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46. Capítulo XLVI


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Estavam do lado de fora do restaurante, esperando o manobrista trazer o carro.


- Mais uma vez obrigada por tudo – Tiffany agradeceu.


- Não precisa agradecer – Herod murmurou, sorrindo.


Ele abraçou-a pelo ombro e beijou-lhe o alto da testa, fazendo-a lembrar do incidente provocado por ela aquele dia mais cedo – ou, melhor dizendo, do dia anterior, visto que já passava da meia-noite.


- Herod, hum, sobre o beijo... – ela começou. – Eu só o fiz para garantir que ele ficasse longe. Você sabe... Se ele pensasse que eu tinha alguém, as coisas se tornariam mais fáceis.


- Sem danos, sem crime e, portanto, sem culpa – o loiro disse em tom divertido.


- Eu estou falando sério, Herod. Eu sei que não foi nada demais, mas eu acho que lhe devia essa explicação.


- Fique tranqüila quanto a isso – Herod afagou a bochecha dela e sorriu.


Naquele momento, o carro chegou e o manobrista saltou, dando a volta no carro e abrindo a porta para Tiffany. Herod já estava ocupando o seu lugar no banco do motorista.


- Para Knightsbridge? – perguntou à morena.


- Não – Tiffany respondeu, convicta. – Vamos para a Turnmills. Eu preciso mesmo dançar, me divertir e ver gente.


- Como quiser, madame – Herod fez, ainda surpreso com a decisão da morena. – Para Turnmills, então.


Tiffany sorriu brevemente para ele antes de recostar no banco e relaxar.


---


Ele estava dentro de seu carro e observava a casa a certa distância. Somente duas janelas estavam acesas no primeiro andar. Desligou o carro e estava pronto para saltar quando a porta da frente da casa foi aberta e um homem saiu por ela. Logo em seguida, uma mulher – e ele soube que era uma por conta dos cabelos presos a um coque e da silhueta – também saiu e ambos se abraçaram.


Não se demoraram no abraço; afastaram-se e trocaram algumas palavras. Tornaram a se aproximar, mas a sombra não permitiu que ele visse os detalhes do gesto.


Qualquer um subentenderia que era um casal trocando beijos de despedida, e ele não era diferente. Sem mais, tornou a colocar o cinto de segurança e ligar o carro, disparando rua afora.


---


A boate estava relativamente cheia para uma noite de terça-feira. Turnmills certamente era o point dos jovens e até mesmo dos mais velhos que arriscavam sair à noite para relembrar os tempos de Tony Manero e Saturday Night Fever.


A música estava estourando nas caixas de som – e nos tímpanos de quem não estava acostumado àquele tipo de ambiente.


- Parece que o público de hoje está razoável – Herod gritou em seu ouvido. – Eu, particularmente, detesto aqueles garotos abusados que se acham valentes porque têm mais de vinte e um anos, estão transbordando testosterona e já esvaziaram mais de cinco garrafas de cerveja.


Tiffany riu.


- Concordo em número, gênero e grau – disse ao pé do ouvido do loiro.


- Quer beber alguma coisa?


- Champanhe – ela disse, sorrindo marotamente.


Herod sentiu os olhos se arregalarem involuntariamente, surpreso, e perguntou-se quando ela deixaria de surpreendê-lo.


- Champanhe. Certo. Eu já volto – disse antes de sair.


Tiffany estava ali, parada junto a uma mesa alta sem nenhum banco à vista em que pudesse se acomodar. Restava esperar que Herod retornasse. Fazia bastante tempo desde que viera à Turnmills. Na verdade, desde que Josh e Francine entraram em sua vida. Não que ela a freqüentasse antes, mas houvera ocasiões em que viera com os colegas de trabalho para confraternizações e eventos.


Ela sempre fora o tipo de garota e de mulher recatada, característica que se acentuara depois que se tornara mãe.


- Eu vou ter sérios problemas para mexer o braço novamente se você me fizer permanecer nessa posição por muito tempo – Herod brincou, fazendo a atenção de Tiffany voltar para ele.


- Obrigada – ela falou, mas Herod apenas leu o que seus lábios diziam, pois a voz dela sumira diante de tanto barulho.


Tiffany bebeu um gole de champanhe e, quando estava baixando a taça, percebeu que, do outro lado da pista de dança, um par de olhos a observava.


- Nolan – ela murmurou para si mesma, trincando o maxilar em seguida. – Eu vou embora – anunciou à Herod, lhe encarando e devolvendo a taça de champanhe.


- O quê?


Mas não foi preciso que Tiffany respondesse. Ela voltara a olhar na direção em que vira Nolan e ele seguiu seu olhar.


