável, eu também. Mas o risco a que corremos é o momento do parto. É quando tudo pode acontecer.


Houve, então, um instante de silêncio. Foi quando os olhos castanhos da morena encontraram os olhos também castanhos do marido.


- Vai ficar tudo bem – ele fez num tom quase inaudível, mesmo no silêncio do interior do carro. – Eu te amo. Amo vocês duas.


Liah assentiu uma vez, mas não sorriu ou respondeu às palavras de Scott.


- É melhor nós irmos. Vamos acabar chegando atrasados – foi tudo o que disse antes de saltar do carro.


Scott suspirou e saltou em seguida. A passadas rápidas, deu a volta no carro e conseguiu alcançar a esposa antes mesmo que ela chegasse à calçada. Ele pousou a mão direita na cintura da esposa, abraçando-a de lado e segurou sua mão esquerda com a própria, de modo a apoiá-la.


- Eu sei que eu sempre digo isso, mas eu odeio não enxergar meus pés – Liah resmungou e Scott riu. – Não precisa dizer, eu sei que falta pouco.


- Vamos saber quão pouco falta em alguns minutos.


- Mal vejo a hora! – a morena suspirou.


Passaram pela recepção do St. Mungus e seguiram diretamente para o elevador. Viram alguns rostos conhecidos durante o trajeto até o consultório de Keira Newbie, da equipe de Thomas Haase.


Scott bateu à porta do consultório e prontamente Keira a abriu:


- Eu estava esperando por vocês – disse, sorrindo. – Mas vocês estão ótimas! – ela gesticulou na direção de Liah, seu sorriso alargando-se.


- Vocês também estão ótimos – Liah disse em resposta ao elogio, também sorrindo.


Não era segredo para ninguém que Keira esperava gêmeos. Dois meninos. Grávida de cinco meses, casaria no segundo sábado de julho, em Berna, na Suíça, numa cerimônia para duzentos convidados.


- Obrigada, querida – Keira agradeceu e estendeu a mão para cumprimentar Scott. – Como vai, Scott?


- Bem, obrigado.


- Muito bem, vamos à consulta – Keira sentenciou. – Liah, o avental está no banheiro. Vou pedir que Tanya venha auxiliar sua troca de roupa.


- Keira, eu... Tudo bem se for Scott a me auxiliar? É só que...


- Não precisa explicar, Liah. É claro que Scott pode ir com você, se preferir – a loira assentiu.


Liah e Scott seguiram para o banheiro enquanto Keira seguia para a sala de exame. Ela acompanhara a gravidez de Liah de perto durante o início, exatamente como na primeira gravidez dela, e era a responsável pelo parto. Sabia que talvez fosse o último que realizaria antes do próprio parto, e somente o realizaria porque conhecia Liah há anos e tinha certa afeição por ela e pelo seu caso – e prometera a si mesma que a cirurgia cesariana seria um sucesso, mesmo com todos os riscos.


Naquele instante, Liah e Scott adentraram a sala de exame.


- Perfeito. Scott, ajude-a a se deitar, por favor – Keira pediu.


Com a paciente já deitada, a médica iniciou o exame. Não foi preciso muito para que ela sentenciasse:


- É, teremos que reajustar a data do parto. Estava previsto para a manhã do dia sete, certo? – Keira perguntou e Liah confirmou com a cabeça. – Então! Teremos que adiantar a data. Algum dia de sua preferência?


- Quinta-feira – Liah respondeu de imediato. – Quinta-feira é perfeito!


- Pensei que tivesse dito que gostaria que o parto fosse feito esta tarde – Scott relembrou o comentário que a esposa fizera no caminho para o hospital.


- Podemos fazer, se for de sua vontade – Keira disse.


- Eu falei sem pensar! Não há condição alguma de eu fazer esse parto hoje. Os meus pais só chegam amanhã à noite a Londres e eu ainda tenho que fazer uma coisa antes disso.


- Então acho que podemos marcar para quinta-feira – Keira deu a palavra final. – Muito bem. Nossa garotinha já está posicionada e certamente nasceria até segunda-feira, o que já seria antes do previsto. Como não podemos permitir que haja a possibilidade de Liah entrar em trabalho de parto, o melhor é adiantar o máximo quanto possível. Já completamos as trinta e oito semanas, então nada nos impede de realizar o parto. – Keira retirou as luvas e sorriu. – Pode ir se trocar, Liah. Estarei esperando por vocês para fazermos os últimos acertos, tudo bem?


- Claro – Liah assentiu enquanto se retirava, acompanhada pelo marido, e sabendo que dali a dois dias, o fim de sua gestação poderia também significar o fim de tudo – ou o começo de uma nova vida.


---


Estavam sentados à mesa do restaurante, ambos degustando a refeição.


- Ah, ótimo! – Herod resmungou ao sentir o celular vibrar no bolso da calça.


- Atenda. Pode ser importante – Tiffany aconselhou, despreocupadamente antes de levar uma garfada de comida à boca.


Herod fitava o visor com a testa franzida.


- Não reconheço o número – murmurou. – Não é da Grã-Bretanha.


- Um cliente, talvez? – a morena sugeriu.


- Eu não tenho clientes na França – Herod disse, erguendo os olhos para fitá-la.


- Clientes novos não têm números reconhecidos pelos telefones celulares. Sabe, a tecnologia ainda não atingiu o patamar da adivinhação. Atenda de uma vez, Christow, antes que desistam. Pode ser importante – Tiffany insistiu.


- Tarde demais – o loiro deu de ombros e tornou a guardar o aparelho no bolso.


- Eu realmente espero que você tenha perdido um contrato milionário! – a morena agourou.


- Você é um doce de pessoa, Haase. Definitivamente – Herod brincou e levou uma garfada de seu salmão à boca, mas voltou a assentar os talheres no prato quase que de imediato. – Diabos! É hora do almoço... Será que eu não posso almoçar sem que meu celular toque a cada dois minutos?


Tiffany nada disse, apenas riu. Herod fez uma careta para ela antes de atender ao celular.


- Alô? Sim, sou eu – o loiro fez, o cenho franzido. – Quando foi isso? – Agora Herod parecia realmente alarmado. – Tudo bem, estou a caminho.


Ele desligou o celular e encarou Tiffany.


- Já terminou?


- É evidente que não – Tiffany apontou para o prato ainda pela metade. – O que aconteceu?


- Não dá para explicar agora – Herod disse enquanto abria a carteira e deixava sobre a mesa cem libras. – Você vem comigo ou segue para Fulham daqui?


- Que pergunta cretina, Christow – Tiffany esbravejou, revirando os olhos. – É óbvio que eu vou com você. Você me trouxe, você me leva – completou enquanto se levantava e colocava-se ao lado do loiro. Virou-se para a mesa e fitou os pratos ainda cheios de comida. – Que desperdício! O salmão estava divino... A propósito, cem libras é muito, não?


- Provavelmente o dobro do que gastamos aqui, mas eu não tenho dinheiro trocado – o loiro disse e a arrastou para fora do restaurante.


---


Silêncio. Era só o que havia. Já haviam almoçado e estavam comendo a sobremesa. Chloe e Sophie deixaram a mesa instantes atrás e ambas podiam ouvi-las brincando no andar superior.


Amy olhava Hermione com certa curiosidade.


- Eu detesto quando me olham assim. É como se estivessem esperando que eu fizesse algo absurdo e que eu certamente não farei – a morena disse, ao levantar os olhos de sua torta holandesa. – Eu sou uma aberração agora.


- Não, Herms, você não é. Nem você nem Chloe. Vocês são apenas... diferentes – Amy disse, estendendo a mão para tocar a da amiga. Apertou-a com força e sorriu.


- Chloe terá de voltar para o treinamento. Não sei se poderá lidar com isso. Se eu poderei lidar com isso – Hermione disse.


- Ela é forte. Já provou isso uma vez. Já superou isso uma vez, e poderá superar novamente.


- Eu preferiria que ela desenvolvesse suas habilidades no tempo certo, exatamente como aconteceu comigo e como deve ter acontecido com a avó dela. Já sabemos o que ela é, não é necessário que tenha de passar por todo esse sofrimento mais uma vez.


- Não é uma questão de desenvolver habilidades, Hermione. Ela precisa aprender a controlá-las de uma maneira que torne segura a convivência com ela. Chloe não tem noção do potencial que tem.


- Eu posso mostrar a ela. Eu posso cuidar para que ela aprenda tudo. Eu não precisei que ninguém me ensinasse e estou certa de que ela será capaz de aprender a controlar-se.


- Estou certa disso – Amy concordou. – Faça o que achar melhor, mas comece o mais rápido possível.


- É, eu tenho que contar a ela.


- Assegure de que ela guardará segredo. Não podem sequer suspeitar que vocês são Safiras. É perigoso demais.


- Sei disso – Hermione assentiu e levou uma nova garfada da torta à boca. Naquele instante, o seu celular tocou.