- Não – Herod sentenciou. – Você vai ficar e se divertir.


E, dizendo isso, o loiro bebeu de uma só vez o uísque que tinha em mãos. Em seguida, deixando o copo e a taça de champanhe abandonada por Tiffany sobre a mesa, puxou-a para o centro da pista de dança.


A cabeça da morena estava fervilhando. Ele a teria seguido? Não, claro que não. Afastou a idéia e o observou novamente. É claro que ele estaria ali. Há anos ele não vinha a Londres e, agora que voltara a cidade, certamente visitaria os locais que costumava freqüentar. A Turnmills era, com certeza, um local muito freqüentado por ele no passado, e ela sempre estava ali, acompanhando-o.


Enquanto dançava com Herod, em momento algum desligou-se do fato de ele estar ali, mesmo sem precisar lançar olhares furtivos ao lado da pista em que o vira parado a observando; ela sentia o olhar dele sobre si.


Mais uma vez a idéia de que ele a poderia ter seguido lhe ocorreu. Ele não a teria visto em companhia de mais ninguém senão de Herod e já estaria certo de que eles tinham algo. E, bem, mesmo que ele não a tivesse seguido, as únicas companhias que tivera aquele dia foram Herod, Cissa, Jen e seus filhos, e as duas vezes em que ele a teria visto, ela estava em companhia do loiro.


E Herod não parecia se importar muito com a presença de Nolan ali, mas sua postura era protetora. Ele realmente se preocupava – e se importava – com Tiffany e a estava ajudando muito só por estar ao seu lado nos últimos dias. A morena sentia-se grata por ter se dado a chance de viajar com ele e de conhecê-lo melhor, e aliviada por ter lhe contado um pouco de sua história. Era bom tê-lo como amigo e por perto.


Sorriu ao lembrar-se como tinham se conhecido e quem fora o Herod que conhecera. “Definitivamente, pessoas mudam”, pensou. “Mais do que isso, as coisas mudam e as pessoas se enganam”.


Então resolveu deixar tudo o que a afligia de lado e curtir um pouco o momento. Com os pensamentos e a mente mais leves, entrou de vez no clima da música e deixou-se levar por ela.


Herod sorriu para ela, parecendo surpreso pela nova atitude dela. Dançaram embalados pela música eletrônica contemporânea por vários e vários minutos. Então o DJ anunciou que ia fazer uma programação especial àquela noite e deu início a uma rodada de salsa.


- Ní féidir liom creidim i seo – murmurou para si mesma, rindo. Por um instante, parou de dançar, apenas concentrando-se na música. Pouco a pouco, envolveu-se e deixou o corpo se soltar no ritmo do novo gênero musical. Dançou sozinha pelos primeiros segundos, enquanto Herod apenas a acompanhava com os olhos, admirado. – Rince.


Então ela pegou as mãos dele, indicando que ela queria que ele a conduzisse. Herod pareceu compreender a mensagem quase que de imediato, e os dois passaram a moverem-se juntos na pista de dança.


Completamente envolvidos, sorriam e riam entre si, arriscando vários passos. A salsa era, afinal, uma dança envolvente.


Após um rodopio, Herod puxou Tiffany para si e uniu as suas mãos acima de suas cabeças, os rostos próximos. Tiffany fitou os olhos azuis do rapaz, cujas pupilas quase tomavam as íris por conta do escuro. Ele lhe sorriu e a afastou em seguida.


Foi numa repetição daquele passo, já no final da música, que, envolvida, ela sentiu como se o mundo tivesse parado. Todo mundo à sua volta sumiu, e só lhe restavam os olhos de Herod para olhar. O sorriso do loiro se desfez pouco a pouco e ela conseguiu ver a confusão perpassar seu rosto. Estaria o tempo correndo em câmera lenta?


Eles não estavam mais dançando e seus rostos estavam próximos por conta do último passo. Tiffany baixou os olhos por um segundo. Herod ergueu seu rosto, a mão no queixo da morena. O novo contato visual foi suficiente para derrubar todas as barreiras que estavam entre eles, e ela deixou-se ser beijada.


O mundo girou num segundo e foi o suficiente para ela voltar a si e se afastar do loiro. Ela o encarou e engoliu em seco.


- Ní féidir liom é seo a dhéanamh – sussurrou. – Ní fhéadfaí seo a tharla.


Então ela deu um passo para trás, ainda o encarando, antes de virar-se e sair correndo da pista de dança.


A reação automática de Herod foi aparatar à porta da casa dela, torcendo para que ninguém o tivesse visto sumir de repente no meio da boate.


Tiffany atravessava os jardins de casa, a mão enfiada na pequena bolsa, procurando por algo. Tomou um susto ao vê-lo.


- Desculpe, Tiffany. Eu não... – Ele podia dizer que não queria beijá-la, mas estaria mentindo. – O que aconteceu...


- Esqueça isso – ela disse. – O que houve entre nós foi uma total privação de sentidos. – E era verdade. Pelo menos fora o que ela sentira.


Sem mais, tornou a buscar em sua bolsa o que estava procurando, desta vez obtendo sucesso. Fechou a bolsa já com as chaves de casa e de seu carro seguras em suas mãos enquanto caminhava para a porta de casa. Já estava diante da soleira da porta e pronta para levar a chave à fechadura quando deu de cara com o peito largo do loiro.


- Você pode dar licença, por favor? Eu quero abrir a porta – ela fez, com um leve toque de frieza.


- Não, eu não posso. – Ele disse e a puxou para si pela cintura, seus lábios capturando os dela com intensidade.


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Manhã de 11 de junho de 2009, casa dos Blanc, Orléans, França


- Quando você volta? – Amy perguntou.


- Vou a Londres essa noite. Eu e Harry combinamos de sairmos para jantar, mas volto para Orléans logo depois e fico aqui até domingo.


- A chefe do departamento pode se dar férias, então? Bom saber. Agora que estou, provisoriamente, no seu lugar, vou tirar uns dias de folga também – Amy riu.


- Ames, são apenas dez dias. Eu acho que eu mereço essa folga. O treinamento de Chloe acabou comigo.


- Eu sei, querida. E imagino que você ainda esteja uma pilha de nervos por conta do resultado final.


- É, eu estou.


- Bem, então eu sinto dizer, mas agora tenho que falar sobre o motivo desta ligação, além do simples objetivo de falar com você, é claro – Amy brincou.


- Por que eu acho que não é coisa boa?


- Pois é, não é uma coisa tão boa assim. – Amy suspirou. – Enfim! Sinto te informar, Herms, mas eu só consegui uma reunião com Dumbledore e McCoy para o final do mês, então... Você terá que agüentar mais um pouco.


- Oh, não pode estar falando sério!


- Pois é. E McCoy está indo para a Ucrânia hoje à tarde.


- Tudo bem, no final do mês, então.


- Vai passar rápido, é só não ficar ansiosa.


- Tarde demais. Eu estou ansiosa.


- E por que eu não estou surpresa? – Amy brincou. – Não esqueça o evento em Hogsmeade sexta-feira. Todos os ex-alunos de Hogwarts que se formaram em 1997 e 1998 devem estar presentes.


- Eu não vou esquecer, pode deixar – Hermione garantiu. – Dê um beijo nas crianças.


- É claro. Diga a Chloe que eu estou muito orgulhosa dela e morrendo de saudades.


- Pode deixar, eu digo, sim.


- Vejo você na sexta-feira – e a linha ficou muda.


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Tarde de 11 de junho de 2009, Mansão dos Haase, Knightsbridge, Londres


- Herod, mas que surpresa! – Narcisa disse ao abrir a porta, sorrindo.


- Como vai, Sra. Haase? – o loiro cumprimentou-a.


- Bem, obrigada – a loira disse. – Estou providenciando algumas coisas para o aniversário de Jen. Deus, parece que foi ontem que ela nasceu.


- É, eles crescem rápido – Herod concordou. – Sra. Haase, Tiffany está aí?


- Oh, não, querido. Ela foi fazer uma bateria de exames no hospital. Exames de rotina. Ela os faz a cada seis meses – Narcisa contou. – Não quer entrar?


- É claro – Herod assentiu. – Nós nos encontramos hoje quando fomos pegar as crianças e ela não disse nada sobre ir ao hospital.


- Ela pediu hoje de manhã ao pai para marcar para o mais breve possível, e ele seguiu as instruções ao pé da letra. Marcou para esta tarde – Narcisa explicou. – Quando ela chegou com as crianças, Thomas estava saindo para o hospital e ela foi com ele.


- Ela deverá demorar muito? – perguntou.


- Possivelmente. Por que não vem jantar conosco hoje? Certamente ela estará de volta até lá. – Narcisa riu.


- É claro. Eu virei mais tarde – Herod prometeu. – Vou voltar ao trabalho agora. Até mais tarde, Sra. Haase.


- Até, meu filho.


E Narcisa acompanhou Herod até a porta. O loiro adiantou-se para o seu carro e ganhou as ruas rumo à empresa em que trabalhava com o pai.