Ela levantou a mão e num piscar de olhos sua bolsa estava segura entre seus dedos. Ela colocou-a no colo e abriu-a, procurando pelo aparelho telefônico. Atendeu.


- Alô? – atendeu. – Sim, sou eu, Paul. – Uma longa pausa. – O quê? – ela fez, alarmada. – Estou indo já para aí.


---


- Dois ingressos, por favor – o moreno disse ao atendente.


Estavam numa cidade próxima a Teresópolis, a cerca de 70km de distância, onde ficava o teleférico ao qual prometera levar a filha para um passeio. A viagem fora rápida, e Zoe ficara encantada com a paisagem serrana, a qual não pudera apreciar quando chegaram porque estava dormindo.


- Aqui estão, senhor – o atendente entregou os ingressos e o troco.


- Papai, tem cavalos aqui, olha! – Zoe apontou.


- Sim, querida, eu estou vendo – Harry disse, sorrindo. – Obrigado – agradeceu ao atendente e acompanhou Zoe até o local onde ‘embarcavam’ no teleférico.


- Você deixa eu andar?


- Depois – o moreno prometeu, enquanto tirava o celular do bolso. – Alô?


- Harry? Scott – identificou-se. – Estou ligando para avisar que devo estar chegando ao Brasil no dia 8.


- Pensei que tivesse dito que o parto de Liah era dia 7 – Harry respondeu, confuso. Zoe puxou a sua calça insistentemente, mostrando que a cadeira estava se aproximando e que era a vez deles. Gesticulou para que ela esperasse um instante e sinalizou que estava ao telefone, ao que a loirinha bufou.


- É, eu sei. Acabamos de sair do médico e o parto foi adiantado. Mel nasce depois de amanhã, na quinta-feira – Scott contou. – E como andam as coisas por aí?


- Muito bem. O ministro e Elizabeth Newbie chegam esta tarde, então tirei o dia de folga e aproveitei para trazer Zoe ao teleférico, numa cidade próxima a Teresópolis.


- Ah, imagino que ela esteja adorando!


- Se está! Já fizemos todo tipo de passeio que você possa imaginar. No momento, ela está quase me arrastando para as cadeiras do teleférico.


Harry ouviu Scott rir do outro lado da linha.


- E está fazendo frio?


- Bastante, mas nada comparado ao que faz aí. Hoje deve estar fazendo algo em torno dos 65ºF. À noite, em compensação, tem feito 41ºF, em média.


- Bom saber. Tenho que me lembrar de colocar um ou dois casacos na mala – riu.


- É o suficiente. Camisas de manga comprida são mais úteis, embora a maior parte do tempo você vá passar de terno ou debaixo do edredom.


- Me lembrarei disso também. Como foi o primeiro dia no Ministério?


- Na verdade, eu fui algumas vezes desde que cheguei. Ontem recebi as primeiras instruções sobre como procedem as coisas por aqui e alguns documentos importantes, mas as coisas só devem começar a andar mesmo quando o ministro e Elizabeth chegarem.


- Glenn está mesmo levando a sério essa história de ‘estudar como funcionam os Ministérios brasileiro e português’.


- Acho que alguém finalmente percebeu que tanta burocracia, embora evite certa bagunça, gera somente transtornos e complicações – Harry comentou e ambos riram.


- De fato – Scott assentiu. – Muito bem, melhor desligar. Ou Zoe vai querer me matar quando eu chegar aí.


- Tudo bem. Nos falamos na quinta-feira, então.


- Até logo – e a linha ficou muda.


- Pronto, garotinha – Harry fez, enquanto guardava o celular no bolso e apertou uma de suas bochechas. – Vamos?


- Pensei que vocês iam ficar falando e falando e o teleférico ia fechar – Zoe resmungou, já a caminho do teleférico, seguida de perto pelo pai, que ria.


---


A primeira pessoa a quem Hermione avistou fora Tiffany. A morena andava de um lado para o outro no lado externo da clínica e falava ao telefone. Ela viu Hermione e acenou rapidamente, depois gesticulando para o interior do prédio.


Hermione estava acompanhada de Amy, que insistira em acompanhá-la. Caminhou apressadamente rumo à entrada da clínica e logo avistou Herod e os irmãos Lefèvre. Além dos três, ela notou a figura esbelta e bem conservada do pai de Pansy Parkinson alguns metros atrás, aparentemente preocupado, também falando ao telefone celular.


Theodore Parkinson tinha os cabelos negros, salpicados de fios brancos, e a barba bem feita num cavanhaque e vestia terno e gravata, e Hermione supôs que ele havia saído diretamente do trabalho ou de um almoço de negócios para estar aí.