Excetuando-se os breves encontros que tinham ao pegar as crianças na escola – quando eles aconteciam, porque cada vez mais era Narcisa quem ia pegar as crianças –, ele não tinha um encontro digno com Tiffany desde o dia da boate e ela não atendia suas ligações. Perguntou-se se ela não ficaria chateada com a madrasta quando soubesse que ela o convidara para o jantar.


Por algum motivo, ele sabia que havia algo que a morena estava escondendo dele. O que significavam aquelas visitas ao hospital e exames periódicos? Ele não lembrava, absolutamente, de ela ter falado algo a respeito em nenhuma das conversas que tiveram.


Decidiu que perguntaria assim que tivesse oportunidade.


Por fim, aumentou o volume do som, colocou os óculos escuros e pisou fundo no acelerador.


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Noite de 11 de junho de 2009, 19h59, Chelsea, Londres


A brisa quente lambeu os seus cabelos assim que ela saltou do carro. Subiu a escadaria de mármore à frente da enorme casa branca e tocou a campainha. Não esperou mais que alguns segundos para que a porta fosse aberta.


- Desculpe mudar os planos assim, de última hora. Scott acabou de sair aqui de casa.


- É compreensível. Os Ministérios do Brasil e de Portugal trabalham num ritmo bem diferente do nosso, e têm menos funcionários também – ela disse. – Toda essa burocracia do Ministério britânico é uma droga!


O moreno de olhos verdes sorriu para ela.


- Entre – disse enquanto dava espaço para que ela adentrasse a casa.


- Onde está Zoe? – Hermione perguntou, notando o quão silenciosa estava a casa.


- Hallie a raptou desde o início da semana para que eu pudesse trabalhar em casa à noite. Às vezes o silêncio é bastante incômodo, principalmente quando o trabalho termina – Harry disse.


- Ah, sei bem como é isso. Passei quase duas semanas sofrendo com isso. Eu estava um caco! Doze dias! Nunca passei tanto tempo sem minha filha – Hermione murmurou. – Em resumo: por conta disso, adiantei minhas férias – ou parte dela, pelo menos – e fui passar uns dias com ela em Orléans na casa de Hilary.


- Onde, presumo, ela está agora.


- É, vamos ficar lá até o final de semana.


- Então você só voltou porque eu te arrastei até aqui?


- Mais ou menos isso. – Hermione riu e sentou-se no sofá. – Eu também queria te ver. Faz duas semanas que não nos vemos. E pouco nos falamos também – acrescentou.


- Eu achei que estivesse ocupada – Harry disse, evasivo, sem sentar-se.


- Depende do que você quer dizer com ocupada – a morena assinalou. – Eu sempre estou ocupada com alguma coisa, mas nunca ocupada o bastante para deixar meus amigos ou minha vida de lado.


Harry avaliou Hermione por um instante.


- Eu achei que talvez você estivesse ocupada com alguém. Você sabe... Talvez aquele cara com quem você viveu, o pai de Chloe.


Hermione sorriu e levantou-se, caminhando até Harry.


- O cara com quem eu vivi é casado, e eu já te disse isso – ela disse, olhando-o nos olhos. – Não existe ninguém, Harry. Ninguém.


Ela tinha levado a mão ao rosto dele e a outra já estava a caminho de sua nuca. Ela queria provar a ele que não havia ninguém, mas nunca chegou a fazê-lo naquele momento.


- Sr. Potter? – Betty adentrou a sala.


- Sim, Betty? – Harry não se moveu, apenas girou o pescoço para encarar a governanta.


- Já servi o jantar, como o senhor pediu.


- Estamos indo, Betty. Obrigado – o moreno agradeceu e esperou que ela se retirasse. – Vamos?


- É claro, Harry – Hermione disse e o acompanhou rumo à sala de jantar.


Houve um longo instante de silêncio. Já ocupavam seus lugares e se serviam.


- Betty, traga o vinho que eu separei, por favor – Harry pediu. Ele esperou que Betty se retirasse para tornar a falar. – Que bom que está aqui.


Ele levou sua mão de encontro à mão que Hermione descansava sobre a mesa. Ela lhe sorriu ternamente.


- É bom estar aqui – ela disse antes de ouvir Betty se aproximar com o vinho que Harry solicitara.


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Noite de 11 de junho de 2009, Mansão dos Haase, Knightsbridge, Londres


Ela se retirara alguns minutos antes, enquanto Herod brincava com Francine e Josh. Ela gostava de ver como eles se davam bem e como o loiro gostava de seus filhos.


- Tif? – uma voz feminina se fez presente às suas costas.


Ela estava na sacada da Mansão e observava o manto de veludo estrelado que era o céu àquela noite. Abraçava a si mesma, esfregando os braços cobertos pela fina camisa de manga comprida, embora não fizesse frio. Virou-se para encarar sua nova companhia, embora não precisasse fazê-lo para saber de quem se tratava.


- Cissa – murmurou, oferecendo-lhe um sorriso fraco.


- Você está bem?


- Se você se refere ao fato de eu estar saudável, sim – Tiffany disse. – Graças a você. Sempre será graças a você.


- Oh, minha adorada criança! – Narcisa se aproximou e abraçou-a. – Sabe que eu a amo como minha própria filha, exatamente como você ama Francine e Josh.


- Nós compartilhamos de algo muito maior do que o amor de mãe e filha, Cissa. Parte de você está em mim.


- Então esse é só mais um motivo para reforçar a imensidão do carinho que tenho por você – a loira disse. – Eu não quero e não gosto de vê-la assim, triste. Eu gosto da Tiffany enérgica, alegre e descontraída, e não dessa casca que restou dela, embora a ame ainda assim.


- Estou tão despedaçada por dentro, maime.


- Algo a ver com a carta que Nolan deixou para você esta manhã?


- Principalmente por conta disso. E também ver Herod lá embaixo com as crianças... Elas o adoram, Cissa. E eu estive o evitando por todos esses dias por conta do fantasma de um passado que carrego comigo. E ele e as crianças não têm culpa de isso ainda estar presente em mim.


- Infelizmente não há muito que se possa fazer com relação a Nolan. Mas é passado, querida, e deve ficar onde está – Narcisa disse e seu tom era maternal. – Quanto a Herod, se mantê-lo afastado te machuca, não o afaste mais. Eu vi o bem que ele fez a você, mesmo que Nolan tenha aparecido e estragado tudo.


- Eu não posso conviver com ele sabendo que ele quer mais do que posso oferecer.


- Você não pode ficar evitando todos os rapazes que aparecem na sua vida por causa do que você sofreu depois que Nolan te deixou, Tif. Essa não é uma atitude racional, muito menos uma atitude madura. Mais do que isso, não é uma atitude que combina com você.


Tiffany ouviu em silêncio. Narcisa a abraçou novamente.


- Você não é uma casca vazia de sentimentos. Você ama seus filhos, eles amam a você e nós – e me refiro a mim, seu pai e seus irmãos – também a amamos. Livre-se do passado que viveu e tente se concentrar no seu presente.


Foi quando uma lágrima escapou dos olhos de Tiffany e ela trincou a mandíbula.


- Droga! – ela sussurrou.


- O quê? – Narcisa a afastou, confusa.


- Durante todos esses dias eu estive quebrando a promessa que fiz a Herod – Tiffany disse. – Me sinto péssima, e uma completa idiota por isso.


Narcisa sorriu.


- Talvez você devesse conversar com ele – disse. – Ele esteve hoje mais cedo aqui em casa e parecia querer lhe falar.


- É, eu vou falar com ele.


- Eu acredito que esta é uma excelente oportunidade. Ele está vindo aí – Narcisa disse num sussurro e acenou breve e discretamente para a porta com a cabeça, da qual o loiro se aproximava.


- Go raibh maith agat, maime. (“Obrigada, mamãe”)


- Baineann sé le faic, muirnín. Ná déan dearmad: Is breá liom tú – e, sorrindo, Narcisa deixou-a sozinha novamente, passando por Herod ao entrar em casa. (“Não é nada, querida. Não se esqueça: eu te amo”)


- Oi – ele disse.


- Oi – Tiffany respondeu, timidamente.


- Hum, eu, er... Eu estive mais cedo aqui, mas você não estava. A Sra. Haase disse que você tinha saído com seu pai para fazer uns exames de rotina.


- É, eu fui – a morena assentiu.


- Então, está tudo bem com você?


Tiffany riu, nervosamente, e repetiu o que respondera a Narcisa minutos antes.


- Se você se refere ao fato de eu estar saudável, sim.


Silêncio.


- Tiffany? – ele chamou, após vários minutos somente encarando o céu.


- Sim?


- A Sra. Haase disse que os exames que você fez são periódicos, e que você os faz a cada seis meses. Então eu, hum, fiquei curioso e... – ele não sabia como continuar, então foi direto ao ponto. – Que tipo de exames são esses?