Hermione não esperou que qualquer um dos presentes se manifestasse; foi direto ao ponto:


- Como ela está?


- Ela está desacordada ainda – Herod disse.


- Mas ela está bem? – Amy perguntou.


- Ela está bem – Paul Lefèvre acalmou as recém-chegadas.


- Como aconteceu? – Hermione indagou.


- Foi uma sequência de pequenos descuidos, Hermione. – Foi Horatio Lefèvre quem tomara a palavra. – Ela sofreu um pequeno acidente hoje mais cedo, enquanto estava caminhando com uma das enfermeiras nos jardins. Não aconteceu nada demais, apenas um corte na perna. A enfermeira a levou para o ambulatório para tratar do ferimento e a Srta. Parkinson já estava sentada à maca quando deu por falta de um lenço que estava usando. A enfermeira o viu no corredor enquanto separava o antisséptico e cortava a gaze, e foi pegar. Entregou o lenço a Srta. Parkinson e levou-a de volta para o quarto, de modo a fazê-la tomar um banho. Quando a enfermeira foi separar as roupas para ela, a Srta. Parkinson travou a porta do banheiro, como era de seu costume, e não saiu mais.


- Foi encontrada dentro da banheira, desacordada, os pulsos cortados e a água totalmente vermelha por conta do sangue que se misturara a ela – Paul informou. – Por pouco não a perdemos. Solicitamos bolsas de sangue, mas o sangue dela é B-, então precisamos contatar três hospitais para conseguir sangue suficiente.


- Eu posso vê-la? – Hermione perguntou.


- Ela está recebendo a segunda transfusão nesse momento, então vocês só poderão vê-la quando terminar. Não sei se estará acordada – Horatio respondeu. – Vou voltar lá para dentro e ver como andam as coisas. Pensei que vocês fossem demorar mais a chegar...


- Ah, não. Na verdade, estávamos chegando a Paris. Íamos visitar a vovó e o vovô – Hermione apressou-se em dizer. – É aniversário dela hoje. Então... digamos que eu apenas estava no lugar certo, na hora certa.


- Decerto – Horatio assentiu, e ele e Paul se afastaram, sumindo pela porta que levava ao ambulatório.


Amy lançou-lhe um olhar enviesado e mordeu o lábio inferior para conter um sorriso.


- Rápida, você – disse, num murmúrio


- O problema vai ser eu explicar para a vovó por que eu vim vê-la se eu já liguei para ela mais cedo – Hermione respondeu, também num murmúrio.


- Quero ver é você explicar por que Chloe não veio com você – Amy fez, erguendo as sobrancelhas.


Hermione fez uma careta e percebeu o Theodore Parkinson desligando o celular e guardando-o no bolso interno do paletó. Ele puxou um lenço e esfregou-o na testa, depois em torno dos lábios. Foi a deixa para ela se aproximar. Amy hesitou, mas logo a acompanhou.


- Sr. Parkinson, sinto que as coisas tenham acontecido dessa maneira.


- Não se preocupe, filha. Minha Pan vai ficar bem – o Sr. Parkinson disse, embora não parecesse acreditar tanto em suas palavras. – Ela tem de ficar.


- Ela vai ficar. Ela só tem passado por muita coisa – Hermione assegurou.


- Não foi ela quem fez isso, Sr. Parkinson, sabe disso. Não é preciso conversar com os alteres para saber... – Amy disse.


- Perlla – Hermione resumiu. – Estou certa de que Pansy jamais atentaria contra a própria vida. Eu estive aqui semana passada e conversei com ela. Ela estava ótima. Houve um momento em que pude conversar com Priscilla também e ela parecia feliz por estar ajudando Pansy...


- Eu já conversei com essa aí. Acho que ela foi minha filha por mais tempo do que a minha própria filha – Theodore Parkinson murmurou.


- Ela o ama, o admira. Ela, tanto quanto Pansy, é sua filha. E Perlla também, embora...


- Embora ela pareça não ter coração nem sentimentos – Amy completou e recebeu um olhar fulminante de Hermione por isso. – Ora vamos! Uma pessoa que destruiu inúmeras famílias não pode amar alguém de verdade.


- Amy...


- Não, filha, ela está certa. Ela é o que é. E eu sei que ela não é a minha Pan, e isso é o que mais me conforta quando lembro que minha garotinha está nesse lugar... – o Sr. Parkinson fez, olhando em volta. – Mas agradeço por vocês estarem aqui. Obrigado. Por mim, e por minha Pan.