Tiffany encarou-o, sentindo empalidecer. Não queria contar ao loiro aquilo, mas o que poderia responder? Podia mentir ou omitir, dizer que eram somente exames de rotina exigidos pelo trabalho ou dizer que não era nada com o que ele devesse se preocupar. Mas havia uma parte de si que queria fazer o que Cissa sugerira: parar de tentar afastá-lo.


Herod era um bom amigo, e gostava dela. Ele se preocupava e gostava de estar com ela, assim como ela, de alguma maneira, passara a gostar de estar com ele. Para isso, entretanto, ela tinha que derrubar as barreiras que construíra ao redor de si, uma a uma, a começar pelos segredos que ainda restavam e que ela não abrira para mais ninguém além de sua família.


- Hemogramas e mielogramas – enfim, respondeu.


- Mielograma? – Herod fez, alarmado.


A morena mordeu o lábio inferior e assentiu brevemente, sem fitá-lo. Engoliu em seco antes de continuar.


- Hoje mais cedo, quando você veio aqui, eu estava no oncologista, Herod. E isso, como você já deve saber, significa que eu tenho ou tive câncer – disse. – Pois é. Eu tive leucemia mielóide aguda e o mielograma é um exame de grande importância para o diagnóstico de leucemia, bem como é muito utilizado durante o tratamento para avaliar a resposta do paciente à doença.


- Quando você descobriu?


- Quando perdi os meus bebês, oito anos atrás.


- Mas você disse que você os perdeu por que estava anêmica e com deficiência de vitaminas...


- São sintomas da leucemia, Herod – Tiffany disse.


- E por que você não contou?


- Eu estou contando agora.


- Mas você está curada, não está?


- Até a última vez em que peguei o resultado dos exames, sim – a morena disse. – E eu agradeço por isso todos os dias a Deus e a Cissa por estar viva. – Ela tinha um sorriso triste em seus lábios, enquanto seus olhos brilhavam tanto que Herod só podia supor que ela estava fazendo muito esforço para não chorar. Então ela virou-se para ele, embora não o encarasse. – Sabe, quando ninguém pôde fazer a doação para o transplante de medula, nem mesmo meu pai e Jen, ela se ofereceu para fazer o teste de compatibilidade e... Acredite, ela foi a única pessoa compatível. Foi como se tudo estivesse predestinado a acontecer. Pergunto-me quem me salvaria se ela não tivesse entrado nas nossas vidas.


- E o processo quimioterápico?


- Foi horrível. Eu jamais serei capaz de descrever como eu me sentia a cada vez que me olhava no espelho e via aquelas olheiras enormes, a minha palidez e todos aqueles hematomas... – Ela fechou os olhos e engoliu em seco mais uma vez. Não continuou a descrever a imagem que se formara de si própria em sua mente, era doloroso demais lembrar daquilo tudo. – Foram três anos de tratamento e várias transfusões e internações até que eu estivesse completamente curada e mesmo assim tive que fazer o acompanhamento por mais cinco anos para o caso de a doença voltar. Hoje fiz o último exame semestral, agora só daqui a um ano. São só mais cinco agora, um por ano. Papai é médico e acredita que é melhor prevenir.


- E ele está certo – Herod assinalou.


- É, ele está – Tiffany concluiu.


---


- O jantar estava maravilhoso – Hermione disse, enquanto acomodava-se no sofá. – E não espere que eu cometa a gafe de elogiar Betty – acrescentou, sorrindo para o moreno que ocupava a poltrona estrategicamente posicionada ao lado do sofá, formando um ângulo de 90º entre eles. – Eu sei que foi você quem preparou.


Harry riu.


- Massas em geral são a minha especialidade – ele disse.


- Ah, mas o strogonoff de frango que você fez quando estávamos em York também estava divino.


- Obrigado – ele murmurou, ainda sorrindo.


Hermione abanou a mão, dispensando o agradecimento.


- E então, não vai me mostrar a surpresa que tem para mim?


- Hum, está lá em cima.


- Tudo bem. – Hermione deu de ombros e pôs-se de pé. – Vamos?


Harry assentiu e deixou que ela passasse à sua frente.


Já no segundo pavimento, ele a conduziu até o quarto que era considerado dela. Sem dizer uma palavra, arrastou-a até o centro do quarto escuro e posicionou-a de costas para a janela.


- Harry...


- Shhh, fique bem aí – ele murmurou e afastou-se dela lentamente.


Então a luz se acendeu e ela piscou com força uma única vez para acostumar-se à claridade. Ao abrir os olhos novamente, viu-se diante de um enorme quadro sobre a cama king size. A fotografia devia ter 1,5m de comprimento e 1,0m de altura e suas cores eram vivas, alegres, contagiantes.


A foto era de Hermione. Ela estava sentada no gramado da Mansão Branca, em plena manhã ensolarada e usava um vestido rosa comprido e leve, tinha os cabelos compridos soltos e ondeando com o vento até a sua cintura e sorria, brincando com Embry e com Daisy, ambos deitados bem à vontade na grama dos jardins bem cuidados. Ela não olhava para a câmera e estava completamente distraída.


- Eu não sabia...


- É, nem eu – Harry disse, ainda admirando a foto. – Coisa de Caridwen.


- É claro, ela é fotógrafa – Hermione assentiu. – E das boas – acrescentou.


- A modelo é bonita, e isso ajuda um bocado – o moreno de olhos verdes disse e Hermione o encarou com os olhos serrados, embora sorrisse. – Estou falando sério. Cari sempre diz: “quando a modelo é bonita, não tem como as fotos ficarem ruins”.


- Claro que diz – Hermione riu.


- Venha, quero te mostrar outra coisa – Harry disse e a arrastou para fora do quarto.


Dessa vez, atravessaram o corredor rumo à saleta que ficava ao final do mesmo. Harry nem se deu ao trabalho de fazer o suspense que fizera antes. Ligou a luz e lá estava, outra foto tão grande quanto a que estava no quarto de Hermione.


- Whoa! – a morena arfou.


- Existem outras, mas Cari me entregou-as no tamanho convencional em um álbum. Pedi que ela ampliasse algumas fotos e depois mandasse – Harry contou.


Mas Hermione estava distante, os olhos fixos na fotografia.


Hermione tinha Zoe no colo e as duas sorriam e olhavam para baixo, onde Chloe estava, deitada no colo da mãe e também sorrindo. Daisy estava deitada ao lado de Chloe, enquanto Embry brincava com a cadela.


- É linda – ela murmurou, fascinada.


- São as mulheres da minha vida – Harry disse. – Você, Zoe... E, se você permitir, Chloe.


As palavras dele foram como um punhal no peito de Hermione. Ele, em sua inconsciência, acabara de dizer a maior verdade que ela ouvira nos últimos tempos. Ele não sabia, mas não era aquele tipo de permissão que Hermione devia dar para que Chloe fosse ‘uma das mulheres de sua vida’. Ela já era, e Hermione ainda não permitira que ele soubesse disso. Sentiu os olhos arderem e mordeu o lábio inferior.


Ela não tinha o que dizer, não sabia o que dizer.


E foi ele quem deu o passo seguinte, literalmente. Harry deu um passo em sua direção e pegou as mãos dela, segurando-as com a mesma firmeza com a qual mantinha o contato visual.


Ela sabia o que viria a seguir, mas não se moveu um milímetro sequer. No fundo, ela sabia que também queria aquilo. Desde que resolvera vir, já sabia como aquela noite terminaria. Ela vira acontecer.


Estava pensando nisso enquanto sentia as mãos quentes dele subirem pelos seus braços, acompanharem o contorno de seus ombros e jogarem seus cabelos para trás, parando em sua nuca. E, sem mais, ele a beijou terna e suavemente.


- Eu quero você, Hermione – ele sussurrou ao se afastar.


Hermione nada disse. Ela sabia que se dissesse alguma coisa, estragaria tudo e, provavelmente, machucaria o moreno mais uma vez. Permitiu-se seguir adiante e tornou a beijá-lo, dessa vez mais urgentemente.


Tudo ficou esquecido. As fotografias, os latidos de Embry no andar de baixo e até mesmo o fato de que Betty podia aparecer ali a qualquer momento.


Quando Harry finalmente descolou-se dos lábios dela, ela protestou, e no instante seguinte estava sendo carregada por ele rumo ao quarto dele. Ele empurrou a porta com o pé e ela fechou com um estalido quase inaudível. Hermione riu e foi colocada novamente no chão.


Harry pegou a mão dela e depositou um cálido beijo ali antes de puxá-la para a beirada da cama. Ele tornou a beijá-la em seguida. Foi preciso que ele passasse a distribuir beijos em seu pescoço e clavícula para que ela fechasse os olhos e praticamente se entregasse. E ela o teria feito, se sua mente não tivesse voltado a trabalhar tão repentinamente.


Ela queria aquilo. Mas estaria disposta a se arriscar daquela maneira? Ela estava mentindo para ele e estava decidida a não ter nada com ele até que ele soubesse toda a verdade. Perguntou-se se estava preparada para contar ali, naquele instante. Não, ela não poderia.