- Não tem o que agradecer, Sr. Parkinson. Estamos aqui porque queremos ver a sua filha recuperada – Hermione disse, um sorriso tímido e encorajador esboçando-se em seus lábios.


---


Passaram-se horas e horas, e ali estavam todos eles.


Tiffany recusara-se a ir embora, mesmo com toda a insistência de Herod para que ela fosse. Hermione perdera a conta de quantas vezes ele dissera “você não precisa estar aqui” e “vá para casa, seus filhos estão esperando”. Tiffany, que perdera a tarde inteira de trabalho, disse que havia explicado que não tinha hora para chegar e cancelara todos os seus compromissos para aquela tarde.


A morena de olhos cinzentos esteve sentada ao lado do loiro durante todo o período em que passaram aguardando na sala de espera da clínica. Ela tinha as duas mãos no braço de Herod e, periodicamente, afagava-o, confortando, quando o percebia nervoso.


Amy e Hermione afastaram-se por algumas vezes para conversar ou beber algo, e até perguntar por notícias de Pansy, mas não obtiveram resposta diferente de “ela ainda não acordou” e “seu estado é estável e ela ficará bem”.


O Sr. Parkinson, era, sem dúvida, o mais impaciente. Não conseguia ficar parado por mais do que cinco minutos e suava bicas.


Hermione e Amy, apesar do motivo que as levara ali, divertiam-se ouvindo os pensamentos das enfermeiras e atendentes, que pareciam desconfortáveis com a presença dos visitantes. Constantemente perguntavam-se se eles não iriam embora, afinal, aquele “não era um hospital, mas uma clínica psiquiátrica”.


A espera terminou quando Paul deixou o ambulatório e se aproximou.


- Terminamos todos os exames e transfusões. Ela está bem e fora de perigo. Calculamos que ela deve não deve acordar até amanhã, então sugiro que vocês voltem para casa e descansem. Manteremos vocês informados caso haja alguma mudança no quadro dela e, é claro, caso ela acorde.


- Eu posso vê-la antes de ir? – o Sr. Parkinson perguntou.


- É claro. E acredito que o senhor, Sr. Christow, queira vê-la também...


- Eu também, Paul – Hermione adiantou-se.


- Tudo bem, mas, infelizmente, só poderei permitir a entrada de um de cada vez. São as normas da clínica...


- Nós entendemos – Herod disse, voltando a sentar-se.


- Venha comigo, Sr. Parkinson – Paul chamou e os dois se afastaram.


Aguardaram todos em silêncio. O pai de Pansy não demorou a retornar. Então Hermione mandou que Herod fosse primeiro; ela iria em seguida.


A visita de Herod foi também curta.


- Hermione – ele chamou.


Hermione acompanhou Paul rumo ao ambulatório. Havia quatro leitos, todos de um lado e independentes. O ambiente era frio, tanto que chegava a incomodar.


- É o segundo – Paul instruiu e Hermione seguiu sozinha para o pequeno ambiente.


Hermione abriu a porta e fechou-a cuidadosamente, aproximando-se da cama onde Pansy estava deitada. Eram incontáveis os fios que ligavam os aparelhos ao corpo da mulher que parecia ainda mais pálida que de costume.


O mais cuidadosamente que pôde, Hermione segurou a mão dela e afagou-a, notando os curativos e ataduras nos pulsos. Sobressaltou-se quando a mão apertou de leve a sua e seus olhos a fitaram.


- Herm... Mione... – a voz rouca e quase inaudível de Pansy preencheu o ambiente silencioso.


- Shhh... Não fale. Não faça esforços. Você ainda está fraca – Hermione disse, num murmúrio. – Responda-me apenas com acenos, tudo bem? – Pansy assentiu fracamente com a cabeça. – Sabe o que aconteceu? – Pansy negou. – Perlla. Ela tentou se matar. Quero dizer, tentou matar a vocês três. Você, ela e Priscilla. Cortou seus pulsos – contou. – Está sentindo dor?


Pansy piscou mais demoradamente dessa vez, mas negou.


- Você vai ficar bem, tenho certeza – Hermione assegurou. – Seu pai e Herod estão lá fora. Eles vieram aqui ver você antes de mim...


- Obrigada, Herm-mione – Pansy agradeceu. – Obrigada por... estar aqui.


- Shhh... Não fale – Hermione repetiu. – Agora volte a dormir. Descanse.


Hermione segurou firmemente a mão de Pansy entre as suas, afagando-as. As duas trocaram um sorriso antes de Pansy fechar os olhos e, ainda sorrindo, voltar a adormecer.

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