Os lábios do moreno tornaram a alcançar o seu pescoço e ela soube que se não o afastasse naquele momento, não o faria depois. Ela não podia continuar com aquilo. Ela apenas havia visto, mas o futuro sempre fora fluido, ela bem sabia disso. Ela podia parar agora e tudo o que tinha visto desapareceria. Tudo isso foi o suficiente para ela abrir os olhos, totalmente consciente do que estava acontecendo, e o afastar lenta e gentilmente, as mãos espalmadas em seu peito.


- Harry, eu não posso – disse, olhando-o nos olhos e captando a surpresa do moreno pela repentina interrupção. – Eu só... está tarde e tenho que ir embora. É isso, eu tenho que voltar para Orléans, então, estou indo.


- Não – Harry murmurou. – Eu não acho que você esteja indo. Acho que talvez esteja fugindo. Ou, quem sabe, os dois. Indo para o que você deseja e fugindo do que tem medo de desejar.


- Olha, Harry, eu já cometi muitos erros e, se eu ficar, estarei cometendo mais um. Não quero deixar isso pior do que já está.


E ela estava dizendo a verdade. Se ela continuasse ali, estaria satisfazendo os desejos do moreno – e os seus próprios –, mas como poderia criar esperanças e destruir todas elas depois? Seria uma escolha que faria muitos corações inflarem de felicidade somente para despedaçá-los depois.


- Não vai. Prometo – Harry disse, sério.


Hermione suspirou.


- Há muito mais coisa em jogo do que você imagina, Harry. Há muito sobre mim que você não sabe. E eu estou tentando...


- E está conseguindo me deixar louco – foi o que o moreno disse antes de tomá-la de surpresa pela cintura e tornar a beijá-la.


Ela deixou-se levar, mas não por muito tempo. Arfou e desvencilhou-se dos braços do moreno, afastando-se e dando as costas a ele. Engoliu em seco, os olhos enchendo-se de lágrimas. Sentiu as mãos dele em seus ombros nus e fechou os olhos, respirando fundo. Baixou a cabeça, os olhos ainda fechados, e mordeu o lábio inferior.


- Harry, eu não posso...


- Sim, você pode – Harry disse e passou o braço por sobre o ombro esquerdo dela, levando a mão até a bochecha direita dela, de modo que pudesse fazê-la voltar-se para si novamente. Afagou o rosto dela, ainda sem vê-lo. – Se essa noite é tudo o que teremos, eu peço que fique.


A única coisa que pôde fazer foi virar-se para ele e encará-lo. Ele ergueu a outra mão e segurou seu rosto, contornando levemente seus olhos com os dedos e mais uma vez ele investiu.


Ela sabia que podia derrubá-lo sem esforço algum ou simplesmente afastá-lo, mas ele conseguira desarmá-la completamente e acabara com o pouco de força de vontade que ainda lhe restava. Ela estava cansada de resistir aos próprios impulsos e desejos, cansada de ser racional demais.


Mais uma vez as mãos grandes e quentes dele estavam em suas costas. Antes que ela pudesse se dar conta, ele já havia aberto o zíper de seu vestido, embora não o tivesse soltado e deixado cair aos pés dela.


Ela tateou os botões da camisa dele, ainda em meio ao beijo, e tratou de desabotoá-los, um por um, desfazendo-se da camisa em um tempo aparentemente improvável. Ele a ajudou a tirá-la, o que implicou que soltasse o vestido dela, que imediatamente caiu, deixando-a somente de peças íntimas. Harry ainda vestia outra camisa, que logo foi arrancada pelo próprio moreno numa rápida interrupção do beijo.


Quando voltou a capturar os lábios da morena, o fez com voracidade e a deitou na cama. Antes disso, houve tempo suficiente para Hermione ver que no pescoço do moreno havia uma corrente fina de ouro branco, cujo pingente nada mais era do que um anel. Enquanto ele entrelaçava as suas mãos à dela, ela desvencilhou-se do beijo e olhou para a sua mão direita, onde havia um anel de ouro branco ocupando o seu dedo anular.


Ela sorriu por dentro enquanto voltava a encará-lo. Fitaram-se por um instante e Hermione vasculhou a mente do moreno. E ela encontrou a resposta que queria: sim, aquela aliança sempre estivera ali, naquela corrente, por todos aqueles anos.


Então ela abandonou a mão dele sobre o travesseiro e levou as mãos à nuca dele, puxando-o para si. O beijo que se seguiu não fora longo. Ele logo abandonara seus lábios para investir no ponto fraco dela: a região entre o pescoço e a clavícula. E ela acatou a provocação, fechando os olhos e apenas usufruindo do prazer que os lábios quentes dele proporcionavam quando em contato com a sua pele.

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